Como Chegar até Si Phan Don no Laos

Chegar em Si Phan Don, o arquipélago das 4.000 ilhas no sul do Laos, exige planejamento e paciência, já que não existe aeroporto nas ilhas e o trajeto envolve combinação de avião, van e barco; este guia detalha todas as rotas possíveis a partir do Brasil, países vizinhos e principais cidades do Laos.

Fonte: Get Your Guide

Como chegar até Si Phan Don no Laos: o guia completo das rotas, conexões e travessias

Não vou romantizar: chegar em Si Phan Don dá trabalho. O arquipélago fica no extremo sul do Laos, encravado num trecho do Mekong que se alarga absurdamente antes de despencar nas cachoeiras de Khone Phapheng, perto da fronteira com o Camboja. Não tem aeroporto, não tem trem, não tem rodovia expressa. O que tem é uma combinação curiosa de van, tuk-tuk e barco que, no fim das contas, faz parte da experiência. Quem cruza o Mekong pela primeira vez para desembarcar em Don Det ou Don Khong já entende que aquilo ali é diferente de qualquer outro destino do Sudeste Asiático.

A boa notícia é que, apesar do isolamento aparente, a logística está bem azeitada. Existem agências em Pakse, Vientiane e até em Siem Reap (Camboja) que vendem pacotes combinados de transporte terrestre e travessia fluvial. O segredo é entender as etapas e escolher a rota que faz mais sentido para o seu roteiro.

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A geografia básica antes de comprar passagem

Antes de qualquer coisa, vale entender o mapa. O arquipélago de Si Phan Don fica na província de Champasak, no extremo meridional do Laos. As três ilhas principais que recebem turistas são Don Khong (a maior, mais ao norte), Don Det (a mochileira, mais ao sul) e Don Khon (vizinha de Don Det, ligada por uma ponte ferroviária francesa).

O ponto de partida de quase todas as travessias é o vilarejo de Nakasang, na margem oeste do Mekong, que serve Don Det e Don Khon. Para Don Khong, o porto de embarque é Hat Xai Khun ou Ban Hat, um pouco mais ao norte. E a cidade que funciona como centro logístico para a região inteira é Pakse, capital de Champasak, a cerca de 150 km ao norte de Nakasang.

OrigemDestinoDuração aproximada
PakseNakasang3 horas de van
NakasangDon Det15 min de barco
NakasangDon Khon20 min de barco
Hat Xai KhunDon Khong10 min de balsa
VientianePakse1h10 de avião
VientianePakse10 a 12h de ônibus

A pergunta inevitável: como sair do Brasil até lá

Não existe vôo direto entre Brasil e Laos, e nem deveria existir, porque a infraestrutura aérea de Vientiane e Pakse não comporta vôos intercontinentais. O caminho mais comum é fazer uma conexão num grande hub asiático e seguir de lá.

Rota 1: via Bangkok (a mais usada)

Esse é o caminho que faz mais sentido em quase todos os cenários. Vôos de São Paulo ou Rio para Bangkok geralmente passam por Dubai, Doha, Istambul, Paris ou Adis Abeba. A duração total fica entre 22 e 30 horas, dependendo da conexão. Companhias como Emirates, Qatar Airways, Turkish, Ethiopian e Air France operam essa rota com frequência.

De Bangkok, existem vôos diretos para Pakse (com a Lao Airlines, três a quatro vôos por semana) ou para Vientiane (várias frequências diárias). De Pakse, sobra apenas o trecho terrestre até Nakasang.

Rota 2: via Singapura ou Kuala Lumpur

Funciona bem se você for combinar a viagem ao Laos com outros destinos do Sudeste Asiático. Singapore Airlines, Scoot e AirAsia operam vôos para Vientiane. De Vientiane, segue para Pakse de avião (Lao Airlines, vôos diários) ou de ônibus noturno.

Rota 3: via Hanói ou Ho Chi Minh

A Vietnam Airlines tem boas conexões para Vientiane e ocasionalmente para Pakse. Faz sentido se o roteiro incluir Vietnã antes ou depois do Laos.

Rota 4: via Siem Reap (Camboja)

Uma das rotas mais charmosas, especialmente para quem está fazendo o circuito Angkor Wat → Sul do Laos. Vôos para Siem Reap a partir de Bangkok, Singapura ou Ho Chi Minh são frequentes. De lá, segue-se por terra até Si Phan Don atravessando a fronteira em Trapeang Kriel.

Chegando ao Laos: as portas de entrada

Aeroporto Internacional de Pakse (PKZ)

É o aeroporto mais próximo de Si Phan Don, a cerca de 150 km de Nakasang. Recebe vôos da Lao Airlines vindos de Vientiane, Bangkok e Siem Reap (este último opera de forma sazonal, vale checar antes). É um aeroporto pequeno, com estrutura básica, mas funcional. A imigração costuma ser rápida.

