Os Caminhos Alternativos até Santiago de Compostela

Enquanto o Caminho Francês recebe centenas de milhares de peregrinos por ano, três rotas pelas regiões cantábricas da Espanha oferecem paisagens de tirar o fôlego, história densa e uma experiência de peregrinação muito mais autêntica e solitária, mas que exigem preparo físico de verdade.

Foto de Daciana Cristina Visan: https://www.pexels.com/pt-br/foto/rua-medieval-encantadora-em-olite-espanha-32470385/

Existe um momento, quando você começa a pesquisar sobre o Caminho de Santiago, em que o Caminho Francês parece ser a única opção. Ele é o mais famoso, o mais documentado, o mais cheio de gente. E é justamente por isso que uma parcela crescente de peregrinos tem buscado alternativas. Não por esnobismo. Mas porque o Caminho, em sua essência, é sobre o silêncio, o esforço, o encontro com a própria cabeça, e esses elementos ficam cada vez mais difíceis de encontrar quando você está numa fila de albergue às seis da manhã brigando por uma cama.

As três rotas que vou apresentar aqui passam pelas regiões cantábricas do norte da Espanha. São itinerários que percorrem o País Basco, a Cantábria, as Astúrias e a Galícia, exibindo uma natureza exuberante, montanhas médias e uma carga histórica que impressiona. São caminhos com grandes cidades e pequenas localidades de caráter marineiro e pesqueiro. E têm uma característica que logo chama a atenção no mapa: pelo menos quatro vezes ao longo da jornada, o peregrino precisa cruzar rias, algumas delas por barca, o que evita enormes desvios pelo interior e adiciona um charme peculiar ao trajeto. Esses traversios de barca acontecem em pontos como Pasai Donibane, Getxo-Portugalete, Somo-Santander e Tina Mayor.

Mas antes de entrar nas rotas em si, tem um ponto prático que não dá para ignorar.


O que você precisa saber antes de sair andando

Travessias a pé de longa duração têm uma lógica própria. Os requisitos são sempre os mesmos: estabelecer rotinas fixas, sair cedo pela manhã, andar com ritmo firme nas primeiras horas, parar antes que o corpo exija, hidratar-se continuamente. Parece simples. E é. O problema é que a maioria das pessoas que tenta o Caminho pela primeira vez ou anda rápido demais tentando compensar os dias, ou anda lento demais e chega nos albergues sem vagas.

A dica mais honesta que consigo dar é esta: não sobrecarregue o corpo. O ritmo ideal é aquele que te deixa cansado, mas não destruído. Você deve ter energia suficiente para jantar sentado, conversar com quem está do lado e dormir de verdade, não apenas desmaiar de exaustão.

As três rotas cantábricas têm albergues públicos e privados bem servidos no geral, mas os alojamentos costumam estar nos pueblos, nas vilas, não sempre no meio das etapas. E em muitos trechos, os albergues privados são os únicos disponíveis, sem necessariamente oferecer mais serviços. Então pesquise antes de sair, especialmente no inverno, porque há albergues que fecham nos meses frios, inviabilizando trecho inteiros da rota.

Sobre o que levar: botas confortáveis com algum nível de impermeabilidade, roupas de frio para a manhã e para os dias de chuva, proteção solar, mochila leve. A regra não oficial do Caminho diz que a mochila não deve ultrapassar 10% do seu peso corporal. É um bom parâmetro.

E a credencial, claro. Esse documento, que funciona como um passaporte do peregrino, precisa ser carimbado ao longo do trajeto para que você possa se hospedar nos albergues públicos e, no final, solicitar a Compostela na Catedral de Santiago. Sem ela, tecnicamente, você não recebe o certificado de conclusão.


Caminho Primitivo: o mais antigo de todos

Se existe uma rota que merece o título de “original”, é o Caminho Primitivo. Foi por aqui que o Rei Afonso II das Astúrias partiu de Oviedo para se dirigir a Santiago de Compostela após o anúncio da descoberta dos restos mortais do Apóstolo. Daí vem o nome. Esta foi a primeira rota de peregrinação jacobeia a se consolidar, e por esse motivo ela recebe o nome de Primitivo: não é uma simplificação, é um título de honra.

