Os Melhores Bares Para Conhecer em Veneza

Roteiro completo pelos melhores bacari de Veneza com os pratos típicos de cada casa, preços, horários e o caminho exato para fazer um tour gastronômico autêntico pela cidade dos canais.

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Existe uma Veneza que os guias turísticos ignoram. Ela não está na Praça de São Marcos lotada de selfies, nem na fila interminável da Ponte Rialto. Ela está escondida atrás de balcões de madeira escura, em vielas estreitas onde o cheiro de vinho se mistura com fritura e onde os venezianos de verdade começam o fim da tarde com um copo na mão e um cicchetto no prato.

Essa Veneza se chama bacaro. E conhecer os bacari é entender a alma da cidade.

O Que É Um Bacaro e Por Que Isso Importa

Bacaro é a palavra veneziana para uma taverna tradicional. Pequena, muitas vezes apertada, com um balcão repleto de pequenas porções de comida expostas em vitrines de vidro. Não existe garçom. Não existe cardápio impresso. Você aponta para o que quer, o atendente anota mentalmente ou num pedaço de papel, e no final você paga tudo junto.

A comida servida nos bacari se chama cicchetti. São pequenas porções, o equivalente veneziano das tapas espanholas. Podem ser sanduíches pequenos, bolinhos fritos, peixe marinado, crostini com toppings variados, ovos cozidos temperados, ou fatias de polenta com bacalhau cremoso. Cada casa tem sua especialidade e sua identidade.

A bebida que acompanha os cicchetti tem nome específico também. Chama-se ombra, que significa “sombra” em veneziano. O nome vem de uma tradição antiga: os comerciantes de vinho na Praça de São Marcos seguiam a sombra do campanário ao longo do dia para manter os barris de vinho frescos. Uma ombra é um copo pequeno, cerca de 100 ml, de vinho da casa. Custa entre 1 e 2 euros.

Existe também o spritz, que nasceu em Veneza. O original veneziano não é feito com Aperol, mas com Select, um aperitivo mais seco e amargo que o Aperol. O Spritz al Select é o que os locais bebem. O Aperol Spritz é a versão turístificada, mas ainda assim muito gostosa.

Fazer um bacaro tour significa ir de bar em bar, pedindo uma ombra ou um spritz em cada um e provando os cicchetti da casa. Não é uma refeição formal. É uma experiência social, um ritual de fim de tarde que os venezianos praticam há séculos. O ideal é começar por volta das 18h e ir devagar, staying de 10 a 15 minutos em cada casa.

Os 12 Bacari do Tour

O mapa do Venetian Bacaro Tour, compilado pela TasteAtlas, traça um roteiro que passa por doze dos bacari mais respeitados de Veneza. Cada um tem sua especialidade e seu charme. Vamos percorrer esse caminho.

Cantina Do Mori

Fundada em 1462, a Cantina Do Mori é o bacaro mais antigo de Veneza. Duzentos anos antes de Colombo chegar às Américas, essa taverna já servia vinho nas vielas do bairro de San Polo. Diz a lenda que Giacomo Casanova era frequentador assíduo, e a arquitetura do lugar explica por quê: são duas entradas, uma na Calle Do Mori e outra na Calle Galeazza. Casanova supostamente usava uma para entrar e a outra para sair discretamente.

O interior parece um cenário de filme. Barris de vinho virados de cabeça para baixo servem de mesa, panelas de cobre pendem do teto, garrafões de vinho decoram as paredes. Não existem cadeiras. O balcão longo de madeira é o coração do lugar.

A especialidade da casa são os francobolli, sanduíches quadrados sem crosta recheados generosamente. O nome vem do tamanho, que lembra um selo postal, embora na prática sejam bem maiores que um selo. Os recheios variam: presunto com maionese e ovo cozido, porco com radicchio, gorgonzola com presunto e speck, atum com cebola.

A Cantina Do Mori abre às 8h da manhã e fecha às 19h30. Só aceita dinheiro em espécie. Fechada aos domingos. Chegue antes das 18h30 se quiser ter boa variedade de cicchetti.

Osteria All’Arco

A poucos passos da Cantina Do Mori, perto do Mercado de Rialto, fica a Osteria All’Arco. É um bacaro de família, comandado por Francesco e Matteo Pinto, pai e filho. Funciona apenas no horário do almoço, das 8h às 14h30, fechado aos domingos.

