Como Agir em Caso de Terremoto Durante a Viagem
Saiba exatamente o que fazer antes, durante e depois de um terremoto em viagem, com protocolos oficiais de segurança, destinos de risco sísmico e orientações verificadas para turistas.

Terremoto não manda aviso. Não existe previsão do tempo para tremor de terra, e nenhum instituto sismológico do mundo consegue dizer com antecedência que amanhã, às três da tarde, o chão de determinada cidade vai se mexer. O que existe são probabilidades, mapas de risco e, em alguns países, sistemas que dão de cinco a trinta segundos de aviso. É pouco. Mas trinta segundos, para quem sabe o que fazer, é uma eternidade.
Quem viaja para o exterior costuma se preocupar com passaporte, bagagem extraviada, roubo de celular e comida estranha. Terremoto raramente entra na lista. E é curioso, porque uma boa parte dos destinos mais desejados do planeta fica exatamente sobre encontros de placas tectônicas. Japão, Chile, Califórnia, Itália, Turquia, Indonésia, Grécia, México, Peru, Nova Zelândia. A lista é longa e cheia de lugares que aparecem no topo de qualquer roteiro de sonho.
Em 28 de março de 2025, um terremoto de magnitude 7,7 atingiu o centro de Mianmar e matou mais de 3.500 pessoas. O tremor foi sentido a centenas de quilômetros de distância, inclusive em Bangkok, onde um edifício em construção desabou completamente. Turistas filmaram piscinas de cobertura de hotéis despejando água pelas laterais como cachoeiras. Nenhuma dessas pessoas tinha planejado estar dentro de um terremoto naquele dia.
A lição é simples. Não é sobre evitar o risco. É sobre chegar preparado.
Onde o chão realmente se mexe
O chamado Círculo de Fogo do Pacífico concentra cerca de 90% dos terremotos do mundo. É um arco gigantesco que passa pela costa oeste da América do Sul, sobe pela América Central e Estados Unidos, atravessa o Alasca, desce pelo Japão, Filipinas, Indonésia e chega até a Nova Zelândia. Fora dele, a faixa que vai do Mediterrâneo até o Himalaia também é bastante ativa, e é ali que estão Itália, Grécia, Turquia, Irã, Nepal e norte da Índia.
| Destino | Nível de atividade sísmica | Sistema de alerta público |
|---|---|---|
| Japão | Muito alto | Sim (J-Alert) |
| Chile | Muito alto | Sim (SAE) |
| Indonésia | Muito alto | Sim (InaTEWS) |
| Califórnia (EUA) | Alto | Sim (ShakeAlert / MyShake) |
| México | Alto | Sim (SASMEX) |
| Turquia | Alto | Parcial |
| Nova Zelândia | Alto | Sim (Emergency Mobile Alert) |
| Peru | Alto | Parcial |
| Itália | Moderado a alto | Não |
| Grécia | Moderado a alto | Parcial |
| Filipinas | Alto | Parcial |
| Nepal | Alto | Não |
Vale um comentário aqui. O Japão registra milhares de tremores por ano e ainda assim é considerado um dos países mais seguros do mundo em relação a terremotos. Isso não é sorte. É código de construção rigoroso, educação da população desde a escola primária e sistemas de alerta que funcionam de verdade. Já em regiões com histórico sísmico parecido, mas sem essa cultura, um tremor de magnitude menor pode causar muito mais estrago. A magnitude importa, mas o que mata é construção ruim.
Antes de embarcar
Descubra se o destino está em zona sísmica. Basta uma busca no site do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), que mantém mapas de risco global e um registro em tempo real de tremores no mundo. O Serviço Sismológico Suíço também publica orientações específicas para viajantes que vão a áreas de risco.
Baixe o aplicativo de alerta do país. Isso é subestimado e é uma das coisas mais úteis que existem. No Japão, o Safety Tips, criado pela agência de turismo japonesa, funciona em português e envia alertas de terremoto, tsunami e tufão. No México, o SkyAlert e o SASSLA dão aviso sonoro antes das ondas chegarem. Na Califórnia, o MyShake faz o mesmo. Celulares Android já vêm com o Android Earthquake Alerts System embutido em vários países, e vale conferir se está ativado nas configurações de segurança.
Anote os números de emergência em papel. Parece antiquado, mas celular quebra, bateria acaba e rede cai. Anote o telefone da polícia, dos bombeiros, do consulado brasileiro mais próximo e do seu seguro-viagem. Guarde esse papel na carteira, não na mochila.
Cadastre-se no sistema do Itamaraty. O Ministério das Relações Exteriores oferece o serviço de registro de viagem, onde o brasileiro informa destino, datas e contato antes de embarcar. Em situações de desastre, isso permite que o consulado saiba que você está na região e consiga localizá-lo. Leva cinco minutos e é gratuito.
