O que é o Vale de Uco Perto de Mendoza?

O Vale de Uco é a região vinícola mais elevada e prestigiada de Mendoza, famosa por seus vinhos de altitude, arquitetura moderna e vistas impressionantes da Cordilheira dos Andes.

O Vale de Uco é a região vinícola mais elevada e prestigiada de Mendoza, famosa por seus vinhos de altitude, arquitetura moderna e vistas impressionantes da Cordilheira dos Andes

O Vale de Uco perto de Mendoza é uma região vinícola de altitude localizada aos pés da Cordilheira dos Andes, reconhecida mundialmente pela produção de vinhos premium e por ter um dos terroirs mais singulares da Argentina. Localizada a cerca de uma hora e meia de carro ao sul do centro da cidade de Mendoza, esta área se tornou o grande motor da inovação vitivinícola sul-americana nas últimas duas décadas.

Para entender o Vale de Uco, você precisa imaginar um cenário onde a natureza dita absolutamente todas as regras. Não estamos falando de planícies verdes e pastos úmidos. Trata-se de um deserto de altitude, um lugar onde a água é um recurso precioso vindo do degelo das montanhas, e onde as videiras precisam lutar para sobreviver. Essa luta constante é exatamente o que faz com que as uvas concentrem tantos aromas e sabores.

Muitas pessoas chegam a Mendoza acreditando que todas as vinícolas ficam a poucos minutos do hotel no centro da cidade. Existe uma certa surpresa quando percebem que o Vale de Uco exige uma viagem pela icônica Rota 40, cortando paisagens áridas até que, de repente, as montanhas parecem se aproximar, e os vinhedos surgem como oásis perfeitamente alinhados.

A Geografia e o Clima que Mudam Tudo

A magia do Vale de Uco não acontece por acaso. Tudo se resume à sua geografia particular e ao clima extremo que define a região. Quando falamos em vinhos de qualidade, a localização da videira é o fator mais importante de todos.

A Cordilheira dos Andes como pano de fundo

Os Andes não são apenas um cenário bonito para as suas fotos de viagem. Eles são uma barreira natural gigantesca que impede a passagem das chuvas vindas do Oceano Pacífico. Isso cria um ambiente extremamente seco no lado argentino. Sem chuva regular, as doenças causadas por fungos nas videiras são raríssimas. O resultado prático disso é que os produtores podem cultivar suas uvas de forma muito mais limpa, muitas vezes orgânica, sem precisar pulverizar as plantas com produtos químicos constantemente.

Além disso, a cordilheira fornece a água. Todo o sistema de irrigação do Vale de Uco depende da neve acumulada nos picos durante o inverno. Quando o calor chega, o gelo derrete e a água desce pelos rios e canais, sendo cuidadosamente distribuída por sistemas de gotejamento para cada planta.

O conceito de Terroir na prática

Você já deve ter ouvido a palavra terroir. No Vale de Uco, ela faz total sentido. Os solos aqui são de origem aluvial. Isso significa que, ao longo de milhões de anos, a água e o gelo desceram das montanhas carregando rochas, areia e cascalho. Em muitas partes do vale, o solo é repleto de pedras redondas pintadas de branco. Esse branco é o carbonato de cálcio. As raízes das videiras se espremem entre essas rochas calcárias para buscar água, e isso transfere para o vinho uma textura diferente, uma sensação de giz na boca que os enólogos chamam de mineralidade.

A amplitude térmica e por que ela importa

A altitude no Vale de Uco varia aproximadamente entre 900 e 1.500 metros acima do nível do mar. Por estar tão alto, o sol durante o dia é intenso. A radiação ultravioleta atinge as uvas com força. Para se proteger do sol, a uva desenvolve uma casca mais grossa. Como a cor e os taninos do vinho vêm da casca, os vinhos dessa região costumam ter uma cor incrivelmente profunda e escura.

Mas o grande segredo acontece à noite. Quando o sol se põe, a temperatura cai drasticamente. Não é incomum ter dias com 30 graus de calor e noites com 10 graus. Essa diferença enorme de temperatura, a chamada amplitude térmica, faz com que a planta “descanse” à noite. Isso preserva a acidez natural da uva. É por isso que um Malbec do Vale de Uco não é pesado ou cansativo, ele tem frescor, parece vivo na boca.

