Roteiro de Viagem de 15 Dias na Costa Amalfitana
Roteiro de 15 dias na Costa Amalfitana com distâncias reais entre Positano, Amalfi, Ravello, Praiano, Furore, Minori, Maiori, Cetara e Vietri sul Mare, além de como se locomover pela SS163, quando usar barco e onde vale ficar hospedado.

Quinze dias na Costa Amalfitana soa como exagero para quem só conhece a região por foto. São apenas cerca de 50 quilômetros de litoral entre Positano e Vietri sul Mare, e num mapa aberto parece coisa de dois dias de carro. Só que a matemática ali não funciona assim. A estrada é a SS163, batizada de Amalfitana, e ela é estreita, cheia de curvas em cotovelo, com ônibus enormes cruzando em pontos onde dois carros já brigam por espaço. Cinco quilômetros podem levar dez minutos ou quarenta, dependendo da hora e do mês.
Além disso, a costa não é só a linha do mar. Ela sobe. Ravello, Scala e Tramonti estão nas montanhas, ligadas por estradas panorâmicas que serpenteiam pelo verde. E é justamente essa parte alta que a maioria dos turistas atropela em meia tarde e depois lamenta.
Com quinze dias, você consegue fazer a coisa direito: dormir em bases diferentes, andar de barco, pegar trilhas, comer devagar e ainda encaixar Pompeia, Capri e a Península Sorrentina sem transformar a viagem em maratona.
Entendendo a geografia antes de montar qualquer roteiro
A Costa Amalfitana fica na província de Salerno, na região da Campânia, sul da Itália. Foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1997, e o motivo declarado no reconhecimento não é só a beleza: é a forma como as comunidades adaptaram terrenos íngremes com terraços agrícolas, vinhas e limoeiros ao longo de séculos.
Do lado oeste você tem Positano, a vila mais famosa e mais fotografada, com casas coloridas empilhadas na encosta. Seguindo para leste pela SS163: Praiano, Conca dei Marini, Amalfi, Atrani, Minori, Maiori, Cetara e Vietri sul Mare.
As distâncias pela estrada costeira são pequenas de verdade. Positano a Praiano são cerca de 7 km, uns 15 minutos sem trânsito. Praiano a Conca dei Marini, 4 km, 10 minutos. Conca dei Marini a Amalfi, 3 km, mas com trânsito pode virar 20. Amalfi a Atrani é 1 km, dá para fazer a pé em quinze minutos por um caminho de escadas e túnel. Atrani a Minori, 5 km. Minori a Maiori, 1,5 km. Maiori a Cetara, 3 km. Cetara a Vietri sul Mare, 5 km.
Subindo para as montanhas: Ravello fica a cerca de 6 km de Amalfi, mas são uns 25 minutos de subida em curvas. Scala está do outro lado do vale, a poucos minutos de Ravello, e é a comuna mais antiga de toda a costa, fundada antes de Amalfi. Tramonti é mais interior ainda, um conjunto de treze pequenos núcleos espalhados entre montanhas e vinhedos, e quase ninguém vai lá. Erro.
A decisão mais importante: carro ou não carro
Vou ser direto porque isso define a viagem inteira.
Alugar carro na Costa Amalfitana é possível, mas raramente é a melhor ideia. Os motivos:
Estacionamento é escasso e caro. Em Positano, uma vaga em garagem privada pode passar de 30 a 40 euros por dia na alta temporada. Em Amalfi, os estacionamentos são poucos e enchem cedo.
Existe restrição de circulação por placa. Entre meados de junho e meados de setembro, aproximadamente, a SS163 opera com um sistema de placas pares e ímpares em dias alternados, o chamado targhe alterne. As regras e datas mudam a cada ano e são publicadas pela prefeitura de Positano e pela província. Moradores e hóspedes de hotéis com reserva comprovada geralmente têm isenção, mas você precisa checar.
