|

Roteiro de 3 Dias de Passeios a pé em Reiquiavique

Reiquiavique é uma das poucas cidades do mundo onde você consegue fazer quase tudo a pé — e onde andar devagar é, na verdade, a melhor estratégia que existe.

Foto de Magic K: https://www.pexels.com/pt-br/foto/predios-edificios-lago-lagoa-6730855/

Não é uma cidade grande. A área central cabe em cerca de três quilômetros quadrados. Mas o que ela comprime nesse espaço é algo que assombra qualquer viajante que chega esperando pouco: igrejas que parecem saídas de um filme de ficção científica, ruas cobertas de arte urbana que rivalizam com as melhores do mundo, um porto antigo que ainda respira história, e uma orla onde o vento te empurra de volta para o casaco enquanto você tenta fotografar uma escultura de aço que parece flutuar sobre a baía.

O frio? Sim, ele existe. E não é brincadeira. Mas em Reiquiavique, o frio faz parte da experiência, não atrapalha ela. Com camadas certas de roupa, boas botas e uma disposição honesta para caminhar, a cidade se entrega de um jeito que nenhum ônibus turístico consegue replicar.

Aqui está um roteiro pensado para três dias a pé, sem correria, sem lista de obrigações, mas com ritmo suficiente para você sair com a sensação de que realmente conheceu o lugar.

Powered by GetYourGuide

DIA 1 — O Coração da Cidade: Do Alto da Igreja à Beira do Porto

Manhã: Começando pelo ponto mais alto

O ponto de partida mais lógico — e mais bonito — para qualquer caminhada em Reiquiavique é a Hallgrímskirkja. A igreja domina o skyline da cidade de um jeito quase absurdo: 74 metros de concreto moldado para imitar as colunas de basalto vulcânico que cobrem boa parte da Islândia. Chegar até ela é simples, porque você a enxerga de quase qualquer ponto do centro. Caminhe morro acima pela Skólavörðustígur, a famosa Rua do Arco-Íris, e já comece a desacelerar.

Essa rua merece mais atenção do que a maioria das pessoas dá a ela. O arco-íris pintado no asfalto não é uma decoração turística vazia — é um gesto político e cultural que a cidade abraçou de verdade, especialmente depois das lutas pelos direitos LGBTQ+ que a Islândia protagonizou nas últimas décadas. Ao longo da subida você passa por ateliês de artistas, livrarias independentes com livros islandeses nas vitrines e cafeterias de onde sai cheiro de canela pela porta. A subida dura uns dez minutos. A vontade de parar para olhar tudo dura bem mais.

A entrada na Hallgrímskirkja é gratuita. O interior surpreende quem espera ornamentos — é austero, quase vazio, mas com uma qualidade acústica impressionante e um órgão monumental com mais de 5.000 tubos que parece ocupar a parede inteira do fundo. Vale sentar por alguns minutos em silêncio. A subida na torre custa em torno de ISK 1.000 (cerca de 7 a 8 dólares) e oferece uma das vistas mais completas da cidade: os telhados coloridos de chapas metálicas, a baía de Faxaflói ao longe e, em dias limpos, o vulcão Esja coberto de neve no horizonte. É uma imagem que fica.

Do lado de fora da entrada principal, a estátua de Leifur Eiríksson — o explorador viking que, segundo os islandeses, chegou à América séculos antes de Colombo — olha para o oceano com uma seriedade que combina com o vento que bate ali em cima.

Meio-dia: Laugavegur e o cachorro-quente mais famoso do mundo

Da Hallgrímskirkja, desça pela Laugavegur, a principal rua comercial de Reiquiavique. Ela conecta o alto da colina da igreja até o porto, passando pelo coração mais animado do centro. Aqui ficam as lojas de design islandês — muitas delas com peças de lã merino feitas localmente — cafés, bares, restaurantes e uma quantidade generosa de arte urbana nos muros e fachadas laterais.

Antes de chegar ao porto, não passe direto pela Austurvöllur, a praça central da cidade. É uma das áreas mais antigas de Reiquiavique, com o Parlamento islandês (Alþingishúsið) numa construção de basalto escuro que destoa completamente do que você imagina como “sede do governo”. É modest, quase tímido. E ao lado dele, a Dómkirkjan, a catedral luterana, com proporções igualmente discretas. Essa humildade arquitetônica é um traço islandês genuíno, não uma pose.