A História Recente: Como o Vale se Transformou

Hoje vemos vinícolas com arquitetura de vanguarda que parecem naves espaciais pousadas no meio dos vinhedos, mas nem sempre foi assim. O Vale de Uco tem uma história de transformação muito rápida e fascinante.

O salto dos anos 90

Até o final dos anos 1980, o Vale de Uco era mais conhecido pelo cultivo de maçãs, nozes e cerejas. Havia vinhedos, sim, mas a maioria produzia uvas em grande quantidade para vinhos de mesa simples. A mudança de paradigma começou quando produtores visionários, como Nicolás Catena, começaram a buscar altitudes maiores para fugir do calor das zonas tradicionais. Eles queriam fazer vinhos que pudessem competir com os grandes nomes da Europa.

Ao plantar vinhedos em áreas como Gualtallary, enfrentaram o ceticismo de muitos que diziam que a uva não amadureceria naquele frio. Eles provaram o contrário. O frio não só permitiu o amadurecimento lento e perfeito da uva, como trouxe uma elegância que a Argentina ainda não havia mostrado ao mundo.

A chegada do investimento estrangeiro

Nos anos 90 e 2000, o potencial da região chamou a atenção de investidores internacionais. O caso mais famoso é o do enólogo francês Michel Rolland, que reuniu um grupo de amigos de Bordeaux e comprou uma vasta extensão de terra em Tunuyán. Assim nasceu o projeto Clos de los Siete.

A partir daí, o vale recebeu uma injeção de capital gigantesca. Franceses, holandeses, americanos e grupos locais construíram bodegas monumentais. A tecnologia de ponta chegou ao campo e às cantinas. Prensas pneumáticas, tanques de aço inoxidável com controle de temperatura, ovos de concreto e barricas de carvalho francês de primeira linha passaram a ser o padrão da região.

As Sub-regiões do Vale de Uco

O Vale de Uco não é uma coisa só. É um território vasto dividido em três departamentos principais, e cada um deles possui micro-regiões com características muito específicas. Para quem gosta de detalhes geográficos, entender essa divisão muda a forma como você escolhe as vinícolas para visitar.

Tupungato: A porta de entrada

Tupungato é o departamento mais ao norte do vale e geralmente o primeiro que você acessa ao vir de Mendoza. É uma área de grande altitude, abrigando alguns dos vinhedos mais altos da província. A influência do vulcão Tupungato, que domina a paisagem, é forte. É nesta zona que são produzidos alguns dos melhores vinhos brancos da Argentina, graças ao clima mais frio que preserva a acidez vibrante de uvas como Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Dentro de Tupungato, a sub-região de Gualtallary merece destaque. Tornou-se quase um mito entre os conhecedores de vinho. O solo rico em calcário e areia, aliado ao clima extremo, gera vinhos tintos com texturas firmes e aromas selvagens, lembrando ervas do campo, o famoso tomilho e jarilla que crescem soltos pela montanha.

Tunuyán: O coração do vale

Descendo um pouco para o sul, chegamos a Tunuyán. Se Tupungato é a altitude extrema, Tunuyán é o coração pulsante do enoturismo de luxo. A região de Los Árboles e Agua Amarga concentra bodegas enormes e impressionantes.

A famosa área de Los Chacayes também fica aqui. É um lugar de solos muito pedregosos, onde as videiras precisam se esforçar muito. Os vinhos de Tunuyán costumam encontrar um equilíbrio perfeito entre a concentração de frutas maduras e o frescor da montanha. É um meio-termo ideal que agrada praticamente todos os paladares.

San Carlos: A tradição e a modernidade

Mais ao sul fica San Carlos. É o departamento com a história mais antiga dentro do Vale de Uco, possuindo vinhedos centenários que sobreviveram ao tempo. Aqui o clima costuma ser ligeiramente mais quente durante o dia do que em Tupungato, gerando vinhos com um perfil de fruta mais madura e suculenta.

A grande estrela de San Carlos é a Indicação Geográfica (IG) Paraje Altamira. O solo de Altamira é lendário, formado por grandes blocos de pedra pintados de branco pelo calcário. Os Malbecs de Altamira são famosos por suas notas florais, lembrando violetas, e por taninos que parecem pó de giz no paladar. É um dos locais mais procurados pelos especialistas que visitam a Argentina.

