Atrações Turísticas Imperdíveis em Melbourne

Melbourne reúne em poucos quilômetros quadrados alguns dos melhores cafés do mundo, arte de rua de qualidade rara, museus relevantes, estádios históricos e bairros com personalidade tão distinta que parecem cidades diferentes.

Foto de Hugo Heimendinger: https://www.pexels.com/pt-br/foto/pessoas-caminhando-no-parque-1766219/

Existe uma certa injustiça quando se fala de Melbourne. Sydney rouba a atenção com a Opera House e a Harbour Bridge, e a maioria dos roteiros de Austrália trata Melbourne como uma escala secundária. Quem cai nessa armadilha perde a cidade que, ano após ano, aparece nas listas das melhores do mundo para morar, comer e simplesmente caminhar. A graça de Melbourne não está em um único cartão postal explosivo. Está espalhada em becos com grafites incríveis, em cafeterias dentro de antigos armazéns, em bondes que cortam avenidas largas e em bairros que mudam de cara a cada quarteirão.

Tentei reunir aqui o que realmente vale visitar, com observação honesta sobre o que entrega o que promete e o que talvez seja superestimado. A ideia é montar um roteiro que faça sentido tanto para quem fica três dias quanto para quem tem uma semana inteira pela frente.

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Federation Square, o ponto onde tudo começa

Quase todo passeio em Melbourne acaba começando ou passando pela Federation Square, ou Fed Square, como os locais chamam. É uma praça pública com arquitetura controversa, formada por construções de ângulos irregulares que dividem opiniões desde a inauguração em 2002. Tem gente que ama e gente que acha feio. O fato é que funciona como ponto de encontro da cidade.

Ali estão o centro de informações turísticas, o ACMI (Australian Centre for the Moving Image) com excelentes exposições sobre cinema e cultura digital, e o Ian Potter Centre, parte da galeria nacional de Victoria com foco em arte australiana. A entrada nas exposições permanentes é gratuita, o que sempre é bom comentar.

Do outro lado da rua fica a Flinders Street Station, com sua fachada amarela icônica, provavelmente o edifício mais fotografado da cidade. A combinação dos dois marcos no mesmo enquadramento virou imagem clássica de Melbourne.

Os laneways, a alma escondida da cidade

Se Melbourne tem uma identidade visual única, ela está nos laneways, aquelas ruelas estreitas que cortam o centro entre as avenidas principais. Originalmente eram becos de serviço, usados para descarga de mercadorias. Nas últimas décadas viraram território de cafés, bares, restaurantes e arte de rua.

Hosier Lane

A mais famosa, e por bons motivos. As paredes inteiras pintadas com grafites mudam constantemente, com novos artistas cobrindo trabalhos antigos numa rotação constante. Não existe nada parecido em outras grandes cidades, principalmente porque ali a arte de rua é legalizada e incentivada. Ir cedo de manhã rende fotos sem multidão. À noite tem uma energia diferente, com bares como o Misty escondidos por portas discretas.

Centre Place e Degraves Street

Dois laneways quase juntos, cheios de cafés com mesas na rua, decoração improvisada, paredes cobertas de cartazes. É ali que você entende por que Melbourne é considerada a capital do café no mundo. Pedidos como flat white, long black ou magic (uma especialidade local com dose dupla de espresso) saem com qualidade que faria qualquer barista europeu corar.

AC/DC Lane e Croft Alley

Menos turísticas, mais autênticas. AC/DC Lane, sim, leva esse nome em homenagem à banda, e tem uma das placas mais roubadas da cidade. Croft Alley, ainda mais escondida, costuma surpreender com murais elaborados e raríssimos turistas circulando.

Queen Victoria Market, a tradição que resiste

Funcionando desde 1878, é o maior mercado a céu aberto do hemisfério sul. Ocupa quase dois quarteirões e mistura áreas cobertas com setores abertos. A parte de produtos frescos, com peixes, carnes, frutas e queijos, é organizada em galpões. A parte externa tem roupas, souvenirs e itens diversos, mais voltada ao turismo.

O melhor jeito de aproveitar é ir num sábado de manhã, com fome. Comprar pães, queijos, frutas e fazer um piquenique improvisado nos jardins próximos. As empanadas argentinas, o bratwurst alemão e os american donuts (vendidos quentes, em uma barraca específica no estacionamento) são instituições locais.

Existe ainda o Night Market, em quartas-feiras durante o verão e sextas-feiras no inverno, com música ao vivo, food trucks e clima de festa. Vale a visita.

State Library Victoria, beleza sem cobrar entrada

Pouca gente sabe que uma das salas de leitura mais bonitas do mundo está em Melbourne. A La Trobe Reading Room, no quinto andar da State Library Victoria, tem cúpula octogonal de 35 metros de altura, mesas radiais e uma luz natural que entra como em uma catedral.

A entrada é gratuita. Tem áreas de exposição com mapas históricos, manuscritos antigos e até a armadura original de Ned Kelly, o foragido mais famoso da história australiana. Mesmo quem não é fã de bibliotecas costuma sair impressionado.

