Roteiro a pé de Passeios em Tbilisi na Geórgia
Descubra Tbilisi caminhando pelas ruas tortas da Cidade Velha, banhos de enxofre, fortaleza Narikala e bairros boêmios em um roteiro a pé completo pela capital da Geórgia.

Tbilisi é uma daquelas cidades que se entrega devagar, e só de verdade para quem caminha. Andar a pé pela capital da Geórgia não é apenas a maneira mais barata de conhecê-la, é a única forma honesta. As ladeiras de pedra, as varandas de madeira tortas como se fossem desabar a qualquer momento, o cheiro de pão saindo dos fornos subterrâneos, o vapor saindo das casas de banho de enxofre. Nada disso passa pela janela de um carro com a velocidade que merece.
A cidade fica num vale apertado, cortada pelo rio Mtkvari (também escrito Kura), com colinas de todos os lados. Isso significa que quem caminha por Tbilisi vai subir, descer, e subir de novo. Tênis confortável não é luxo, é sobrevivência. Mas a recompensa compensa cada passo. Em poucas horas de caminhada se atravessa um mosaico de igrejas ortodoxas do século VI, mesquitas, sinagogas, prédios art nouveau, ruínas persas e bares modernos instalados em fábricas soviéticas abandonadas.
Vou propor aqui um roteiro que cobre o essencial em um ritmo humano, com paradas para café, vinho, comida e descanso. Pode ser feito em um dia bem corrido, mas a sugestão honesta é dividir em dois, talvez três, dependendo do fôlego e da curiosidade.
Antes de começar: o que saber sobre caminhar em Tbilisi
A Cidade Velha (Dzveli Tbilisi) é compacta. Quase tudo de mais turístico está concentrado num raio de uns dois quilômetros, o que parece pouco no mapa, mas o relevo cobra pedágio. Calçadas em Tbilisi são uma aventura à parte. Em alguns trechos, simplesmente não existem. Em outros, estão tomadas por carros estacionados, buracos, ou aquelas pedras irregulares que parecem charmosas até você torcer o tornozelo.
A moeda local é o lari georgiano (GEL). A maioria dos lugares aceita cartão, mas vale ter dinheiro em espécie para feiras, pequenas padarias e táxis. O metrô é eficiente e ridiculamente barato, custa em torno de 1 lari por viagem, e pode ser uma boa pedida para encurtar trechos longos do percurso.
Sobre segurança, Tbilisi é uma cidade tranquila para caminhar, inclusive à noite. O georgiano médio é hospitaleiro a um ponto que beira o constrangedor para quem vem de cidades grandes. Não é incomum alguém oferecer carona, vinho caseiro ou direções com mapa desenhado no guardanapo.
Idioma é um obstáculo real. O georgiano usa um alfabeto próprio, lindo mas indecifrável. O russo ainda funciona com gente mais velha, e o inglês cresce entre os jovens, principalmente em cafés e hotéis. Vale baixar o Google Maps offline e o Google Tradutor com o pacote de georgiano.
Ponto de partida: Praça da Liberdade (Liberty Square)
A Liberty Square, ou Tavisuplebis Moedani, é o coração pulsante da cidade moderna e o melhor lugar para começar. No centro dela há uma coluna alta com uma estátua dourada de São Jorge matando o dragão, símbolo da Geórgia. A praça já se chamou Praça Lenin, Praça Erevan, Praça Beria. Mudou de nome conforme os ventos políticos, e hoje carrega na pele as cicatrizes de cada era.
Daqui saem várias ruas importantes, e é fácil se localizar. O metrô tem estação ali mesmo (Liberty Square / Tavisuplebis Moedani), o que ajuda muito.
Reserve uns 15 minutos para observar a praça, tomar um café num dos quiosques ao redor e respirar antes de mergulhar nas ladeiras. Confesso que a primeira impressão de Tbilisi pode ser meio sem graça nessa região, mas é só descer um pouco que a coisa muda.
Avenida Rustaveli: o ar imperial
Saindo da Liberty Square em direção ao norte, a Avenida Rustaveli é a artéria principal da cidade. Em cerca de 1,5 km de extensão, ela concentra prédios neoclássicos, o Parlamento da Geórgia, o Teatro de Ópera, o Museu Nacional, o famoso Hotel Tbilisi Marriott e cinemas históricos como o Rustaveli.