Como Chegar ao Vale de Uco saindo de Mendoza

A logística é uma parte fundamental do planejamento. O Vale de Uco fica entre 80 e 120 quilômetros da cidade de Mendoza, dependendo de qual parte do vale você vai visitar. Organizar esse deslocamento exige atenção, principalmente considerando que o objetivo da viagem envolve degustação de bebidas alcoólicas.

Muitos viajantes chegam cansados de seus vôos e alugam um carro no aeroporto sem pensar nos deslocamentos diários. Os vôos diretos do Brasil facilitaram muito o acesso, mas a locomoção terrestre precisa ser bem pensada.

Aluguel de carro: Liberdade com responsabilidade

Alugar um veículo oferece a maior liberdade possível. A Rota 40 é asfaltada, bem sinalizada e as paisagens são espetaculares. Dirigir com a Cordilheira dos Andes nevada na sua frente é uma experiência marcante.

Porém, existe a questão da lei seca e da responsabilidade. As distâncias dentro do vale são grandes. Da primeira vinícola até a segunda, você pode rodar vinte ou trinta quilômetros por estradas rurais de terra. Se a ideia do grupo é que todos participem das degustações e dos almoços harmonizados que incluem várias taças de vinho, o aluguel de carro deixa de ser a melhor opção.

Remis e motoristas particulares

A opção mais utilizada e inteligente para a maioria dos viajantes é contratar um remis ou um motorista particular. O remis é um serviço de carro com motorista muito comum na Argentina, que você contrata para ficar à sua disposição durante todo o dia.

Os motoristas locais conhecem os atalhos, os tempos exatos de deslocamento entre uma bodega e outra e as condições das estradas de cascalho. Eles pegam você no hotel de manhã, aguardam durante as visitas e garantem um retorno seguro no final do dia. O custo, quando dividido entre casais ou grupos de amigos, acaba sendo muito viável pela tranquilidade que proporciona.

Tempo de viagem e condições das estradas

Saindo do centro de Mendoza, espere gastar pelo menos uma hora e meia para chegar às primeiras vinícolas de Tupungato ou Tunuyán. Se o seu destino for o sul, em San Carlos, a viagem pode chegar a duas horas.

Ao sair da Rota 40 para acessar as propriedades, você pegará trechos de terra batida ou cascalho. Em dias secos, levanta-se muita poeira, mas o trajeto é tranquilo. É importante sempre considerar uma margem de segurança de vinte a trinta minutos nos deslocamentos para não chegar atrasado nas reservas.

A Arquitetura das Vinícolas

Uma das coisas que mais impressiona no Vale de Uco é a infraestrutura. O dinheiro investido na região permitiu que arquitetos renomados criassem verdadeiros monumentos dedicados ao vinho. As construções não são apenas bonitas, elas são pensadas para otimizar a produção e respeitar a paisagem.

Integração com a natureza

Em vez de construir galpões industriais genéricos, as bodegas modernas do vale foram desenhadas para se fundir com o ambiente. Você verá o uso massivo de pedras locais, cimento aparente, madeira e muito vidro. Algumas vinícolas possuem formatos aerodinâmicos, inspirados nas montanhas ou em elementos naturais.

As salas de degustação geralmente contam com janelas do chão ao teto. A ideia é que você esteja segurando a taça enquanto olha exatamente para o vinhedo de onde aquelas uvas vieram, com os Andes imponentes logo atrás. É uma experiência sensorial que mistura visão, olfato e paladar.

Sustentabilidade e gravidade na produção

A arquitetura também serve a um propósito técnico essencial: a produção por gravidade. Muitas vinícolas do Vale de Uco são construídas em vários níveis, aproveitando a inclinação natural do terreno das montanhas.

As uvas chegam pelo nível superior. Em vez de usar bombas mecânicas para empurrar o líquido de um tanque para outro, o que pode agredir o vinho e oxidá-lo, o processo flui de cima para baixo usando apenas a gravidade. A fermentação ocorre nos andares intermediários, e as caves de envelhecimento com as barricas ficam nos andares subterrâneos. No subsolo, a temperatura e a umidade são constantes de forma natural, economizando uma quantidade enorme de energia elétrica que seria gasta com ar-condicionado.

