O que Vale a Pena Visitar na Cidade do Panamá?

Tem um equívoco muito comum entre viajantes brasileiros que visitam o Panamá: tratar a capital como ponto de passagem. Uma noite antes de embarcar para San Blas, ou uma conexão longa no aeroporto de Tocumen sem sair do terminal. É desperdício. A Cidade do Panamá tem uma personalidade própria que surpreende até quem foi sem expectativa — e é exatamente esse contraste entre o moderno e o colonial, entre a selva e o asfalto, entre o Atlântico e o Pacífico, que faz dela um destino que merece atenção de verdade.

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A capital panamenha tem o título raro de ser a única cidade do mundo com uma floresta tropical dentro do perímetro urbano. Dois patrimônios da UNESCO. O Canal do Panamá. Um centro histórico que mistura ruínas e botecos com hotéis boutique e galerias de arte. E uma cena gastronômica que a própria UNESCO reconheceu como Cidade Criativa da Gastronomia — distinção que poucas capitais da América Latina têm.

Dois dias são suficientes para absorver o essencial. Com três, você respira mais fundo. Com uma semana, você entende por que algumas pessoas chegam de passagem e ficam muito mais tempo do que planejavam.

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Casco Viejo: o bairro que conta tudo ao mesmo tempo

Se você tiver apenas um lugar para visitar na Cidade do Panamá, que seja o Casco Viejo — ou Casco Antiguo, como também é chamado. Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1997, esse bairro histórico foi fundado em 1673, depois que o pirata Henry Morgan destruiu completamente a cidade original alguns quilômetros ao leste. Os colonizadores espanhóis reconstruíram tudo numa nova localização, numa península que oferecia melhor defesa marítima. O resultado foi um tecido urbano que sobreviveu a séculos de abandono, revoluções, ocupações e, nas últimas décadas, a uma revitalização que transformou o bairro no coração pulsante da cidade.

Andar pelo Casco Viejo é uma experiência de camadas. Numa mesma rua você encontra uma fachada colonial em ruínas ao lado de um hotel boutique impecável, um restaurante de cozinha criativa com vista para o mar, uma igreja barroca do século XVIII e um mural de arte urbana que ocupa uma parede inteira. O bairro tem essa capacidade de ser ao mesmo tempo museu e bairro vivo — com moradores de verdade, crianças brincando na praça, señoras vendendo frutas na esquina.

Os pontos que merecem atenção dentro do Casco:

O Palácio de las Garzas é a sede da presidência do Panamá — uma construção colonial imponente com claustro interno e uma colônia de garças-brancas que habitam o jardim (daí o nome). A entrada não é pública em todos os momentos, mas a fachada já vale a parada.

A Plaza de la Independencia é o coração do bairro, ladeada pela Catedral Metropolitana e pelo Hotel Central, o mais antigo do Panamá. A praça tem aquele ritmo de cidade latina que mistura o cotidiano dos moradores com o vai e vem dos turistas — e funciona bem como ponto de orientação para explorar o resto a pé.

A Iglesia de San José guarda o Altar de Ouro — uma das peças mais famosas da história colonial panamenha. A lenda conta que, quando Henry Morgan atacou a cidade em 1671, os padres pintaram o altar de preto para disfarçá-lo de madeira comum e enganar os piratas. Funcionou. O altar foi transportado para o novo Casco Viejo e está lá até hoje, em tom dourado que brilha mesmo com pouca luz.

O Museu do Canal do Panamá fica dentro de um edifício imponente que já foi sede da Companhia do Canal na era colonial francesa. A exposição conta a história das duas tentativas de construção do canal — a francesa, que fracassou, e a americana, que concluiu a obra em 1914. É mais envolvente do que parece no papel.

À noite, o Casco Viejo muda de roupa. Os restaurantes enchem, os bares abrem, as ruas ganham vida noturna que não tem nada de turística no mau sentido — é a vida real da cidade, com muita mistura de locais e viajantes. A varanda com vista para a Baía de Panamá, com o horizonte de arranha-céus ao fundo e o céu do Pacífico na frente, é um dos cenários mais inesperadamente bonitos da América Central.


Canal do Panamá: a obra que mudou o mapa do mundo

Não tem como visitar a Cidade do Panamá e não ver o Canal. Seria como ir a Paris e ignorar a Torre Eiffel — exceto que o Canal é uma obra de engenharia que literalmente redefiniu o comércio global e custou mais de 25.000 vidas humanas durante sua construção.