Royal Botanic Gardens, o pulmão da cidade

Cerca de 38 hectares de jardins meticulosamente cuidados às margens do rio Yarra, ao sul do centro. Foi fundado em 1846 e tem coleções de plantas de todos os continentes. Não é o tipo de atração que impressiona com adrenalina, mas funciona perfeitamente como contraponto a um dia intenso de cidade.

Tem trilhas curtas, lago com cisnes negros, área de bambus, jardim de cactos e um café decente perto do lago. O Shrine of Remembrance, monumento aos soldados australianos, fica logo ao lado e tem vista panorâmica do skyline a partir do terraço superior. Entrada gratuita.

Eureka Skydeck e Melbourne Skydeck

No 88º andar do Eureka Tower em Southbank, é o observatório público mais alto do hemisfério sul. A vista de 360 graus abrange a cidade, a Port Phillip Bay e, em dias claros, até a Mornington Peninsula. A atração The Edge, uma caixa de vidro projetada para fora do prédio, é a parte que separa quem tem coragem de quem prefere ficar atrás da janela.

Vai bem de fim de tarde, pegando o pôr do sol e a transição para a cidade iluminada. Ingressos pela internet costumam sair mais baratos.

National Gallery of Victoria

A NGV é a galeria de arte mais antiga e mais visitada da Austrália. Tem dois prédios principais. O NGV International, em St Kilda Road, com obras de Picasso, Monet, Rembrandt, e a famosa parede de água na entrada que crianças e adultos sempre param para tocar. E o Ian Potter Centre, na Federation Square, dedicado à arte australiana, incluindo importante coleção de arte indígena contemporânea.

Entradas para exposições permanentes são gratuitas. As temporárias costumam cobrar e geralmente valem o ingresso.

Brighton Beach e as bathing boxes

A 11 quilômetros do centro, a praia de Brighton tem uma fileira de 82 cabines de praia coloridas chamadas bathing boxes. Cada uma é propriedade privada e custa centenas de milhares de dólares australianos no mercado. Não existe estrutura interna sofisticada, são literalmente caixas de madeira pintadas, mas viraram um dos cartões postais visuais mais reconhecíveis de Melbourne.

A praia em si é tranquila, com mar calmo dentro da Port Phillip Bay. Vai bem em qualquer estação, embora o verão deixe tudo mais animado.

St Kilda, o bairro à beira-mar

A combinação de praia, calçadão, Luna Park histórico, Acland Street com suas pastelarias polonesas e judaicas, e a vida noturna agitada de Fitzroy Street faz de St Kilda um dos bairros mais visitados de Melbourne.

O píer de St Kilda, ao entardecer, abriga uma colônia de pequenos pinguins-azuis, os mesmos que fazem fama em Phillip Island. Eles voltam ao ninho em meio às pedras do quebra-mar, e dá para vê-los gratuitamente, em ambiente bem mais íntimo do que em Phillip Island. Voluntários costumam estar presentes para orientar e proteger os animais. Não use flash em hipótese alguma.

Fitzroy, Brunswick e Collingwood, os bairros alternativos

Melbourne tem um conjunto de bairros conhecidos pela cultura alternativa, arte de rua, brechós, bares pequenos e restaurantes étnicos. Cada um com sua personalidade.

Fitzroy

A Brunswick Street é o eixo principal. Lojinhas independentes, tatuadores, livrarias, bares com música ao vivo. Costuma atrair quem busca a Melbourne menos polida. O Rose Street Artists’ Market, aos fins de semana, reúne pequenos produtores de artesanato e arte.

Brunswick

Mais ao norte, em torno da Sydney Road. Tem forte presença da comunidade do Oriente Médio, com restaurantes libaneses, turcos e padarias persas. À noite, a região do CERES Community Environment Park oferece uma cara mais comunitária e ecológica.

Collingwood

Antigo bairro operário transformado em zona de cervejarias artesanais, restaurantes elogiados e galerias de arte. A Smith Street, eleita uma das ruas mais cool do mundo pela Time Out em 2021, atravessa a fronteira com Fitzroy.

Melbourne Cricket Ground, o estádio sagrado

Para quem gosta de esporte, o MCG é peça obrigatória. Tem capacidade para mais de 100 mil pessoas, é o lar do Australian Football League e sediou os Jogos Olímpicos de 1956. Ali também acontece o Boxing Day Test, partida tradicional de críquete iniciada no dia 26 de dezembro, considerada um dos eventos esportivos mais importantes do calendário australiano.

Tour pelo estádio acontece em dias sem jogos, com acesso aos vestiários, ao gramado e à área dos jornalistas. No mesmo complexo está o Australian Sports Museum, com exposições sobre toda a história esportiva do país.

