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Erros que os Viajantes Cometem ao Visitar Siena

Siena é uma das cidades mais encantadoras da Toscana, mas muitos viajantes cometem erros simples que comprometem a experiência: chegam no horário errado, ficam pouco tempo, ignoram a gastronomia local e tratam a cidade como uma parada rápida entre Florença e San Gimignano. Este artigo mostra o que evitar para aproveitar Siena de verdade.

Foto de Christian S.: https://www.pexels.com/pt-br/foto/36796660/

Tem cidade que se entrega no primeiro olhar. Siena não é uma delas. Ela exige paciência, exige que você desacelere, exige que você se perca nas ruelas medievais sem pressa de chegar a lugar nenhum. E é justamente aí que mora o problema: a maioria dos viajantes chega com a agenda apertada, tira foto na Piazza del Campo, almoça qualquer coisa perto da torre e some antes do pôr do sol. Saem dizendo que Siena é bonita, mas que Florença é melhor. Coitada da Siena.

Quem já organizou roteiros pela Toscana sabe que essa cidade é um caso à parte. Ela não compete com Florença, ela oferece outra coisa. Outro ritmo, outra densidade histórica, outra relação com o tempo. E para captar isso, é preciso evitar alguns deslizes que se repetem com uma frequência impressionante.

Tratar Siena como bate e volta saindo de Florença

Esse talvez seja o erro mais comum de todos. A pessoa está hospedada em Florença, vê que Siena fica a pouco mais de uma hora de carro ou ônibus, e decide encaixar a visita entre o café da manhã e o jantar. Resultado: chega por volta das 11h, almoça correndo, dá uma volta pela Piazza del Campo, sobe na Torre del Mangia se conseguir ingresso, visita o Duomo e volta correndo no fim da tarde.

O problema é que Siena ganha vida em dois momentos que esse tipo de viajante perde: o começo da manhã, quando os moradores tomam café nos balcões e as ruas ainda estão vazias, e o fim da tarde, quando o sol bate de lado nos tijolos avermelhados e a Piazza del Campo se transforma em um anfiteatro vivo. Se você só vê Siena no horário do meio do dia, está vendo a versão turística dela. A versão verdadeira aparece quando o ônibus do bate-volta já foi embora.

A recomendação prática é dormir pelo menos uma noite na cidade. Duas seriam o ideal. E se a hospedagem for dentro das muralhas, melhor ainda. Caminhar de madrugada pelas ruas vazias, com o som dos próprios passos ecoando no calçamento, é uma experiência que justifica a viagem inteira.

Ignorar a divisão por contradas

Siena é dividida em dezessete contradas, que são bairros históricos com identidade própria, brasão, cores, igreja e até inimigos declarados. Isso não é folclore para turista. É algo vivo, presente no cotidiano dos sienenses, e é o que dá sentido ao Palio, a famosa corrida de cavalos que acontece duas vezes por ano na Piazza del Campo.

Muita gente chega em Siena sem nem saber o que é uma contrada. Caminha pela cidade vendo bandeiras coloridas e fontes com bichos esquisitos sem entender que cada animal representa um bairro: o caracol, a girafa, o ganso, o porco-espinho, a pantera. Quando você entende essa lógica, a cidade muda de cara. Cada esquina passa a contar uma história. Cada fonte tem um significado. Cada pintura em uma parede tem um motivo.

Vale a pena, antes de viajar, ler um pouco sobre o sistema das contradas. Não precisa decorar todas, mas saber que existem dezessete, que cada uma tem seu território demarcado, e que a rivalidade entre algumas delas é levada a sério até hoje, transforma a caminhada em algo muito mais interessante.

Achar que o Palio é só uma corrida turística

Quem visita Siena fora das datas do Palio costuma sair com a impressão de que perdeu pouca coisa. Quem visita durante o Palio, sem entender o que está acontecendo, sai ainda mais confuso. Os dois extremos perdem o ponto.

O Palio acontece em 2 de julho e em 16 de agosto. São duas corridas, cada uma com dez contradas participando, que duram cerca de noventa segundos. Sim, noventa segundos. Mas a preparação leva dias, com benção dos cavalos dentro das igrejas das contradas, jantares coletivos nas ruas, ensaios na praça, procissões em trajes medievais.

O erro de quem vai durante o Palio é tratar tudo como espetáculo turístico. Não é. É um evento religioso, identitário, quase tribal. Os sienenses choram de verdade quando ganham. Brigam de verdade quando perdem. Se você for, vá com respeito, fique de pé no centro da praça por horas se quiser ver a corrida de perto, e entenda que aquilo não foi montado para você.

