O mau Jornalismo que Destrói Destinos Turísticos

Existe um tipo de dano que não aparece em nenhuma estatística de desastres naturais, crises políticas ou acidentes de avião — mas que pode esvaziar um destino turístico com a mesma eficiência. É o dano causado por um texto mal apurado, publicado às pressas, com título sensacionalista pensado para gerar clique, sem o menor comprometimento com a realidade. E o que é mais assustador: quem escreve esse texto raramente sente qualquer responsabilidade pelo estrago que provoca.

O bom jornalismo parece estar cada vez mais limitado

O turismo é um dos setores mais vulneráveis à desinformação. Não é difícil entender por quê. A decisão de viajar é emocional. A pessoa não está comprando um produto que pode testar antes. Está comprando uma expectativa, uma experiência futura. Qualquer sombra de dúvida — sobre segurança, sobre higiene, sobre instabilidade — é suficiente para cancelar uma reserva, desistir de uma viagem planejada há meses, ou simplesmente riscar um destino da lista sem maiores explicações. É nisso que o jornalismo irresponsável encontra seu terreno mais fértil.


O Clickbait Chegou ao Turismo — E Está Fazendo Vítimas

O problema não é novo, mas ganhou proporções industriais com a internet. Portais que vivem de pageviews precisam de volume. Volume exige frequência. Frequência exige rapidez. Rapidez derruba qualquer critério de verificação. O resultado é um ciclo vicioso que produz, todos os dias, textos sobre destinos turísticos cheios de imprecisões, exageros e, em muitos casos, mentiras literais.

O mecanismo é sempre parecido. Alguém posta algo nas redes sociais sobre um suposto perigo, uma ocorrência isolada, uma foto fora de contexto. Algum portal pesca o conteúdo, escreve uma manchete catastrófica, e em poucas horas o texto está sendo compartilhado em grupos de WhatsApp com a velocidade de um incêndio florestal. Ninguém liga para verificar. Ninguém espera pela resposta oficial do destino. O que importa é o clique.

E destinos turísticos — sejam cidades, regiões ou países inteiros — não têm como se defender em tempo real. Quando a resposta oficial chega, o estrago já está feito. Cancelamentos já foram processados. Passagens já foram reembolsadas. O medo já está instalado.


Casos Reais: Quando a Mentira Tem Endereço

Um dos exemplos mais recentes e curiosos veio da Austrália. Em 2025, uma agência de turismo australiana publicou em seu blog um post sobre as “melhores fontes termais da Tasmânia” — gerado integralmente por inteligência artificial, sem qualquer revisão humana. O texto descrevia com detalhes líricos as “Fontes Termais de Weldborough”, um lugar apresentado como refúgio natural incrível, favorito entre caminhantes locais, rico em minerais terapêuticos. O problema? Esse lugar nunca existiu. Nunca houve fontes termais ali.

O resultado foi caótico. Turistas começaram a ligar para o único hotel da pequena cidade de Weldborough perguntando pelo local. Depois, passaram a aparecer pessoalmente — muitos deles vindos de longe, de carro, depois de horas de estrada. A proprietária do hotel local, Kristy Probert, contou à CNN que chegou a receber cinco telefonemas por dia e duas ou três visitas presenciais de turistas confusos. Ela prometia a todos a mesma coisa: se conseguissem achar as tais fontes termais, as cervejas seriam por conta da casa.

A empresa que cometeu o erro — a Australian Tours and Cruises — disse que seu conteúdo havia sido terceirizado e publicado enquanto o proprietário estava fora do país, sem a revisão habitual. “Nossa IA errou completamente”, admitiu Scott Hennessy à ABC. A empresa afirmou que o ódio online e o dano à reputação foram “absolutamente devastadores”. A desinformação não veio de má-fé intencional nesse caso, mas o resultado prático foi o mesmo: turistas lesados, dinheiro desperdiçado, uma cidade rural confundida.


Mas há casos onde a intenção parece bem menos inocente. Em fevereiro de 2026, um hotel tradicional de Florianópolis, o Majestic Palace Hotel, fundado pela família Daux, virou alvo de uma onda de ataques digitais brutal. A causa foi uma fake news que associava o sobrenome da família a um dos adolescentes envolvidos no brutal caso do cão Orelha — aquele que foi espancado até a morte em uma praia catarinense. A associação era completamente falsa. Não havia nenhum vínculo familiar. Era apenas um sobrenome parecido.

