Erros Comuns que os Viajantes Cometem ao Fazer Hiking

Descubra os erros mais comuns que os viajantes cometem ao fazer hiking e que podem arruinar a experiência, desde não pesquisar o percurso até ignorar os sinais do próprio corpo durante a caminhada.

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Tem um tipo de euforia que ataca o viajante no momento em que ele decide fazer uma trilha. É uma empolgação genuína, daquelas que fazem a pessoa já se imaginar no topo da montanha, com a foto perfeita e a sensação de dever cumprido. O problema é que essa euforia, quando não acompanhada de preparo, é a raiz de quase todos os erros cometidos nas trilhas. Ela empurra o iniciante para dentro da mata como se o hiking fosse uma extensão da caminhada no parque da cidade. E não é.

A verdade é que o hiking, por mais democrático que tenha se tornado, continua sendo uma atividade que expõe o corpo e a mente a condições que o ambiente urbano simplesmente não oferece. Terreno irregular, mudanças bruscas de temperatura, esforço físico prolongado, imprevistos climáticos. Nada disso é motivo para não fazer. Pelo contrário. Mas é motivo para fazer direito.

O que se vê nas trilhas brasileiras, especialmente nas mais badaladas do Sudeste e do Sul, é uma coleção de erros que se repetem com padrão quase didático. Os mesmos vacilos, as mesmas escolhas ruins, as mesmas consequências. E o mais curioso é que a maioria desses erros é cometida por gente inteligente, viajada, que simplesmente nunca parou para pensar que hiking tem suas próprias regras não escritas. Regras que ninguém ensina, mas que todo mundo que já passou um perrengue gostaria de ter conhecido antes.

Subestimar a trilha porque “todo mundo faz”

O erro mais perigoso é também o mais comum. A pessoa vê fotos no Instagram, lê relatos de amigos que fizeram o mesmo percurso, assiste a vídeos no YouTube e conclui que a trilha é fácil. Se tanta gente fez, por que seria difícil?

O que essas fontes raramente mostram é o contexto. O amigo que fez a trilha correndo talvez tenha um condicionamento físico muito acima da média. O vídeo editado de 15 minutos não mostra as duas horas de subida sob sol forte. A foto no cume não revela que o fotógrafo saiu às quatro da manhã para chegar antes do calor. A trilha é a mesma para todos, mas a experiência é radicalmente diferente dependendo do preparo de cada um.

O Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, é um exemplo clássico. A Travessia Petrópolis-Teresópolis é um dos percursos mais icônicos do montanhismo brasileiro. Três dias de caminhada, subidas íngremes, trechos de pedra solta, altitudes que passam dos 2.000 metros. Todo ano, alguém tenta fazer a travessia sem preparo, sem equipamento adequado, sem reserva nos abrigos. E todo ano o resgate é acionado.

Subestimar a trilha não significa apenas achar que ela é mais fácil do que realmente é. Significa também não pesquisar informações básicas: distância real, ganho de elevação, tipo de terreno, disponibilidade de água no percurso, tempo médio de conclusão. Esses dados estão disponíveis em sites oficiais de parques, aplicativos como o Wikiloc e comunidades de trilheiros. Ignorá-los é como entrar num jogo sem ler as regras. E a natureza não tem juiz para recorrer.

Sair tarde demais e ser engolido pela noite

A manhã é o bem mais precioso do trilheiro. E mesmo assim, tem gente que sai de casa às nove, dez horas, achando que três horas de caminhada resolvem qualquer percurso. Não resolvem.

O cálculo é simples: uma trilha de dificuldade moderada, com 10 quilômetros de extensão e 600 metros de ganho de elevação, pode levar de quatro a seis horas para um caminhante de ritmo médio. Incluindo paradas para descanso, água, fotos e um lanche no cume. Se a pessoa começa ao meio-dia, ela termina às seis da tarde. No verão, ainda há luz. No inverno, escurece às seis. E se algo atrasar? Uma torção no tornozelo, uma pausa mais longa, um trecho mais técnico do que o esperado? A noite chega e a pessoa está no meio da mata, sem lanterna, sem referência visual, sem noção de onde pisa.

