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Os 6 Destinos de Mergulho Mais Extraordinários do Mundo

De recifes caleidoscópicos em Fiji até passagens tomadas por tubarões na Polinésia Francesa, a BBC Travel reuniu os seis destinos de mergulho mais impressionantes do planeta em 2026, selecionados pela jornalista Terry Ward, que já acumulou mais de 500 mergulhos em todos os continentes exceto a Antártida.

Foto de Leigh Williams: https://www.pexels.com/pt-br/foto/mar-casas-residencias-praia-19899369/

Mergulho deixou de ser só um item extra no roteiro. Para um número crescente de viajantes, virou o motivo da viagem — aquela razão única pela qual se atravessa meio mundo, encara escala tripla e passa horas num barco balançando no alto-mar. A BBC Travel publicou em abril de 2026 uma matéria assinada pela jornalista Terry Ward, colunista da Scuba Diving Magazine e mergulhadora há três décadas, elegendo os seis destinos mais extraordinários do planeta para quem coloca o regulador na boca e desaparece abaixo da linha d’água.

Os números ajudam a entender o tamanho do movimento. A PADI, principal certificadora de mergulho do mundo, emite mais de um milhão de certificações por ano. Desde a retomada das viagens no pós-pandemia, a PADI registrou um salto de 50% nos mergulhadores que avançaram para a certificação Advanced Open Water — ou seja, gente que não se contentou com o curso básico e quis ir além. Kristin Valette Wirth, diretora da PADI Worldwide citada pela BBC, resume bem: “O mergulho muda fundamentalmente a forma como as pessoas viajam e experimentam um destino.”

E aqui vai uma verdade sobre mergulho que poucos guias dizem: os melhores lugares do mundo raramente são os mais convenientes. Exigem voos longos, deslocamentos de barco e, muitas vezes, orçamento considerável. Mas também devolvem uma experiência que nenhum outro tipo de viagem entrega. A seguir, os seis destinos que entraram na lista da BBC e o que esperar de cada um.

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1. Fiji: o reino dos corais moles e dos recifes caleidoscópicos

Fiji é o tipo de destino que aparece em praticamente toda lista séria de mergulho há décadas — e continua aparecendo por um motivo simples: ninguém faz corais moles como o arquipélago fijiano. O epíteto oficial do país no meio do mergulho é “Soft Coral Capital of the World”, a capital mundial dos corais moles. Título merecido.

O que diferencia Fiji é a explosão de cor. Enquanto muitos recifes ao redor do mundo têm uma paleta mais tímida, os recifes fijianos parecem ter sido pintados com todos os tons possíveis — rosa-choque, laranja-vivo, roxo, amarelo-limão. A razão está nas correntes ricas em nutrientes que banham a região, especialmente na Somosomo Strait, entre as ilhas Vanua Levu e Taveuni. Ali fica o lendário Rainbow Reef, visita obrigatória para qualquer mergulhador.

A Great White Wall, dentro do Rainbow Reef, é a operação mais famosa: uma parede vertical coberta de coral mole branco luminescente que, sob luz azul filtrada da profundidade, cria uma cena difícil de descrever sem soar exagero. É daquelas coisas que justificam sozinhas a viagem.

Além dos corais, Fiji tem tubarões. A costa sul de Viti Levu, especialmente na região de Beqa Lagoon, oferece mergulhos com oito espécies diferentes de tubarões, incluindo o impressionante tubarão-touro. Operadoras locais fazem esse tipo de mergulho há anos, com protocolos bem estabelecidos.

Pontos práticos: melhor época entre abril e outubro (estação seca, visibilidade maior). Os liveaboards — aqueles barcos-hotel onde você passa a semana inteira mergulhando — são a melhor forma de aproveitar. Preços não são baixos, mas Fiji entrega o que promete.