Portais e páginas nas redes sociais publicaram a informação sem verificar. O resultado foram mais de 300 mensagens de ataques, xingamentos e ameaças direcionadas ao hotel. Reservas foram canceladas. A reputação de um empreendimento construído ao longo de décadas foi destruída em questão de horas por informações que nenhuma redação seriamente comprometida com o jornalismo teria publicado sem apuração mínima.

O hotel se pronunciou repudiando a fake news. Mas quem viu o desmentido? Provavelmente uma fração ínfima das pessoas que compartilharam a mentira. É assim que funciona: a mentira viaja na velocidade das redes sociais, e a correção viaja na velocidade do tédio.


Cidades Pequenas Também São Vítimas

Em 2022, uma notícia falsa circulou em grupos de WhatsApp e portais locais do Paraná afirmando que São Jorge D’Oeste, no interior do estado, teria inaugurado a primeira praia de nudismo do Paraná. As autoridades desmentiram rapidamente. Nunca houve qualquer praia de nudismo. A história surgiu como uma brincadeira — ou, na melhor das interpretações, como um equívoco — e viralizou da forma mais irresponsável possível.

O curioso é que, nesse caso específico, o efeito colateral foi ambíguo: o município acabou ganhando uma visibilidade inesperada. Mas não é assim que costuma acontecer. Na maioria dos casos, a fake news sobre um destino gera rejeição, não curiosidade. E quando envolve questões de segurança, o impacto é devastador.

Klook.com

O Caso Dubai: Desinformação em Escala Global

O que aconteceu com Dubai a partir de março de 2026 é um exemplo perfeito de como a mistura de informação legítima, exagero jornalístico e desinformação intencional pode destruir a narrativa de um destino. Com o início dos conflitos militares no Oriente Médio envolvendo EUA, Israel e Irã, Dubai — que de fato foi atingida por mísseis e drones iranianos — entrou em colapso turístico. Hotéis cinco estrelas esvaziaram. Shoppings e praias que normalmente fervilhavam de visitantes do mundo inteiro operavam com capacidade mínima.

O problema é que, paralelamente ao que era real e preocupante, surgiu uma enxurrada de notícias e conteúdos que exageravam a situação ou simplesmente inventavam cenários. Segundo a BBC, pelo menos 21 pessoas foram acusadas pelo governo dos Emirados Árabes Unidos de “crimes cibernéticos” por postagens nas redes sociais mostrando ataques recentes — alguns dos acusados relataram que as queixas eram “vagas”. Ou seja: mesmo num contexto onde havia risco real, a linha entre informação legítima e sensacionalismo tornou-se impossível de traçar.

O turismo de Dubai, que movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano, enfrentou seu maior colapso histórico. Parte disso era inevitável, dada a situação geopolítica concreta. Mas parte foi amplificada por portais que lucraram com o alarme — publicando manchetes catastrofistas sobre uma cidade que é, em grandes áreas, bem mais segura do que as manchetes sugeriam.


A Acusação Sem Prova: O Truque Mais Covarde do Jornalismo Ruim

Mas existe um recurso que é, talvez, o mais desonesto de todos na cobertura de turismo — e que tem crescido de forma exponencial nas redes sociais e em veículos de credibilidade questionável. É a acusação de que influenciadores estão sendo pagos por governos para fazer vídeos positivos sobre determinado destino.

A lógica é simples e muito eficiente. Alguém publica um vídeo mostrando um destino de forma positiva — e imediatamente surgem comentários e até textos jornalísticos sugerindo que aquele criador de conteúdo foi pago pelo governo local para fazer propaganda. Sem nenhuma prova. Sem nenhum documento. Sem nenhuma fonte identificada. A acusação é suficiente para contaminar a credibilidade do criador e, por extensão, a própria percepção do destino.

O caso Dubai foi um laboratório perfeito desse fenômeno. Dezenas de influenciadores que moram nos Emirados Árabes Unidos — e que publicaram vídeos dizendo que estavam seguros, que a vida seguia normalmente — foram imediatamente bombardeados com perguntas do tipo “quanto o governo pagou para você publicar isso?”. A influenciadora Gabriella Magalhães, com cerca de 20 mil seguidores, respondeu diretamente a um desses comentários: “Pagou? Eu invisto aqui.” E ainda assim a suspeita permaneceu.

O Jornal Público de Portugal, que investigou o fenômeno com seriedade, reconheceu o problema com honestidade: “Se os influencers estão a ser pagos para fazer propaganda ou, pelo menos, instruídos a publicar este tipo de conteúdo, não se sabe.” Essa frase é fundamental. Significa: não temos prova. Mas o que fazem portais menos cuidadosos? Publicam a suspeita como se fosse fato. Usam o “dizem que”, o “segundo internautas”, o “levantamentos apontam” — e lançam sobre o influenciador e sobre o destino uma nuvem de desconfiança sem nenhuma evidência concreta.