Já o erro de quem vai em outras épocas é não procurar entender o legado do Palio no resto do ano. Os museus das contradas, por exemplo, abrem em horários específicos e contam toda a história desses bairros. Vale a pena perguntar nas próprias contradas se é possível visitar.

Subestimar o Duomo

A Catedral de Siena é, na minha opinião, uma das mais impressionantes da Itália. Mais até do que algumas mais famosas. E muita gente entra, dá uma volta rápida, acha bonito e sai. Erro grave.

O Duomo de Siena precisa ser visitado com calma e, de preferência, com o bilhete combinado que dá acesso a várias áreas: a catedral em si, o Battistero, a Cripta, o Museo dell’Opera com a vista panorâmica do Facciatone, e a Piccolomini Library, que tem afrescos de Pinturicchio em um estado de conservação que beira o milagroso.

O chão da catedral, por exemplo, é coberto por painéis de mármore embutido que retratam cenas bíblicas e alegorias. Durante boa parte do ano, esses painéis ficam cobertos para proteção. Mas em alguns períodos do ano, geralmente entre agosto e outubro, eles são descobertos. Se a sua viagem coincidir com essa janela, não perca. É algo único no mundo.

A subida no Facciatone, que é a fachada inacabada de uma catedral que seria ainda maior do que a atual, oferece uma das melhores vistas de Siena. Muita gente sobe na Torre del Mangia e acha que viu tudo. O Facciatone é menos disputado, mais barato em alguns combos, e a vista é igualmente espetacular, com um ângulo diferente que mostra o Duomo de cima.

Comer mal por escolher restaurante pela vista

Esse erro acontece em todo lugar turístico, mas em Siena ele dói especialmente. A Piazza del Campo é cercada de restaurantes com mesas ao ar livre e cardápio em quatro idiomas. A comida ali costuma ser medíocre e cara. Você está pagando pela vista, não pela cozinha.

A culinária sienense é forte, rústica, baseada em pratos camponeses que sobreviveram séculos. Pici, que é um espaguete grosso feito à mão, geralmente servido com molho cacio e pepe ou com ragu de javali. Ribollita, sopa de pão e vegetais que aquece em qualquer estação. Pappardelle al cinghiale, massa larga com molho de javali. Crostini de fígado de galinha. E os doces, principalmente os panforte e os ricciarelli, que são tradicionais de Siena há séculos.

Para comer bem, basta sair da praça. Duas ou três ruas adentro, em qualquer direção, você encontra trattorias familiares com cardápio em italiano, cozinha aberta e preços razoáveis. Pergunte aos moradores. Pergunte na recepção do hotel, mas não pegue só a primeira indicação. Cruze recomendações.

A região também é uma das mais ricas em vinho da Itália. O Chianti está logo ao norte, o Brunello di Montalcino fica ali perto, o Vino Nobile di Montepulciano também. Pedir um vinho da região com calma, conversar com o garçom sobre safras, vale o aprendizado mesmo para quem entende pouco de vinho.

Não reservar a Torre del Mangia com antecedência

A Torre del Mangia é o ponto mais alto da cidade, um dos cartões postais da Piazza del Campo, e a fila para subir nela é uma das maiores armadilhas de tempo da Toscana. Em alta temporada, é normal encontrar limite de visitantes simultâneos, horários esgotados, e turistas frustrados esperando duas ou três horas para subir oitenta e oito metros.

A reserva online resolve o problema. Compre com antecedência, escolha um horário no fim da tarde se possível, e suba na hora marcada. A vista no pôr do sol, com a Toscana se estendendo até onde a vista alcança, é uma daquelas que ficam na memória por anos.

Vale lembrar que a torre tem mais de quatrocentos degraus, escadas estreitas e algumas partes apertadas. Quem tem claustrofobia ou problemas de mobilidade deve pensar duas vezes. E o vento lá em cima costuma ser forte, mesmo em dias quentes.

Caminhar sem entender a topografia

Siena foi construída sobre três colinas, e isso significa que praticamente toda caminhada na cidade envolve subir e descer. Quem não está acostumado, ou quem escolhe o calçado errado, sofre.

O calçamento medieval é desigual, com pedras grandes e às vezes escorregadias quando molhadas. Sandália bonita não combina com Siena. Tênis confortável ou sapato fechado de sola firme é o ideal. Para quem tem joelho sensível, as descidas são piores do que as subidas, então um bastão dobrável pode ajudar bastante.

Os trolleys de viagem também são uma péssima ideia nas ruas de paralelepípedo. Se sua hospedagem fica dentro das muralhas, considere chegar com mochila ou com mala pequena de rodas resistentes. E confirme com o hotel onde o carro pode parar para descarregar, porque o trânsito no centro histórico é proibido para não residentes.