O início é na Catedral de Oviedo, cidade que já vale por si mesma uma visita bem aproveitada. Dali, o caminho segue por 11 etapas até Melide, onde percorre mais 253,2 quilômetros antes de conectar com o Caminho Francês, adicionando ainda 2 dias de caminhada até Santiago, num total de cerca de 53,4 quilômetros adicionais. Para quem quer fazer o percurso completo de Oviedo a Santiago de Compostela, o trajeto tem cerca de 317 quilômetros divididos em 14 etapas.

E aqui vai um aviso que não aparece em todo guia: este é um caminho difícil. O terreno é muito montanhoso. Obriga a constantes subidas e descidas, em boa parte por terrenos enlameados, especialmente depois de chuva, o que nas Astúrias é o estado natural das coisas. A etapa mais longa, entre O Cádavo e Lugo, tem 29,5 quilômetros, e o acumulado de desnível ao longo de todo o percurso é considerável. A construção da autoestrada A-63, em anos recentes, alterou o visual do início da rota, mas isso é rapidamente esquecido quando a paisagem aberta e verde das montanhas asturianas toma conta.

O Caminho Primitivo é, também, um dos menos frequentados. Isso tem dois lados. Pelo lado bom, você anda em silêncio, sem multidões, com tempo para pensar e observar. Há momentos em que o caminho parece exclusivamente seu. Pelo lado que exige atenção: os serviços são mais espaçados, você pode cruzar com apenas uma dúzia de outros caminhantes por dia inteiro, e há poucos recursos para emergências nos trechos mais isolados. Para peregrinos experientes, isso é parte do charme. Para iniciantes, exige planejamento redobrado.

É bem equipado com albergues ao longo do trajeto, o que significa que não há jornadas excessivamente longas sem opção de parada. Mas a beleza dessa rota está justamente na alternativa mais selvagem que ela oferece ao Caminho Francês. É considerada por muitos a rota com maior qualidade paisagística de todo o Caminho de Santiago.

No inverno, as condições se agravam bastante. O terreno enlameado vira neve em algumas etapas, e a travessia pode se tornar impraticável. Não é exagero: é o que dizem os próprios guias oficiais. Se a ideia é fazer o Primitivo em dezembro ou janeiro, a preparação precisa ser outra.


Caminho del Salvador: curto, duro e subestimado

O Caminho del Salvador é, de longe, o menor dos três. Começa em León e termina em Oviedo, onde conecta diretamente com o Caminho Primitivo. São apenas 6 etapas e aproximadamente 119,4 quilômetros no total. A etapa mais longa é logo a primeira, até La Robla, com 27,2 quilômetros.

O nome vem da Catedral del Salvador, em Oviedo. Durante a Idade Média, muitos peregrinos que chegavam a León pelo Caminho Francês escolhiam fazer um desvio até Oviedo justamente para visitar a basílica. Era um ato de devoção. E assim essa variante ganhou vida própria e nome próprio.

Hoje, apesar do curto percurso, o Salvador não é um caminho fácil. Para chegar de León a Oviedo, é preciso cruzar a Cordilheira Cantábrica, atravessando coladas que chegam a 1.600 metros de altitude. Não é alpinismo, mas tampouco é uma caminhada de domingo. A recompensa está bem diante dos olhos: paisagens solitárias e de grande beleza, com aquele silêncio específico das altitudes, onde o vento toma o lugar de qualquer som humano.

A rede de albergues funciona razoavelmente bem, mas os alojamentos muitas vezes estão nos pueblos pequenos, sem serviços extras. Para quem está acostumado com a infraestrutura do Caminho Francês, pode parecer rustico demais. Para quem busca exatamente isso, é perfeito.