Isso não é jornalismo. É insinuação com verniz de reportagem.


Por Que Isso É Tão Grave Para o Turismo Especificamente

Vale entender por que esse tipo de desinformação afeta o turismo de forma tão desproporcional em relação a outros setores. Hervé Lambert, especialista em turismo e segurança informática, explicou à agência EFE o mecanismo central: “No setor do turismo, o impacto da desinformação é especialmente alto, porque a compra é emocional e urgente e porque a viagem implica muitos dados sensíveis.”

Compra emocional. Essa é a chave. Quando alguém decide viajar, não está fazendo uma análise técnica fria. Está sonhando. Está imaginando. Está depositando expectativa, dinheiro e tempo em algo que ainda não aconteceu. Qualquer ruído nessa equação — por menor que seja — tem um peso desproporcionalmente grande. Uma manchete catastrofista sobre um destino pode eliminar uma viagem que estava sendo planejada há meses, e a pessoa nem vai atrás de confirmar a informação. Vai simplesmente escolher outro lugar.

Um estudo da Universidade Internacional de La Rioja analisou afirmações falsas sobre turismo que circularam em países como Espanha, México e Colômbia e concluiu que a maioria das narrativas enganosas sobre o setor se concentra em questões econômicas e de segurança — exatamente os dois fatores que mais influenciam a decisão de viagem do turista médio.


Governos Que Pagam Influenciadores: Verdade, Mentira ou a Zona Cinzenta Onde o Sensacionalismo Prospera?

É preciso ser honesto sobre um ponto: governos e prefeituras contratam sim influenciadores para divulgar destinos turísticos. Isso é uma prática legítima, regulamentada, e que acontece no Brasil e no mundo inteiro. A Câmara Municipal de Salvador chegou a protocolar um projeto de lei propondo a criação de um selo “Official Salvador Digital Influencer” para criadores contratados pela prefeitura para divulgar a cidade — transparência total, critérios definidos, processo seletivo público.

Isso é completamente diferente de pagar influenciadores para mentir, omitir riscos ou criar uma realidade paralela. O marketing turístico existe. Sempre existiu. Antes eram campanhas em revistas e televisão. Agora são parcerias com criadores de conteúdo digital. Mostrar o melhor de um destino não é desonestidade — é publicidade. E publicidade tem regras, tem transparência exigida por lei, tem mecanismos de regulação.

O problema começa quando portais irresponsáveis tomam a existência legítima do marketing turístico e transformam isso numa acusação genérica e sem prova contra qualquer criador de conteúdo que ouse falar bem de algum lugar. Qualquer vídeo bonito de um destino passa a ser suspeito. Qualquer experiência positiva relatada por um viajante vira potencial propaganda paga. A narrativa não precisa de prova — basta a insinuação. E a insinuação, repetida com frequência suficiente, torna-se senso comum.


O Prejuízo Tem Nome e Sobrenome — Mas Quem Escreve a Notícia Não Sabe

O turismo brasileiro movimenta milhões de empregos diretos e indiretos. Uma pousada familiar no litoral catarinense, um restaurante em Ouro Preto, uma agência de passeios no Pantanal — todos dependem de uma imagem positiva e de um fluxo constante de visitantes. Uma fake news que associa um destino a um crime, um perigo inexistente ou uma crise fabricada pode destruir temporadas inteiras. Pode fechar negócios. Pode demitir funcionários. Pode arruinar anos de trabalho construído com suor e investimento real.

Quem escreve o título sensacionalista não paga nenhuma dessas contas. Quem compartilha a mentira no WhatsApp dorme tranquilo. O portal que lucrou com o clique segue operando normalmente, e já publicou outras dez manchetes catastrofistas naquele mesmo dia.

O jornalismo bem feito — aquele que verifica, que ouve os dois lados, que distingue o risco real do alarme fabricado — é o único antídoto eficaz contra isso. Não é ingenuidade achar que existe. Existe, e faz diferença. Mas é cada vez mais raro, cada vez mais pressionado pelo modelo econômico que premia o clique fácil, e cada vez mais disputando espaço com o lixo digital que se autodenomina imprensa.

Destinos turísticos podem sobreviver a crises reais. O que é muito mais difícil de superar é a crise fabricada — aquela que não existia, mas que alguém decidiu que geraria engajamento suficiente para valer a publicação.

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