Almoço clássico e sem negociação: o Bæjarins Beztu Pylsur. A carrocinha de cachorro-quente que existe desde 1937, perto do porto velho, virou ícone da cidade. O cachorro-quente islandês leva carne de cordeiro na mistura, e a opção “einn með öllu” — com tudo, incluindo mostarda, ketchup, remoulade e cebola crua e frita — é o pedido padrão. Bill Clinton parou aí em 2004 e pediu “sem cebola”. Os islandeses nunca esqueceram. Tem uma placa comemorando isso.

Tarde: Orla, Sol Viajante e Harpa

Depois do almoço, caminhe pela orla em direção ao leste. O percurso ao longo do mar até a Harpa é um dos passeios mais agradáveis da cidade, com vista para a baía e as montanhas cobertas de neve ao fundo.

No caminho, você chega na escultura Sólfar — o Sol Viajante, ou Sun Voyager. É uma peça de aço em forma de barco viking estilizado, criada pelo artista Jón Gunnar Árnason, e está à beira-mar com o vulcão Esja como pano de fundo. Praticamente toda foto de Reiquiavique que você já viu inclui essa escultura. E é bonita de verdade, não só por causa das fotos. No fim do dia, com a luz dourada batendo no aço, ela fica irreconhecível de tão bem iluminada.

A Harpa Concert Hall é o próximo passo. O edifício de vidro geométrico foi inaugurado em 2011 e ganhou o prêmio de arquitetura da União Europeia logo depois. O projeto é do arquiteto Henning Larsen em colaboração com o artista Olafur Eliasson, responsável pela fachada de vidro colorido que muda completamente dependendo de onde você olha e da luz do momento. A entrada no foyer é gratuita e já vale. O interior tem uma escadaria incrível, bares, lojas de discos e uma visão para o porto e o oceano que sozinha justifica a visita.

Noite: Porto Velho e jantar islandês

O Porto Velho de Reiquiavique — Gamla höfnin — ainda respira história, mas recebeu uma camada de restaurantes, bares e lojas nos últimos anos. É um boa área para jantar no primeiro dia. Se quiser experimentar culinária islandesa de verdade, procure restaurantes que ofereçam cordeiro islandês assado ou sopa de cordeiro (kjötsúpa) — pratos simples, honestos e surpreendentemente bons.

Distância total do Dia 1: aproximadamente 5 a 6 km a pé, com pausas incluídas.


DIA 2 — Museus, Bairros Residenciais e Arte nas Paredes

Manhã: Museu Nacional e o bairro de Grjótaþorp

Comece o segundo dia mais devagar. O Museu Nacional da Islândia (Þjóðminjasafn Íslands) fica a uma caminhada tranquila do centro e é o melhor lugar para entender o contexto histórico de tudo que você vai ver nos próximos dias. A coleção começa na colonização viking do século IX e chega até o século XX, com objetos, trajes, ferramentas e relíquias organizados de maneira que raramente cansa. A entrada custa em torno de ISK 2.500 (cerca de 18 dólares) e algumas horas aqui compensam mais do que qualquer tour guiado.

Logo depois, vale caminhar até o bairro de Grjótaþorp — o “bairro das pedras”, o mais antigo de Reiquiavique. São ruas estreitas com casas baixas do século XIX, algumas ainda com as fachadas de chapas metálicas coloridas originais, e um silêncio que contrasta completamente com o movimento da Laugavegur. Pouquíssimos turistas chegam até aqui, o que é um contra-senso, porque o lugar tem mais caráter histórico do que boa parte dos pontos mais visitados.

Meio-dia: Tjörnin e a Câmara Municipal

Do bairro histórico, caminhe até o Tjörnin, o lago no centro da cidade. No verão, é tomado por patos e gaivotas. No inverno, quando a temperatura cai o suficiente, parte do lago congela e as pessoas chegam a patinar nele. A orla do lago tem um percurso a pé de uns vinte minutos e é um dos pontos mais tranquilos do centro.

Do lado do lago fica o Ráðhús Reykjavíkur, a Câmara Municipal, com uma arquitetura contemporânea que se integra à água de forma elegante. A entrada é livre e, no térreo, há uma maquete tridimensional gigante de toda a Islândia — ótima para entender a geografia do país antes de qualquer excursão fora da capital.