Muitas vilas têm zona de tráfego limitado, a ZTL, monitorada por câmera. Entrar sem autorização gera multa que chega na sua casa meses depois, às vezes com taxa administrativa da locadora por cima.
E o mais prático: as ruas internas de Positano, Atrani, Amalfi e Ravello são escadarias. O carro fica parado numa garagem enquanto você anda a pé de qualquer forma.
Então o que fazer? A combinação que funciona é ônibus SITA Sud para os deslocamentos terrestres, barco para os trechos entre Positano, Amalfi e Salerno durante a temporada, e táxi ou transfer privado em momentos específicos, como chegada com bagagem ou volta de jantar à noite.
O ônibus SITA cobre toda a costa, de Sorrento até Salerno, passando pelas vilas. É barato, os motoristas são incrivelmente habilidosos, e as vistas do lado do mar são de tirar o fôlego. O problema é que na alta temporada lota, e você pode ficar de fora de dois ou três ônibus seguidos em pontos intermediários. Bilhetes se compram em tabacarias e bares, não a bordo.
O barco muda o jogo. As empresas de navegação, como Travelmar e Alicost, operam de abril a outubro aproximadamente, ligando Salerno, Amalfi, Minori, Maiori, Cetara, Positano e Sorrento, além de Capri. É mais rápido, mais confortável e a chegada em Positano pelo mar é uma cena que vale o bilhete. Fora da temporada, quase tudo para.
Um scooter é opção para quem já tem experiência real com moto. Se não tem, não estreie ali. A estrada não perdoa.
A estrutura dos 15 dias
Três bases, com noites distribuídas para minimizar troca de mala:
Positano, cinco noites. Amalfi ou Atrani, cinco noites. Ravello, três noites. Mais duas noites de folga que você aloca conforme preferência, ou usa para começar e terminar perto de Nápoles.
Vou desenhar assim:
Dia 1: chegada em Nápoles e traslado. Dias 2 a 6: base em Positano. Dias 7 a 11: base em Amalfi ou Atrani. Dias 12 a 14: base em Ravello. Dia 15: retorno a Nápoles.
Dia 1: chegar até a costa
O aeroporto mais próximo é o Capodichino, em Nápoles. De lá até Positano existem algumas rotas.
A mais simples e mais confortável é transfer privado, cerca de duas horas até Positano, com valores que giram em torno de 120 a 180 euros por carro dependendo da temporada. Dividido entre três ou quatro pessoas, faz sentido.
A alternativa econômica: ônibus Alibus do aeroporto até a estação Napoli Centrale, trem regional ou a Circumvesuviana até Sorrento (cerca de uma hora e vinte), e de Sorrento o ônibus SITA até Positano (cerca de 50 minutos, mas costuma atrasar). Funciona, e é bem mais barato, mas com mala grande e cansaço de vôo é sofrido. A Circumvesuviana é um trem antigo, sem ar-condicionado eficiente em várias composições, e frequentemente cheio.
Na temporada existe também a opção de barco Nápoles–Positano, sazonal e sujeita a mar. É a chegada mais bonita das três.
Chegue e não planeje nada. Positano no fim de tarde já é programa.
Dias 2 a 6: base em Positano
Cinco noites parecem muito para uma vila que você atravessa a pé em vinte minutos. Não são, porque Positano é o ponto de partida para várias coisas.
Positano em si
A vila é construída em anfiteatro sobre o mar, e o eixo principal é uma descida contínua até a praia. Isso significa que tudo é fácil na ida e cansativo na volta. Existe um ônibus laranja local, o Flavio Gioia, que faz um circuito interno e sobe até a estrada principal por um euro e meio. Salva as pernas várias vezes por dia.