Quem desembarca em Pakse já está praticamente no portão de entrada do sul do Laos. Da cidade, várias agências vendem o trecho combinado van + barco até Don Det ou Don Khong por valores que giram em torno de 60.000 a 80.000 kip (mais ou menos 5 a 7 dólares).

Aeroporto Internacional de Vientiane (VTE)

A capital do Laos tem o aeroporto mais movimentado do país, com conexões para Bangkok, Singapura, Kuala Lumpur, Hanói, Seul, Kunming e algumas outras cidades asiáticas. É o ponto de entrada mais comum no país, mas exige um trecho doméstico extra (avião ou ônibus) para chegar a Pakse.

Aeroporto de Savannakhet

Opção menos usada, mas pode aparecer em algumas conexões. Fica entre Vientiane e Pakse, com vôos esporádicos da Lao Airlines.

De Vientiane para Pakse: as opções

Se você desembarcou em Vientiane, ainda precisa atravessar boa parte do país para sul. Existem três jeitos de fazer isso.

De avião

A Lao Airlines opera vôos diários entre Vientiane e Pakse, com duração de 1h10. É a opção mais cara, mas a mais sensata para quem tem pouco tempo. Os preços variam de 80 a 130 dólares por trecho, dependendo da antecedência da compra. Compre direto no site da companhia ou em agências locais, porque os sistemas internacionais nem sempre puxam essas tarifas corretamente.

De ônibus noturno (sleeper bus)

A alternativa econômica e a mais utilizada por mochileiros. São cerca de 10 a 12 horas de viagem, com leitos duplos (sim, você divide o leito com um estranho, ou paga os dois se quiser privacidade). Saída geralmente no fim da tarde, chegada em Pakse de madrugada. Custa entre 170.000 e 220.000 kip.

O conforto é relativo. A estrada melhorou bastante nos últimos anos, mas ainda tem trechos esburacados. Leve casaco (o ar-condicionado é cruel), tampão de ouvido e uma boa dose de paciência.

De ônibus diurno

Existem ônibus VIP diurnos com cadeira reclinável saindo do terminal sul de Vientiane. A viagem dura entre 10 e 14 horas dependendo das paradas. Não é minha recomendação favorita, porque você queima um dia inteiro em estrada e ainda chega cansado.

De Pakse para Si Phan Don: o trecho final

Aqui começa a parte mais bonita da chegada. De Pakse até Nakasang, são 150 km que correm pela rodovia 13 sul, atravessando arrozais, vilarejos de palafita, plantações de café (na rota para o Bolaven Plateau, que fica próximo) e o Mekong sempre à direita.

Van turística (a opção mais prática)

Praticamente todas as guesthouses e agências de Pakse vendem o pacote van + barco. As vans saem em horários fixos, normalmente 8h e 13h, e levam cerca de 3 horas até Nakasang. O preço médio combinando o barco gira em torno de 60.000 a 80.000 kip. Algumas operadoras oferecem minivans privadas por valores mais altos, em torno de 25 a 35 dólares.

Ônibus local

Sai do terminal sul de Pakse e é bem mais barato (cerca de 40.000 kip), mas demora mais (4 a 5 horas), faz várias paradas e a sensação de desconforto é proporcional. Para quem quer economizar e tem o dia inteiro pela frente, funciona.

Táxi ou carro com motorista

Opção interessante para grupos ou famílias. Custa entre 70 e 100 dólares o trecho, com possibilidade de paradas em pontos turísticos pelo caminho, como o complexo de templos de Vat Phou (patrimônio UNESCO) em Champasak.

A travessia de barco: o último trecho

Chegando em Nakasang, o cenário muda de vez. O vilarejo é um porto fluvial movimentado, com mercados de peixe, lanchonetes simples e dezenas de barcos longos amarrados à beira d’água. Aqui você embarca para a última etapa.

DestinoDuraçãoPreço médio
Don Det15 min15.000 kip
Don Khon20 min20.000 kip
Don Khong (via Hat Xai Khun)10 min10.000 kip

Os barcos são tradicionais embarcações de madeira, longas e estreitas, com motor de popa. Não esperem coletes salva-vidas em condições impecáveis, mas a travessia é tranquila e geralmente sem incidentes. Se chover, o barqueiro distribui lonas para cobrir os passageiros e as mochilas.

Para Don Khong, o ponto de embarque fica em Hat Xai Khun, um pouco mais ao norte de Nakasang. Quem vai direto para essa ilha geralmente já compra o trecho combinado em Pakse, e o motorista da van leva até o porto correto.

Vindo do Camboja: a fronteira terrestre

Essa é uma das rotas mais charmosas, especialmente para quem está combinando Angkor Wat com o sul do Laos. A fronteira fica em Nong Nok Khiene (lado laosiano) / Trapeang Kriel (lado cambojano), a cerca de 50 km ao sul de Nakasang.

Várias agências em Siem Reap, Phnom Penh e Stung Treng vendem o trecho direto até Don Det. A viagem desde Siem Reap leva o dia inteiro, normalmente entre 12 e 14 horas, com troca de ônibus na fronteira. Desde Stung Treng (cidade cambojana mais próxima da fronteira), são apenas 2 a 3 horas até Nakasang.