Para o almoço, a padaria Brauð & Co na Frakkastígur é uma das favoritas dos moradores locais. O cinnamon roll deles tem fama merecida e comer um enquanto caminha é completamente aceitável — e bastante comum.

Tarde: Arte de rua e o bairro 101

A área central de Reiquiavique, especialmente os arredores da Laugavegur e das ruas transversais como Bankastræti e Ingólfsstræti, tem uma das cenas de arte urbana mais interessantes do norte da Europa. Não é uma “rota oficial” de grafite — é orgânico, espalhado, às vezes numa parede de um prédio residencial, às vezes num muro esquecido entre dois comércios. Caminhar sem destino fixo aqui é, na prática, uma forma de galeria ao ar livre.

O Museu de Arte da Islândia (Listasafn Íslands), dividido em três espaços pelo centro, é uma boa parada para uma ou duas horas. O acervo reúne arte islandesa moderna e contemporânea que poucos turistas chegam a ver. A entrada custa ISK 1.500 (cerca de 11 dólares) e inclui acesso a todas as sedes no mesmo dia.

Para quem tem estômago para o incomum, o Museu Faloló Islandês (Phallological Museum) fica nessa região também. É exatamente o que o nome sugere — uma coleção de mais de 280 espécimes de diferentes espécies de mamíferos, incluindo baleias e ursos polares. É estranho, é educativo de um jeito torto, e é completamente islandês na sua ousadia sem constrangimento.

Noite: Bares e a vida noturna compacta

Reiquiavique tem uma vida noturna que funciona ao contrário do restante da Europa: os locais ficam praticamente vazios até meia-noite e explodem depois disso, especialmente nos fins de semana. A Laugavegur e a Bankastræti concentram a maioria dos bares. Cerveja local da Ölvisholt Brugghús ou da Einstock vale a pena experimentar. O custo de uma cerveja em bar pode surpreender — em torno de ISK 1.200 a 1.600 — mas a qualidade e o ambiente compensam.

Distância total do Dia 2: aproximadamente 6 a 7 km, com paradas nos museus.


DIA 3 — A Periferia Do Centro: Parque, Colina, Orla e Despedida

Manhã: Parque Hljómskálagarður e o promontório de Öskjuhlíð

O terceiro dia pode começar com uma caminhada pelo Hljómskálagarður, o parque público às margens do Tjörnin. É um espaço arborizado com estátuas, um pequeno quiosque de café e o ritmo de uma cidade que acorda sem pressa. Famílias com crianças, pessoas com cachorros, aposentados lendo nos bancos — é uma das faces mais cotidianas e autênticas de Reiquiavique.

Da parte sul do parque, é possível caminhar em direção ao Öskjuhlíð, uma colina que fica a uns vinte minutos a pé do centro. No topo está a Perlan — um edifício em forma de cúpula geodésica construído sobre cinco tanques de armazenamento de água quente geotérmica. Hoje é um museu de ciências naturais da Islândia, com exposições sobre gêiseres, glaciares, auroras boreais e a história geológica do país. A plataforma de observação no topo oferece uma vista de 360 graus de Reiquiavique e da baía — possivelmente a melhor vista de toda a cidade. A entrada custa em torno de ISK 3.000 a ISK 3.500 (25 dólares), mas a exposição sobre auroras boreais tem uma simulação em ambiente fechado que vale por si só.

Meio-dia: Nauthólsvík e o pé quente no oceano ártico

Descendo do Öskjuhlíð em direção ao oceano, você chega à Nauthólsvík, uma praia artificial de areia amarela no litoral sul da cidade. A areia foi importada — o oceano ali é cinza e as pedras são de basalto, como em quase toda a costa islandesa — mas o detalhe mais surpreendente é a Kvika Footbath, uma banheira ao ar livre abastecida com água geotérmica quente, instalada na beira da praia. Os islandeses colocam os pés na água quente enquanto o vento ártico bate no rosto. É a combinação mais estranha e mais agradável que existe.

No verão, a praia recebe banhistas de verdade — a água do mar ali é aquecida parcialmente por dutos geotérmicos e chega a uma temperatura tolerável para os padrões islandeses. No inverno, é mais contemplação do que banho, mas não é menos bonito.