Leia o seguro-viagem com atenção. Muitas apólices baratas excluem desastres naturais ou limitam a cobertura de hospedagem extra e remarcação de voo. Verifique especificamente: cobertura médica por acidente decorrente de desastre natural, despesas de hospedagem em caso de impossibilidade de retorno, e cancelamento ou interrupção de viagem. É o tipo de cláusula que ninguém lê e todo mundo se arrepende de não ter lido.
Monte um kit mínimo. Não precisa virar sobrevivencialista. Uma garrafa de água, algumas barras de cereal, lanterna pequena (ou o celular carregado), power bank, remédios de uso contínuo, um kit básico de primeiros socorros e uma reserva de dinheiro em espécie na moeda local. Depois de um terremoto forte, cartões podem não funcionar, caixas eletrônicos ficam fora do ar e comércio fecha. Dinheiro em papel resolve.
Os dois minutos mais importantes da hospedagem
Chegou no hotel, jogou a mala no chão, tirou o sapato. Antes de sair para explorar, faça isso: olhe o quarto e responda mentalmente três perguntas.
Onde eu me esconderia se o chão começasse a tremer agora? Procure uma mesa robusta, a base da cama ou um canto junto a uma parede interna. Não deixe a mala bloqueando esse espaço.
O que pode cair na minha cabeça? Quadros pesados acima da cama, espelhos grandes, luminárias, estantes soltas, televisão mal fixada. Se der para reposicionar a cama alguns centímetros, faça. Se o quadro pendurado sobre a cabeceira parecer instável, tire e coloque no chão. Ninguém vai reclamar.
Por onde eu sairia? Escada de emergência, não elevador. Conte quantas portas separam seu quarto da escada. No escuro, com fumaça ou sem energia, você vai contar portas com a mão na parede.
Também vale considerar o prédio em si. Estruturas com o térreo aberto, sustentado por poucos pilares (típico de lojas grandes ou garagens na base de edifícios), são mais vulneráveis. Solo mole e sedimentar amplifica o tremor, o que explica por que a Cidade do México sofre tanto: boa parte dela foi construída sobre o leito de um lago. Ruas estreitas entre prédios altos aumentam o risco de queda de escombros na saída. Nada disso deve determinar sua reserva, mas se tiver duas opções equivalentes, é informação útil.
Durante o tremor: abaixar, proteger, segurar
Esse é o protocolo oficial adotado pela Cruz Vermelha, pelo USGS, pela Agência de Gestão de Incêndios e Desastres do Japão e por praticamente toda autoridade de proteção civil do mundo. Em inglês, Drop, Cover, Hold On.
Abaixe-se. Vá ao chão de imediato, sobre os joelhos. Em um tremor forte você não consegue caminhar, muito menos correr. Tentar se locomover de pé é o caminho mais rápido para uma queda feia.
Proteja-se. Entre debaixo de uma mesa resistente ou fique junto a uma parede estrutural interna. Cubra a cabeça e a nuca com os braços. Se estiver de mochila, coloque-a sobre a cabeça.
Segure. Agarre a perna da mesa. Móveis se deslocam durante o tremor, e você precisa se mover junto com o abrigo, não perdê-lo no meio do caminho.
Três erros que precisam ser desfeitos:
O primeiro é correr para fora do prédio durante o tremor. Estatisticamente, é uma das piores decisões possíveis. A maior parte dos ferimentos acontece na saída, com pessoas atingidas por fachadas, telhas, vidros e placas que se soltam. O lugar mais perigoso de um edifício durante um terremoto é a área imediatamente do lado de fora dele.
O segundo é a teoria do “triângulo da vida”, que circula na internet há mais de uma década e recomenda ficar ao lado de móveis grandes em vez de embaixo deles. Nenhuma agência oficial de proteção civil endossa essa recomendação. A orientação continua sendo debaixo de móvel resistente.
O terceiro é usar o vão da porta. Isso vinha de construções antigas de adobe, onde o batente era a parte mais reforçada. Em construções modernas, o vão da porta não oferece proteção contra objetos caindo e a porta pode bater com força.
Se você não estiver dentro de um quarto
Na cama, durante a noite. Fique. Vire de bruços e proteja a cabeça com o travesseiro. Levantar no escuro, pisando em cacos, é como a maioria dos cortes acontece.
Na rua. Afaste-se de prédios, postes, fios, muros e árvores. Vá para o espaço aberto mais próximo e agache protegendo a cabeça.
Dirigindo. Pare em local seguro, longe de viadutos, pontes, postes e encostas. Permaneça no carro com o cinto afivelado até o tremor acabar.
No metrô ou trem. Segure-se firme. Não tente sair do vagão nem forçar portas. Espere a parada completa e siga a orientação da equipe. Trens japoneses freiam automaticamente quando o sistema de alerta é acionado.
Em um elevador. Aperte todos os botões de andar. Saia no primeiro que abrir e continue pelas escadas.