O Perfil dos Vinhos do Vale de Uco

O vinho do Vale de Uco tem uma assinatura. Mesmo quem está apenas começando a entender de vinhos consegue notar a diferença de estilo em relação às zonas mais baixas. Há uma energia e uma vibração na taça que são inconfundíveis.

O Malbec de altitude

O Malbec é, sem dúvida, o rei da Argentina, mas o Malbec do Vale de Uco tem um sotaque diferente. Em zonas tradicionais e mais baixas, o Malbec costuma ser muito redondo, lembrando geleia de frutas negras, chocolate e baunilha, muitas vezes com um toque adocicado no final.

No Vale de Uco, o frio e o calcário mudam o jogo. A fruta deixa de ser em compota e passa a ser fruta fresca, lembrando cerejas ácidas, ameixas frescas e mirtilos. Aparecem notas florais intensas, como violeta e lavanda. Na boca, a acidez é maior, fazendo você salivar mais, o que torna o vinho excelente para acompanhar comida. É um Malbec mais tenso, direto e elegante.

Cabernet Franc: A grande estrela ascendente

Se o Malbec já está consolidado, o Cabernet Franc é a uva que mais cresce em prestígio na região. A adaptação dessa variedade francesa ao solo pedregoso e frio de Uco foi espetacular.

O Cabernet Franc de altitude entrega aromas fascinantes de pimentão vermelho assado, especiarias, pimenta preta e frutas vermelhas. Ele possui taninos muito finos e uma estrutura que o coloca lado a lado com grandes vinhos do mundo inteiro. Hoje, muitos produtores dedicam seus melhores lotes de terra a essa uva, sabendo que ela entrega resultados brilhantes na região.

Brancos surpreendentes: Chardonnay e Sauvignon Blanc

Engana-se quem pensa que Mendoza só faz vinho tinto. A grande surpresa para muitos visitantes é a qualidade altíssima dos vinhos brancos do Vale de Uco, especialmente de zonas muito altas como Gualtallary e San Pablo.

A ausência de calor excessivo permite que o Chardonnay ganhe uma tensão mineral fantástica, muitas vezes sem a necessidade de passar por barricas de carvalho novo, focando apenas na pureza da fruta e no terroir. O Sauvignon Blanc também brilha, apresentando notas cítricas fortes, toques herbáceos e uma acidez cortante, perfeita para beber em dias mais quentes.

A Experiência Gastronômica nas Bodegas

O enoturismo mudou. Antigamente, a visita a uma vinícola consistia em um tour pelas máquinas, uma rápida olhada nos barris e uma degustação de três vinhos no balcão de uma loja. No Vale de Uco, a experiência evoluiu para algo muito mais sofisticado, e a gastronomia tornou-se o grande atrativo.

Os menus de passos harmonizados

Quase todas as grandes bodegas possuem restaurantes próprios comandados por chefs renomados. O modelo consagrado é o menu degustação de passos, que pode variar de três a nove pratos diferentes.

Cada prato é desenhado especificamente para combinar com um vinho da casa. A harmonização funciona de forma brilhante. Você pode começar com um espumante fresco acompanhando uma truta da cordilheira, passar para um vinho branco mineral com vegetais assados, subir para um Pinot Noir com empanadas de carne cortada na faca, e culminar em um grande Malbec ou Cabernet Franc escoltando um bife de chorizo alto e suculento.

Ingredientes locais e sazonais

A culinária foca no uso de ingredientes locais, também conhecidos como quilômetro zero. Como o vale é uma área agrícola rica, os restaurantes cultivam suas próprias hortas orgânicas. O azeite de oliva servido com pão caseiro logo na entrada costuma ser produzido pelas próprias oliveiras da propriedade.

As carnes, claro, são um espetáculo à parte. O domínio do fogo é uma arte argentina. Muitas cozinhas são abertas, e você pode ver as grandes grelhas e fornos de barro onde os pratos ganham um sabor defumado autêntico. Há também um cuidado imenso com opções vegetarianas, que deixaram de ser apenas uma salada básica para se tornarem pratos complexos com abóboras assadas, cogumelos andinos e queijos regionais.

Almoços longos

Esta é uma observação crucial sobre o ritmo do lugar: as refeições demoram. Um almoço de cinco ou sete passos dura facilmente entre duas horas e meia e três horas. A ideia não é comer rápido para ir para o próximo compromisso. O almoço harmonizado é o compromisso. É um momento de relaxamento, de olhar a montanha, conversar e apreciar como o vinho evolui na taça ao longo do tempo. Planeje o seu dia aceitando esse ritmo vagaroso e prazeroso.