A especialidade aqui são as sarde in saor, sardinhas marinadas com cebola, uva-passa e pinoli. É um dos pratos mais tradicionais da culinária veneziana, com raízes que remontam à época das grandes navegações, quando os marinheiros precisavam conservar o peixe durante longas viagens. O sabor é agridoce, intenso, viciante.

O baccalà mantecado também é obrigatório. É um creme de bacalhau batido com azeite até ficar aerado e sedoso, servido sobre uma fatia de polenta ou pão tostado. A textura é surpreendente, quase como uma mousse salgada.

Chegue entre 11h30 e 13h para pegar os cicchetti de peixe no ponto máximo de frescor, já que a osteria fica ao lado do mercado pesqueiro.

Bar All’Arco

Atenção para não confundir. A Osteria All’Arco e o Bar All’Arco são estabelecimentos diferentes, embora os nomes sejam parecidos e fiquem na mesma região. O Bar All’Arco também é famoso pelas sarde in saor e pelo Aperol Spritz bem servido. É uma parada rápida no roteiro, ideal para quem quer variar os sabores sem sair do bairro de San Polo.

Al Mercà

Bem na região do mercado, o Al Mercà é o tipo de bacaro que você entra sem perceber e sai satisfeito sem entender direito o que aconteceu. A especialidade são os panini, sanduíches simples mas bem feitos, acompanhados de um bom Aperol Spritz. É um lugar de passagem, perfeito para uma parada rápida no meio do tour.

Rosticceria Gislon

A Rosticceria Gislon fica perto da Ponte Rialto e tem uma especialidade que merece atenção: a mozzarella in carrozza. São fatias de pão com mozzarella no meio, empanadas e fritas. O queijo derrete, o pão fica crocante, e a combinação é reconfortante de um jeito que só comida de rua consegue ser.

Aqui o spritz é feito com Select, o aperitivo original veneziano. É mais seco e menos doce que o Aperol, com um amargor que combina perfeitamente com a gordura da mozzarella frita. Se você quer experimentar o spritz como os venezianos bebem de verdade, esse é o lugar.

Enoteca Al Volto

A Enoteca Al Volto é uma das mais tradicionais do bairro de San Marco. O baccalà mantecado da casa é servido com vinho Friulano, uma uva branca típica do nordeste da Itália que tem uma mineralidade interessante. O contraste entre o creme suave do bacalhau e a acidez do Friulano funciona muito bem.

O ambiente é pequeno e costuma estar cheio. É daqueles lugares onde você divide espaço no balcão com desconhecidos e sai conversando com eles. Faz parte da experiência.

Cantina del Vino già Schiavi

A Cantina del Vino già Schiavi, frequentemente chamada apenas de “Al Schiavi”, fica perto da Ponte dell’Accademia, no bairro de Dorsoduro. É uma das paradas mais populares do tour e costuma ter fila nos horários de pico.

A especialidade são os crostini, fatias de pão tostado com diversos toppings, acompanhados de Prosecco. O Prosecco é a bebida da região do Vêneto e aqui ele é servido jovem, fresco e borbulhante. A combinação de crostini variados com Prosecco gelado é uma das experiências mais prazerosas que Veneza oferece.

A vista do canal ao lado da cantina é um bônus. Muitos clientes comem em pé na calçada, de frente para a água, com a Ponte dell’Accademia ao fundo.

Osteria Al Squero

A Osteria Al Squero fica de frente para um squero, que é um estaleiro tradicional de gôndolas. É um dos poucos lugares em Veneza onde você pode observar artesãos construindo e reparando gôndolas enquanto come.

Os crostini aqui são excelentes e o Aperol Spritz é bem preparado. O ambiente é animado, especialmente no fim da tarde, quando os trabalhadores do squero terminam o expediente e param para um drink. É uma Veneza autêntica, longe dos circuitos turísticos convencionais.

El Sbarlefo San Pantalon

No bairro de Dorsoduro, perto do Campo San Pantalon, o El Sbarlefo é um bacaro de bairro, frequentado por moradores locais. O baccalà mantecado é servido com vinho da casa, uma ombra generosa. Os preços são honestos e o ambiente é descontraído.

O Campo San Pantalon é uma das praças mais agradáveis de Veneza para sentar e observar a vida local. Crianças brincando, idosos conversando, gatos dormindo nas escadarias. Depois do bacaro, vale a pena ficar um pouco por ali.