A igreja de Santa Maria Assunta, com a cúpula de majólica colorida, guarda um ícone bizantino de Nossa Senhora Negra que dá origem à lenda de fundação da vila. Sob a igreja existe uma escavação arqueológica, a Villa Romana, aberta à visitação, com frescos de uma casa romana soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. É pequena, é pouco divulgada, e é uma das visitas mais surpreendentes de Positano.
A Spiaggia Grande é a praia principal, de pedras, com espreguiçadeiras pagas ocupando boa parte da faixa. Preços na alta temporada são altos, podem passar de 30 euros por conjunto de duas espreguiçadeiras e guarda-sol. Existe faixa livre, menor, mais próxima das extremidades.
A Fornillo é a segunda praia, alcançada por um caminho à beira do penhasco em uns dez minutos de caminhada. Mais tranquila, menos cara, com bares de praia simpáticos. Eu prefiro Fornillo.
Sobre compras: Positano tem uma tradição têxtil real, a chamada moda positano, com roupas leves de linho e algodão, e as sandálias feitas na hora sob medida em algumas oficinas. Existe muito produto genérico também, mas as sandálias artesanais são legítimas e valem.
O Sentiero degli Dei
O Caminho dos Deuses é a trilha mais famosa do sul da Itália e talvez a melhor coisa gratuita da região.
O percurso clássico começa em Bomerano, um núcleo da comuna de Agerola, no alto, e termina em Nocelle, uma aldeia acima de Positano. São cerca de 7 a 8 quilômetros, com três a quatro horas de caminhada em ritmo tranquilo, praticamente todo em desnível suave ou plano, com o mar sempre à esquerda e os Faraglioni de Capri no horizonte.
O truque é fazer no sentido Bomerano para Nocelle, porque assim você desce em vez de subir. Para chegar a Bomerano, pegue o ônibus SITA de Positano até Amalfi e de Amalfi outro ônibus até Bomerano, ou contrate um transfer direto pela subida. No fim, de Nocelle você desce cerca de 1.500 degraus até Arienzo e Positano, ou pega o ônibus local para poupar os joelhos. Recomendo o ônibus. Mil e quinhentos degraus para baixo destroem as coxas mais do que subir.
Leve água, boné, protetor solar e tênis de sola firme. Não existe sombra em boa parte do caminho e não existe quiosque no meio. Evite fazer entre meio-dia e três da tarde no verão.
Capri em um dia
De Positano a Capri são cerca de 40 minutos de barco na temporada. Isso torna Positano a melhor base para a bate-volta.
Chegue cedo. Capri tem duas cidades, Capri e Anacapri, ligadas por ônibus pequenos e por uma estrada tortuosa. Da Marina Grande, um funicular sobe até a Piazzetta de Capri em poucos minutos.
O que realmente vale: a subida ao Monte Solaro em Anacapri, por uma cadeirinha aberta que leva doze minutos e chega a 589 metros, com vista de toda a ilha e do golfo. Custa pouco e é a melhor vista de Capri.
Os Giardini di Augusto, também em Capri, dão de frente para os Faraglioni e para a Via Krupp, aquela estrada em ziguezague esculpida no penhasco. A Villa San Michele, em Anacapri, construída pelo médico sueco Axel Munthe, tem uma varanda com esfinge que virou símbolo da ilha.
A Gruta Azul é famosa e é frustrante para muita gente. Você espera em fila de barcos, transborda para um barquinho a remo, deita para passar pela abertura baixa, fica dentro por poucos minutos, e paga por isso. A cor da água é realmente irreal. Só que depende de mar calmo e de sol, e fecha em qualquer condição adversa. Se for prioridade, vá logo na abertura e aceite o risco de não conseguir.
Uma alternativa que muita gente prefere: contratar um passeio de barco que dá a volta na ilha, passa pelos Faraglioni, entra em grutas menores e para para banho. Isso mostra Capri melhor do que a versão terrestre lotada.
