Vale a Pena Visitar Mendoza se Você não Gosta de Vinho?
Vale a pena visitar Mendoza se você não gosta de vinho? A resposta é sim — e aqui está o porquê.

Mendoza tem um problema de imagem. Durante anos, a cidade foi vendida para o mundo como destino de vinho e quase nada mais. Malbec, vinícolas, degustações, harmonizações. O roteiro se vendeu tão bem que acabou eclipsando tudo o que existe ao redor. Hoje, quem pesquisa Mendoza sem interesse em enologia frequentemente descarta o destino antes mesmo de abrir o mapa. É um equívoco.
A verdade é que Mendoza está encostada na Cordilheira dos Andes mais alta da América do Sul, tem o pico mais alto das Américas a três horas de carro, possui um rio com corredeiras que aparecem em catálogos de rafting do mundo inteiro, uma cena gastronômica com um restaurante de estrela Michelin, um parque urbano que rivaliza com os melhores do continente, termas naturais a 40 quilômetros do centro e uma avenida de bares e restaurantes que anima as noites de quem não tem nenhum compromisso com uvas.
O vinho é real. É excelente. Mas é só uma parte.
O Aconcágua não exige que você goste de Malbec
Com 6.962 metros acima do nível do mar, o Cerro Aconcágua é o ponto mais alto das Américas e das duas faces do planeta fora da Ásia. Está a 185 quilômetros de Mendoza — três horas pela Rota Nacional 7, que atravessa a pré-cordilheira e vai subindo enquanto a paisagem muda de árido mendocino para o visual dramático dos Andes em altitude.
Não é preciso ser alpinista para ir até lá. Existe uma excursão de dia inteiro que sai de Mendoza, para no Dique de Potrerillos, passa pela cidadezinha histórica de Uspallata — cenário do filme Seven Years in Tibet —, entra no Parque Provincial do Aconcágua, chega ao Puente del Inca e permite uma caminhada de nível básico até a Laguna de Los Horcones, onde a vista do Aconcágua em dias limpos para a respiração. Tudo isso por algo em torno de 100 dólares por pessoa em agências de turismo da cidade.
O passeio é chamado de Alta Montanha — Tour Alta Montaña — e é consistentemente apontado como o melhor passeio de Mendoza para quem não tem interesse em vinícolas. São 400 quilômetros de estrada de ida e volta, um dia inteiro na estrada, e uma sequência de paisagens que nenhuma vinícola vai oferecer: represa turquesa entre montanhas, campos de neve, riachos de degelo, rochas coloridas e o gigante de pedra mais alto do mundo ao fundo. No inverno, quando há neve baixa suficiente, dá para ter contato com ela sem subir a nada.
Rafting no Rio Mendoza: adrenalina a 70 quilômetros da cidade
O Rio Mendoza desce da cordilheira com força. Entre Potrerillos e a planície, o rio passa por um cânion com corredeiras classificadas como grau II e III — o suficiente para ser divertido e movimentado sem exigir experiência prévia em rafting. O passeio de 12 quilômetros dura cerca de uma hora dentro da água, com opção de rota mais longa de 30 quilômetros para quem quer o dia inteiro no rio.
É um dos programas mais procurados por viajantes brasileiros que não querem encarar mais uma vinícola depois da terceira visita à bodega. A combinação que aparece muito nos roteiros de aventura: manhã nas termas de Cacheuta, tarde no rafting em Potrerillos, volta para Mendoza no fim do dia. Cacheuta fica a 40 quilômetros do centro e tem um parque termal com mais de dez piscinas de pedra em diferentes temperaturas, tobogã, tirolesa sobre o rio e restaurante com bufê crioulo. Para quem viaja em casal — especialmente casais onde um quer aventura e o outro quer relaxar —, essa combinação é quase perfeita.
O Parque General San Martín é um dos maiores parques urbanos da Argentina
Mendoza é uma cidade arborizada de forma que surpreende quem chega sem saber disso. Depois do terremoto de 1861 que destruiu a cidade original, a reconstrução foi planejada com largas avenidas, praças a cada poucas quadras e uma obsessão por árvores que ainda hoje define a paisagem urbana. A cidade tem canais de irrigação subterrâneos que alimentam um sistema de bosques urbanos invejável.
No meio disso tudo está o Parque General San Martín — 307 hectares de área verde a 15 minutos a pé do centro histórico. Tem lago com pedalinho, estádio, roseira com mais de 400 espécies catalogadas, Cerro de la Gloria com o monumento ao Exército dos Andes no topo, trilhas, áreas de piquenique e uma vista da cordilheira que, em dias de vento, aparece com nitidez cinematográfica. É o parque onde os mendocinos fazem Cooper na manhã de domingo, onde os estudantes levam livros no fim da tarde e onde qualquer viajante que precisar de um intervalo entre programas encontra espaço de sobra.