Os jardins históricos no entorno do centro

Melbourne foi planejada com generosa quantidade de áreas verdes, e isso se sente caminhando. Vale conhecer alguns dos jardins históricos:

JardimDestaqueTempo médio de visita
Carlton GardensRoyal Exhibition Building, patrimônio da Unesco1 hora
Fitzroy GardensCaptain Cook’s Cottage, casa trazida da Inglaterra1 a 2 horas
Treasury GardensMemorial a JFK, lago com patos30 minutos
Flagstaff GardensMais antigo da cidade, com vista do skyline30 minutos

Carlton Gardens, em especial, vale a parada. O Royal Exhibition Building, construído em 1880, é um dos poucos prédios de exposições do século 19 ainda em uso, e foi tombado pela Unesco em 2004.

Docklands, a zona renovada

Antiga área portuária reformada nos anos 2000, hoje abriga arranha-céus residenciais, restaurantes à beira d’água e atrações como a Melbourne Star, roda gigante observatório (vale checar status de operação antes de ir). Tem também o estádio Marvel Stadium, segunda casa do futebol australiano em Melbourne.

Honestamente, Docklands divide opiniões. Para alguns é moderna e funcional, para outros tem cara de bairro de negócios sem alma. Vale o passeio especialmente ao fim do dia, com o sol baixando sobre o porto.

Yarra River, a vista que muda o ângulo da cidade

O rio Yarra corta Melbourne e oferece passeios de barco que mostram a cidade de outra perspectiva. Existem cruzeiros curtos, de cerca de uma hora, partindo de Southbank. Não é o tipo de passeio com paisagem tropical exuberante, o Yarra é um rio urbano, mas a vista do skyline a partir da água, especialmente ao entardecer, vale o ingresso.

Caminhar pela margem, do Crown Casino até a Federation Square, também funciona bem. Existem bares e restaurantes em quase toda a extensão.

Chapel Street e South Yarra

Para quem gosta de compras, a Chapel Street, em South Yarra, é o equivalente local de uma rua de luxo, com lojas de marcas internacionais, butiques de designers australianos e cafés sofisticados. A região tem vida noturna ativa e atrai um público mais alinhado com tendências.

Já a Bridge Road, em Richmond, e a High Street, em Armadale, são alternativas mais calmas, com lojas de outlet e antiquários respectivamente.

O Old Melbourne Gaol, para quem gosta de história sombria

Antiga prisão em funcionamento entre 1845 e 1929, hoje é museu. Foi onde Ned Kelly, o foragido mais famoso do país, foi enforcado em 1880. A visita inclui as celas originais, a forca e a máscara mortuária do próprio Ned. Não é programa para todos os gostos, mas para quem se interessa por história criminal, é fascinante.

Existem ainda tours noturnos, com guias caracterizados, contando histórias de antigos prisioneiros. Vale para quem quer fugir do óbvio.

Roteiro sugerido por número de dias

Para ajudar a organizar o tempo, segue uma sugestão prática.

Tempo na cidadeFoco recomendado
3 diasCentro, laneways, Federation Square, NGV, Royal Botanic Gardens, St Kilda
5 diasAdicionar Fitzroy, Brighton Beach, MCG, Queen Victoria Market e um dia na Great Ocean Road
7 diasIncluir Phillip Island, Yarra Valley, Mornington Peninsula e mais bairros alternativos

A tentação de tentar fazer tudo em três dias é grande, mas Melbourne premia quem desacelera. Sentar em um café por uma hora, atravessar um laneway sem destino, voltar para um restaurante porque gostou do café da manhã, isso faz parte da experiência da cidade tanto quanto qualquer atração com nome próprio.

Algumas dicas práticas

A Free Tram Zone, no centro, permite usar bondes sem pagar. É uma das melhores cortesias urbanas que conheço. Para sair dessa área, é preciso ter o cartão Myki, vendido em estações e máquinas automáticas.

O clima é instável, e a frase de que Melbourne tem quatro estações em um dia não é exagero local. Pode amanhecer com sol, ventar à tarde, chover às cinco e esfriar à noite. Vista-se em camadas, com algo impermeável sempre por perto.

Reservas em restaurantes badalados são quase obrigatórias nos fins de semana. Aplicativos como TheFork, OpenTable e o próprio Google Maps facilitam o processo. Cafés geralmente não aceitam reserva, e fila para o brunch de domingo é tradição.

Gorjetas não são obrigatórias na Austrália. Os salários no setor de serviços são razoáveis, e ninguém vai correr atrás se você não deixar nada. O comum, em restaurantes de qualidade, é arredondar a conta ou deixar entre 5 e 10 por cento se o atendimento foi ótimo.

O que torna Melbourne diferente

A graça da cidade está no que ela não tenta ser. Não compete com a beleza natural de Sydney, não tem a monumentalidade de algumas capitais europeias, não vende cenários espetaculares para fotos. O que oferece é uma experiência urbana sofisticada, multicultural, com gastronomia de altíssimo nível, cena artística vibrante e qualidade de vida palpável até mesmo para quem está só de passagem.

Quem volta de Melbourne raramente fala de uma única atração marcante. Fala da soma, do clima geral, daquela sensação de que a cidade era para ser revisitada. E talvez seja exatamente isso o melhor termômetro de uma viagem bem aproveitada.

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