Our Habitas Atacama em San Pedro de Atacama
Quando três amigos — Oliver Ripley, Kfir Levy e Eduardo Castillo — decidiram em 2014 criar uma empresa para reunir pessoas em torno de música, arte e gastronomia em eventos nos Estados Unidos, provavelmente nenhum dos três imaginava que dez anos depois teriam propriedades na Arábia Saudita, na Namíbia, no México, no Marrocos, no Catar — e no deserto mais seco do planeta não polar. O Our Habitas Atacama, inaugurado em setembro de 2023, é a primeira propriedade da rede na América do Sul e representa algo que poucos hotéis conseguem afirmar com honestidade: um modelo de hospitalidade construído a partir de uma filosofia sobre conexão humana, não apenas de uma estratégia de negócio.

O Guia Michelin o classifica como “Clássico Contemporâneo e Recluso”. O Trivago aponta 8,4 de 10 com mais de 1.140 avaliações. A revista OutThere Magazine publicou uma das resenhas mais detalhadas sobre o hotel, descrevendo a chegada como uma experiência de “quem sabe, sabe” — quase sem sinalização externa, uma placa de ferro fundido pendurada numa viga de madeira que emerge de uma parede discreta de adobe. Não tem nada de espetaculoso na entrada. O que vem depois, sim.
A origem da rede e o que o Atacama significa nessa história
A Our Habitas nasceu de um primeiro evento para 150 pessoas num rancho privado próximo a Los Angeles — 24 horas, música, comida e conversa. Funcionou. Repetiram em Nevada, em Tulum, em Ibiza, na Califórnia. A cada evento, a mesma pergunta surgiu naturalmente: e se isso fosse um lugar permanente?
Em 2016, abriram o primeiro hotel, na praia de Tulum, no México. Era uma estrutura pop-up relocada para um endereço definitivo na beira-mar — 35 quartos, tudo construído e fornecido localmente, com um único espaço permanente: o pavilhão comunitário. A ideia era que um hotel pudesse funcionar como um encontro prolongado, não como uma hospedagem com programação de hotel.
Deu certo. Em menos de dez anos, a rede chegou a dez propriedades em seis países, conquistou o prêmio de Melhor Novo Conceito no AHEAD Americas e passou a ser citada em publicações como o Condé Nast Traveler, a Forbes e a Vogue como referência de um novo tipo de hospitalidade — uma que coloca comunidade, arte, sustentabilidade e experiência genuína acima do luxo convencional.
O Atacama foi escolhido como ponto de entrada na América do Sul. E a escolha faz sentido: é um dos destinos de maior apelo para viajantes que buscam exatamente o que a Our Habitas propõe — natureza radical, silêncio, céu limpo e paisagem que exige atenção.
O hotel é um takeover: a história do antigo Altiplanico
Diferente de outras propriedades da rede, o Habitas Atacama não foi construído do zero pela Our Habitas. É um takeover — a marca assumiu as instalações do antigo Hotel Altiplanico, que já existia no mesmo endereço e foi construído com a estética de uma pequena vila atacamenha: cada acomodação representando uma casinha de adobe independente, dispostas ao redor de pátios internos com vegetação nativa.
A estrutura original foi mantida na essência — o que é uma boa notícia, porque o Altiplanico tinha uma arquitetura que funcionava bem naquele contexto. O que mudou foi a alma do lugar: a programação, a gastronomia, os rituais de bem-estar, o atendimento e o espírito de comunidade que a Our Habitas leva a todas as suas propriedades.
A própria marca reconhece o desafio de operar um takeover em vez de uma construção do zero — há limitações que uma propriedade já existente impõe. Mas o compromisso com a operação sustentável comum à rede foi mantido, e o resultado é uma propriedade que carrega a identidade da Our Habitas mesmo sem ter sido erguida por ela.
Localização: dez minutos a pé da Calle Caracoles
O endereço é Domingo Atienza 282 — a menos de 500 metros do Museu do Meteorito e a cerca de 900 metros da Plaza de San Pedro de Atacama. São 10 minutos de caminhada até a Calle Caracoles, o coração comercial e gastronômico de San Pedro. Essa proximidade ao centro da cidade é um diferencial que nem todos os lodges de luxo do Atacama oferecem — e é um fator que faz diferença real no dia a dia da estadia.
