O Japão Mudou as Regras Para Turistas
O Japão bateu recorde de visitantes estrangeiros em 2025, ultrapassou 42 milhões de turistas em um único ano, e agora responde ao excesso com taxas obrigatórias, sistema de reservas e novos impostos de hospedagem que valem a partir de 2026.

A notícia circula em redes sociais com um tom de alerta, às vezes exagerado, às vezes impreciso. Por isso vale separar o que está confirmado em fontes oficiais do que ainda é especulação ou simplificação. O Japão mudou, sim. Mas não da forma catastrófica que alguns posts fazem parecer. Mudou de forma calculada, específica e, em alguns aspectos, bem pensada.
Aqui estão os fatos verificados.
Monte Fuji: a subida agora custa ¥4.000 e exige cadastro
Essa é a mudança mais concreta e com mais documentação oficial disponível.
A temporada de escalada do Monte Fuji em 2026 vai de 1º de julho a 10 de setembro. Tanto a Prefeitura de Yamanashi quanto a de Shizuoka passaram a exigir dois requisitos de qualquer pessoa que queira subir a montanha: cadastro prévio e pagamento de uma taxa de ¥4.000 por pessoa, equivalente a cerca de R$ 170 na cotação atual.
Não é mais uma doação voluntária. É obrigatória, paga antecipadamente no sistema de reservas online, e sem ela o acesso às trilhas é simplesmente bloqueado por portões físicos instalados a partir da quinta estação.
Além do pagamento, há restrições de horário. Quem pretende iniciar a subida entre 14h e 3h da manhã do dia seguinte precisa ter reserva confirmada em um abrigo de montanha para pernoite. A medida foi criada especificamente para combater a chamada “escalada-bala”: subir a noite toda sem descanso para chegar ao cume no amanhecer, prática que gerava acidentes por altitude e superlotação perigosa nos trechos finais.
A Prefeitura de Yamanashi também impõe um limite diário de escaladores na Trilha Yoshida, a mais popular. Quando as vagas se esgotam, novas reservas são bloqueadas automaticamente.
Os resultados das regras introduzidas desde 2024 já aparecem nos dados: queda expressiva nos casos de emergência, resgates e desaparecimentos nas trilhas. Segundo reportagem do Portal Japão baseada no jornal Yomiuri Shimbun, as províncias consideram as medidas bem-sucedidas e pretendem mantê-las com aprimoramentos nas próximas temporadas.
O que o viajante precisa fazer na prática: acessar o site oficial fujisan-climb.jp, fazer o registro com antecedência, pagar a taxa online e verificar a disponibilidade de vagas na data escolhida. Em finais de semana de alta temporada, as vagas esgotam com semanas de antecedência.
Kyoto: imposto de hospedagem chega a ¥10.000 por noite
Também confirmado, com data de vigência precisa: 1º de março de 2026.
Kyoto tinha um imposto municipal de hospedagem desde 2018, dividido em três faixas. A nova estrutura foi aprovada pelo Ministério de Assuntos Internos do Japão em outubro de 2025 e reorganizou esse imposto em cinco categorias progressivas, cobradas por pessoa, por noite:
| Diária do quarto | Imposto por pessoa/noite |
|---|---|
| Menos de ¥6.000 | ¥200 |
| ¥6.000 a ¥19.999 | ¥400 |
| ¥20.000 a ¥49.999 | ¥1.000 |
| ¥50.000 a ¥99.999 | ¥4.000 |
| ¥100.000 ou mais | ¥10.000 |
Para a maior parte dos viajantes, o impacto é pequeno. Quem fica em hotéis de diária abaixo de ¥20.000 por pessoa paga entre ¥200 e ¥400 a mais por noite. Quem se hospeda em hotéis de luxo acima de ¥100.000 a noite, no entanto, passa a pagar ¥10.000 extras por hóspede, o imposto de hospedagem mais alto já aplicado no Japão até hoje.