O ponto mais visitado é o Centro de Visitantes das Eclusas de Miraflores, que fica a cerca de 10 quilômetros do centro da cidade. Dali você assiste, de uma plataforma elevada, à passagem dos navios pelas eclusas — um processo de elevação e abaixamento da água que movimenta embarcações de até 300 metros de comprimento como se fossem barquinhos num tanque. A escala do que você vê ao vivo é difícil de dimensionar em foto.

O museu interno de Miraflores tem quatro andares de exposições sobre a história do canal, desde as primeiras explorações espanholas do século XVI até a expansão concluída em 2016 — que adicionou um terceiro conjunto de eclusas capaz de receber os maiores navios porta-contêineres do mundo, os chamados Neo-Panamax. Vale a visita mesmo para quem não é particularmente fascinado por engenharia. O contexto histórico e geopolítico do canal é tão rico que você sai com uma visão diferente sobre como o mundo funciona.

Existe também o Centro de Visitantes de Água Clara, do lado atlântico do canal, perto de Colón. Fica mais longe da capital, mas tem a vantagem de mostrar as novas eclusas da expansão de 2016 — onde passam os navios maiores, que não cabem pelas eclusas de Miraflores. Quem tem tempo extra e quer ver o outro lado do canal, vale a excursão.

Para quem prefere uma experiência diferente, algumas operadoras oferecem passeios de barco pelo próprio canal — a travessia parcial ou total, dependendo da embarcação e do roteiro. Ver as eclusas de dentro da água, com aquelas paredes de concreto de 26 metros subindo ao redor, é outra dimensão completamente diferente de observar de cima.


Panamá Viejo: onde tudo começou — e terminou

A poucos quilômetros do Casco Viejo, em direção leste pela orla, ficam as ruínas de Panamá Viejo — a cidade original fundada em 1519 pelos espanhóis, considerada a primeira cidade europeia permanente na costa do Pacífico nas Américas. Foi destruída pelo pirata Morgan em 1671 e nunca foi reconstruída.

O que sobrou são ruínas imponentes num parque arqueológico que mistura história densa com aquela ironia visual típica do Panamá: ao fundo das ruínas coloniais de 500 anos, esticando o pescoço por cima dos muros, está o skyline moderno da cidade com seus arranha-céus de vidro. É o tipo de contraste que nenhum cenário artificial consegue reproduzir.

A torre da catedral de Panamá Viejo — a Torre Catedral — está de pé até hoje e pode ser escalada. A vista do topo, com as ruínas em volta e a cidade moderna ao fundo e o mar do Pacífico na frente, é um dos melhores panoramas da capital.

O sítio é também Patrimônio Mundial da UNESCO, junto com o Casco Viejo — são dois patrimônios a poucos quilômetros de distância, o que já diz algo sobre a densidade histórica desse pedaço de terra.


Amador Causeway e o BioMuseo: uma tarde diferente

O Amador Causeway é uma faixa de terra de aproximadamente 6 quilômetros construída com o material escavado durante a construção do Canal do Panamá. Conecta a cidade a três pequenas ilhas — Naos, Culebra e Flamenco — e oferece uma das melhores vistas do skyline panamenho, especialmente no final da tarde, quando a luz bate naqueles espelhos de vidro dos arranha-céus de um jeito que parece planejado.

No Amador fica o BioMuseo — um museu de biodiversidade projetado pelo arquiteto Frank Gehry, o mesmo responsável pelo Guggenheim de Bilbao. O prédio em si já é um espetáculo: painéis coloridos sobrepostos em ângulos que parecem impossíveis. Dentro, a exposição conta como o surgimento do Istmo do Panamá — há três milhões de anos — transformou o planeta. A fusão das Américas foi o evento geológico que criou as correntes oceânicas modernas, alterou o clima global e permitiu a migração de espécies entre os dois continentes. É uma história maior do que parece.

O causeway também tem ciclovia, restaurantes com vista para o canal e um movimento constante de locais que fazem caminhada e corrida à beira-mar. É um lugar bom para desacelerar depois de um dia intenso de turismo.


Parque Natural Metropolitano: floresta dentro da cidade

O Parque Natural Metropolitano é literalmente uma floresta tropical de 232 hectares dentro do perímetro urbano da Cidade do Panamá. Não é um parquinho. É mata fechada, com mais de 350 espécies de animais — incluindo preguiças, gambás, gaviões, macacos e répteis — e mais de 280 espécies de plantas, algumas delas com copas a 40 metros de altura.