Na praia ou em região costeira. Aqui a regra muda. Se o tremor for forte ou durar mais de vinte segundos, não espere sirene, não espere aviso oficial, não espere que alguém confirme. Vá imediatamente para um terreno elevado ou suba ao terceiro andar ou mais de um edifício resistente. Um tsunami pode chegar em poucos minutos. Se a água do mar recuar de forma anormal, expondo o fundo, isso é sinal clássico de tsunami a caminho. Corra para cima.
Na montanha ou em trilha. Afaste-se de encostas e paredões. Terremotos disparam deslizamentos e queda de rochas. No Nepal, em 2015, o tremor de magnitude 7,8 causou avalanches no Everest e bloqueou estradas por semanas.
Depois do tremor
Passou. Você está de pé. Agora começa a parte que muita gente ignora.
Réplicas vão vir. Podem ocorrer minutos, horas, dias ou até meses depois. Algumas com magnitude relevante o suficiente para derrubar estruturas já enfraquecidas. Não volte a um prédio danificado, mesmo que pareça firme.
Cheire o ar. Se houver odor de gás, saia e avise alguém. Não acenda isqueiro, não ligue interruptor, não use o celular como lanterna dentro do ambiente. Incêndios secundários por vazamento de gás causaram parte enorme das mortes no terremoto de Kobe, em 1995.
Não use elevador. Nunca, depois de um terremoto, até que a estrutura seja liberada por técnicos.
Calce sapato fechado. Vidro no chão é o cenário padrão pós-tremor. Se possível, tenha um par de tênis ou sapatos ao lado da cama nas noites em zona sísmica.
Mande mensagem, não ligue. Redes de voz saturam em minutos após um evento grande. SMS e mensagens de texto usam muito menos banda e passam com mais facilidade. Uma linha basta: “estou bem, estou em tal lugar”. Deixe as ligações para emergências reais e libere a rede para os serviços de resgate.
Busque informação oficial. Rádio local, aplicativo de alerta, recepção do hotel, autoridades. Redes sociais ajudam, mas circulam boatos com velocidade impressionante em desastres. Confie na fonte oficial.
Procure o consulado. O consulado brasileiro na região ativa protocolos de assistência em situações de desastre e pode orientar sobre documentos perdidos, repatriação e contato com familiares. Se o passaporte foi destruído, é ali que se resolve.
Não vire turista de escombros. Parece óbvio dizer, mas vale. Áreas atingidas precisam de circulação livre para equipes de resgate. Fotografar destruição e circular por zonas afetadas atrapalha.
Um checklist para deixar salvo no celular
| Momento | Ação principal |
|---|---|
| Antes da viagem | Checar risco sísmico do destino |
| Antes da viagem | Baixar app de alerta local |
| Antes da viagem | Registrar viagem no Itamaraty |
| Antes da viagem | Conferir cobertura do seguro |
| Antes da viagem | Anotar emergências em papel |
| Na chegada | Definir abrigo dentro do quarto |
| Na chegada | Contar portas até a escada |
| Na chegada | Deixar sapato ao lado da cama |
| Durante | Abaixar, proteger, segurar |
| Durante | Nunca correr para fora |
| Durante (costa) | Subir imediatamente |
| Depois | Checar gás e ferimentos |
| Depois | Escada, nunca elevador |
| Depois | Mensagem de texto, não ligação |
| Depois | Contatar consulado |
O lado emocional, que ninguém comenta
Sentir o chão se mover é diferente de tudo. Não é como turbulência de avião, não é como vento forte. É a única coisa do mundo que você sempre assumiu como fixa se comportando de forma errada. E o corpo reage antes da cabeça: coração acelerado, pernas moles, aquela sensação de irrealidade que dura poucos segundos mas parece longa.
É normal. Todo mundo sente. Inclusive quem mora em país sísmico e já passou por dezenas de tremores.
O que separa quem age de quem congela é ter ensaiado mentalmente a resposta. Não precisa ser treinamento formal. Basta ter pensado, uma vez, ao entrar no quarto: se acontecer, eu vou para debaixo daquela mesa. Essa única frase muda o comportamento na hora.
E se você viaja com criança, ensine antes, de forma leve. “Se o chão sacudir, a gente senta no chão e abraça a cabeça.” Criança aprende rápido e reage melhor do que muito adulto, justamente porque não fica racionalizando.
Nada disso deve fazer você riscar o Japão, o Chile ou a Itália do roteiro. Seria um péssimo negócio. Os lugares onde as placas se encontram são, não por coincidência, alguns dos mais bonitos que existem: vulcões, montanhas, ilhas, litorais recortados. A geologia que causa terremoto é a mesma que criou aquela paisagem que você viu na foto e decidiu conhecer.
O que muda é a postura. Chegar sabendo onde se abrigar, com um aplicativo instalado, um número anotado e a sequência abaixar, proteger, segurar guardada na memória. Custa quinze minutos de preparo espalhados pela viagem. E na eventualidade remota de o chão tremer, é a diferença entre uma história para contar e um problema sério.