O Pukará de Quitor está a 2,3 km. O Valle de la Morte fica a 4,5 km. O Valley of the Moon está a 13,7 km. O aeroporto de Calama fica a 100 km — cerca de 1h15 de transfer.
Dentro da propriedade, os jardins são descritos por quem visitou como os mais verdes de San Pedro de Atacama — o que, para uma cidade no deserto mais seco do mundo não polar, é uma conquista considerável. Árvores de chañar, capins-pampa e vegetação nativa criam bolsões de sombra natural que tornam a circulação pelos caminhos da propriedade surpreendentemente agradável, mesmo em pleno meio-dia. Alguns gatos que adotaram a propriedade como território — uma presença notada em diferentes resenhas — dormem à sombra dessas árvores durante a tarde, o que diz algo sobre a temperatura interna dos jardins.
Os quartos: “silêncio visual” como filosofia de design
São 51 acomodações construídas com adobe, pedra e materiais locais como alcatrão e palha — a mesma técnica construtiva ancestral que deu forma às vilas atacamenhas por séculos. Cada quarto funciona como uma unidade independente, com varanda ou alpendre privativo voltado para os jardins ou para o deserto ao fundo. Todas têm ar-condicionado, Wi-Fi gratuito e estacionamento grátis no local.
A filosofia de design que a Our Habitas chama de “silêncio visual” se manifesta na paleta de cores — tons terrosos, ocre, bege, areia, com texturas que remetem à geologia do entorno — e no minimalismo dos interiores. Não há decoração competindo com a paisagem do lado de fora da janela. A ideia é que o quarto emoldure sem distrair — um espaço de descanso e introspecção, não de estímulo visual.
As acomodações estão divididas em quatro categorias, cada uma com um nome que reflete a linguagem da aventura que permeia toda a identidade da rede:
Estúdio Pioneer — a opção mais compacta, ideal para o viajante solo ou para quem usa o quarto apenas como base entre excursões. Aconchegante, sem excessos.
Habitação Aventurero — um espaço maior, perfeito para o casal que quer conforto sem abrir mão do contato com a paisagem. É a categoria mais reservada e costuma ter boa disponibilidade com antecedência razoável.
Suíte Explorador — a categoria intermediária de maior metragem, com mais espaço interno e terraço generoso. Para quem vai passar vários dias no hotel e quer sentir que tem território próprio.
Villa Trekker — pensada para grupos de amigos ou famílias. É a única categoria que comporta mais de dois hóspedes com conforto real — um diferencial importante num hotel cujo conceito celebra a experiência coletiva.
O restaurante Almas: lenha, sazonalidade e ingredientes que o deserto oferece
Almas significa “almas” em espanhol — e o nome não é escolhido ao acaso. O restaurante é o espaço central da propriedade, onde a filosofia de reunir pessoas ao redor da mesa se materializa em pratos que contam algo sobre o lugar.
O cardápio é construído com ingredientes sazonais locais, muitos deles cultivados no jardim de ervas nativas da propriedade — que inclui rica-rica, muña, chañar e outras espécies do Atacama que a maioria dos restaurantes da região desconhece ou ignora. A técnica central é o fogo de lenha, que aparece em preparações que vão do ceviche ao prato principal com cordeiro — uma abordagem que conecta o contemporâneo ao ancestral, já que as comunidades atacamenhas cozinham com fogo há milênios.
Alguns pratos que tornaram o Almas reconhecido entre hóspedes e críticos:
— Ceviche de albacora ao fogo de lenha com leche de tigre e creme de abacate — uma fusão de técnica peruana com ingrediente do Pacífico chileno, finalizada com o calor e o defumado da brasa.
— Polvo à plancha com arroz verde e chimichurri de romã — uma composição que usa proteína do mar com grão da montanha e fruta andina, resultando num prato que só faz sentido naquele contexto geográfico.
— Cordeiro glaceado com purê de batata-doce — o cordeiro do norte do Chile tem uma qualidade diferente das criações em altitude baixa; aqui aparece bem tratado.
