Muralha da China: Uma das Maiores Obras da Humanidade

Descubra tudo sobre a Muralha da China: melhores trechos para visitar, época ideal, como chegar de Pequim, dicas práticas e o que ninguém te conta antes da viagem.

Fonte: Civitatis

Visitar a Muralha da China é daquelas experiências que mudam a forma como você enxerga o mundo. Não pela beleza apenas, embora ela seja absurda, mas pela noção de escala. Você sobe ali, olha para os dois lados, e a parede de pedra simplesmente some no horizonte, subindo e descendo montanhas como se fosse uma serpente de tijolos esquecida há séculos sobre o relevo chinês. É um daqueles lugares onde fotografia nenhuma faz justiça.

E o melhor: dá para visitar em um bate e volta saindo de Pequim. Cerca de uma hora e meia de carro separam a capital do trecho mais turístico. Ou seja, se você está fazendo aquela escala estratégica na China ou tem poucos dias por lá, ainda assim consegue conhecer.

Vou te contar tudo o que vale a pena saber antes de pisar nesse monumento.

Um pouco de história (sem ser chato)

A Muralha não foi construída de uma vez só. Esse é o primeiro ponto que confunde quase todo mundo. As primeiras seções começaram a ser erguidas entre os séculos VIII e V a.C., quando os antigos estados chineses, ainda separados, levantavam fortificações próprias para se proteger de vizinhos hostis.

O salto veio com Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China unificada, lá pelo século III a.C. Foi ele quem mandou conectar essas muralhas espalhadas em um sistema único, basicamente para barrar invasões vindas do norte. A motivação era pragmática, nada de obra faraônica por vaidade. Era guerra, era sobrevivência.

Depois vieram os Han, que continuaram a expansão para proteger a Rota da Seda, fundamental para o comércio. E mais tarde, entre os séculos XIV e XVII, a dinastia Ming fez o que talvez seja o trabalho mais reconhecido hoje: incorporou torres de vigia, fortalezas, restaurou trechos antigos e ergueu boa parte do que os turistas visitam atualmente. Quase tudo que aparece nos cartões postais é Muralha Ming.

Tem uma história sombria por trás dessa grandiosidade. A Muralha é conhecida como “o cemitério mais longo da Terra” pelo número de trabalhadores que morreram durante a construção. Existe um mito antigo de que os corpos eram enterrados dentro das próprias paredes, mas nenhuma evidência arqueológica confirma isso. Ainda assim, o apelido pegou e ajuda a entender o custo humano da obra.

E ela funcionou? Em parte. Genghis Khan, fundador do Império Mongol, conseguiu romper a Muralha no início do século XIII. Seu neto, Kublai Khan, completou a conquista, derrotou a dinastia Song no sul em 1279 e estabeleceu o domínio mongol sobre toda a China. Ou seja, a maior fortificação da história falhou justamente naquilo para o qual foi feita. A vida é assim mesmo.

O tamanho real disso aqui

Estimativas recentes apontam que a Muralha tem cerca de 21.000 quilômetros de extensão, algo em torno de 13.048 milhas. Isso considerando todas as ramificações, trechos sobrepostos e seções construídas em diferentes épocas.

Para ter ideia, é mais do que a distância entre o Brasil e o Japão em linha reta. Ninguém percorre tudo. Ninguém precisa percorrer tudo. A graça está em escolher um trecho bem preservado e curtir.

Os principais trechos para visitar

A Muralha atravessa o norte da China e o sul da Mongólia, formada por centenas de seções individuais. Algumas estão impecavelmente restauradas, outras caem aos pedaços, e cada uma tem uma vibe diferente. Vou destacar os trechos que realmente importam para o viajante comum.

TrechoDistância de PequimPerfil
Badaling70 kmMais turístico e movimentado
Mutianyu70 kmEquilíbrio entre conservação e calmaria
Jinshanling130 kmPara caminhadas longas
Simatai145 kmVisitação noturna disponível
Huanghuacheng80 kmTrecho parcialmente submerso
Jiankou100 kmSelvagem, sem restauração

Badaling

É o trecho mais famoso e o mais próximo de Pequim. Foi o primeiro a ser aberto ao público, recebeu chefes de estado, presidentes, papas. Justamente por isso, vive cheio. Em alta temporada chega a ser desconfortável de tanta gente. A estrutura é excelente, com teleférico, lojas, restaurantes. Se você tem mobilidade reduzida ou está com crianças pequenas, é a opção mais prática.

Mutianyu

Para mim, e para muita gente que entende do assunto, é o melhor custo benefício. Fica perto de Pequim, é bem conservado, mas recebe muito menos visitantes que Badaling. Tem uma vantagem curiosa: na descida você pode usar um tobogã que leva uns cinco minutos para chegar ao pé da Muralha. Parece bobagem, mas é divertido demais e cria uma memória diferente da viagem. Também tem teleférico ou gôndola para subir, então não precisa esfolar as pernas se não quiser.

Jinshanling

Esse é para quem quer encarar de verdade. Trilhas longas, paisagens dramáticas, menos gente, e a possibilidade de fazer uma caminhada até Simatai que vira história para contar para o resto da vida. Recomenda-se ter bom preparo físico.

Simatai

Único trecho que permite visitação noturna. Vale a pena se você estiver hospedado na região, porque a Muralha iluminada à noite é algo que poucas pessoas presenciam.

Huanghuacheng

Esse é o trecho mais peculiar: parte da Muralha submerge em um lago, criando uma cena que parece saída de pintura. Ótimo para visitas tranquilas, longe das hordas turísticas. Muitas viagens de voluntariado e mutirões de limpeza acontecem por essa região.

Jiankou

Não restaurado, perigoso, mas o queridinho dos fotógrafos. Não é recomendado para visitantes comuns. Sem corrimões, com pedras soltas e trechos íngremes. Só vá se souber o que está fazendo e, de preferência, acompanhado de guia experiente.

Quando ir

A Muralha é um daqueles lugares que pode ser visitado o ano todo. Mas cada estação entrega uma experiência diferente.

Setembro a novembro é a melhor janela. Folhagem dourada, céu limpo, temperaturas agradáveis. Milhões de viajantes consideram esse o pico da experiência, e não é à toa. A Muralha entre montanhas vermelhas e amarelas vira pintura ao vivo.

Primavera (abril e maio) também é boa, com clima ameno e flores começando a aparecer.

Verão (junho a agosto) é quente, abafado e cheio. Se quiser céu azul de cartão postal, pode ser uma boa, mas leve água em abundância.

Inverno tem seu charme. A Muralha coberta de neve é cenário raro e impressionante. O problema é o frio cortante e alguns trechos podem ficar fechados ou perigosos por causa do gelo.

Como chegar de Pequim

Depende do trecho e do seu estilo de viagem.

Ônibus público: opção mais barata, leva mais tempo, exige um pouco de coragem com placas em mandarim. Funciona bem para Badaling e Mutianyu.

Trem: existe uma linha direta de Pequim para Badaling, rápida e tranquila.

Carro privado com motorista: o que mais recomendo se você não fala mandarim e quer otimizar o tempo. Permite parar onde quiser, sair cedo para fugir da multidão e voltar no seu ritmo.

Tours guiados: vão te buscar no hotel, organizam ingressos, almoço e tudo mais. Boa pedida para quem está com pouco tempo ou viajando em grupo.

Informações essenciais

ItemDetalhes
Melhor épocaSetembro a novembro
Fuso horárioUTC+8
MoedaYuan (CNY)
IdiomaMandarim
VistoNecessário para brasileiros
TomadaPadrões A, C e I

Visto e burocracia

Brasileiros precisam de visto para entrar na China. Ele deve ser solicitado com antecedência no consulado, em São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, dependendo da jurisdição. Exige formulário preenchido, passagens, reserva de hotel, comprovantes financeiros e, em alguns casos, carta convite.

Existem programas de trânsito sem visto para quem fica até 144 horas em determinadas cidades, incluindo Pequim. Vale checar se o seu roteiro se encaixa nessa regra antes de pagar visto à toa.

Dinheiro e pagamentos

A China é praticamente uma sociedade sem dinheiro. WeChat Pay e Alipay dominam tudo. Cartões de crédito internacionais funcionam em hotéis maiores e alguns restaurantes, mas em lugares menores você vai apanhar. Vale levar yuans em espécie para emergências e tentar configurar o Alipay com cartão internacional antes da viagem, já que a plataforma passou a aceitar bandeiras estrangeiras.

Conexão à internet

Outro ponto delicado: Google, Instagram, WhatsApp, Facebook e basicamente todas as redes ocidentais estão bloqueadas na China. Para usar normalmente, você precisa de uma VPN instalada e configurada antes de chegar. Depois que pisa lá, já é tarde, porque os sites para baixar essas VPNs também são bloqueados.

Outra alternativa é um chip internacional que faz roaming, porque ele roteia o sinal por fora da grande firewall chinesa.

O que levar para a visita

Calçado de trilha é obrigatório. As pedras da Muralha são irregulares, alguns degraus têm meio metro de altura, outros centímetros, sem padrão. Tênis comum até serve, mas sapato de couro liso é convite a tombo.

Água em quantidade. Protetor solar mesmo no inverno, porque o reflexo nas paredes claras é intenso. Boné ou chapéu. Casaco corta vento, porque o vento lá em cima costuma ser forte mesmo em dias quentes.

Câmera com bateria reserva. Você vai tirar muito mais foto do que imagina.

Preservação da Muralha

A Muralha sofre com erosão natural, vandalismo e o desgaste de receber milhões de visitantes por ano. Algumas organizações trabalham ativamente para preservá-la.

A International Friends of the Great Wall é uma das mais antigas organizações independentes voltadas à preservação. Trabalha em parceria com a Administração Estatal de Patrimônio Cultural da China e organiza viagens de voluntariado pela WildWall. Contato pelo email william@wildwall.com ou na página da WildWall no Facebook.

A Abroad China, através da iniciativa Clean the Great Wall of China, oferece projetos de conservação onde voluntários ajudam na limpeza e reconstrução de trechos do monumento. Os programas incluem trilhas e seminários com especialistas locais. Mais informações em www.abroadchina.net.

Existem ainda trips beneficentes organizadas por diversas instituições. Vale dizer que esses programas costumam ser caros, mas têm propósito. Operadoras como a China Highlights (www.chinahighlights.com) montam pacotes personalizados, inclusive em trechos selvagens e restaurados.

Onde se hospedar

Pequim é a base óbvia, com hotéis para todos os bolsos. Bairros como Wangfujing e Sanlitun concentram boas opções e ficam perto do metrô.

Mas existe uma alternativa que poucos consideram: dormir perto da própria Muralha. Há pousadas charmosas em Mutianyu e Gubeikou, algumas em casas de aldeia reformadas. Acordar e ver a Muralha pela janela é algo que muda completamente a experiência.

O Brickyard Retreat em Mutianyu é referência, assim como pequenos guesthouses na região de Jinshanling.

Comida na região

Não passe pela Muralha sem provar a comida do norte da China. Tem influência mongol forte. Carneiro grelhado, macarrão puxado à mão, pão cozido no vapor recheado de carne. Em Pequim, claro, você precisa comer o pato laqueado em um restaurante tradicional. Quanjude e Da Dong são clássicos, mas qualquer restaurante local especializado entrega bem.

Próximo aos trechos turísticos da Muralha, evite os restaurantes logo na saída. Cobram caro e a qualidade é mediana. Caminhe um pouco mais, entre nas vielas das aldeias próximas. Aí a comida é de verdade.

Erros comuns que vejo as pessoas cometendo

Subir sem hidratação adequada. Parece bobagem, mas a quantidade de gente que passa mal lá em cima é grande, especialmente no verão.

Tentar fazer dois trechos no mesmo dia. Não funciona. Você acaba não aproveitando nenhum direito. Escolha um e dedique o dia inteiro a ele.

Acreditar que o trecho mais famoso é o melhor. Badaling é icônico, sim, mas Mutianyu entrega uma experiência mais rica para a maioria das pessoas.

Esquecer que a Muralha sobe e desce constantemente. As fotos enganam. Algumas escadarias são verticais quase. Quem tem joelho ruim sofre na descida mais do que na subida.

Ignorar o frio. Mesmo em outubro, lá em cima venta forte. Casaco fino não resolve.

Sites úteis para planejar

  • www.worldticktrek.com
  • whc.unesco.org/en/list/438 (página oficial da UNESCO)
  • www.travelchinaguide.com

Vale conferir tudo antes da viagem, já que algumas seções fecham para restauração sem aviso prévio e os ingressos online costumam dar desconto.

Vale a pena?

Vale cada centavo, cada hora de voo, cada burocracia de visto. A Muralha da China é uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo e está nessa lista por motivos óbvios. Mas ela não é apenas grande. Ela é histórica, é trágica, é bonita, é silenciosa em alguns trechos, ensurdecedora em outros.

Algumas partes são muito íngremes, então planeje suas pernas e seu fôlego de acordo com o que você quer encarar. Não é uma visita para fazer correndo. Reserve um dia inteiro, leve lanche, sente em alguma torre de vigia e fique ali olhando o horizonte. Pensa nas pessoas que ergueram aquilo há dois mil anos. Pensa em Genghis Khan furando a defesa. Pensa nos milhões de turistas que passaram por aquele mesmo ponto onde você está pisando.

Poucos lugares no mundo entregam essa noção de tempo, escala e história ao mesmo tempo. A Muralha da China é um desses lugares raros.

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