Praiano e o Fiordo di Furore
Praiano fica a 7 km de Positano e é o oposto dela em espírito: menos lojas, menos gente, mais vida de vila. É conhecida pelos melhores pores do sol da costa, porque a orientação da encosta pega o sol de frente até o fim.
Duas coisas ali: a praia de Marina di Praia, encaixada numa fenda entre rochedos, com poucos restaurantes na areia e uma atmosfera meio anos sessenta; e o Sentiero dell’Abbagliata, uma trilha curta com instalações de arte contemporânea espalhadas pelo caminho até a Torre a Mare.
Seguindo mais 4 km, o Fiordo di Furore. É a única formação de fiorde do Mediterrâneo, uma garganta estreita onde um riacho encontra o mar, atravessada no alto por uma ponte da estrada, com uns 30 metros de vão. Embaixo existe uma praia minúscula de pedras e as ruínas de um antigo povoado de pescadores. Já foi palco de campeonato mundial de saltos de grande altura.
A praia é pequena de verdade, algumas dezenas de metros quadrados, e na alta temporada fica impraticável. Vá cedo ou vá fora de julho e agosto. Furore em si, a comuna, fica na montanha acima e é conhecida como a vila que não existe, porque as casas estão dispersas pela encosta sem um centro definido. Tem murais pintados nas paredes e vinícolas produzindo o Furore, um dos melhores brancos da região.
Dias 7 a 11: base em Amalfi ou Atrani
Amalfi é o centro histórico e nervoso da costa. Foi uma república marítima independente, rival de Veneza, Gênova e Pisa, com poder comercial no Mediterrâneo entre os séculos 9 e 11. Essa história explica por que a arquitetura tem tanta influência árabe e bizantina.
Atrani fica a 1 km, é a segunda menor comuna da Itália em área, e tem uma praça à beira-mar que parece cenário. Se você quer dormir barato e com atmosfera local, Atrani vale mais que Amalfi. Se quer conveniência de transporte, Amalfi ganha, porque é o hub de ônibus e de barcos.
O Duomo de Amalfi
A catedral é o ponto central e impressiona antes de você entrar. São 62 degraus de escadaria até a fachada, listrada em pedra e mosaico dourado, num estilo árabe-normando restaurado no século 19.
Dentro do complexo você visita o Claustro do Paraíso, um pátio do século 13 com colunas brancas entrelaçadas em arcos agudos, claramente de inspiração islâmica. É o pedaço mais bonito de toda a construção, na minha opinião, e o mais silencioso.
Na cripta está guardada a relíquia atribuída a Santo André, o apóstolo, trazida de Constantinopla em 1208.
Museu do Papel e Valle delle Ferriere
Amalfi tem uma tradição de fabricação de papel que remonta ao século 13, aprendida com os árabes. O Museo della Carta funciona numa antiga fábrica no vale acima da cidade, com engrenagens hidráulicas originais ainda operando. A visita é guiada e curta, e eles fazem uma folha de papel na sua frente. Vale, especialmente com crianças.
Continuando pelo mesmo vale, a pé, começa a trilha da Valle delle Ferriere. É uma reserva natural com micro-clima úmido onde crescem samambaias gigantes que são relíquias da era pré-glacial, além de cachoeiras e ruínas de antigas fundições de ferro. Faz um contraste absurdo com o litoral seco a vinte minutos de distância. A trilha é sombreada e boa para dias quentes.
Atrani, Minori e Maiori
Atrani se alcança a pé de Amalfi por um caminho junto ao mar, passando por um túnel. A piazza Umberto I é o coração, com escadarias, arcos e a igreja de San Salvatore de’ Birecto, onde os doges de Amalfi eram coroados. Cinco minutos ali sentado explicam por que tanta gente prefere Atrani.
Minori, 5 km adiante, é chamada de cidade do gosto pela tradição culinária, especialmente as massas caseiras como os scialatielli e a pasta all’uovo. Tem uma villa romana marítima do século 1 com frescos e uma parte de termas, aberta à visita e quase sempre vazia. A praia é de areia, o que na Costa Amalfitana já é uma exceção.
Maiori, ao lado, tem a maior faixa de areia da costa, cerca de um quilômetro. Foi bastante reconstruída depois de uma enchente devastadora em 1954, então o centro é mais moderno e menos pitoresco que os vizinhos. Em compensação, é mais barato, tem mais estrutura e é onde os italianos de Salerno vão passar o dia de praia. Acima dela, o Castelo de São Nicolau de Thoro-Plano, do século 9, com vista ampla do golfo.
Cetara
Três quilômetros depois de Maiori está Cetara, e essa é a vila que eu recomendaria a quem quer sentir a costa sem cenografia. É um porto de pesca ativo, com frota especializada em atum e em anchovas.
Duas coisas nascem ali: a colatura di alici, um molho de anchovas fermentadas em barris de madeira, descendente direto do garum romano, usado para temperar espaguete com alho e salsa; e as conservas de atum artesanais.
Comer um spaghetti alla colatura em Cetara é uma daquelas experiências gastronômicas que soam simples no papel e não são. O sabor é intenso, salgado, quase umami puro. Não é para todo mundo, mas quem gosta nunca esquece.
A torre vice-real do século 14 fica na praia e hoje abriga exposições.
Vietri sul Mare
O ponto final da costa, a 5 km de Cetara e praticamente colada em Salerno. Vietri é a capital da cerâmica artesanal italiana desde o século 15, com produção que ganhou fama internacional nos anos 1920 e 1930, quando artistas alemães se instalaram ali no chamado periodo tedesco.
As ruas são cheias de ateliês e lojas, e a diferença de qualidade e preço entre eles é grande. Peças pintadas à mão em Vietri costumam ter assinatura ou marca do ateliê no fundo. Se o preço parece de souvenir de aeroporto, provavelmente é.
O Museu da Cerâmica funciona numa villa acima da cidade, com coleção que cobre séculos de produção. E a Fábrica Solimene, projetada por Paolo Soleri nos anos 1950, é um prédio absurdo, com fachada de cerâmica em relevo, que parece uma nave. Vale a parada só pela arquitetura.
De Vietri você tem trem para Salerno em minutos e de Salerno trens de alta velocidade para Nápoles em 35 minutos e para Roma em pouco mais de duas horas. Guarde essa informação para o planejamento de saída.
Um dia para Pompeia ou Herculano
De Amalfi, uma bate-volta a Pompeia é viável: ônibus SITA até Salerno ou até Sorrento, e de lá trem até Pompei Scavi. Ou transfer privado, cerca de uma hora.
Pompeia é enorme, 66 hectares, e você não vê tudo. Priorize o Fórum, a Casa do Fauno, a Villa dos Mistérios (fica afastada, na saída norte, e tem os frescos mais impressionantes do sítio), o Anfiteatro e o Lupanar. Leve água, chapéu, e vá pela manhã. Não existe sombra.
Herculano é uma alternativa que muita gente prefere: menor, mais bem preservada, com estruturas de madeira e segundos andares que sobreviveram porque a cidade foi coberta por fluxo piroclástico em vez de cinzas. Você percorre em duas horas e sai com noção mais clara de como era uma casa romana por dentro. Fica em Ercolano, na linha da Circumvesuviana.
Se sobrar energia e a temporada permitir, o Vesúvio tem trilha até a borda da cratera, com ingresso e horário. A subida final é cerca de 30 a 40 minutos em terreno de cascalho.
Dias 12 a 14: base em Ravello
Ravello está a 365 metros de altitude, uns 6 km de Amalfi por uma estrada que sobe em curvas fechadas junto ao vale do rio Dragone. Você chega e o barulho desaparece. Não passa carro no centro, a temperatura cai alguns graus, e a vista é de cima para baixo sobre todo o golfo de Salerno.