Quando Visitar o Vale de Uco

O planejamento da época do ano afeta dramaticamente o que você vai ver e sentir na região. As quatro estações são muito bem marcadas no deserto mendocino.

A época da colheita (Vendimia)

Entre o final de fevereiro e meados de abril ocorre a colheita, chamada de Vendimia. É a época mais vibrante e concorrida. Os vinhedos estão carregados de uvas verdes e roxas, há um movimento constante de tratores, e o cheiro de mosto de uva fermentando paira no ar perto das cantinas.

O clima nesta época é excelente, com dias quentes e ensolarados e noites frescas. Em março, a cidade de Mendoza inteira celebra a Festa Nacional da Vendimia, o que traz muita animação, mas também eleva os preços dos hotéis e lota as reservas dos restaurantes.

O outono e a explosão de cores

O final de abril e o mês de maio representam o momento mais fotogênico do Vale de Uco. O outono transforma as folhas verdes das videiras em um mar de amarelo, laranja e vermelho intenso. O contraste dessas folhas quentes com as primeiras neves cobrindo os picos dos Andes ao fundo cria uma paisagem de cinema. O clima esfria bastante, tornando os vinhos tintos encorpados ainda mais convidativos.

O inverno e o charme da neve

Junho, julho e agosto trazem o frio intenso. As vinhas entram em dormência e perdem todas as folhas, deixando apenas os galhos retorcidos aparentes. Embora a paisagem pareça um pouco árida sem o verde, o charme do inverno é poder ver a Cordilheira dos Andes completamente coberta de neve branca.

Os restaurantes acendem suas lareiras, os dias costumam ter céu azul sem nuvens, e o clima convida a passar a tarde toda dentro de uma sala envidraçada bebendo bons tintos. É essencial viajar bem agasalhado, pois os ventos que descem da montanha cortam a pele.

A primavera e o renascimento

De setembro a novembro, a vida volta ao vale. Os brotos começam a aparecer, tingindo os campos de um verde bem claro e brilhante. O clima volta a esquentar, permitindo degustações nas varandas ao ar livre. É uma época de transição muito agradável para viajar, fugindo da alta temporada extrema da colheita, mas pegando dias longos e iluminados.

Nesta época também ocorre o fenômeno do vento Zonda. É um vento forte, seco e muito quente que desce das montanhas, geralmente à tarde. Ele pode levantar muita poeira no Vale de Uco e, em dias de ventania extrema, algumas atividades ao ar livre podem ser canceladas por segurança.

Planejamento Prático para a Viagem

Visitar o Vale de Uco requer estratégia. Não é como caminhar por uma cidade turística e entrar nos lugares aleatoriamente. O improviso aqui costuma resultar em frustração.

Quantas vinícolas visitar por dia

Um erro clássico é querer abraçar o mundo e colocar três ou quatro vinícolas no mesmo dia. Devido às distâncias geográficas entre elas e ao ritmo das degustações, o formato ideal é fazer apenas duas propriedades por dia.

A melhor configuração é marcar uma visita com degustação simples ou tour matinal por volta das 10h00, seguida de um curto deslocamento para a segunda vinícola ao meio-dia ou 13h00, onde você fará o almoço harmonizado demorado. Tentar encaixar uma terceira visita à tarde, de barriga cheia e depois de beber várias taças de vinho, torna-se extremamente cansativo. O corpo pede descanso.

Reservas antecipadas

As bodegas mais conceituadas e os restaurantes cobiçados do Vale de Uco operam com capacidade limitada para garantir a qualidade do atendimento. Se você tentar aparecer na portão de uma grande vinícola sem reserva, a segurança na guarita simplesmente não permitirá a sua entrada.

As reservas devem ser feitas com meses de antecedência. Para os feriados prolongados e para a época da Vendimia, algumas bodegas abrem suas agendas online com três meses de antecedência e esgotam os lugares na mesma semana. O contato por e-mail ou pelos sistemas de reserva dos sites oficiais é obrigatório.