A escuridão na trilha não é como a escuridão da cidade. Não há postes, não há luz de fundo, não há referências. Sob a copa das árvores, a noite na mata é absoluta. E a cada passo no escuro, o risco de queda, torção ou de simplesmente perder o rumo da trilha se multiplica. A lanterna de cabeça, que muitos consideram item opcional, é um dos equipamentos mais importantes da mochila. E chegar cedo, antes das oito da manhã, é a melhor garantia de que você não vai precisar usá-la como ferramenta de sobrevivência.

Levar água de menos e achar que “dá para ir bebendo pelo caminho”

Esse erro é tão recorrente que já virou clichê entre guias e bombeiros. A garrafinha de 500 ml, aquela que serve perfeitamente para o escritório e a academia, é uma piada de mau gosto numa trilha de quatro horas sob o sol brasileiro.

O corpo humano perde entre 500 ml e um litro de água por hora durante caminhada em ritmo moderado. Em dias quentes, com exposição solar direta, a perda ultrapassa um litro. Uma trilha de meio período consome de dois a três litros de água. Uma trilha de dia inteiro, de quatro a seis litros. E não é raro ver pessoas entrando em trilhas longas com uma única garrafinha de água mineral comprada no posto de gasolina.

A crença de que “dá para ir bebendo nas nascentes pelo caminho” é outra armadilha. Nem toda trilha tem água disponível. Em muitas, os rios e nascentes secam na estação de estiagem. Em outras, a água existe, mas está contaminada por coliformes fecais de animais silvestres ou de gado de pastagens próximas. Beber água não tratada de rio é roleta-russa intestinal. E ter uma crise de diarreia no meio da trilha, longe de qualquer banheiro, além de desidratar o corpo ainda mais rápido, transforma o passeio num pesadelo logístico.

A regra é simples: leve o dobro da água que você acha que vai precisar. Se a trilha tem pontos de reabastecimento confirmados, leve pastilhas de cloro ou filtro portátil. E beba antes de sentir sede. Quando a sede chega, a desidratação já começou.

Usar tênis de passeio ou, pior, chinelo

O calçado é o alicerce de tudo. E a quantidade de gente que faz trilha com tênis de corrida de solado liso, com sapatilha, com bota de couro nova tirada da caixa no dia anterior, ou simplesmente de chinelo, é um fenômeno que desafia a lógica.

O solado de um calçado de trilha tem cravos profundos que mordem o terreno. Terra solta, lama, pedra molhada, raiz exposta: superfícies que um tênis de solado liso simplesmente não consegue agarrar. O pé escorrega, o tornozelo torce, o joelho recebe o impacto da instabilidade. A bota ou o tênis de trekking com cano médio ainda oferecem suporte lateral que reduz significativamente o risco de torção.

O chinelo então, nem se fala. Ele não protege de nada. Não protege de pedra, de raiz pontiaguda, de galho caído, de picada de cobra, de arranhão. E ainda exige que os dedos façam força constante para mantê-lo no pé, tensionando a musculatura da perna de forma inadequada. Chinelo é para a pousada depois da trilha, não para a trilha.

Outro erro relacionado: estrear calçado novo na trilha. A bota recém-comprada está rígida. O couro e o sintético ainda não se moldaram às dobras do pé. O calcanhar ainda não se adaptou ao formato interno. O resultado é atrito, bolhas e dor. Calçado de trilha exige um período de amaciamento. Uma semana de uso urbano, pelo menos. Caminhar no bairro, subir e descer escadas, deixar o pé e o calçado se conhecerem antes de exigirem performance um do outro.

Ignorar a previsão do tempo porque “o dia está bonito”

O tempo na montanha não é o tempo da cidade. Ele muda com uma velocidade que quem está acostumado com a estabilidade climática urbana simplesmente não concebe. Uma manhã de céu azul cristalino pode virar uma tarde de tempestade com raios em menos de uma hora. E quem está no meio da trilha, sem abrigo, sem equipamento, fica completamente exposto.