— Mousse de chañar — feito com o fruto endêmico da árvore que é uma das mais antigas e mais resistentes do Atacama. Pouquíssimos restaurantes do mundo servem chañar como sobremesa. O Almas serve.
— Sorvete de algarrobo — preparado com as vagens locais de alfarroba que os algarrobeiros do deserto produzem. Uma sobremesa que literalmente sabe às árvores do entorno.
O restaurante funciona das 7h às 10h para café da manhã, das 12h às 15h para almoço e das 18h às 22h para jantar. O bar complementa com uma carta de vinhos chilenos e coquetéis desenvolvidos com ervas e frutas nativas.
A programação diária: seis pilares que estruturam a experiência
É aqui que o Habitas Atacama se diferencia mais claramente de qualquer outro hotel de San Pedro. A rede Our Habitas opera com um modelo de programação diária de atividades gratuitas estruturada a partir de seis pilares: Arte, Cultura, Bem-estar, Aventura, Aprendizado, Gastronomia e Música.
O que isso significa na prática:
Yoga diário — sessões que misturam movimento com respiração consciente, cada uma com sequências diferentes para garantir que quem fica vários dias nunca repita a mesma aula.
Pilates — com foco em equilíbrio muscular, estabilidade e controle do core. Não é a aula de hotel genérica — é uma prática estruturada.
Cura Sonora (Sound Healing) — uma das experiências mais procuradas da propriedade. Usando tigelas cantantes, handpans e outros instrumentos de ressonância, a sessão cria um estado de relaxamento profundo que funciona de maneira especialmente potente num ambiente de silêncio como o deserto. Não é misticismo sem fundamento — a relação entre vibração sonora e estados alterados de atenção tem base documentada.
Temazcal — o ritual do temazcal (literalmente “casa de calor” em nahuatl) tem mais de 6.000 anos de história entre os povos mesoamericanos e andinos. A cabana de suor com pedras vulcânicas aquecidas e vapor de ervas medicinais é uma das experiências que os hóspedes com mais frequência descrevem como transformadoras — não como entretenimento, mas como algo que efetivamente altera a percepção do próprio corpo e da relação com o ambiente.
Observação de estrelas — com telescópios e guias especializados que transitam entre a astronomia moderna e a cosmologia andina, as sessões noturnas aproveitam o que o Atacama oferece de mais único: um céu sem poluição luminosa, em altitude suficiente para uma clareza que a maioria dos seres humanos nunca experimentou. Constelações, planetas e galáxias visíveis a olho nu, e a explicação de como os povos Lickanantay interpretavam esse mesmo céu antes de qualquer telescópio existir.
Música ao vivo — nos fins de semana, músicos ao vivo criam o ambiente sonoro da propriedade. Não como shows, mas como presença — alguém tocando no pátio enquanto os hóspedes jantam ou sentam ao redor de uma fogueira.
Oficinas e workshops — cerâmica com argila local, plantas medicinais do deserto, rituais culturais atacamenhos. O calendário muda, mas a intenção é sempre a mesma: que o hóspede aprenda algo sobre o lugar em que está, não apenas o observe de longe.
E a comunidade local participa. Não como prestadora de serviço para os hóspedes — como convidada. Churrascos e pool parties que abrem as portas da propriedade para moradores de San Pedro são parte do modelo da Our Habitas desde Tulum: o hotel não é uma bolha selada, é um ponto de encontro entre viajantes e território.
As aventuras ao ar livre: de onde o deserto começa a ficar sério
Além da programação interna, o Habitas Atacama organiza e facilita um portfólio de aventuras externas que cobre desde o casual até o tecnicamente exigente:
Trilhas a pé em diferentes níveis de dificuldade — desde caminhadas no entorno da cidade até trekking em altitude que exige preparo físico e aclimatação.
Ciclismo pelo Atacama — uma das formas mais físicas e ao mesmo tempo mais imersivas de atravessar a paisagem. As estradas de terra e areia que conectam San Pedro a sítios arqueológicos e formações naturais têm uma escala que só faz sentido quando percorrida sem motorização.
Montanhismo — para os mais preparados, o entorno de San Pedro tem vulcões e picos que chegam próximos a 6.000 metros de altitude.