Osteria della Rivetta

A Osteria della Rivetta tem uma especialidade diferente das outras: o meso ovo, que é um ovo cozido temperado de forma simples mas deliciosa. Parece pouco, mas a execução faz toda a diferença. O ovo é cozido no ponto exato, temperado com azeite, sal e às vezes anchova.

A ombra di bianco, o copo de vinho branco da casa, é a combinação perfeita. É uma parada minimalista no tour, mas que demonstra como a simplicidade bem feita é a essência da culinária veneziana.

Osteria da Filo

A Osteria da Filo é famosa pelas polpette, bolinhos fritos que podem ser de carne, peixe ou vegetais. São crocantes por fora, macios por dentro, e viciantes. O Aperol Spritz aqui é servido no ponto certo, com o equilíbrio entre amargo e doce que define um bom spritz.

Vecia Carbonera

A Vecia Carbonera fecha o roteiro com chave de ouro. O baccalà mantecado da casa é considerado um dos melhores de Veneza, e o Aperol Spritz é a despedida perfeita para o tour. O ambiente é acolhedor, com aquele ar de taverna antiga que faz você querer ficar mais uma rodada.

Os Pratos Que Você Precisa Conhecer

Fazer um bacaro tour sem saber o que está comendo é como visitar um museu sem ler as placas. Cada prato tem uma história, uma razão de existir, uma tradição por trás.

O baccalà mantecado é provavelmente o cicchetto mais emblemático de Veneza. É feito com bacalhau seco que é demolhado por dias, depois cozido e batido vigorosamente com azeite de oliva até virar um creme aerado. O nome “mantecado” vem do processo de bater, que incorpora ar e gordura na mistura. O resultado é um creme sedoso, salgado, com sabor intenso de mar, servido sobre polenta ou pão tostado.

As sarde in saor têm uma história fascinante. “Saor” significa sabor em veneziano, mas também se refere ao processo de marinada que conserva o peixe. As sardinhas são fritas e depois marinadas com cebola caramelizada, uva-passa, pinoli e vinagre. O sabor agridoce reflete a influência do comércio veneziano com o Oriente, onde especiarias e combinações doces e salgadas eram comuns. Esse prato nasceu da necessidade de conservar alimentos para longas viagens marítimas e virou um ícone da culinária local.

As polpette são bolinhos fritos que variam de casa para casa. Podem ser de carne moída, de bacalhau, de vegetais. A massa é temperada com ervas, alho e às vezes queijo, depois empanada e frita até ficar dourada. São confortantes e universais.

A mozzarella in carrozza é uma invenção simples e genial. Duas fatias de pão com mozzarella no meio, passadas no ovo e fritas. O nome “in carrozza” significa “de carruagem”, e dizem que vem do formato que lembra uma carruagem fechada. É comida de conforto no seu estado mais puro.

Os crostini são fatias de pão tostado com diversos toppings. Podem ter patê de fígado, creme de anchova, tomate e manjericão, ou combinações mais elaboradas. São a tela em branco da criatividade de cada bacaro.

O francobollo da Cantina Do Mori merece menção à parte. São sanduíches quadrados sem crosta, recheados com combinações frias de frios, queijos, atum, ovos. O nome vem do formato quadrado que lembra um selo. São uma instituição em Veneza e a Cantina Do Mori é o melhor lugar para prová-los.

Como Fazer o Tour na Prática

O roteiro do mapa começa perto da Ponte Rialto e desce em direção ao bairro de Dorsoduro, terminando perto da Ponte dell’Accademia. É um caminho lógico que você pode fazer a pé em uma tarde.

Comece pela Cantina Do Mori no final da tarde, por volta das 17h30 ou 18h. Peça um francobollo e uma ombra de vinho tinto. Fique 10 ou 15 minutos, observe o ambiente, converse com o atendente se possível.

Caminhe até a Osteria All’Arco ou o Bar All’Arco. Peça as sarde in saor e um Aperol Spritz. Se ainda for cedo e o All’Arco estiver fechado, pule para o Al Mercà e peça um panini.

Siga em direção à Rosticceria Gislon. Peça a mozzarella in carrozza e um Spritz al Select. Essa é sua chance de experimentar o spritz original veneziano.

Continue até a Enoteca Al Volto. Baccalà mantecado com Friulano. Uma combinação que vale a pausa.

Desça em direção à Cantina del Vino già Schiavi. Crostini variados e Prosecco. Se houver fila, vale a pena esperar. O ambiente ao lado do canal é parte da experiência.