Atenção redobrada na fronteira

Esse posto fronteiriço tem fama de aplicar pequenos golpes nos viajantes. Cobranças “extras” pelo carimbo de saída do Camboja, taxas inexistentes para entrada no Laos, comissões dos motoristas. Algumas dicas que aprendi:

  • Tenha dólares americanos em espécie para o visa on arrival do Laos (entre 30 e 42 dólares dependendo da nacionalidade, brasileiros geralmente pagam em torno de 30 a 35 dólares)
  • Leve uma foto 3×4 para o formulário do visto
  • Recuse pagamentos em kip ou riel para o visto, eles aplicam câmbio péssimo
  • Não há caixa eletrônico na fronteira, então saque antes
  • Esteja preparado para esperar de 30 minutos a 2 horas dependendo do movimento

Vindo da Tailândia: a alternativa de Ubon Ratchathani

Quem está no nordeste da Tailândia tem uma rota interessante via Ubon Ratchathani, que tem aeroporto e estação de trem. De lá, ônibus regulares cruzam a fronteira de Chong Mek até Pakse em cerca de 3 horas. É um caminho menos óbvio, mas funcional, especialmente para quem está fazendo um circuito pelo Isan tailandês.

Vindo do Vietnã

A fronteira de Bo Y / Phou Keua, no Vietnã central, conecta Kon Tum ou Pleiku ao sul do Laos. Existe ônibus direto até Pakse, mas a viagem é longa (umas 12 horas) e desgastante. Só recomendo se você já estiver nessa região do Vietnã, caso contrário não compensa.

Documentos e visto para brasileiros

Brasileiros precisam de visto para entrar no Laos, mas conseguem na chegada (visa on arrival) nos principais aeroportos internacionais e nos postos de fronteira terrestre, incluindo Nong Nok Khiene. O custo gira em torno de 30 a 35 dólares americanos, pago em espécie. O passaporte precisa ter validade mínima de 6 meses a partir da data de entrada.

Algumas coisas que evitam dor de cabeça:

  • Leve uma foto 3×4 recente
  • Tenha o endereço da primeira hospedagem em mãos
  • Imprima a passagem de saída do país (raramente pedem, mas pode acontecer)
  • Tenha dólares novos e sem rasgos, eles podem recusar notas amassadas

Dinheiro: o aviso que ninguém esquece

Vale repetir o que falei no guia geral, porque é o tipo de coisa que estraga viagem: não existem caixas eletrônicos nas ilhas de Si Phan Don. O último ATM confiável fica em Pakse ou em Nakasang (este último às vezes está fora do ar). Saque kip ou tenha dólares em espécie antes de embarcar no barco. Cartões de crédito são aceitos em pouquíssimos lugares, e a taxa é absurda quando aceitam.

Quanto tempo dedicar à logística

Se você é do tipo que gosta de planejar com folga, considere o seguinte cronograma realista a partir de São Paulo:

  • Dia 1: vôo São Paulo → Bangkok (com conexão)
  • Dia 2: chegada em Bangkok, pernoite ou conexão direta para Pakse
  • Dia 3: chegada em Pakse pela manhã, almoço, embarque para Nakasang à tarde, travessia para Don Det no fim do dia
  • Dia 4 em diante: aproveitar as ilhas

No total, são 2 a 3 dias só para chegar. Por isso não faz sentido ir até Si Phan Don para ficar menos de 4 ou 5 dias nas ilhas. Idealmente, reserve uma semana para o sul do Laos inteiro, incluindo Pakse, Bolaven Plateau e o arquipélago.

Erros comuns na hora de planejar

Vou listar rapidamente algumas armadilhas que vejo gente caindo:

  • Confiar em horários de barco no fim do dia: as travessias de Nakasang reduzem drasticamente depois das 17h. Se sua van atrasar, você pode ficar dormindo no vilarejo
  • Comprar visto online no site errado: o Laos tem um e-visa oficial, mas existem dezenas de sites falsos cobrando o triplo. Use apenas o site governamental ou faça na chegada
  • Subestimar o tempo de fronteira: a passagem por Trapeang Kriel pode levar horas em alta temporada
  • Esquecer de avisar o banco: cartões brasileiros costumam ser bloqueados ao primeiro uso no Laos, mesmo com aviso de viagem
  • Apostar tudo no Wi-Fi: a conexão das vans e barcos é inexistente, baixe mapas offline e tenha os endereços anotados

Vale o esforço de chegar?

Vale, sem dúvida. Si Phan Don não é destino fácil, e talvez seja exatamente por isso que ainda preserva esse ar de fim de mundo bonito. Cada conexão, cada van empoeirada e cada travessia de barco fazem parte de uma das chegadas mais memoráveis do Sudeste Asiático. Quando o motor do barco silencia e o casco encosta na areia de Don Det, com os bangalôs de bambu se desenhando contra o pôr do sol, fica claro que toda a logística valeu cada minuto.

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