O Brasil é o país com a maior incidência de raios do mundo, com cerca de 78 milhões de descargas por ano. Estar no topo de uma montanha, numa crista ou num campo aberto durante uma tempestade elétrica é uma das situações mais perigosas que existem. O corpo humano se torna o ponto mais alto do terreno, funcionando como um para-raios natural. E não precisa ser um raio direto: a corrente pode viajar pelo solo molhado e atingir quem está por perto.

Ignorar a previsão do tempo não significa apenas não consultá-la. Significa também consultar e ignorar o que ela diz. “Ah, mas a chance de chuva é só 30%.” Em meteorologia de montanha, 30% de chance de chuva não é pouco. É um aviso real. Significa que em três de cada dez dias com aquelas condições, chove. Vale a pena arriscar?

A previsão deve ser consultada no dia da trilha, não na véspera. E em regiões de serra, é bom olhar a previsão específica para a altitude do percurso, não para a cidade mais próxima. A temperatura no topo pode ser 10 ou 15 graus mais baixa que na base. A chuva pode estar concentrada nas cotas mais altas. Esse nível de detalhe está disponível em aplicativos como Windy, Climatempo e nos sites de meteorologia de montanha.

Não avisar ninguém sobre o roteiro

Esse erro é tão simples de corrigir e tão grave nas consequências que chega a ser irritante. A pessoa sai para fazer uma trilha, não conta para ninguém qual é o percurso, não informa o horário previsto de retorno, não deixa um contato de emergência. Se algo acontece, ninguém sabe por onde começar a procurar.

O caso de Roberto Farias Thomaz, o jovem de 19 anos que passou cinco dias desaparecido no Pico do Paraná em janeiro de 2026, ilustra bem o que acontece quando a comunicação falha. Ele subiu com uma amiga para ver o nascer do sol. Perdeu-se na descida. As buscas mobilizaram 46 pessoas, envolveram sensores térmicos em aeronaves e duraram cinco dias angustiantes. Ele sobreviveu, mas a pergunta que fica é: quanto tempo teria sido economizado se alguém soubesse exatamente o percurso planejado?

A prática minimalista de segurança é: informe a alguém de confiança qual é a trilha, qual o horário estimado de início e término e qual o horário limite para acionar ajuda caso você não dê notícias. Se possível, compartilhe a localização em tempo real pelo WhatsApp ou por um aplicativo de rastreamento. Não é paranoia. É o básico de qualquer atividade outdoor.

Depender exclusivamente do celular como ferramenta de navegação

O celular é uma ferramenta fantástica para navegação em trilhas. Aplicativos como Wikiloc, AllTrails, Gaia GPS e até o Google Maps offline revolucionaram a forma como as pessoas se orientam na natureza. Mas o celular também é frágil. A bateria acaba. O sinal some. O aparelho cai na água, no barro, na pedra. A tela quebra. E de repente, você está no meio da trilha sem referência nenhuma.

Em muitas trilhas brasileiras, a sinalização é precária ou inexistente. Placas somem. Marcas de tinta nas árvores desbotam. Bifurcações não sinalizadas aparecem. Sem um meio de navegação, a chance de se perder é real e alta. E perder-se é o primeiro passo de uma cascata de problemas: o pânico, a decisão errada, o atalho que piora tudo, o gasto desnecessário de energia, a noite que chega.

O ideal é levar o celular com mapa offline baixado e um power bank para recarga. Mas ter um plano B de navegação é prudente. Pode ser um mapa impresso do percurso, uma bússola básica ou, no mínimo, ter estudado o trajeto antes de sair, sabendo os principais pontos de referência e as direções gerais. Saber que o rio fica a leste, que a estrada está ao norte, que a trilha principal segue a crista. Informações que, numa emergência, podem guiar mesmo sem tecnologia.

Não respeitar o próprio ritmo e querer acompanhar o grupo a qualquer custo

Cada corpo tem seu ritmo. Numa caminhada de grupo, os ritmos são diferentes. Tem quem sobe rápido e para pouco. Tem quem sobe devagar e para bastante. Tem quem alterna. E tem quem, para não ficar para trás, força um ritmo que não é o seu e chega no cume exausto, com a experiência arruinada e o corpo no limite.