O nome vem de Shota Rustaveli, poeta georgiano do século XII, autor de “O Cavaleiro na Pele de Pantera”, a obra mais celebrada da literatura nacional. Tem estátua dele no fim da avenida.
Caminhar pela Rustaveli é entender o lado europeu de Tbilisi, o lado que se quer cosmopolita. Os prédios contam histórias da era czarista, da era soviética e do período pós-independência, tudo misturado. Vale entrar no Museu Nacional da Geórgia, principalmente para ver a coleção de ouro pré-cristão dos colcas, povo que habitou a região há mais de dois mil anos. Ali se entende por que essa terra é mencionada em mitos gregos como a casa do Velocino de Ouro.
Para uma pausa, recomendo o Prospero’s Books, uma livraria com café no quintal, escondida num pátio interno. É um respiro do barulho da avenida e tem livros em inglês.
Praça Freedom à Praça Meidan: descida para a Cidade Velha
Voltando para a Liberty Square, agora desça pela Pushkin Street ou pela Kote Apkhazi. Em poucos minutos a paisagem muda completamente. Os prédios ficam mais baixos, as ruas estreitam, as varandas de madeira começam a aparecer.
A Praça Meidan é o portão de entrada para a alma antiga de Tbilisi. Já foi mercado, ponto de caravanas da Rota da Seda, lugar onde armênios, persas, judeus e georgianos negociavam de tudo. Hoje é uma praça circular cercada de restaurantes, com a Ponte Meidan cruzando o Mtkvari logo ao lado.
A vista daqui é uma das mais bonitas para fotografar. De um lado, a fortaleza Narikala no alto. De outro, as cúpulas da igreja de Metekhi. Embaixo, o rio. E em volta, casas coloridas escalando a colina como se desafiassem a gravidade.
Abanotubani: os banhos de enxofre
Logo abaixo da Meidan fica o bairro de Abanotubani, o coração termal de Tbilisi. A própria origem do nome da cidade vem daqui. “Tbili” em georgiano significa quente, em referência às águas sulfurosas que brotam naturalmente nessa região.
Os banhos têm cúpulas de tijolo redondas que parecem cogumelos, e por baixo delas a água quente borbulha desde antes de a cidade existir. Diz a lenda que o rei Vakhtang Gorgasali estava caçando aqui no século V, seu falcão caiu numa fonte termal, e ele decidiu fundar a cidade no lugar.
Vale entrar em pelo menos um dos banhos. O Chreli Abano (também conhecido como Banho Orbeliani) é o mais famoso pela fachada de azulejos azuis estilo persa, parece uma pequena mesquita. O Bathhouse Number 5 é mais autêntico, frequentado por locais. Há salas privadas e salas coletivas, com preços que variam bastante. A massagem tradicional georgiana, chamada kisi, é feita com uma luva áspera que tira camadas de pele que você nem sabia que tinha. Sai de lá renovado, é fato.
Logo depois dos banhos, suba pela rua que segue o desfiladeiro até chegar na cachoeira de Leghvtakhevi. Pouca gente espera encontrar uma cachoeira no meio da cidade, mas ela está ali, escondida atrás dos banhos, num cânion estreito que parece um pedaço da natureza esquecido entre os prédios.
Fortaleza Narikala e o Monumento Mãe Geórgia
Da região dos banhos, há duas formas de subir até a Fortaleza Narikala. A primeira é pelo teleférico que sai do Parque Rike, do outro lado do rio. A segunda é a pé, subindo pelas ruelas íngremes do bairro. As duas opções são boas. O teleférico oferece vista panorâmica e custa em torno de 2,5 lari. A subida a pé é cansativa, mas atravessa cantos lindos da Cidade Velha que ficariam de fora num passeio só de teleférico.
A Narikala é uma fortaleza do século IV, ampliada por árabes, mongóis e persas ao longo dos séculos. Hoje restam muralhas, torres e uma igreja restaurada. A vista do alto é o cartão postal de Tbilisi. Dali se vê a cidade inteira, o rio serpenteando, as colinas de tijolo vermelho, os domos das igrejas.
Caminhando pela trilha que sai da fortaleza em direção ao oeste, chega-se ao monumento Kartlis Deda, a Mãe Geórgia. Uma estátua de alumínio de 20 metros, instalada em 1958 para os 1500 anos da cidade. Ela segura uma espada numa mão e uma taça de vinho na outra. A mensagem é clara: vinho para os amigos, espada para os inimigos. Resume bem a alma do país.
A trilha continua para o Jardim Botânico Nacional, que ocupa um vale inteiro escondido atrás da colina. Pouco turista entra ali, e é uma pena. Tem cachoeiras, pontes suspensas, uma vegetação que muda completamente conforme se desce o vale. Para quem está com tempo, vale duas horas tranquilas.
Bairro Sololaki e a rua Betlemi
Descendo da Narikala em direção ao norte, entra-se em Sololaki, um dos bairros mais charmosos de Tbilisi. Aqui estão as casas burguesas do final do século XIX, com fachadas em estuque, portas duplas em madeira esculpida, e aqueles átrios internos com escadarias em ferro forjado e paredes pintadas à mão.
A rua Betlemi é uma das mais bonitas de toda a cidade. Sobe íngreme em direção à Narikala, mas se você descer por ela vai passar pela Igreja Betlemi, pequena, branca, com um pátio que olha para o vale. É um daqueles cantos onde dá vontade de sentar e não fazer nada.
Algumas das portas antigas de Sololaki estão abertas durante o dia. Entrar discretamente nos átrios é meio que um esporte local entre os turistas mais curiosos. Tem uma chamada Casa do Diabo, com pinturas religiosas e símbolos espirituais cobrindo o teto inteiro. Outra famosa é a do átrio com vitrais coloridos na escadaria. Como ninguém mora ali com vocação para guia turístico, a regra é entrar em silêncio, fotografar com discrição e sair sem incomodar.
Praça Gorgasali, ponte Metekhi e igreja de Metekhi
Voltando ao nível do rio, atravesse a ponte Metekhi para o outro lado do Mtkvari. No alto de um penhasco está a igreja de Metekhi, do século XIII, com a estátua equestre do rei Vakhtang Gorgasali em frente. A vista de lá para a Cidade Velha é a melhor de todas, especialmente no fim da tarde, quando o sol bate nas casas e tudo fica num tom dourado.
A igreja é simples por dentro, mas o conjunto inteiro, com o penhasco caindo direto no rio, é impressionante. Esse era o ponto onde, na época medieval, ficava o palácio dos reis georgianos.
Avlabari e o pátio armênio
Continuando do lado leste do rio, o bairro de Avlabari era historicamente o bairro armênio de Tbilisi. Boa parte da cultura comercial da cidade foi feita pela diáspora armênia, e isso ainda se sente nas ruas. Tem igrejas armênias com inscrições em alfabeto próprio, mercados pequenos, padarias.
A grande novidade dessa região é a Catedral Sameba, ou Santíssima Trindade, construída em 2004. É enorme, dourada, dominante. Para muitos georgianos representa o renascimento da identidade nacional pós-soviética. Para outros, é megalomaníaca demais. Independente da opinião, vale ir, principalmente para sentir a diferença entre a religiosidade quase íntima das igrejinhas antigas e a grandeza desse complexo recente.
Parque Rike, ponte da Paz e Marjanishvili
Voltando para o lado oeste e descendo até a beira do rio, há o Parque Rike, criado para revitalizar a margem. Tem chafarizes, esculturas modernas, um piano gigante para sentar. Daqui sai o teleférico para Narikala, como mencionei.
Do parque, atravesse a Ponte da Paz, uma estrutura curva de vidro e aço inaugurada em 2010. Os locais não amaram, comparam ela a um absorvente gigante. Mas a vista da ponte é ótima, e à noite ela acende com um padrão de luzes em código Morse que diz, em georgiano, palavras como “esperança”, “amor” e “país”.
Do outro lado começa a área de Marjanishvili, atravessando a Cidade Velha em direção ao bairro mais boêmio e moderno. A rua Aghmashenebeli foi reformada e virou uma espécie de calçadão com cafés, bares e arquitetura europeia restaurada. É menos turística que a Cidade Velha e tem uma vibe mais local.
Fabrika e o lado contemporâneo de Tbilisi
Caminhando uns 15 minutos para o norte a partir de Marjanishvili, chega-se à Fabrika. Era uma fábrica soviética de costura, abandonada por anos, e foi transformada num hostel-cultura-bar. O pátio interno é gigante, cheio de mesas, cervejas artesanais, comida boa, lojinhas de design e ateliês.