Abre todos os dias das 7h às 16h. Tem trilhas de diferentes níveis de dificuldade e mirantes com vista para o canal e para o skyline. É possível contratar guias locais que ajudam a identificar os animais e explicam o ecossistema — o que faz muita diferença, porque sem guia você pode passar pela frente de uma preguiça e não perceber que ela está ali.

Para quem vem ao Panamá com foco em San Blas, o parque é uma boa opção para a manhã do dia anterior à viagem ao arquipélago — dá para gastar duas a três horas lá e ainda voltar para o hotel a tempo de dormir cedo antes do transfer às 5h30.


Mercado de Mariscos: comer peixe fresco com vista para o canal

O Mercado de Mariscos fica na orla da Cinta Costera, na beira da Baía de Panamá, e é exatamente o que o nome sugere: um mercado de frutos do mar com restaurantes simples e barulhentos onde o peixe do dia foi pescado naquele mesmo dia.

O ceviche panamenho é diferente do peruano — mais adocicado, com menos acidez, feito geralmente com corvina ou camarão. É o prato certo para começar. Depois tem frituras de camarão, pargo inteiro grelhado, polvo, lula, e uma variedade de preparações que dependem do que chegou naquela manhã.

A vista do mercado para a Baía de Panamá, com os navios à espera do canal no horizonte, tem algo de poético. É um dos lugares da cidade onde a relação entre o cotidiano dos panamenhos e o movimento do mundo — todo aquele tráfego marítimo global que passa ali — fica mais visível e concreta.


Cinta Costera: o calçadão que costura tudo

A Cinta Costera é a orla moderna da Cidade do Panamá — um projeto de aterro e urbanização que criou uma faixa de parques, ciclovia e calçadão à beira do Pacífico, com o skyline da cidade de um lado e a baía do outro. É onde os panamenhos fazem exercício ao entardecer, onde as famílias passeiam no fim de semana, onde os jovens se reúnem para ver o pôr do sol.

Caminhar pela Cinta Costera no final da tarde, com o horizonte cor de laranja sobre o Pacífico e os arranha-céus acendendo suas luzes ao fundo, é uma das experiências mais gratuitas e mais bonitas que a capital oferece. Não aparece em ranking nenhum. Mas quem vai, entende.


Compras e zona franca: o lado prático que muita gente aproveita

O Panamá usa o dólar americano como moeda oficial desde 1904 — chamam de Balboa, mas é exatamente o mesmo dólar. Isso simplifica a vida de quem vem do Brasil e quer fazer compras.

A cidade tem uma das maiores concentrações de shoppings e zonas francas da América Latina. O Albrook Mall é um dos maiores shoppings da América Central e fica ao lado do aeroporto interno de Albrook — conveniente para quem está indo ou voltando de San Blas. O Multiplaza Pacific fica na zona financeira e tem marcas internacionais em geral mais baratas do que no Brasil. Roupas, perfumes, eletrônicos, bebidas importadas — o câmbio e a estrutura de tributação do Panamá fazem diferença no preço final.

Isso não é razão principal para ir ao Panamá, mas é um bônus que muita gente aproveita bem.


Quando ir e quanto tempo reservar para a capital

A melhor época para visitar a Cidade do Panamá é entre dezembro e abril — a estação seca, com sol, calor tropical e poucas chuvas. É também a alta temporada, então hotéis enchem mais e os preços sobem um pouco.

Entre maio e novembro chove com frequência, mas as chuvas em geral são intensas e curtas — o tipo de chuva que passa em meia hora. Não inviabiliza o turismo, mas exige um guarda-chuva compacto na mochila.

Dois dias são suficientes para cobrir o essencial: Casco Viejo, Canal de Miraflores, Panamá Viejo e uma tarde no Amador. Com três dias, você respira, come mais, caminha sem pressa pelo Casco à noite e ainda tem tempo para o parque ou o mercado. Menos de dois dias é possível, mas você sai com gosto de pouco.

Para quem combina a capital com San Blas — o roteiro mais comum entre viajantes que descobrem o Panamá com profundidade — a lógica é chegar um ou dois dias antes de ir ao arquipélago, explorar a cidade, e voltar com mais um dia livre depois de San Blas antes do voo de retorno. É um roteiro que funciona bem e que deixa a impressão de que o Panamá tem muito mais a oferecer do que uma conexão de avião sugere.

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