Forçar o ritmo por pressão social é um erro que vai além do desconforto. O cansaço excessivo compromete a coordenação motora. Passos ficam mais desleixados. A atenção ao terreno diminui. O risco de queda, torção ou pisar num lugar errado aumenta exponencialmente nos quilômetros finais de uma trilha feita acima do ritmo natural.

O hiking não é uma competição. Não importa se você chegou em primeiro ou em último. Importa que você chegou inteiro. Grupos experientes sabem disso e ajustam o ritmo pelo mais lento, não pelo mais rápido. Se você está num grupo que não respeita isso, está no grupo errado. E se está sozinho, respeitar o próprio ritmo significa ouvir o corpo quando ele pede para diminuir, beber água, comer algo, descansar. A montanha vai continuar lá. Ela não vai embora. Não há vergonha nenhuma em demorar mais.

Levar mochila inadequada ou carregar peso desnecessário

A mochila de trilha não é uma mochila de escola, nem uma bolsa transversal, nem uma sacola de mão. Ela precisa distribuir o peso nos dois ombros, ter alças acolchoadas, cinto abdominal e, idealmente, cinto peitoral. Esses três pontos de fixação transferem parte do peso dos ombros para o quadril, que é muito mais capaz de suportar carga por horas.

A mochila de ataque, com capacidade entre 20 e 30 litros, é o tamanho ideal para trilhas de um dia. Cabe água, comida, agasalho, capa de chuva, kit de primeiros socorros e os itens de segurança. Mochilas maiores, de 40 litros ou mais, são para travessias com pernoite. Mochilas menores, de 10 litros, simplesmente não têm espaço para tudo que uma trilha exige, e a pessoa acaba levando menos do que precisa.

O erro oposto também é comum: levar peso demais. Itens desnecessários que parecem importantes na hora de arrumar a mochila e viram fardo na hora de subir. A caixa de som portátil. O livro de 400 páginas. O terceiro moletom. A comida que rende para um batalhão. O tripé de câmera profissional.

Cada grama na mochila é um grama que seus joelhos, seus quadris e suas costas vão carregar por horas. Em trilhas com ganho de elevação, o peso extra multiplica o esforço. A regra de ouro do mochileiro é: pese tudo. Se um item não tem uso claro e indispensável, ele fica em casa. E itens com dupla função são ouro: a bandana que serve de proteção solar, faixa de cabelo e toalha. O corta-vento que vira abrigo. A lanterna de cabeça que também é lanterna de mão.

Não levar comida ou levar a comida errada

Tem gente que entra na trilha achando que vai fazer um jejum intermitente na natureza. Não vai. O corpo em atividade física precisa de energia constante. E a queda de glicose no sangue, a temida hipoglicemia, provoca tontura, fraqueza, visão turva e confusão mental. Sintomas perigosos a quilômetros do carro mais próximo.

O erro não é só não levar comida. É levar a comida errada. Chocolate que derrete no calor da mochila e vira uma pasta. Sanduíche com maionese que estraga em duas horas. Salgadinho industrializado com valor nutricional zero. Frutas que amassam e viram suco dentro da mochila.

A comida ideal para trilha é densa em energia, resistente ao calor, leve e de fácil digestão. Frutas secas, castanhas, barras de cereal, sanduíches naturais sem maionese, pães integrais, queijos duros, bananas, biscoitos salgados. Alimentos que fornecem carboidrato para energia rápida e proteína para saciedade. E um pouco mais do que você acha que vai precisar. Porque o imprevisto pode atrasar o retorno, e uma reserva de comida extra é um conforto psicológico enorme quando o plano original sai dos trilhos.

Ignorar o aquecimento e o alongamento

A trilha começa na porta do carro. Ou, mais precisamente, começa 10 minutos antes, com um aquecimento que quase ninguém faz. A pessoa sai do carro, ajusta a mochila e já começa a subir. Músculos frios, articulações rígidas, corpo ainda no modo sedentário sendo jogado de repente no modo esforço.

O aquecimento não precisa ser nada elaborado. Cinco minutos de caminhada leve no plano, algumas rotações de tornozelo, algumas elevações de joelho, alongamento dinâmico de pernas e costas. Ativa a circulação, lubrifica as articulações, prepara o corpo para o que vem pela frente. Reduz o risco de estiramento, distensão e aquela dor chata na panturrilha que aparece no meio da subida.

O alongamento pós-trilha é igualmente negligenciado. A pessoa chega no carro, joga a mochila no banco de trás e vai embora. No dia seguinte, acorda com as pernas travadas, a lombar dolorida e uma sensação de ter sido atropelada. Dedicar cinco minutos a alongar os grandes grupos musculares depois da caminhada faz uma diferença brutal na recuperação. E prepara melhor o corpo para a próxima trilha.

Caminhar sozinho sem ter a experiência para isso

Fazer trilha sozinho é uma das experiências mais intensas que o hiking pode oferecer. O silêncio, a solidão, o ritmo próprio, a conexão profunda com o ambiente. Mas é também uma prática que exige um nível de experiência, autoconhecimento e equipamento que o iniciante simplesmente não tem.

Quem caminha sozinho precisa ser capaz de se orientar sem ajuda, resolver problemas mecânicos e médicos básicos, tomar decisões sob pressão e manter a calma em situações adversas. Uma torção no tornozelo que, em grupo, seria resolvida com apoio e revezamento de carga, sozinho pode se transformar numa emergência grave. Uma bifurcação não sinalizada que o grupo discute e resolve em dois minutos, sozinho pode levar a uma decisão errada e horas de caminhada na direção oposta.

Para quem está começando, o ideal é caminhar em grupo ou, no mínimo, com uma pessoa mais experiente. Trilhas curtas e movimentadas, como as de parques nacionais e estaduais com boa sinalização, são as mais indicadas para os primeiros contatos com o hiking solo. E mesmo nelas, avise alguém, leve o equipamento completo e mantenha um nível de prudência maior do que o que teria em grupo.

Não levar kit de primeiros socorros ou levar um kit inútil

O kit de primeiros socorros é o item que todo mundo lembra de comprar e quase ninguém sabe montar. Os kits prontos vendidos em farmácia geralmente são voltados para ambiente urbano. Têm band-aids minúsculos, gaze, esparadrapo, tesourinha. Coisas úteis, mas insuficientes para uma trilha.

Um kit de primeiros socorros funcional para hiking inclui: bandagem elástica para torções, ataduras, esparadrapo de qualidade, curativos para bolhas (como o Second Skin ou similares), analgésicos, antialérgicos, soro fisiológico para limpeza de ferimentos, pinça para retirar espinhos e farpas, tesoura pequena, luvas descartáveis. E, principalmente, inclui o conhecimento de como usar cada item. O melhor kit do mundo é inútil nas mãos de quem não sabe fazer um curativo compressivo ou imobilizar uma torção.

A bolha no pé merece destaque. É a lesão mais comum em trilhas, e o tratamento inadequado pode transformar um incômodo em algo incapacitante. Estourar a bolha é quase sempre um erro: a pele íntegra protege contra infecção. O correto é proteger com curativo específico e deixar o corpo reabsorver o líquido naturalmente. Se a bolha for muito grande e dolorosa, a drenagem deve ser feita com agulha esterilizada, mantendo a pele sobre o ferimento.

Beber álcool antes ou durante a trilha

A cervejinha no cume é uma tradição para muita gente. E não há nada de errado em brindar à vista depois de horas de subida. O problema é o álcool antes e durante a caminhada. E acontece mais do que se imagina.

O álcool desidrata. Ele inibe o hormônio antidiurético, fazendo o corpo eliminar mais água pela urina. Numa atividade que já exige hidratação constante, adicionar álcool à equação é sabotar o próprio corpo. Além disso, o álcool compromete a coordenação motora, o equilíbrio e a capacidade de julgamento. Passos em falso, decisões precipitadas e subestimação de riscos se tornam muito mais prováveis.

Em 2025, o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal citou o consumo de álcool como um dos fatores que mais contribuem para acidentes em trilhas. Não é coincidência. O hiking já impõe desafios suficientes à coordenação e ao julgamento sem a ajuda de substâncias que pioram ambos.

Ignorar os sinais do corpo e continuar mesmo quando algo está errado

O corpo avisa antes de colapsar. Dores de cabeça, tontura, náusea, cãibras, falta de ar desproporcional ao esforço, visão turva, confusão mental. Todos são gritos de socorro que o organismo emite quando algo não vai bem. E o erro mais perigoso de todos é ignorar esses sinais e continuar subindo.

A mentalidade de “aguentar mais um pouco” pode ser útil na academia. Na trilha, pode ser fatal. Desidratação, hipoglicemia, insolação e hipotermia não acontecem de repente. Eles se instalam gradualmente, com sinais cada vez mais intensos. Quem sabe reconhecer esses sinais e age sobre eles logo no início evita que a situação escale.

Se a tontura chegar, pare. Sente-se. Beba água. Coma algo. Coloque-se à sombra. Espere o corpo se estabilizar. Se os sintomas persistirem, a decisão mais corajosa é voltar. Desistir de um cume não é fracasso. É inteligência. A montanha estará lá no próximo fim de semana. Sua saúde, se você a destruir forçando além do limite, pode não estar.

ErroPor que aconteceComo evitar
Subestimar a trilhaFotos e vídeos nas redes não mostram a dificuldade realPesquisar distância, elevação e relatos recentes em apps como Wikiloc
Sair tardeAchar que o percurso é mais curto do que realmente éComeçar antes das 8h; calcular 30 min extras para cada hora prevista
Água insuficienteConfiar em fontes no caminho ou achar que 500 ml bastamLevar mínimo de 2 litros; pastilhas de cloro se houver reabastecimento
Calçado erradoUsar o tênis que já tem em casa em vez de investir em algo específicoBota ou tênis de trekking com solado cravejado; amaciar antes
Ignorar previsão do tempoConfiar no céu azul da manhãConsultar previsão no dia e levar corta-vento mesmo com sol
Não avisar ninguémAchar que não vai acontecer nadaInformar roteiro e horário limite a alguém de confiança
Depender só do celularAchar que a tecnologia não falhaBaixar mapa offline, levar power bank e ter noção do trajeto
Não respeitar o ritmoPressão do grupo ou orgulho pessoalCaminhar no seu passo; grupo respeitar o mais lento
Álcool na trilhaTradição da cerveja no cume se estendendo ao percursoDeixar o álcool para depois, nunca antes ou durante
Ignorar sinais do corpoMentalidade de “aguentar mais um pouco”Parar ao primeiro sinal de tontura, náusea ou cansaço excessivo

A falsa sensação de que hiking é só andar

Hiking não é só andar. É andar com consciência do terreno onde se pisa, da água que se bebe, do tempo que se tem, do corpo que se carrega e dos limites que se respeitam. A diferença entre o passeio inesquecível e a experiência traumática quase nunca está num grande evento catastrófico. Está no acúmulo de pequenas negligências que, juntas, transformam um dia bonito num pesadelo evitável.

A boa notícia é que a curva de aprendizado do hiking é rápida. Quem comete esses erros uma vez, dificilmente comete de novo. A bolha que estourou ensina sobre a meia certa. A sede que castigou ensina sobre a água que faltou. O frio que bateu no cume ensina sobre o corta-vento que ficou em casa. Cada erro vivido na pele é uma lição que não se esquece.

A notícia ainda melhor é que dá para aprender com o erro dos outros. E é exatamente por isso que essas histórias circulam entre trilheiros, em grupos de WhatsApp, em fóruns, em conversas de beira de fogueira. Elas não são contadas para assustar ninguém. São contadas para que o próximo iniciante chegue à trilha um pouco mais preparado do que o anterior. Para que a natureza seja vivida com a intensidade que merece, sem ser estragada por algo que poderia ter sido resolvido com cinco minutos de planejamento na véspera.

No fim, o hiking é um convite. Um convite para sair do asfalto e pisar na terra, no barro, na pedra. Para sentir o corpo trabalhar, o suor escorrer, o vento no rosto, o silêncio da mata. Um convite que não exige grandes investimentos nem habilidades extraordinárias. Mas que pede, em troca, um mínimo de humildade. A humildade de quem entende que, na natureza, o convidado é você. E quem dita as regras é ela.

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