Muita gente faz Ravello em três horas. Dormir lá é outra coisa. Ao anoitecer, quando os ônibus de excursão vão embora, a vila fica praticamente vazia e você tem a praça e os terraços quase para você.
Villa Rufolo e Villa Cimbrone
A Villa Rufolo é do século 13, com uma torre de entrada, claustro de influência árabe e jardins em terraço com vista para o mar. Richard Wagner visitou em 1880 e disse ter encontrado ali o jardim mágico de Klingsor, da ópera Parsifal. Daí nasceu o Ravello Festival, evento de música clássica que acontece no verão, com concertos num palco suspenso sobre o penhasco. Assistir a uma orquestra ali, ao pôr do sol, com o mar quatrocentos metros abaixo, é o tipo de coisa que justifica escolher a data da viagem.
A Villa Cimbrone fica no ponto mais alto, uns dez a quinze minutos de caminhada pelas ruelas. O destino é o Terrazzo dell’Infinito, uma varanda comprida com bustos de mármore alinhados na borda, aberta para o vazio. É provavelmente a vista mais reproduzida da Costa Amalfitana. Vá logo na abertura, por volta das nove da manhã, e você pode ficar sozinho lá. Depois das onze, é fila para foto.
O jardim da Cimbrone tem uma história curiosa: foi criado por um aristocrata inglês, Ernest Beckett, no início do século 20, e a villa recebeu figuras do grupo de Bloomsbury. Greta Garbo se escondeu ali com o maestro Leopold Stokowski em 1938, e a imprensa fez festa.
O Duomo de Ravello tem portas de bronze fundidas em 1179 e dois púlpitos de mármore com mosaicos, um deles apoiado em colunas retorcidas sobre leões. O museu na cripta guarda peças normandas.
Scala e Tramonti
Do outro lado do vale, a poucos minutos de Ravello, está Scala. É a comuna mais antiga da costa, e hoje é tranquila ao ponto de parecer adormecida. O Duomo tem uma cripta com um afresco medieval e um túmulo bispal. As aldeias acima, como Pontone e Minuta, dão acesso a trilhas boas, incluindo o caminho para a Torre dello Ziro, uma torre de vigia numa crista entre Amalfi e Atrani com vista dos dois lados ao mesmo tempo. Cerca de uma hora de caminhada de Pontone, e uma das melhores relações esforço-recompensa da região.
Tramonti é o interior de verdade. Treze pequenos núcleos espalhados entre montanhas, a uns 400 a 600 metros de altitude, com vinhedos antigos, castanheiros e casas de pedra. É uma região vinícola séria, com uvas locais como tintore, aglianico e falanghina, e videiras que escaparam da praga da filoxera do século 19 por estarem isoladas. Algumas têm mais de cem anos.
Tramonti também reivindica ser berço de uma diáspora de pizzaiolos: muita gente da região emigrou e abriu pizzarias no norte da Itália e no exterior. E dali vem o concerto, um licor de ervas de mosteiro.
Visitar Tramonti pede carro ou tour, porque o transporte público é escasso. Um transfer de meio dia com parada em duas vinícolas resolve, e é o tipo de programa que ninguém coloca no roteiro e todo mundo comenta depois.
Dia 15: a saída
De Ravello você desce para Amalfi e segue para Salerno de ônibus ou barco. De Salerno, trem para Nápoles em cerca de 35 minutos ou direto para Roma em pouco mais de duas horas.
Se o vôo internacional sai de Nápoles à tarde, esse trajeto cabe no mesmo dia com folga. Se sai de manhã, durma a última noite em Nápoles ou em Salerno.
Salerno, aliás, é subestimada. Tem um centro histórico com um Duomo normando bonito, um calçadão à beira-mar bem cuidado e preços de restaurante bem menores que na costa. Se você tiver uma noite sobrando, não é desperdício.