Parapente — San Pedro de Atacama tem condições de vento que criam correntes térmicas excepcionais para o parapente. É uma das formas mais singulares de ver o deserto — de cima, com o Salar de Atacama e os vulcões no horizonte simultâneo.
Sandboard nas dunas — especialmente no Valle de la Muerte, onde as formações de areia criam rampas naturais para descidas que não exigem equipamento sofisticado, mas entregam adrenalina considerável.
Imersão em fontes termais — os arredores de San Pedro têm fontes geotérmicas naturais como as de Puritama, onde a água quente emerge numa sequência de piscinas naturais em pleno canyon andino.
Observação de flamingos no Salar de Atacama — as colônias de flamingos que habitam as lagoas salinas do salar são um dos espetáculos naturais menos fotografados e mais inesquecíveis da região.
O bem-estar: spa, temazcal e a lógica do cuidado com o corpo no deserto
O centro de bem-estar do Habitas Atacama não tem a metragem do spa do Cumbres nem a sofisticação formal do Puri do Nayara. É menor, mais íntimo e mais coerente com a proposta da rede: o bem-estar como integração com o ambiente, não como serviço de luxo convencional.
Os tratamentos utilizam ingredientes locais do Atacama — argila, sal, ervas nativas — e seguem a lógica dos elementos ancestrais que organizam a cosmologia atacamenha. O temazcal, como já descrito, é a âncora ritualística do programa.
A piscina existe e funciona como ponto de convergência social — mas o Trivago alerta honestamente que a água não é aquecida, o que limita o uso nos meses mais frios do inverno andino (junho, julho, agosto) quando as noites chegam perto de 0°C e os dias, mesmo com sol intenso, não passam muito de 15°C. Para quem planeja a viagem para esses meses — que são os melhores para astronomia —, vale saber que a piscina pode não ser um recurso disponível no mesmo sentido que seria em novembro ou dezembro.
Sustentabilidade: quase carbono neutro e operação consciente
A Our Habitas opera com um compromisso de sustentabilidade que vai além da declaração de intenção. A propriedade do Atacama é descrita pela própria rede como quase carbono neutra — resultado de uma combinação de fontes de energia renováveis, escolha de fornecedores locais, gestão de resíduos e práticas de construção que reduzem o impacto sobre o solo e a água.
O jardim de ervas nativas que abastece o restaurante Almas não é uma horta decorativa — é parte de um sistema de produção que reduz o transporte de insumos e mantém variedades locais que estão sumindo das práticas culinárias da região. O uso de madeira local, adobe e materiais da terra nas construções evita a cadeia de emissões de materiais industrializados.
A filosofia da rede — sintetizada na frase do CEO Oliver Ripley, “queríamos criar uma sensação de casa e pertencimento” — carrega implicitamente uma responsabilidade com o lugar que acolhe essa casa. No Atacama, onde a fragilidade do ecossistema é radical e visível, essa responsabilidade tem peso extra.
Para quem é o Our Habitas Atacama — e quem deve considerar outras opções
O Habitas Atacama é para o viajante que não quer apenas ver o Atacama — quer sentir o Atacama. Que prefere uma sessão de cura sonora a uma spa com carta de tratamentos de cinco páginas. Que vai jantar no Almas e perguntar de onde veio o chañar antes de provar a mousse. Que vai acordar cedo não porque o tour parte às 4h30, mas porque quer fazer yoga antes do sol nascer sobre os vulcões.
É para casais que buscam algo com mais alma do que estrutura. Para grupos de amigos que querem uma experiência coletiva real — não um hotel onde cada um some para o próprio quarto. Para viajantes que já estiveram nos grandes lodges do Atacama e querem agora algo diferente em tom e abordagem.
Não é, por outro lado, para quem precisa de um spa aquecido no inverno, de um portfólio extenso de excursões curadas com guias em português, ou de uma estrutura all-inclusive com tudo decidido de antemão. Há hotéis em San Pedro que servem melhor esses perfis — e servem muito bem.
O que o Habitas Atacama entrega de forma única é aquela qualidade que o Guia Michelin nomeou com precisão: recluso. Um hotel que exige um esforço mínimo de descoberta apenas para ser encontrado — e recompensa esse esforço com uma experiência que, segundo quem esteve lá, não cabe bem em nenhuma categoria convencional de hospedagem.