Esquecer dos arredores

Siena é uma cidade encantadora, mas a região ao redor é o que torna a viagem inesquecível. Limitar-se às muralhas é deixar metade da experiência de fora.

A cerca de meia hora de carro, está San Gimignano, com suas torres medievais. Um pouco mais longe, Montalcino, Pienza, Montepulciano, todas no Val d’Orcia, que é Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e parece uma pintura renascentista em três dimensões. Mais ao sul, as estradas brancas da Crete Senesi, com aquelas colinas onduladas pontuadas por ciprestes que aparecem em todo cartão postal da Toscana.

Alugar um carro por dois ou três dias para explorar a região é praticamente obrigatório para quem quer entender o que é a Toscana de verdade. As pequenas vinícolas familiares, as abadias isoladas como Sant’Antimo, as termas livres de Bagno Vignoni e Bagni San Filippo, tudo isso fica a menos de uma hora de Siena.

A tabela abaixo dá uma ideia das distâncias aproximadas:

DestinoDistância de SienaTempo de carro
San Gimignano45 km1h
Montalcino42 km50min
Pienza55 km1h10
Montepulciano65 km1h20
Bagno Vignoni56 km1h
Florença75 km1h15

Achar que tudo aceita cartão

Pode parecer detalhe bobo, mas é fonte de aborrecimento. Muitos estabelecimentos pequenos em Siena ainda preferem dinheiro, especialmente em cidades menores dos arredores. Trattorias familiares, padarias, lojas de produtos típicos, banheiros públicos, alguns museus pequenos das contradas.

Carregar euros em espécie é essencial. Não muito, para não correr risco, mas o suficiente para refeições e compras pequenas. Os caixas eletrônicos no centro funcionam bem, mas em datas de eventos podem ficar vazios. Vale a pena se preparar.

Visitar nos meses errados

Esse é um erro mais sutil. Julho e agosto são os meses mais visitados, principalmente pelas datas do Palio. Mas também são os meses mais quentes, mais lotados e mais caros. Caminhar pelas ruelas de Siena com quarenta graus à sombra é desagradável.

Os meses mais agradáveis costumam ser maio, junho, setembro e outubro. O clima é ameno, a luz da Toscana fica especialmente bonita no outono, e os preços de hospedagem caem em relação à alta temporada. Para quem quer evitar multidões, novembro também pode ser uma boa pedida, embora alguns restaurantes e atrações operem em horário reduzido.

Janeiro e fevereiro são meses frios e silenciosos. Tem seu charme, principalmente para quem busca uma Siena vazia, quase fantasmagórica, mas muitos serviços ficam fechados.

Não conversar com os moradores

Os sienenses têm orgulho enorme da sua cidade e da sua tradição. E, ao contrário do que muitos pensam, costumam ser receptivos com viajantes que demonstram curiosidade genuína. Não precisa falar italiano fluente. Algumas palavras bem-intencionadas e perguntas honestas abrem portas que nenhum guia abriria.

Pergunte sobre a contrada onde você está. Pergunte qual contrada o garçom torce. Pergunte qual padaria faz o melhor panforte. Pergunte se a Piazza del Campo já alagou. Você vai ouvir histórias que nenhum livro conta, e vai voltar pra casa com uma sensação de cidade que poucos turistas levam.

Um pequeno detalhe: evite comparar Siena com Florença na frente de um sienense. Essas duas cidades têm uma rivalidade histórica antiga, e mesmo hoje, em tom de brincadeira, qualquer comparação favorável a Florença pode soar como ofensa. Os sienenses geralmente respondem com humor, mas o assunto é mais delicado do que parece.

Achar que vai ver tudo

Esse é o último erro, e talvez o que mais frustra. Siena tem tanta camada histórica, tanta arte, tantos cantos para descobrir, que tentar ver tudo em um ou dois dias é receita para o cansaço.

Selecione o que faz sentido para você. Se gosta de arte sacra, dedique tempo ao Duomo e ao Museo dell’Opera. Se gosta de história civil, vá ao Palazzo Pubblico ver os afrescos de Lorenzetti, que são uma das maiores joias da pintura medieval, com aquelas alegorias do bom e do mau governo. Se gosta de gastronomia, dedique tempo aos mercados, às enotecas, às trattorias.

Deixe espaço no roteiro para o acaso. Sente-se em um café da Piazza del Campo no meio da tarde, peça um espresso, fique uma hora observando o vai e vem. Volte na mesma praça à noite, sem agenda. Caminhe em uma rua qualquer sem destino. É nesses momentos que Siena se revela.

A cidade não foi feita para ser consumida. Foi feita para ser vivida, mesmo que por poucos dias. Quem entende isso volta diferente. Quem não entende volta achando que Florença é melhor. E nesse caso, a culpa não é de Siena.

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