St. Moritz: Vila Mais Famosa dos Alpes Suíços
St. Moritz: o que realmente existe por trás da vila mais famosa dos Alpes suíços. St. Moritz fica a 1.822 metros de altitude, no Alto Engadin, cantão de Graubünden, sudeste da Suíça. Sediou os Jogos Olímpicos de Inverno em 1928 e 1948, tem a única pista de bobsleigh de gelo natural do mundo em operação, é ponto final do Glacier Express e do Bernina Express, e recebe corridas de cavalo sobre o lago congelado em fevereiro. A parte que os cartazes erram é a língua: a região é historicamente romanche, não alemã.

Começando pela correção mais importante
Os infográficos pela internet abrem dizendo “German Speaking Region” e depois, quase de má vontade, acrescenta “some speak Romansch”. Está de cabeça para baixo.
O Alto Engadin é território romanche de origem. O dialeto local se chama Puter, uma das cinco variantes do romanche, e “St. Moritz” em romanche é San Murezzan. Você vê isso escrito nas placas, nos nomes dos hotéis, nas ruas. Graubünden é o único cantão trilíngue da Suíça: alemão, romanche e italiano são todos oficiais ali.
O que aconteceu foi um processo de germanização acelerado pelo turismo, a partir do fim do século 19. Hotéis, funcionários, imigração interna, escolas. Hoje o alemão realmente domina o dia a dia em St. Moritz, e o italiano aparece muito por causa da proximidade com a Itália (a fronteira do Valtellina está a pouco mais de uma hora). Mas dizer que é simplesmente “região de língua alemã” apaga a identidade da qual o vale mais se orgulha.
Nas vilas próximas, o romanche resiste melhor. Em Zuoz, S-chanf e Sils/Segl você ouve mais.
O nome do lugar veio da água, não da neve
Aqui tem uma coisa que quase ninguém conta. St. Moritz não nasceu do esqui. Nasceu de uma fonte de água mineral com gás.
Escavações na área da fonte de Mauritius encontraram estruturas de madeira e tubulações da Idade do Bronze, com datação em torno de 1.500 anos antes de Cristo. Ou seja, aquela água ferruginosa e gasosa era usada há uns três mil e quinhentos anos. Paracelso escreveu sobre ela no século 16. Durante séculos, St. Moritz foi um destino de verão, para gente que ia beber e se banhar na água mineral.
O inverno virou negócio por causa de uma aposta. Em 1864, o hoteleiro Johannes Badrutt propôs a um grupo de hóspedes ingleses que voltasse no inverno. Se não gostassem, ele pagaria a viagem. Se gostassem, ficariam o tempo que quisessem. Eles voltaram no Natal, encontraram sol, neve seca e céu azul, e ficaram até a Páscoa. A história é contada até hoje no Kulm Hotel, que é o hotel de Badrutt, e é considerada o marco de nascimento do turismo de inverno alpino.
Isso explica muita coisa sobre o caráter do lugar. St. Moritz não é uma vila de camponeses que virou estação de esqui. É uma estação de esqui que se construiu como tal, com hotel grande, casino, promenade e vitrine de joalheria. Quem chega esperando chalé rústico de madeira escura se decepciona. A arquitetura é de balneário do século 19 misturada com concreto dos anos 60 e 70. Feia em partes, e não tem como fingir o contrário.
Duas Olimpíadas, e o que sobrou delas
O cartaz acerta: 1928 e 1948. St. Moritz é uma das pouquíssimas cidades a sediar os Jogos de Inverno duas vezes, e foi a segunda edição da história moderna, depois de Chamonix.
O que sobrou de mais interessante é a pista de bob.
O Olympia Bob Run St. Moritz-Celerina existe desde 1904 e é a única pista de bobsleigh do mundo feita de gelo natural ainda em uso. Não tem refrigeração artificial. Toda temporada, uma equipe reconstrói a pista à mão, com neve e água, ao longo de cerca de 1.722 metros e 19 curvas, com nomes que os pilotos conhecem de cor, como Sunny Corner e Horse Shoe. Quando a temporada acaba, a pista literalmente derrete e desaparece.
E o público pode descer. Existe o programa de bob para passageiros, em que você senta atrás de um piloto profissional num bob de quatro lugares e faz o percurso a velocidades que passam de 120 km/h. Custa caro, é rápido (menos de um minuto e meio), e as vagas esgotam. Mas é real e disponível.
Agora a correção número dois do cartaz. Ele diz “has famous bob sled run”, no singular, como se houvesse uma coisa só. Na verdade existem duas pistas históricas ali, e são independentes:
| Pista | Modalidade | Detalhe |
|---|---|---|
| Olympia Bob Run | Bobsleigh | Desde 1904, gelo natural, aberta a passageiros |
| Cresta Run | Skeleton | Desde 1885, gerida pelo St. Moritz Tobogganing Club |
O Cresta Run é outra história. É a pista onde o skeleton foi inventado, descida de cabeça para baixo em um trenó de aço. Foi por décadas um clube fechado e exclusivamente masculino. Isso mudou: desde 2018 mulheres podem correr. O acesso é por inscrição no clube, com sessões pagas para não sócios, e o funcionamento é bem mais restrito que o do Bob Run.