Passe pela Osteria Al Squero e observe os artesãos do squero trabalhando. Crostini e Aperol Spritz com vista para o estaleiro.

Suba até o El Sbarlefo San Pantalon. Baccalà mantecado e ombra di bianco. Aproveite o Campo San Pantalon depois.

Passe pela Osteria della Rivetta para o meso ovo e mais uma ombra.

Pela Osteria da Filo, polpette e Aperol Spritz.

Termine na Vecia Carbonera com o baccalà mantecado final e um último Aperol Spritz.

O tour todo leva entre 3 e 4 horas se você for com calma. O gasto médio fica entre 15 e 25 euros por pessoa, dependendo de quanto você bebe e come em cada parada. É uma das experiências mais completas e autênticas que Veneza oferece, e custa uma fração do que você gastaria em um restaurante formal.

Dicas Para Não Errar

Vá cedo. Os melhores bacari fecham entre 19h30 e 20h. Alguns, como a Osteria All’Arco, fecham às 14h30 e só reabrem no dia seguinte. Se você chegar às 20h, vai encontrar a maioria fechada ou com os cicchetti acabados.

Leve dinheiro em espécie. Muitos bacari tradicionais não aceitam cartão. A Cantina Do Mori, por exemplo, só trabalha com dinheiro. Ter euros na carteira evita constrangimentos.

Não tenha pressa. O bacaro tour não é uma corrida. É um ritual social. Fique 10 ou 15 minutos em cada casa, observe o ambiente, converse, absorva a atmosfera.

Vá com fome moderada. Se você estiver com muita fome, vai querer sentar em um restaurante. Se estiver com pouca fome, não vai aproveitar os cicchetti. O ideal é estar levemente faminto, na aquela condição de quem belisca com prazer.

Não reserve. Bacari tradicionais não aceitam reservas. É chegar, entrar, pedir e pagar. A espontaneidade faz parte da experiência.

Fique em pé no balcão. Sentar em um bacaro é coisa de turista. Os locais comem em pé, encostados no balcão, com o copo na mão. Faz parte do ritual.

Aponte para o que você quer. Não existe cardápio na maioria dos bacari. Os cicchetti estão expostos na vitrine. Aponte, o atendente anota, e no final ele soma tudo.

Pergunte o que é fresco do dia. Um “cosa c’è oggi?” (o que tem de bom hoje?) demonstra interesse e pode render recomendações especiais que não estão expostas.

O Que Beber em Cada Parada

A escolha da bebida muda a experiência. Aqui vai um guia rápido do que pedir em cada tipo de situação.

Ombra di bianco é vinho branco da casa, servido em copo pequeno. É a opção mais tradicional e mais barata. Combina com cicchetti de peixe e frutos do mar.

Ombra di rosso é a versão com vinho tinto. Combina com polpette de carne, frios e queijos.

Aperol Spritz é o aperitivo mais famoso de Veneza, feito com Aperol, Prosecco e água com gás. É doce, refrescante, fácil de beber. Combina com quase tudo, especialmente frituras.

Spritz al Select é o original veneziano, feito com Select em vez de Aperol. É mais seco, mais amargo, menos doce. Combina com mozzarella in carrozza e pratos mais gordurosos.

Prosecco é o espumante da região. Combina com crostini e é perfeito para celebrar o tour.

Friulano é um vinho branco seco e mineral da região do Friuli. Combina perfeitamente com baccalà mantecado.

Veneza Através do Paladar

Fazer um bacaro tour é uma das formas mais profundas de conhecer Veneza. Você não está apenas comendo. Está participando de um ritual que os venezianos praticam há séculos. Está entendendo por que essa cidade, construída sobre estacas de madeira no meio de uma lagoa, desenvolveu uma cultura gastronômica tão específica e tão rica.

Cada bacaro conta uma história. A Cantina Do Mori, com seus 560 anos de existência, viu Veneza passar de república marítima poderosa a destino turístico global. A Osteria All’Arco, ao lado do mercado de peixes, reflete a relação íntima da cidade com o mar. A Rosticceria Gislon, com seu spritz al Select, preserva a identidade veneziana contra a padronização do Aperol.

E no final do tour, quando você termina o último copo na Vecia Carbonera e sai cambaleando levemente pelas vielas escuras de Veneza, com o estômago cheio de sabores e a cabeça cheia de impressões, você entende que essa cidade não se conhece apenas com os olhos. Ela se conhece com o paladar.

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