Tarde: Þingholt e as ruas que ninguém mapeia

Para a última tarde, a melhor decisão é se perder deliberadamente pelo bairro de Þingholt, ao sul da Hallgrímskirkja. É uma área residencial com ruas em declive suave, casas de madeira ou chapa metálica colorida — terracota, verde-escuro, amarelo mostarda — e jardins pequenos com flores silvestres. Nenhum ponto turístico específico, mas uma densidade de detalhes arquitetônicos e cotidianos que você não encontra em nenhum outro lugar de Reiquiavique.

Caminhe sem destino fixo. Olhe as portas, as janelas, os gatos nas soleiras. Anote mentalmente os nomes impossíveis das ruas. Essa caminhada é o tipo de coisa que parece pouca coisa enquanto você faz, mas que fica como lembrança clara anos depois.

De volta ao centro, passe pela Sundhöllin, a piscina pública mais antiga de Reiquiavique, inaugurada em 1937 e completamente reformada em 2017. Os islandeses têm por hábito frequentar as piscinas geotérmicas públicas com uma regularidade que não tem comparação em nenhum outro país — é um ritual social, não só de lazer. A Sundhöllin tem uma piscina externa aquecida no rooftop do edifício histórico, com vista para os telhados do centro. A entrada custa cerca de ISK 1.100 para adultos. Entrar ali no final da tarde, quando a luz baixa e o vapor sobe da água, é uma das experiências mais islandesas que Reiquiavique oferece.

Noite: Última jantar e a luz que não acaba

O jantar final pode ser no bairro do porto velho ou na Laugavegur. Mas antes de entrar em qualquer restaurante, caminhe mais uma vez até a orla. No verão, o sol ainda está no horizonte às onze da noite — a luz tem aquela cor de entardecer perpétuo que você nunca cansa de olhar. No inverno, a cidade tem uma escuridão densa que transforma cada vitrine iluminada em algo quase teatral.

Reiquiavique é assim: ela muda com a estação, com a hora do dia, com o vento. Três dias a pé não esgotam a cidade. Mas é tempo suficiente para entender por que tanta gente que vem por três dias acaba querendo ficar mais.

Distância total do Dia 3: aproximadamente 7 a 8 km, incluindo a subida ao Öskjuhlíð.


Dicas Práticas para Caminhar em Reiquiavique

Roupa e calçado: Nada compromete mais um passeio a pé em Reiquiavique do que subestimar o vento. Não é necessariamente o frio mais intenso do mundo, mas o vento lateral que vem da baía é constante e penetrante. Camadas são essenciais: uma base térmica, uma camada intermediária de lã merino (comprada no próprio país, se possível) e uma camada externa impermeável e cortavento. Botas com sola antiderrapante são importantes especialmente no inverno, quando as calçadas ficam geladas.

Mapa e orientação: O Google Maps funciona bem na cidade, mas o centro é tão compacto que, após o primeiro dia, você vai começar a se orientar pelos marcos visuais — a torre da Hallgrímskirkja é visível de quase todo lugar e serve de bússola natural.

Dinheiro: A Islândia é praticamente sem dinheiro físico. Cartão de crédito ou débito é aceito em todo lugar, inclusive na carrocinha de cachorro-quente do porto. Não há necessidade de trocar coroas islandesas em espécie para os passeios urbanos.

Horários: No verão (junho a agosto), o sol não se põe de verdade, e é completamente possível — e muito comum — fazer longas caminhadas às onze da noite com luz natural. No inverno (novembro a janeiro), os dias têm apenas quatro a cinco horas de luz, então o planejamento matinal se torna mais importante.

Refeições e orçamento: Reiquiavique é cara. Um almoço simples custa facilmente entre ISK 2.500 e ISK 4.000 (18 a 30 dólares). As padarias e os quiosques de comida de rua são alternativas reais e muito boas, não planos B de mal necessário.

Idioma: Islandês é o idioma oficial, mas o inglês é fluente em praticamente toda a população abaixo dos sessenta anos. Não há barreira de comunicação prática para turistas.

Reiquiavique não é uma cidade que grita. Ela sussurra. E é exatamente por isso que caminhar por ela, sem pressa e com atenção, é a única forma de realmente ouvi-la.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário