Lugares Românticos Para Visitar em Paris

Paris tem lugares românticos muito além da Torre Eiffel: guia detalhado com pontes, jardins, bairros, restaurantes, mirantes e roteiros a dois, com dicas práticas de horários, preços aproximados e como evitar as multidões.

Paris tem lugares românticos muito além da Torre Eiffel: guia detalhado com pontes, jardins, bairros, restaurantes, mirantes e roteiros a dois

Paris carrega essa fama de cidade mais romântica do mundo há tanto tempo que já virou quase um clichê. E o problema do clichê é que ele engessa o roteiro. A pessoa chega, tira foto no Trocadéro, coloca um cadeado em alguma ponte (spoiler: não faça isso, já explico), janta num lugar caro perto de um ponto turístico e volta para casa achando que viu o lado romântico da cidade. Viu uma versão dele. A menos interessante, inclusive.

O que faz Paris funcionar a dois não é a Torre Eiffel. É a escala da cidade, a quantidade absurda de lugares onde simplesmente sentar já é um programa, e o fato de que os parisienses transformaram estar na rua sem fazer nada numa arte. A cidade é densa, caminhável, cheia de esquinas onde a luz bate de um jeito estranho às sete da tarde no verão. É isso que vende, não o metal da torre.

Então vamos organizar isso de um jeito útil. Bairro por bairro, com o que realmente vale, o que é armadilha, quanto custa mais ou menos e em que horário ir. Porque horário, em Paris, muda tudo.

Primeiro, a lógica da cidade: entenda os arrondissements

Paris é dividida em 20 distritos administrativos, os arrondissements, que se organizam em espiral a partir do centro, sentido horário. O 1º é o coração (Louvre, Palais Royal), e o 20º está na borda leste. Isso importa por um motivo prático: quando você vê um endereço terminando em 75004, sabe que é o 4º, ou seja, Marais, bem central. 75018 é Montmartre. 75016 é a zona nobre e mais silenciosa perto do Bois de Boulogne.

Saber isso evita o erro mais comum de casal em primeira viagem: cruzar a cidade quatro vezes no mesmo dia. Paris intramuros tem cerca de 105 km², algo próximo de um décimo da área de São Paulo. Dá para caminhar muito, mas não dá para ziguezaguear sem perder metade do tempo no metrô.

A regra que eu usaria: um bairro por período. Manhã em um, tarde em outro, noite perto de onde você dorme. Romantismo e pressa não combinam.

O Sena, que é o verdadeiro protagonista

Antes das pontes específicas, uma observação: o rio é o eixo. A margem direita (Rive Droite) é a norte, a esquerda (Rive Gauche) é a sul. As duas ilhas no meio, Île de la Cité e Île Saint-Louis, são o miolo histórico.

As margens do Sena entre a Pont de Sully e a Pont d’Iéna são Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1991. Isso explica por que a paisagem é tão homogênea: dá para andar quilômetros sem ver um prédio moderno destoando.

Île Saint-Louis, o lugar que eu recomendaria primeiro

Se alguém me pedisse um único endereço romântico em Paris, eu diria Île Saint-Louis. É a menor das duas ilhas, quase inteiramente residencial, com uma rua central (Rue Saint-Louis en l’Île) e pouquíssimo trânsito. Fica ao lado da Île de la Cité, onde está Notre-Dame, mas com uma fração das pessoas.

Ali está a Berthillon, sorveteria aberta desde 1954, que virou instituição. Os sabores de fruta são melhores que os cremosos, na minha opinião, e o de framboesa é o que eu peço sempre. A loja original fecha às segundas e terças em boa parte do ano, mas há revendedores autorizados na mesma rua que abrem todos os dias, com o mesmo sorvete.

O programa é simples: comprar sorvete, andar até o Quai de Bourbon ou o Quai d’Anjou, descer os degraus até a beira d’água e sentar. Nas noites de verão isso lota de gente com garrafa de vinho e violão. Não é silencioso, mas é bonito de um jeito genuíno.

Pont Alexandre III, a mais bonita, sem discussão

A Pont Alexandre III é exagerada no melhor sentido. Foi inaugurada em 1900, para a Exposição Universal, com lampiões art nouveau, ninfas em bronze dourado e pégasos nas quatro colunas. Do meio dela você vê o Grand Palais de um lado e os Invalides do outro, com a Torre Eiffel de canto de olho.

Vá ao anoitecer. Os lampiões acendem e o dourado responde à luz de um jeito que foto nenhuma resolve. É também uma das pontes mais usadas em ensaios de casamento e pedidos de casamento, o que significa que às vezes você vai dividir espaço com fotógrafos. Antes das 8h da manhã, você tem a ponte quase para você.

Pont des Arts e o assunto dos cadeados

A Pont des Arts é uma passarela exclusiva para pedestres que ligava o Louvre ao Institut de France. Ficou mundialmente conhecida pelos cadeados do amor. Em junho de 2014, parte do parapeito desabou sob o peso, e em 2015 a prefeitura removeu cerca de 45 toneladas de cadeados e substituiu as grades por painéis de vidro e arte.

Ou seja: não existe mais lugar para pendurar cadeado, e colocar em outras pontes é vandalismo. A ponte continua ótima, só que por outro motivo. É de madeira, plana, sem trânsito, e o pôr do sol visto dali, com a ponta oeste da Île de la Cité no enquadramento, é uma das melhores vistas gratuitas da cidade. Muita gente leva queijo, pão e vinho e senta no chão. É permitido beber ao ar livre em Paris, diferente de várias cidades americanas.

Square du Vert-Galant, o triângulo secreto

Na ponta oeste da Île de la Cité, embaixo do nível da rua, tem uma pracinha triangular com salgueiros e bancos: o Square du Vert-Galant. Você desce por uma escada perto da estátua equestre de Henrique IV, na Pont Neuf. Quase ninguém desce. É provavelmente o melhor lugar para assistir ao rio se dividir em dois, com barcos passando dos dois lados.

Fecha à noite, como a maioria dos parques municipais. Vale checar o horário na placa da entrada, porque muda com a estação: no inverno fecha por volta das 17h30, no verão passa das 21h.

Torre Eiffel: como ver sem virar refém da fila

A torre é inevitável e, sejamos justos, impressionante. 330 metros contando as antenas, construída para a Exposição de 1889, projetada para durar 20 anos e nunca derrubada. Recebe cerca de 6 a 7 milhões de visitantes por ano, o que dá uma média de 18 mil pessoas por dia. Você não vai estar sozinho.

O ponto que ninguém comenta: a experiência romântica não é subir. É olhar.

Onde olhar de verdade

O Trocadéro, do outro lado do rio, é o cartão-postal padrão. Chegue pela saída do metrô Trocadéro e a torre aparece de repente, inteira, de frente. Funciona muito bem, mas fica cheio de vendedores e de gente até de madrugada.

Alternativas melhores a dois:

Champ de Mars, o gramado atrás da torre. Sentar ali de tarde com uma garrafa é um dos programas mais parisienses que existem. Aviso: há controle de bolsas em alguns acessos e o gramado é interditado em partes para recuperação.

Pont de Bir-Hakeim, com sua estrutura de ferro em dois níveis e o metrô passando em cima. Ângulo diagonal da torre, muito cinematográfico, bem menos gente. Um pouco mais ao sul fica a Allée des Cygnes, uma ilhota artificial estreita com uma alameda arborizada e uma réplica pequena da Estátua da Liberdade na ponta. Caminhada de uns 15 minutos, quase deserta.

Avenue de Camoens, no 16º. Uma escadaria curta com balaustrada que emoldura a torre. É pequena, e por isso lota de fotógrafos, mas cedo pela manhã é linda.

Rue de l’Université, altura do número 5 e a Place de Varsovie completam a lista dos ângulos que valem o desvio.

O brilho da hora cheia

A torre acende ao cair da noite e, a cada hora cheia, faz cinco minutos de cintilação com milhares de lâmpadas. A última sessão varia com a estação: geralmente 23h ou 0h, e há também um facho de luz girando no topo. Se você quer o momento fofo da viagem, o combo é este: escolher um dos mirantes acima, chegar 20 minutos antes de uma hora cheia, esperar. Custa zero.

Detalhe legal: as imagens noturnas da torre iluminada têm proteção de direitos autorais sobre a iluminação, o que na prática restringe uso comercial. Para foto pessoal e redes, ninguém liga.

Se quiser subir

Ingressos são vendidos no site oficial e abrem, em regra, com cerca de 60 dias de antecedência. Elevador até o topo custa por volta de 35 euros por adulto; escada até o 2º andar sai por menos de 15 euros. O topo é uma experiência de vista, não de intimidade: é apertado e ventoso.

Uma alternativa que eu prefiro: subir a Tour Montparnasse, no 15º. É um prédio de escritórios feio, de 210 metros, com terraço panorâmico. Justamente por ser feio, a vista dele é melhor: você vê a Torre Eiffel inteira na paisagem. Ingresso na faixa de 20 euros, filas curtas, e no fim do dia o céu ali é generoso.

Montmartre, e como fugir do turismo dele

Montmartre é a colina mais alta de Paris, cerca de 130 metros, coroada pela Basílica do Sacré-Cœur, concluída no início do século XX e consagrada em 1919. A entrada na basílica é gratuita. A subida ao domo custa alguns euros e tem escada estreita de mais de 300 degraus, mas entrega uma vista de 360 graus.

O erro clássico é chegar pela Place du Tertre, aquele largo com pintores e cardápios plastificados. Ali os preços são inflados e a atmosfera é de parque temático.

O caminho melhor: saia no metrô Lamarck-Caulaincourt ou Abbesses e suba pelas ruas laterais. Rue de l’Abreuvoir é provavelmente a rua mais fotografada do bairro, com a casa rosa (La Maison Rose) na esquina. Passe pelo Clos Montmartre, um vinhedo urbano real, plantado em 1933, que produz algumas centenas de garrafas por ano e faz uma festa da vindima em outubro. Ver videira em pleno Paris é estranho e ótimo.

Continue até o Square Marcel Bleustein-Blanchet, atrás do Sacré-Cœur, quase sempre vazio. E procure o Square Suzanne Buisson, uma pracinha escondida com quadras de petanca e uma estátua de São Dionísio segurando a própria cabeça. Existe uma tradição local de que os namorados que se encontram ali têm sorte. Verdade ou não, o lugar é silencioso de um jeito improvável.

O Mur des Je t’aime, no Square Jehan Rictus, perto do metrô Abbesses, é um painel de 40 metros quadrados com “eu te amo” escrito em mais de 250 idiomas, obra de Frédéric Baron e Claire Kito, inaugurada em 2000. É pequeno e tem fila de foto. Vale cinco minutos, não mais.

Para beber alguma coisa com vista, o terraço do Terrass” Hôtel, na Rue Joseph de Maistre, tem um dos melhores panoramas de bar da cidade. Preço de cocktail de hotel, na casa dos 18 a 22 euros. Vá pelo terraço, não pela comida.

Marais, para caminhar sem destino

O Marais cobre partes do 3º e do 4º arrondissement e é onde a Paris pré-Haussmann sobreviveu. Ruas estreitas, palacetes dos séculos XVII e XVIII, e uma vida noturna forte, especialmente na Rue des Archives e arredores, epicentro da cena LGBTQIA+ parisiense.

A Place des Vosges é a praça mais antiga planejada de Paris, inaugurada em 1612, com 36 pavilhões de tijolo e pedra idênticos em volta de um jardim quadrado com fontes e tílias. Sente num banco no fim da tarde. A arcada em volta tem galerias e cafés, e no número 6 fica a casa onde Victor Hugo morou entre 1832 e 1848, hoje museu com entrada gratuita para a coleção permanente.

Perto dali, o Village Saint-Paul é um conjunto de pátios interligados com antiquários. E o pátio do Hôtel de Sully conecta a Place des Vosges à Rue Saint-Antoine por uma passagem que quase ninguém percebe. Esse tipo de atalho é o que dá a sensação de estar descobrindo a cidade, mesmo que ela já esteja em todos os guias.

Uma parada específica: o jardim do Musée Carnavalet, museu da história de Paris, com entrada gratuita na coleção permanente. Os pátios internos são calmos e bem cuidados.

A Promenade Plantée, a caminhada suspensa

Também chamada de Coulée Verte René-Dumont, é um parque linear de cerca de 4,5 km construído sobre um antigo viaduto ferroviário no 12º arrondissement. Abriu em 1993 e inspirou o High Line de Nova York, que veio depois, em 2009.

Você entra perto da Ópera Bastille, sobe uma escada e caminha a nove metros do chão entre roseiras, bambus, alecrim e tílias, passando por cima do trânsito. Tem trechos com espelhos d’água, túneis de vegetação e vista para os telhados. Gratuito.

Embaixo do viaduto funciona o Viaduc des Arts, com ateliês de artesãos nos arcos. E ao fim, se você continuar, chega ao Bois de Vincennes.

Recomendação de horário: manhã de dia de semana. Domingo é dia de corredor e carrinho de bebê.

Jardins que valem uma tarde inteira

Paris tem mais de 400 parques e jardins públicos, mas alguns são especialmente bons a dois.

Jardin du Luxembourg, no 6º, é o mais elegante. Cerca de 23 hectares, criado por Maria de Médici a partir de 1612, hoje pertencente ao Senado francês. As cadeiras verdes metálicas espalhadas em volta do tanque central são livres para uso: você pega, arrasta para onde quiser, deita e dorme. Tem também o Fontaine Médicis, uma fonte comprida à sombra, com plátanos e água escura, que é provavelmente o canto mais romântico de todo o jardim. Vá em dia de semana. Fecha ao anoitecer, com sinos avisando.

Jardin des Plantes, no 5º, é mais tranquilo e menos turístico. Tem um labirinto em espiral numa colina artificial, o Gloriette de Buffon, com um mirante de ferro fundido de 1786, considerado uma das mais antigas estruturas metálicas do mundo. O jardim em si é gratuito; museus e estufas cobram entrada.

Parc des Buttes-Chaumont, no 19º, é o mais dramático. Foi construído sobre uma antiga pedreira de gipsita, inaugurado em 1867, com 25 hectares, penhascos, uma cachoeira artificial e um templo neoclássico no topo de um rochedo, o Temple de la Sibylle, acessível por duas pontes. Uma delas, a Passerelle suspendue, foi projetada no ateliê de Gustave Eiffel. É um parque de parisiense, não de turista, e isso muda a energia do lugar. No verão, o bar Rosa Bonheur, dentro do parque, fica lotado de gente jovem.

Parc de Bagatelle, no Bois de Boulogne, tem um roseiral com milhares de roseiras que costuma florescer com força em junho. Entrada paga em alguns períodos, na casa dos poucos euros. Se vocês gostam de flor, é o passeio de junho em Paris, mais até que qualquer jardim central.

E fora da cidade, para quem tem um dia sobrando: Giverny, a casa e o jardim de Claude Monet, com a ponte japonesa e o lago de ninfeias. Fica na Normandia, cerca de 75 km de Paris. Trem de Saint-Lazare até Vernon, uns 45 a 50 minutos, e depois shuttle ou bicicleta. Abre normalmente de abril a começo de novembro, com ingresso em torno de 13 euros. É lindo e é cheio. Chegue na abertura.

Comer bem sem cair em armadilha

Aqui vai a parte que estraga muita viagem romântica: o jantar. A regra prática é dura, mas funciona: quanto mais perto de um monumento famoso, pior e mais caro. Cardápio com fotos, cardápio em seis idiomas na porta, garçom chamando na calçada. Fuja.

Alguns sinais de que o lugar é bom: cardápio curto, escrito à mão ou impresso do dia; poucas opções; menu com entrada, prato e sobremesa por preço fixo (formule) no almoço, geralmente entre 20 e 30 euros; local cheio de gente falando francês.

Sobre gorjeta: o serviço já está incluído por lei na França (service compris). Deixar 5% em dinheiro por um serviço muito bom é gentil, mas ninguém espera 15%.

Sobre reserva: para jantar em restaurante desejado, reserve com semanas de antecedência. Muitos usam plataformas online. Restaurante bom em Paris raramente tem mesa para dois na porta às 20h30 de sexta.

E o horário: os parisienses jantam entre 20h e 21h30. Muita cozinha fecha às 22h. Se você aparecer às 18h, vai encontrar só lugares turísticos abertos.

Uma ideia melhor que restaurante caro

O piquenique. Sério. Passa numa boulangerie, numa fromagerie e numa caviste, monta uma sacola e senta na beira do Sena ou num parque. Custa 25 a 35 euros para dois e é mais memorável que muita mesa com toalha branca.

Mercados de rua ajudam: o Marché Bastille (quintas e domingos, na Boulevard Richard-Lenoir) é enorme. A Rue Mouffetard, no 5º, é uma rua comercial inclinada e antiga, perfeita para montar a sacola. A Rue Montorgueil, no 2º, também.

Levem canivete com saca-rolhas ou peçam para abrir a garrafa na loja. Erro clássico: vinho comprado, garrafa fechada, ninguém consegue abrir.

Bares e vista noturna

Alguns endereços de altura que funcionam bem a dois:

Le Perchoir Marais, no terraço da BHV, e Le Perchoir Ménilmontant, no 11º, são bares de rooftop com clima jovem e vista de telhados. Filas nas noites quentes de verão.

Les Ombres, no topo do Musée du quai Branly, e o café do Musée d’Orsay atrás do relógio gigante da antiga estação. Esse relógio, visto por dentro, com Paris atrás dos números, é uma das imagens mais bonitas de qualquer museu da cidade. Vale entrar no Orsay só por isso, e o museu em si é excelente, com a maior coleção de impressionistas do mundo.

Harry’s New York Bar, no 2º, aberto desde 1911, é onde se diz que o Bloody Mary foi criado. Clima de bar antigo, madeira escura, sem música alta.

Bar Hemingway, no Ritz, é caro (cocktails acima de 30 euros) e vale como experiência única, não como noite inteira.

Para vinho sem pompa, os bares à vins do 11º e do Canal Saint-Martin costumam servir taças entre 6 e 10 euros com uma tábua de queijo decente. O canal, aliás, com suas pontes de ferro e eclusas, é o programa romântico mais informal de Paris. Gente sentada na borda com garrafa de cerveja, ao pôr do sol. Nenhuma cerimônia.

Cruzeiros no Sena: vale ou não vale?

Vale, com ressalvas. Os barcos-mosca fazem o trajeto clássico em cerca de uma hora, passando pelas ilhas e voltando. Ingresso na faixa de 16 a 20 euros por pessoa nas operadoras grandes, com embarque perto da Torre Eiffel, do Louvre ou de Notre-Dame.

A ressalva: os barcos gigantes com narração em oito idiomas e holofote apontando para as janelas dos moradores não são exatamente íntimos. Se for fazer, escolha o último horário da noite, quando esvazia, e sente na parte de trás do deck aberto.

Alternativa: os barcos menores tipo vedette, ou um jantar-cruzeiro. Jantar em barco custa de 70 a 200 euros por pessoa e a comida é, na média, mediana. Eu preferiria gastar isso num restaurante de verdade e fazer o cruzeiro simples de uma hora antes.

Sacré e silencioso: igrejas que impressionam

Notre-Dame de Paris reabriu ao público em dezembro de 2024, após o incêndio de abril de 2019 e cinco anos de obras. A entrada é gratuita, mas a demanda é alta e há sistema de reserva de horário gratuito pelo site e aplicativo oficiais, além de fila para quem chega sem reserva. A pedra clara recém-limpa mudou completamente o interior: está muito mais luminoso do que era antes.

Sainte-Chapelle, na Île de la Cité, é o lugar mais espetacular do centro histórico e muita gente pula. Foi construída no século XIII para abrigar relíquias, e a capela superior tem cerca de 1.113 cenas bíblicas em 15 vitrais de 15 metros de altura. Em dia de sol, ao meio da tarde, a luz colorida entra e pinta o chão. Ingresso na casa dos 13 euros, com passe combinado com a Conciergerie ao lado. Há concertos de música clássica ali dentro à noite, ingressos entre 30 e 50 euros, e a acústica com aqueles vitrais é uma das melhores coisas que Paris oferece a dois.

Saint-Étienne-du-Mont, no 5º, tem uma escada que apareceu em Midnight in Paris e uma jubé em pedra rendada, raríssima na França. Quase vazia.

Uma tabela para organizar o roteiro

ProgramaMelhor horárioCusto aproximadoNível de multidão
Pont Alexandre IIIAnoitecerGratuitoMédio
Île Saint-LouisFim de tardeSorvete 5 a 8 €Médio
Sainte-Chapelle14h a 16h, dia de solCerca de 13 €Alto
Buttes-ChaumontManhã de sábadoGratuitoBaixo
Promenade PlantéeManhã de semanaGratuitoBaixo
Trocadéro7h ou hora cheia à noiteGratuitoMuito alto
Tour Montparnasse1h antes do pôr do solCerca de 20 €Baixo
Jardin du LuxembourgTarde de semanaGratuitoMédio
GivernyAbertura, abril a outubroCerca de 13 € + tremAlto
Cruzeiro no SenaÚltimo horário16 a 20 €Médio

Quando ir, e por que isso muda tudo

Paris muda de personalidade conforme o mês, e para uma viagem a dois isso pesa mais que em qualquer outro tipo de viagem.

Abril a junho é, para mim, a melhor janela. Dias longos, árvores floridas, temperatura na casa dos 15 a 22 graus, terraços abrindo. Junho tem o dia mais longo do ano, com claridade até quase 22h, e a Fête de la Musique no dia 21, quando a cidade inteira vira palco de música gratuita na rua.

Julho e agosto são quentes e cheios de turistas, e muitos comércios pequenos fecham em agosto para férias. Por outro lado, tem o Paris Plages, com trechos de margem transformados em área de lazer, e a cidade fica curiosamente vazia de parisienses.

Setembro e outubro trazem luz dourada, menos gente que no verão e a vindima de Montmartre. Outubro começa a chover mais.

Novembro a fevereiro é frio, cinza e escurece às 17h. Mas os museus ficam vazios, os cafés com vidro fechado e aquecedor têm um charme próprio, e dezembro traz mercados de Natal e vitrines elaboradas nas grandes lojas do Boulevard Haussmann. Fevereiro tem o Dia dos Namorados francês, 14 de fevereiro, quando restaurantes lançam menus especiais e os preços sobem.

Uma observação prática: dias de chuva não são desperdiçados em Paris se você planejar museu, café e passagens cobertas. As passages couvertes do 2º e 9º arrondissements, como a Galerie Vivienne (1826, com mosaicos no chão e claraboias) e o Passage des Panoramas, foram feitas justamente para isso, andar protegido no século XIX. Andar por elas num dia chuvoso é melhor que num dia de sol.

Coisas que eu evitaria

Alguns programas vendidos como românticos que costumam decepcionar:

Jantar com show no Moulin Rouge. É espetáculo de qualidade, com tradição desde 1889, mas é uma sala grande, mesas coladas, ritmo apressado. Preço entre 100 e 200 euros por pessoa com jantar. Não é ambiente para conversa.

Cadeados do amor. Já expliquei. Além de proibido, a prefeitura remove.

Restaurante com vista para a Torre Eiffel ao nível da rua no Trocadéro. Você paga pela janela e come mal.

Correr atrás de todos os museus. Louvre tem mais de 35 mil obras expostas em 73 mil metros quadrados. Tentar ver muita coisa em um dia com a pessoa amada é receita de discussão. Escolha duas alas, duas horas, e saia para tomar um café.

Táxi para tudo. O metrô parisiense tem 16 linhas e mais de 300 estações, e você raramente está a mais de 500 metros de uma. Um bilhete unitário custa em torno de 2,50 euros com o novo sistema unificado de tarifa, e há passes diários. Andar de metrô é parte da experiência.

Um roteiro de três dias, pensado para dois

Dia 1, centro e ilhas. Manhã na Sainte-Chapelle, com horário reservado. Almoço leve no 5º, na região da Rue Mouffetard. Tarde no Jardin des Plantes ou no Luxembourg, com cadeira arrastada e nada para fazer. Fim de tarde na Île Saint-Louis com sorvete e beira d’água. Jantar reservado no 5º ou 6º, e depois caminhada até a Pont des Arts.

Dia 2, leste e altura. Manhã na Promenade Plantée. Almoço no Marais, com passeio pela Place des Vosges e pelos pátios do Village Saint-Paul. Tarde de museu, Carnavalet ou Picasso, sem pressa. Fim de tarde no Canal Saint-Martin. À noite, rooftop no 11º.

Dia 3, oeste e torre. Manhã no Musée d’Orsay, incluindo o relógio. Almoço pelos lados de Saint-Germain. Tarde na Pont de Bir-Hakeim e na Allée des Cygnes. Pôr do sol na Tour Montparnasse ou piquenique no Champ de Mars. Depois, esperar a hora cheia e ver a torre cintilar. Fecha bem.

Se sobrar um quarto dia, Giverny na temporada ou Versalhes fora dela, chegando na abertura, com o jardim como prioridade e não o palácio.

O detalhe que a maioria ignora

Paris romântica não depende de dinheiro. Dos programas listados aqui, mais da metade é gratuita. O que ela exige é tempo e disposição para não cumprir uma lista.

O que mais funciona a dois nessa cidade é a coisa mais banal: sentar num café, pedir dois expressos ou duas taças, ficar de frente para a rua e não fazer nada por 40 minutos. Os terraços parisienses são organizados justamente para isso, cadeiras viradas para a calçada, mesas pequenas, ninguém apressando ninguém. Um café na barra custa cerca de 2 euros; sentado no terraço, entre 3 e 5. Ninguém vai trazer a conta antes de você pedir, e você pode ficar o tempo que quiser.

Não é uma tradição inventada para turista. É como a cidade funciona. E é, provavelmente, a melhor coisa que ela tem a oferecer para quem vai a dois.

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