Comida e o que realmente vale pedir
A cozinha da costa é de mar e de horta, não de carne.
A delizia al limone é a sobremesa da região, uma cúpula de pão de ló recheada com creme de limão e coberta com o mesmo creme. Foi criada em Sorrento nos anos 1970 e virou tradição em toda a costa. Come-se em qualquer pasticceria decente.
O limone sfusato amalfitano tem Indicação Geográfica Protegida. É comprido, de casca grossa e perfumada, menos ácido que o limão comum. Dele sai o limoncello legítimo, que é feito com a casca em infusão de álcool, sem o suco. Muitos produtores da costa fazem versões artesanais e vendem em garrafa fechada. Vale comprar de quem produz, não de loja de souvenir.
Massas típicas: scialatielli ai frutti di mare, criada em Amalfi na década de 1970 por um chef local, uma massa fresca curta e mais grossa; e o já citado spaghetti alla colatura de Cetara.
Peixe: o pescado do dia grelhado ou al sale, e as anchovas frescas marinadas. A mozzarella di bufala campana vem da planície de Salerno, ali perto, e é outra coisa quando fresca do dia.
Vinhos: Furore branco, Ravello, Tramonti tinto, além do Fiano di Avellino e Greco di Tufo da Campânia interior, e o Falanghina. Nada de pedir vinho toscano ali.
Aviso de cortesia: restaurantes com vista privilegiada em Positano e Ravello cobram pela vista. Não tem problema em pagar uma vez pela experiência, mas comer todos os dias assim esvazia a carteira rápido. Suba uma rua, entre onde tem gente falando italiano, e a diferença de preço é de 40 por cento com comida igual ou melhor.
Quando ir
Maio, início de junho, setembro e início de outubro são as melhores janelas. Mar já ou ainda morno, barcos operando, trilhas boas, e sem o pico de multidão.
Julho e agosto têm calor forte, trânsito travado, targhe alterne em vigor, preços de hotel no teto e praias disputadas metro a metro. Se for a sua única possibilidade, vá, mas planeje deslocamentos cedíssimo pela manhã.
Novembro a março: a costa hiberna. Muitos hotéis, restaurantes e as linhas de barco fecham. Ravello e Positano ficam quase desertas, o que tem seu charme melancólico, mas você perde metade das possibilidades. Não é a época para um roteiro de quinze dias.
Detalhes práticos que evitam dor de cabeça
Sapatos: leve tênis com boa sola e sandália firme. Salto alto em Positano é inviável, e os degraus de pedra ficam escorregadios.
Bagagem: as acomodações frequentemente exigem subir ou descer dezenas de degraus, e não há carro que chegue na porta. Vários hotéis oferecem serviço de carregador por uma taxa. Vale contratar. Mala leve vale mais.
Dinheiro: cartão funciona em quase tudo, mas ônibus, alguns bares pequenos e os tickets de barco em guichês menores podem preferir dinheiro. Tenha algum euro em espécie.
Horários de ônibus: consulte o site da SITA Sud, mas confirme sempre com a recepção do hotel, porque há alterações sazonais e greves ocasionais.
Água e sol: a exposição na costa é intensa, mesmo em maio. Protetor alto, boné e garrafa reutilizável.
Reservas: para hotéis em Positano e Ravello na alta temporada, quatro a seis meses de antecedência não é exagero. Restaurantes com vista também pedem reserva.
Um último pensamento sobre ritmo
O erro clássico na Costa Amalfitana é tratar quinze dias como quinze oportunidades de ver algo novo. A região não funciona bem assim. Ela recompensa a repetição: o mesmo café da manhã no mesmo terraço, o segundo mergulho na mesma praia, o restaurante onde na terceira noite o garçom já sabe o que você bebe.
Dos quinze dias, deixe pelo menos quatro sem nada marcado. Você provavelmente vai usá-los para não fazer nada, e serão os que vão sobrar na memória depois.