Hospedagem dentro do Vale vs. Bate e volta de Mendoza

Muitas pessoas me perguntam sobre onde dormir. A maioria absoluta dos turistas fica em hotéis no centro de Mendoza e faz o bate e volta diário de carro ou remis. Essa é a opção mais econômica e com acesso fácil a bares, farmácias, cafés e lojas à noite.

No entanto, hospedar-se dentro do próprio Vale de Uco é uma experiência à parte. Existem hotéis boutique focados em vinho e pousadas construídas no meio dos vinhedos. Dormir na região permite acordar com a visão direta da montanha, caminhar pelas vinhas ao amanhecer e eliminar as horas de estrada. A ressalva é que esses hotéis costumam ter preços muito mais elevados e, à noite, não há para onde ir além do restaurante da própria hospedagem, pois as estradas rurais não possuem iluminação pública ou vida noturna.

Vale de Uco ou Luján de Cuyo?

Esta é a grande dúvida na hora de montar o roteiro. Luján de Cuyo, conhecida como a Primeira Zona, é o berço histórico do Malbec, localizada a apenas 30 minutos de Mendoza. O Vale de Uco é mais longe, mais alto e mais moderno.

As diferenças fundamentais na experiência

Luján de Cuyo tem uma atmosfera mais tradicional e charmosa, com ruas arborizadas, vinhedos velhos plantados em sistema de latada e vinícolas centenárias com paredes de adobe. Os vinhos têm um estilo clássico, potente e redondo.

O Vale de Uco é a vastidão, a modernidade, o deserto, as construções arrojadas e os vinhos mais vibrantes e ácidos. As paisagens de Uco são muito mais dramáticas porque as montanhas estão coladas aos vinhedos.

A recomendação prática é não escolher apenas um. Uma viagem bem estruturada deve equilibrar dias em Luján de Cuyo para absorver a história e a tradição, e dias no Vale de Uco para entender o futuro da viticultura argentina e apreciar a grandiosidade geográfica.

Dicas Extras de Quem Conhece a Região

A preparação envolve pequenos detalhes que fazem toda a diferença durante os dias de passeio.

Água e a altitude

Mendoza tem um clima desértico. A umidade do ar frequentemente cai para níveis muito baixos. Além disso, no Vale de Uco, você estará consumindo álcool em altitudes superiores a mil metros. Essa combinação desidrata o corpo rapidamente e pode causar dores de cabeça se você não for cuidadoso. O segredo básico é beber pelo menos o dobro de água que você consumiria normalmente, intercalando um copo grande de água para cada taça de vinho servida.

Roupas adequadas

O conceito de vestir-se em camadas é a regra de ouro. Mesmo no verão, a manhã pode ser fria e o vento andino sempre derruba a sensação térmica à sombra. Use roupas leves, mas tenha sempre um agasalho ou jaqueta à mão. Para os pés, o conforto impera. Os tours pelas vinícolas envolvem caminhar por solos de terra fofa, descer escadas para as caves de barricas e pisar em cascalho. Tênis confortáveis, botas sem salto alto ou sapatos fechados são muito mais úteis do que calçados formais.

Compras de vinhos e despacho nos vôos

Comprar as garrafas direto na origem tem vantagens e desvantagens. Vinhos de edições muito limitadas que não são exportados são ótimas aquisições na lojinha da vinícola ao final da visita. Para vinhos mais comerciais, muitas vezes você encontra preços melhores nas enotecas do centro de Mendoza do que nas bodegas, devido às promoções locais de comércio.

Na hora de planejar seus vôos de volta, lembre-se das restrições de peso e volume das companhias aéreas. As garrafas de vinho pesam bastante (uma garrafa de vidro grosso e vinho dentro pode passar de um quilo e meio). A compra de malas especiais para transporte de vinho, feitas de isopor reforçado ou materiais rígidos, é um investimento inteligente se você pretende levar caixas. Despachar caixas de vinho nos vôos exige cuidado na embalagem e declaração prévia nos balcões de check-in, garantindo que as joias líquidas que você comprou cheguem seguras à sua casa.

O Vale de Uco mudou para sempre a percepção do mundo sobre a Argentina. Mais do que entender sobre taninos e barricas, ir até essa zona aos pés dos Andes é compreender a força da natureza e o trabalho incansável de quem transformou um deserto gelado no berço de alguns dos vinhos mais espetaculares da atualidade.

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