A ferrovia que é Patrimônio Mundial
O cartaz diz “has the famous Rhaetian Railway”, o que é verdade e ainda subestima o assunto.
A Ferrovia Rética (Rhätische Bahn) opera em bitola métrica por Graubünden inteiro. As linhas Albula e Bernina foram inscritas como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2008, junto com a paisagem em volta. É um dos únicos três sistemas ferroviários com esse status no mundo.
Da estação de St. Moritz saem dois trens panorâmicos famosos:
O Glacier Express liga St. Moritz a Zermatt em cerca de 8 horas, atravessando 291 pontes e 91 túneis, com o ponto mais alto no Passo do Oberalp, a 2.033 metros. É chamado de “trem expresso mais lento do mundo”, e o apelido é honesto.
O Bernina Express vai de St. Moritz (ou Chur) até Tirano, na Itália, cruzando o Passo do Bernina a 2.253 metros, o ponto mais alto de travessia ferroviária dos Alpes sem túnel de base. No caminho está o viaduto helicoidal de Brusio, aquela espiral de pedra que aparece em toda foto da Suíça. O trecho St. Moritz-Tirano leva cerca de 2h20 e é, na minha opinião, o melhor passeio de trem da Europa em relação custo/tempo. Você desce de neve para palmeiras e vinhedos em pouco mais de duas horas.
Observação prática que economiza dinheiro: você não precisa do trem panorâmico com vagão de teto de vidro. Os trens regionais da Rhätische Bahn fazem exatamente o mesmo trajeto, param mais, custam bem menos e não exigem reserva obrigatória. A vista é a mesma, e você pode abrir a janela para fotografar, o que no vagão panorâmico é impossível.
O lago congelado e o que acontece em cima dele
O Lago de St. Moritz (St. Moritzersee, ou Lej da San Murezzan) congela de forma confiável entre janeiro e o começo de março. E aí a vila faz coisas que soam inventadas.
White Turf. Corridas de cavalo sobre o gelo, realizadas desde 1907, em três domingos consecutivos de fevereiro. Tem corrida rasa, trote e a modalidade mais estranha de todas, o skikjöring: um esquiador é rebocado por um cavalo sem jóquei, agarrado às rédeas, a mais de 50 km/h. É a única competição desse tipo no mundo, e o vencedor recebe o título de “Rei do Engadin”. Assistir de perto é meio surreal. O cavalo passa jogando lasca de gelo na cara de quem está na frente.
Snow Polo World Cup. Em janeiro, polo sobre o gelo, com bola vermelha para dar contraste. Times de quatro, quadra reduzida, cavalos com ferradura especial.
Concours d’Élégance / encontros de carros clássicos. O cartaz menciona “classic car meetings”, e existe de fato uma tradição de eventos com carros antigos em St. Moritz, incluindo o The I.C.E. St. Moritz, que coloca automóveis históricos correndo e desfilando sobre o lago congelado. Também acontece na região a Passione Engadina, voltada a carros italianos, mas essa é no verão.
Aviso importante: os eventos no lago dependem da espessura do gelo, medida por engenheiros. Em invernos quentes, já houve cancelamento e adiamento. Nunca compre voo contando com data fixa de White Turf sem margem.
Gourmet Festival. O St. Moritz Gourmet Festival acontece em janeiro desde 1994, trazendo chefs internacionais para cozinhar nos hotéis da vila. É caro e formal, longe da imagem de festival de rua.
Esquiar
A área de St. Moritz é grande e dividida em setores que não são todos ligados por esqui.
Corviglia é o setor que sai direto da vila, por funicular desde St. Moritz Dorf. Sobe até Piz Nair, a 3.057 metros, com vista aberta sobre a cadeia de lagos do Engadin. É onde ficam as pistas de competição e o famoso restaurante de montanha com preço de capital europeia.
Corvatsch, acessado de Surlej, perto de Silvaplana, é o setor mais alto, com topo a 3.303 metros. Tem a descida mais longa e a melhor neve tardia. Também opera esqui noturno em noites específicas da temporada.
Diavolezza e Lagalb, no lado do Passo do Bernina, são mais bruscas e menos lotadas. De Diavolezza sai a vista frontal do Piz Palü e do Piz Bernina, o único pico acima de 4.000 metros dos Alpes Orientais, com 4.049 metros.
O passe Engadin St. Moritz Mountains cobre os setores principais. Total de pistas na região passa de 350 km, dependendo de como se conta.
Coisa que costuma decidir a viagem: o Engadin é um vale alto e seco, com muitos dias de sol e neve em pó de boa qualidade. A propaganda fala em algo próximo de 300 dias de sol por ano. Exagerado, mas a lógica é real. Também significa frio seco e cortante. Manhãs de janeiro a 20 graus negativos no fundo do vale não são raras.
E se você odeia esqui
Muita gente vai a St. Moritz no inverno sem esquiar, e funciona bem.
Trenó puxado por cavalos. Existe de verdade, e o trajeto clássico é o do Val Roseg, saindo de Pontresina, com uns 7 km de subida por um vale fechado até o hotel Roseg Gletscher. Também há passeios curtos em volta do lago.