A Fabrika é onde a juventude criativa de Tbilisi se encontra. Tem grafite, exposições, pequenos eventos, e à noite vira um dos pontos mais animados da cidade. Mesmo quem não está hospedado pode entrar e ficar à vontade.
Essa mistura de soviético reaproveitado com cultura contemporânea é uma das marcas mais interessantes de Tbilisi hoje. A cidade está num momento criativo intenso, com cena de moda, design, vinho natural e gastronomia em ebulição.
Onde comer ao longo do percurso
Não dá para falar de Tbilisi sem falar de comida. A cozinha georgiana é uma das mais subestimadas do mundo, com sabores fortes, queijos cremosos, pães recheados, ensopados densos e vinhos antigos.
Algumas paradas obrigatórias para encaixar no percurso a pé:
| Prato | O que é | Onde provar |
|---|---|---|
| Khinkali | Bolinho cozido recheado com carne e caldo | Pasanauri ou Velis Eze |
| Khachapuri | Pão recheado com queijo e ovo (versão Adjarian) | Retro ou Machakhela |
| Mtsvadi | Espeto de carne suína ou bovina grelhada | Restaurantes da Meidan |
| Lobio | Feijão cozido em panela de barro | Restaurantes pequenos da Cidade Velha |
| Churchkhela | Doce em forma de vela com nozes e suco de uva | Feiras e mercados de rua |
Para um almoço caprichado durante a caminhada, o Shavi Lomi é uma opção excelente, instalado numa casa antiga do bairro Mardjanishvili. Para algo mais informal e barato, qualquer khinkali house frequentada por locais funciona bem.
E o vinho. A Geórgia se considera o berço do vinho do mundo, com 8 mil anos de tradição. Os vinhos feitos em qvevri, ânforas de barro enterradas, são únicos no planeta. Vale provar tanto os tintos saperavi quanto os brancos âmbar feitos com fermentação de cascas. O 8000 Vintages e o Vino Underground são wine bars excelentes para uma degustação séria.
Sugestão de divisão do roteiro
Se houver dois dias para o roteiro a pé, uma divisão razoável seria:
Dia 1: Liberty Square, Avenida Rustaveli, Praça Meidan, Abanotubani (banhos de enxofre), Fortaleza Narikala, Mãe Geórgia, descida por Sololaki.
Dia 2: Praça Gorgasali, ponte Metekhi, igreja de Metekhi, Avlabari, Catedral Sameba, Parque Rike, Ponte da Paz, Marjanishvili, Aghmashenebeli, Fabrika.
Em um único dia bem puxado dá para fazer tudo, mas vai sobrar pouco tempo para sentar nos cafés, conversar com gente nos banhos, tomar um vinho num pátio escondido. E é exatamente nesses momentos que a cidade se abre.
O que vestir e levar
O clima de Tbilisi varia bastante. No inverno faz frio intenso, com temperaturas negativas e neve ocasional. No verão chega facilmente a 35 graus, e a umidade do vale piora a sensação. Primavera (abril a junho) e outono (setembro a outubro) são as melhores épocas para caminhar.
Tênis com solado bom é fundamental. Garrafa de água, protetor solar no verão, casaco impermeável no outono. Para entrar em igrejas, mulheres precisam de lenço cobrindo a cabeça e saia ou pareô cobrindo as pernas. A maioria das igrejas tem lenços e saias para empréstimo na entrada.
Algumas observações
Tbilisi não é uma cidade de check-list. Não tem aquele monumento único que justifica a viagem por si só, como uma Torre Eiffel ou um Coliseu. O que ela tem é uma atmosfera, uma textura, um modo de existir que mistura Ásia e Europa, ortodoxia e secularismo, decadência e renovação, tudo de uma vez. Caminhar a pé é a forma de absorver isso aos poucos.
Acho que o maior charme da capital georgiana está nas pequenas surpresas. A senhora vendendo churchkhela na esquina da Pushkin, o cheiro de tonis puri saindo de um forno subterrâneo, um músico tocando duduk numa praça vazia ao fim da tarde, um vinho oferecido por um estranho num bar de bairro. Coisas que nenhum roteiro escrito antecipa.
Tbilisi recompensa quem caminha devagar, quem entra em portas abertas, quem aceita o convite para sentar. Ir com pressa demais é desperdiçar uma cidade que, no fundo, está convidando todo mundo a ficar mais um pouco.