2. Polinésia Francesa: a “avenida dos tubarões” em Fakarava

Se Fiji é cor, a Polinésia Francesa é adrenalina. A BBC destaca especificamente as “passagens cheias de tubarões” (shark-packed passes) como um dos grandes chamarizes do arquipélago. E a estrela absoluta é Fakarava, um atol do arquipélago Tuamotu que faz parte de uma reserva de biosfera da Unesco.

O chamado South Pass de Fakarava, também conhecido como Tetamanu, é provavelmente a maior concentração documentada de tubarões-cinza de recife do mundo. Estima-se que mais de 700 tubarões vivam naquele canal estreito, alimentando-se principalmente dos peixes que passam com a maré entrando e saindo da lagoa. Fazer um drift dive — mergulho de deriva — por ali é como flutuar no meio de um rio que tem tubarões em vez de peixes comuns.

Parece assustador. Na prática, os tubarões-cinza não se interessam por humanos. Eles nadam em círculos, se organizam em cardumes lentos e basicamente ignoram os mergulhadores. Como escreveu a própria Terry Ward em matéria anterior para a National Geographic sobre esse mesmo local, a experiência é contemplativa, quase hipnótica — não o circo de adrenalina que o senso comum imagina.

Além de Fakarava, a Polinésia Francesa tem outros trunfos: Rangiroa, com seu Tiputa Pass famoso pelos golfinhos residentes; Moorea, com suas águas rasas e jubartes visitantes entre julho e outubro; e Tikehau, mais calma, cheia de raias-manta.

Observação honesta: a logística é complicada e cara. Do Brasil, são normalmente três trechos de voo até chegar em Papeete, mais voos internos até os atóis. Uma semana num liveaboard nos Tuamotus dificilmente sai por menos de 3.500 dólares só a parte do barco. É viagem para momento especial, para comemorar algo grande.

3. Raja Ampat, Indonésia: a maior biodiversidade marinha do planeta

Raja Ampat é um nome que todo mergulhador sério escuta cedo ou tarde. Localizado na província indonésia da Papua Ocidental, o arquipélago de mais de 1.500 ilhas fica no coração do chamado Triângulo de Coral — a região com maior biodiversidade marinha já registrada no planeta. Os números são absurdos: mais de 1.300 espécies de peixes, 600 espécies de corais duros (três quartos de todas as espécies conhecidas no mundo) e uma quantidade de vida pequena e exótica que transforma qualquer mergulho em um documentário da BBC Earth.

O que impressiona em Raja Ampat não é só a quantidade, é a densidade. Num único mergulho, é comum ver cardumes gigantes de barracudas, tartarugas, tubarões-de-ponta-branca, raias-manta, polvos-mímicos, cavalos-marinhos-pigmeus e espécies que a ciência descreveu há poucos anos.

A região de Misool, ao sul, é considerada a joia da coroa. A Misool Eco Resort virou referência mundial em turismo de conservação — a operação comprou direitos de pesca de uma área enorme ao redor da ilha e transformou tudo em reserva marinha, com resultados mensuráveis de recuperação de biodiversidade.

Ao norte, Dampier Strait oferece mergulhos com correntes fortes, ideais para quem já tem experiência. Cape Kri, na ilha de Kri, detém o recorde mundial de maior número de espécies de peixes contadas em um único mergulho: 374 espécies, em pouco mais de uma hora embaixo d’água.

Pontos práticos: melhor época entre outubro e abril. Para chegar, voe até Sorong (com escalas via Jacarta ou Makassar) e depois tome um barco. Os liveaboards são quase obrigatórios para acessar os pontos mais remotos.

4. Palau: lagos marinhos isolados e paredões de coral

Palau é aquele destino que mergulhador com mais tempo de estrada cita com respeito quase religioso. A pequena nação insular da Micronésia, a leste das Filipinas, tem uma combinação geográfica incomum: mais de 500 ilhas calcárias em formato de cogumelo, paredões verticais que descem a centenas de metros e os famosos lagos marinhos isolados — reservatórios de água salgada conectados ao mar por fendas subterrâneas, que evoluíram com espécies únicas.

O Jellyfish Lake, na ilha de Eil Malk, é a atração mais conhecida. Milhões de águas-vivas douradas — que perderam o veneno ao longo da evolução por falta de predadores — se movem diariamente com o sol, criando um cenário onde você nada literalmente cercado por elas sem qualquer risco. A atração é feita com snorkel, não com cilindro (o mergulho autônomo não é permitido para preservar o ecossistema).

Para os mergulhos com cilindro, os nomes fortes são Blue Corner, German Channel e Ulong Channel. Blue Corner é um platô subaquático que se projeta no oceano aberto, com correntes fortes que atraem cardumes de jacks, barracudas e tubarões-de-recife. Mergulhadores usam ganchos especiais para se ancorarem na rocha e simplesmente assistir ao espetáculo passar.

Palau também foi pioneira em conservação. Em 2015, o país criou o primeiro santuário nacional de tubarões do mundo, proibindo a pesca comercial em 80% de suas águas territoriais. O efeito nos ecossistemas é visível até para mergulhadores iniciantes.

5. Galápagos, Equador: mergulho com megafauna pelágica

Se a pergunta é “onde ver os maiores animais marinhos do planeta em um único lugar”, a resposta curta é Galápagos. Mais especificamente, as ilhas remotas de Darwin e Wolf, no extremo norte do arquipélago, acessíveis apenas por liveaboard depois de uma travessia noturna de mar aberto.

Estudos científicos colocaram Darwin e Wolf como tendo a maior biomassa de tubarões do mundo. Tubarões-martelo em cardumes de dezenas ou centenas de indivíduos, tubarões-baleia gigantes (especialmente entre junho e novembro), tubarões-galápagos, tubarões-sedosos, tubarões-de-pontas-brancas-oceânicos. Fora baleias, golfinhos, atuns, raias-mobula, tartarugas enormes e, em alguns mergulhos, iguanas marinhas pastando algas nos recifes rasos — um espetáculo que só existe ali.

A experiência não é para iniciantes. As águas são frias (entre 18 e 24°C, dependendo da época), as correntes são fortes e a visibilidade pode variar. Mas para mergulhadores com alguma bagagem, Galápagos é o topo da pirâmide.

Pontos práticos: os liveaboards operam viagens fixas de sete a dez dias, com preços que começam em torno de 5.000 a 7.000 dólares. Reservas precisam ser feitas com 12 a 18 meses de antecedência para as operadoras mais conceituadas. Melhor época para tubarão-baleia: junho a novembro. Para águas mais quentes e visibilidade: janeiro a maio.

6. Svalbard, Ártico norueguês: mergulho em águas geladas no fim do mundo

Terry Ward menciona na matéria ter mergulhado em Svalbard, e com isso já fica evidente que o Ártico norueguês entrou na conversa sobre destinos extraordinários. Este é, sem dúvida, o mergulho mais extremo e o menos óbvio da lista.

Svalbard é um arquipélago a meio caminho entre a Noruega continental e o Polo Norte. A cidade principal, Longyearbyen, é o assentamento permanente mais ao norte do mundo. Mergulhar ali exige dry suit (roupa estanque) — aquele traje selado que não permite contato da pele com a água —, certificação específica e disposição para lidar com temperaturas da água na casa de -1°C a 4°C.

Por que alguém faria isso? Porque a paisagem subaquática do Ártico é outro planeta. Paredes de gelo azul, icebergs flutuantes vistos de baixo, fauna adaptada ao frio extremo, colônias de kelp gigantes, nudibrânquios coloridos sobre fundos escuros. E, em alguns passeios, a possibilidade (nunca garantida) de encontros com baleias-beluga ou focas-barbudas.

A janela de operação é curta: basicamente junho, julho e agosto, quando o sol não se põe e parte do gelo recua o suficiente para permitir operações de barco. O frio fora d’água, aliás, é quase tão memorável quanto o frio dentro — e nenhum mergulhador esquece a primeira vez que tira a cabeça da água no meio de uma paisagem polar.

Observação: Svalbard é para mergulhadores experientes, de preferência com certificação em dry suit antes de embarcar. Operações são limitadas, pequenas e reservadas com muitos meses de antecedência.

Comparando os seis destinos

DestinoTipo de mergulhoMelhor épocaNível recomendado
FijiCorais moles, tubarõesAbr a outIniciante a avançado
Polinésia FrancesaTubarões, drift divesMai a outIntermediário
Raja AmpatBiodiversidade, macroOut a abrIntermediário
PalauParedões, correntesNov a abrIntermediário
GalápagosMegafauna pelágicaJun a novAvançado
SvalbardÁrtico, dry suitJun a agoAvançado

O que conecta todos esses lugares

Lendo a matéria da Terry Ward com atenção, fica claro que a escolha não foi só técnica. Ela escreve algo bonito: o mergulho a conectou com os moradores locais que amam esses lugares e fazem o possível para protegê-los para as próximas gerações. Isso é a chave da lista.

Os seis destinos têm em comum não apenas a beleza subaquática, mas um trabalho sério de conservação. Palau criou santuário de tubarões. Raja Ampat tem zonas de não-pesca monitoradas. Galápagos é parque nacional desde os anos 1950 e reserva marinha desde 1998. Fakarava é reserva de biosfera da Unesco. Fiji tem áreas protegidas geridas por comunidades locais. Svalbard tem regulação rigorosa sobre tudo que se faz nas águas árticas.

Mergulhar nesses lugares é, de alguma forma, participar dessa cadeia de proteção. O turismo de mergulho bem feito gera receita que justifica economicamente a conservação — e cada mergulhador que volta para casa contando o que viu vira um pequeno embaixador do ecossistema marinho.

Antes de planejar: o que ninguém fala sobre viagens de mergulho

Alguns pontos práticos que só se aprende organizando esse tipo de roteiro:

  • Seguro viagem com cobertura para mergulho é obrigatório. Seguros convencionais geralmente excluem atividades consideradas de risco. A DAN (Divers Alert Network) oferece apólices específicas que cobrem, inclusive, câmara hiperbárica.
  • Nunca mergulhe nas últimas 24 horas antes de um voo. Todas as operadoras sérias respeitam essa regra. Planeje o roteiro para que o último dia seja só de praia, cidade ou descanso.
  • Equipamento pessoal faz diferença. Aluguel funciona, mas máscara, snorkel e computador de mergulho próprios valem o investimento em viagens longas.
  • Leve cópia digital da sua carteirinha PADI (ou SSI, NAUI). Pode ser pedida no embarque de liveaboards e operações sérias.
  • Reserve liveaboards com antecedência enorme. Os barcos bons ficam cheios de 12 a 18 meses antes da temporada.

O mergulho como filosofia de viagem

Viajar para mergulhar muda algo na forma de encarar o planeta. Você deixa de ver a água como uma paisagem bonita ao fundo da foto e passa a entender que aqueles 70% da superfície da Terra são, na verdade, o verdadeiro palco da vida. Os seis destinos escolhidos pela BBC em 2026 são portais diferentes para esse entendimento — cada um oferece uma faceta que os outros não têm.

Fiji pinta. Polinésia Francesa acelera. Raja Ampat assombra pela diversidade. Palau prende pela geografia. Galápagos assusta pela escala dos bichos. Svalbard congela, literal e figurativamente. Para quem já tem o vício, a lista funciona como mapa de metas. Para quem ainda não mergulhou, funciona como convite: faça o Open Water, encare seu primeiro mergulho num lugar acessível (Bonaire no Caribe, Bali na Indonésia, Roatán em Honduras são ótimas portas de entrada) e veja se o bichinho pega. Se pegar, um dia você vai estar num barco entrando no South Pass de Fakarava, pensando como chegou até ali.

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