É uma rota indicada para montanhistas e peregrinos experientes, sem nenhum exagero nessa descrição. Não é vano que se cruze os Picos de Europa nesse trajeto: a beleza é proporcional à exigência. É considerado duro e só recomendável durante o verão ou no início do outono. O viajante de inverno que se aventurar por aqui sem experiência vai encontrar neve, gelo e ausência de estrutura para emergências.

Uma boa forma de usar o Salvador é como etapa de conexão. Muitos peregrinos fazem o Caminho Francês até León, desviam para Oviedo pelo Salvador e então continuam por uma das alternativas cantábricas. Isso transforma o percurso em algo único, com três rotas diferentes conectadas numa mesma viagem.


Caminho del Norte: a beleza costeira que ninguém esquece

O Caminho del Norte é, das três rotas aqui descritas, a mais longa e talvez a mais visualmente generosa. Percorre toda a cornisa cantábrica pelos caminhos litorâneos, do País Basco à Galícia, atravessando a Cantábria e as Astúrias. O início é em Irun, cidade guipuzcoana na fronteira com a França, e o trajeto total pelo caminho tradicional tem cerca de 778,5 quilômetros antes de conectar em Arzúa com o Caminho Francês, com mais 2 etapas até Santiago.

Existe uma sedução específica no Norte. As praias, os faróis, o vento do Cantábrico, os portos pesqueiros. É a alternativa mais bela para quem a apressada frequência do Caminho Francês já não satisfaz mais. Cada vez mais peregrinos migram para ele, buscando paisagens sempre verdes e uma conexão com a Galícia que nenhum outro trajeto oferece da mesma forma.

Mas convém ser honesto sobre a dificuldade. O Norte ainda não tem uma infraestrutura tão abundante quanto o Francês. Os albergues abrem cada vez mais, mas ainda não são abundantes em alguns trechos. Isso obriga a etapas às vezes maiores do que o desejado, tornando o caminho inapropriado para pessoas sem preparo físico. A jornada mais longa chega a 39,8 quilômetros, entre Baamonde e Sobrado dos Monxes. E há pelo menos quatro etapas que ultrapassam 30 quilômetros de extensão.

Para ter uma ideia do volume de opções: são 33 etapas no total pelo caminho tradicional que passa por Gijón, uma cidade com alma industrial mas com uma orla bonita que surpreende quem chega esperando apenas uma rota de passagem.

O Caminho del Norte tem variantes interessantes. Quem passa por Oviedo pode escolher entre conectar com o Caminho Primitivo ou seguir pelo chamado Caminho Histórico de Vegadeo, cada um com lógica própria e ambos com passagens por paisagens que ficam na memória por muito tempo.


Uma comparação prática entre as três rotas

RotaInícioDistância TotalEtapasDificuldade
Caminho PrimitivoOviedo~317 km14Alta
Caminho del SalvadorLeón~119 km6Alta
Caminho del NorteIrun~778 km33Moderada a Alta

O que essas três rotas têm em comum

Além da geografia cantábrica, o que une essas três alternativas é uma espécie de resistência ao turismo em massa. Quem faz o Primitivo, o Salvador ou o Norte ainda está, em grande medida, fazendo o Caminho de Santiago de uma forma que se aproxima muito mais do que era no seu início medieval: uma jornada longa, desconfortável em partes, silenciosa, capaz de mudar o jeito de pensar sobre distância e tempo.

O peregrino que passa semanas nessas rotas aprende, na prática, que uma etapa de 30 quilômetros com chuva e frio pode ser mais reveladora do que dez dias num resort. Não porque o sofrimento seja um fim em si mesmo. Mas porque há algo na repetição diária de colocar as botas, carregar a mochila e dar o primeiro passo que reorganiza internamente tudo o que parecia fixo.

E é justamente isso que o Caminho Francês, com toda sua infraestrutura e eficiência, às vezes já não consegue mais oferecer. Não por culpa dele. Mas porque o sucesso tem um preço, e o preço do sucesso do Caminho Francês é o barulho.

Essas três rotas ainda são, em grande parte, silenciosas. E isso, no mundo atual, vale muito mais do que qualquer conforto extra.

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