O Cerro de la Gloria em particular vale o esforço: a subida a pé dura uns 25 minutos desde a entrada do parque, a vista da cidade e dos Andes ao fundo é gratuita e a densidade de turistas é zero comparada à das vinícolas de Luján de Cuyo.
A gastronomia de Mendoza não depende de vinho para impressionar
Existe um restaurante em Mendoza com estrela Michelin. O Azafrán, na Sarmiento 765, ganhou a estrela em 2024 e oferece menu degustação com cozinha de alto nível num ambiente informal que é a exceção, não a regra, para esse tipo de distinção. Sim, tem harmonização de vinhos disponível — mas o cardápio funciona perfeitamente sem ela.
O restaurante mais famoso da cidade em termos de notoriedade internacional é o 1884 de Francis Mallmann, o chef argentino que virou símbolo global da cozinha de fogo. A adega subterrânea com 12 mil garrafas é parte do cenário — mas o que as pessoas vão buscar são as carnes, as técnicas de brasa e a experiência gastronômica.
Fora dessas referências de alto nível, Mendoza tem uma cena de restaurantes cotidianos muito boa. A parrilla argentina aqui é executada com a seriedade que o assado merece. O Hannk, na própria Avenida Arístides Villanueva, é o segundo melhor restaurante de Mendoza nas avaliações do Restaurant Guru com mais de 4.800 votos. A empanada mendocina tem massa diferente da portenha — mais grossa, mais levinha na fritura — e aparece em padarias, mercados e restaurantes de bairro por um preço que nenhum viajante vai reclamar.
A Avenida Arístides Villanueva existe para quem quer noite sem precisar de adega
Poucos destinos da Argentina têm uma rua que concentra tanta vida noturna num trecho tão caminhável quanto a Arístides Villanueva, na Quinta Sección de Mendoza. Bares, restaurantes, cervejarias artesanais, cafés, música ao vivo — é onde a cidade acontece depois das dez da noite. O público é misto: universitários locais, turistas argentinos de outras províncias, viajantes internacionais saindo dos hostels da região.
O Ground Arístides, por exemplo, tem mais de 9.700 avaliações no Google Maps e é o tipo de bar que funciona tanto para um almoço tranquilo quanto para uma noite de drinks. A rua inteira tem esse caráter: dá para passar horas caminhando de bar em bar sem planejar nada. Para o viajante que foi a Mendoza por outros motivos e quer aproveitar a noite, a Arístides resolve sozinha.
Mendoza tem neve no inverno e não exige que você seja esquiador
Entre junho e setembro, o Parque Provincial Las Leñas — a cerca de 450 quilômetros de Mendoza — é um dos centros de ski mais famosos da América do Sul. Para os que não esquiam, o Penitentes, mais perto da cidade (na rota da Alta Montanha), recebe turistas que querem apenas pisar em neve e tirar foto sem compromisso alpino. O inverno mendocino transforma o roteiro da Alta Montanha: o que em dezembro é poeira e pedra, em julho é paisagem nevada que parece outro continente.
O que Mendoza oferece para quem não vai nas vinícolas
O ponto central é este: Mendoza foi construída para ser uma cidade agradável antes de se tornar capital mundial do Malbec. As praças, os bosques, os canais de irrigação nas calçadas, o planejamento urbano generoso — tudo isso existe independentemente das bodegas. A cidade é fácil de caminhar, tem uma temperatura de alta montanha que torna o clima seco e luminoso durante boa parte do ano, tem culinária honesta e diversa, tem opções de aventura que poucos destinos urbanos sul-americanos podem oferecer no dia seguinte.
Quem for sem gostar de vinho vai perder as vinícolas. É real — e Mendoza sem vinícolas é uma experiência diferente da que a maioria dos roteiros descreve. Mas não vai perder muito: vai perder o contexto de uma coisa específica que é importante para outra fatia de viajante. O que vai encontrar, em compensação, é uma cidade surpreendentemente completa, com montanha, rio, gastronomia, parque, história e vida noturna suficientes para preencher uma semana sem que a palavra “degustação” apareça no roteiro.
Mendoza sem vinho ainda vale a viagem. Com o Aconcágua ao fundo, a Arístides à noite e uma porção de empanada no meio da tarde, isso já está mais do que confirmado.