A prefeitura foi direta ao justificar a medida: “Os turistas também devem arcar com o custo das ações contra o turismo excessivo”, afirmaram representantes da cidade na submissão ao ministério, conforme reportado pelo Asahi Shimbun. A projeção é que a nova estrutura mais que dobre a arrecadação municipal com o imposto, chegando a cerca de ¥12 bilhões por ano.
O imposto é cobrado diretamente pela hospedagem e aparece separado na conta. Não há nada a fazer além de antecipar o valor no planejamento do orçamento da viagem.
Sistema de reservas e controle de visitantes: a tendência que já chegou
Não existe uma “regra nacional” que exija reserva prévia para todas as atrações do Japão. Mas a tendência de limitar o acesso a pontos específicos cresceu de forma acelerada e já afeta diretamente vários dos destinos mais procurados.
Segundo dados compilados por especialistas em turismo no Japão, alguns dos locais com maior impacto em 2026:
- Bosque de bambu de Arashiyama (Kyoto): passou a exigir entrada com horário marcado, reservada com semanas de antecedência em dias de pico.
- Santuário Fushimi Inari (Kyoto): os portões inferiores ficam lotados das 9h às 17h. A única forma de visitá-lo com tranquilidade é chegar antes das 7h da manhã ou subir os trechos mais altos, onde os turistas rarefazem.
- Senso-ji (Asakusa, Tóquio): sem sistema de reserva formal ainda, mas com fluxo de turistas que torna a visita em horário central uma experiência bem diferente das fotos que circulam online.
- Monte Fuji, Fujikawaguchiko: barreiras físicas e proibições de fotografia em certos ângulos populares foram instaladas após o viral episódio de turistas invadindo propriedades para fotografar a montanha por trás de uma loja de conveniência.
O governo japonês publicou em março de 2026 um plano nacional de turismo que define a meta de 100 áreas com medidas ativas de controle de overtourism até 2030 e prevê dispersão de visitantes para regiões rurais menos conhecidas. A taxa de saída do país, o chamado “imposto de partida”, também foi triplicada a partir de julho de 2026, passando de ¥1.000 para ¥3.000 por pessoa, embutida automaticamente na passagem aérea.
Por que o Japão chegou a esse ponto
Os números explicam boa parte da pressão. O país recebeu mais de 42 milhões de visitantes estrangeiros em 2025, recorde histórico. O turismo virou a segunda maior fonte de exportação do país, atrás apenas dos automóveis. Com essa dimensão, o efeito sobre comunidades específicas ficou insuportável.
Moradores de Kyoto relataram deixar de circular pelos próprios bairros próximos a Gion por causa da superlotação. A Prefeitura de Fujiyoshida cancelou o festival de florescer das cerejeiras após conflitos com turistas. Um município na região do Monte Fuji chegou a tentar instalar uma grande barreira escura para bloquear o ângulo de fotografia mais popular, antes de encontrar outras soluções.
Não é hostilidade ao turismo. O Japão continua sendo um dos países mais receptivos do mundo a visitantes estrangeiros, e o governo tem meta de chegar a 60 milhões de turistas por ano até 2030. O que está mudando é a lógica do acesso livre e irrestrito a qualquer hora, em qualquer volume, sem qualquer contribuição financeira proporcional ao impacto gerado.
As novas regras, no fundo, são uma negociação. O Japão diz: você pode vir, pode subir o Fuji, pode ficar no melhor hotel de Kyoto. Mas vai pagar pelo que usa, vai se registrar antes, vai respeitar os limites de cada espaço. É uma postura que já funcionou na Islândia, na Nova Zelândia e em partes da Europa. No Japão, com a tradição de organização que já existe no cotidiano da cidade, a tendência é que funcione também.
Para o viajante que se planejar com antecedência, nada disso é um problema. É apenas um passo a mais no processo, com custo adicional controlado. Para quem chega no improviso esperando o Japão de dez anos atrás, a surpresa pode ser real.