Muottas Muragl. Funicular curto, saindo perto de Pontresina, que sobe a 2.456 metros e entrega a foto de cartão-postal do vale com os quatro lagos alinhados. Tem restaurante e um caminho panorâmico. É o mirante com melhor relação esforço/resultado da região.
Caminhada no lago congelado. Trilhas marcadas cruzam a superfície do lago de St. Moritz no inverno. Andar sobre um lago com montanhas de 3.000 metros em volta é uma sensação estranha e boa.
Museu Segantini. Giovanni Segantini foi o pintor que definiu visualmente essas montanhas. O museu fica em St. Moritz e guarda o tríptico “Vida, Natureza, Morte”. Vale uma hora, mesmo para quem não gosta de museu.
A torre inclinada. A Schiefer Turm é o campanário do século 12 da antiga igreja de St. Mauritius, demolida no início do século 20. A torre ficou, inclinada em mais de 5 graus, mantida por obras de estabilização. É o símbolo mais antigo da vila.
Ski Marathon. O Engadin Skimarathon, em março, é a maior prova de esqui cross-country da Suíça, com 42 km de Maloja a S-chanf, e mais de dez mil participantes.
Verão: o segredo mal guardado
Vou dizer o que penso: o Engadin no verão é melhor que no inverno para a maioria dos viajantes. Menos gente, preço mais civilizado, e a paisagem se abre.
O Lej da Staz (Stazersee), entre St. Moritz e Pontresina, é um lago pequeno cercado de larícios, com água que aquece de verdade no verão. Dá para nadar sem sofrimento, o que é raro em lago alpino.
Em Silvaplana, o vento térmico chamado Maloja sopra quase todo dia à tarde, e o lago virou um dos melhores pontos de windsurf e kitesurf dos Alpes.
O Glaciar de Morteratsch tem uma trilha de acesso fácil e sinalizada desde a estação de trem homônima, com placas mostrando onde estava o gelo em cada década. É a aula mais direta sobre recuo glacial que existe. O gelo retrocedeu mais de dois quilômetros desde o fim do século 19, e a caminhada até a frente atual leva cerca de meia hora.
Dinheiro, sem enrolação
St. Moritz é caro, e não é exagero de internet. Na alta temporada de inverno, é um dos lugares mais caros da Suíça, que já é o país mais caro da Europa.
Estratégias que funcionam:
Durma fora da vila. Pontresina, Celerina, Samedan, La Punt e Zuoz ficam a poucos minutos de trem ou ônibus, custam menos e, em vários casos, são mais bonitas. Zuoz e Guarda, mais adiante no vale, têm as casas engadinas tradicionais com sgraffito, aqueles desenhos raspados no reboco. Muito mais charmosas que o centro de St. Moritz.
Aproveite o cartão de hóspede. Muitos alojamentos do Alto Engadin dão acesso gratuito ao transporte público regional durante a estadia. Isso muda o orçamento.
Baixa temporada existe. Fim de abril, maio, junho e novembro. Vários teleféricos e hotéis fecham, mas os preços caem drasticamente e o vale continua bonito.
Coma no supermercado e nos restaurantes de montanha simples. Os Berghaus mais modestos servem Pizzoccheri, Capuns e sopa de cevada por uma fração do preço da promenade.
Sobre os pratos: Capuns são folhas de acelga enroladas com massa de Spätzle e carne curada, e são o prato mais típico de Graubünden. Pizzoccheri é massa de trigo sarraceno com batata, repolho e queijo, herança do vale italiano vizinho. Nusstorte é a torta de nozes com caramelo que você vai ver em toda vitrine de padaria da região. Leve uma para casa, aguenta a viagem.
Como chegar
Não existe aeroporto comercial em St. Moritz. Há um aeródromo em Samedan, o mais alto da Europa, usado por aviação privada.
Na prática você chega por trem. De Zurique são cerca de 3h15 a 3h30, com troca em Chur. De Milão, a rota mais bonita é ir de trem até Tirano e pegar o Bernina Express ou o regional para cima, algo entre 4h30 e 5h no total.
De carro, atenção séria: os passos alpinos da região (Julier, Albula, Bernina, Maloja, Flüela) fecham ou ficam perigosos no inverno. O Julier é o mais confiável e costuma ficar aberto. O Albula fecha na temporada de neve. Quando um passo fecha, a alternativa é o trem de transporte de automóveis pelo túnel do Vereina, entre Selfranga e Sagliains, que funciona o ano inteiro e resolve o problema em cerca de 20 minutos de travessia. Pneu de inverno é praticamente obrigatório na prática, e correntes podem ser exigidas.
St. Moritz divide opiniões, e com razão. Tem gente que acha a vila esnobe e sem alma, e tem um pouco disso mesmo no centro, entre as lojas de relógio. Mas o vale em volta é uma das paisagens mais bonitas dos Alpes, os lagos alinhados até Maloja não têm equivalente, e a ferrovia é uma obra de engenharia que merece o título que carrega. O truque é usar St. Moritz como base e passar o dia fora dela.

