A Postura Respeitosa dos Visitantes em Auschwitz-Birkenau

Há lugares no mundo que pedem silêncio antes mesmo de você entrar neles. Auschwitz-Birkenau é um desses lugares — talvez o mais intenso deles. É um campo de concentração e extermínio nazista que funcionou entre 1940 e 1945, onde mais de 1,1 milhão de pessoas foram assassinadas, a grande maioria judeus deportados de toda a Europa ocupada. Desde 1947, o local é um memorial e museu. Desde 1979, é Patrimônio Mundial da UNESCO. E desde que o turismo internacional explodiu, é também palco de comportamentos que deixam o próprio memorial em posição constrangedora — obrigado a pedir, publicamente, que as pessoas se comportem com respeito em um cemitério a céu aberto.

Foto de judit agusti aranda: https://www.pexels.com/pt-br/foto/restringindo-a-cerca-de-arame-em-auschwitz-3743974/

Isso diz muito sobre o momento em que vivemos. E é exatamente por isso que vale a pena falar sobre postura — não como regra de etiqueta, mas como reflexão sobre o que significa estar num lugar onde a humanidade encontrou seus próprios limites mais sombrios.

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O Que É, de Fato, Auschwitz-Birkenau

Antes de falar sobre como se comportar ali, é preciso entender o que aquele lugar foi — e o que continua sendo.

O complexo de Auschwitz era composto por três campos principais. Auschwitz I foi o campo original, criado em abril de 1940 por ordem de Heinrich Himmler, inicialmente para receber presos políticos poloneses. Com o tempo, foi expandido para receber judeus, ciganos, homossexuais, prisioneiros soviéticos, pessoas com deficiência e outros grupos perseguidos pelo regime nazista. Foi ali que ocorreram os primeiros experimentos com o pesticida Zyklon B como agente letal em câmaras de gás.

Auschwitz II-Birkenau, construído a partir de outubro de 1941, era vinte vezes maior que o primeiro campo. Foi criado com um único propósito: o extermínio em massa. Tinha câmaras de gás com capacidade para matar milhares de pessoas por dia, crematórios industriais, barracas de madeira onde os prisioneiros viviam em condições subumanas. É o campo que mais aparece nas fotografias históricas — os trilhos de ferro chegando até o portão de entrada, as torres de vigilância, os vagões de carga que traziam as vítimas de toda a Europa.

Auschwitz III-Monowitz era uma fábrica de trabalho forçado ligada a empresas privadas alemãs. Hoje só os dois primeiros campos são abertos à visitação.

Em 2024, o memorial recebeu 1,8 milhão de visitantes. Em 2019, antes da pandemia, foram mais de 2 milhões. O número cresceu tanto que, a partir de maio de 2025, o museu passou a exigir reserva online obrigatória para visitantes individuais sem guia, com janelas de entrada controladas para evitar superlotação. A mudança foi motivada, em parte, por situações em que empresas levavam grupos de visitantes sem reserva, cobrando taxas abusivas e gerando confusão na entrada.

Esse crescimento de visitantes é, em si, um sinal importante: o mundo não esqueceu. Mas números grandes também trazem problemas — e nem todo visitante chega com a mesma disposição interior.


O Peso do Que Se Vê

Atravessar o portão de Auschwitz I, com a inscrição irônica e cruel “Arbeit Macht Frei” — o trabalho liberta — é um momento que para o tempo para a maioria das pessoas. Não importa quantas fotos você já viu. Estar ali, de pé, olhando para aquele portão de ferro, é diferente.

O percurso dentro de Auschwitz I passa pelos blocos originais de tijolos que serviam de prisão, sala de torturas, câmara de gás e crematório. Em algumas salas, há exposições com os pertences das vítimas — toneladas de sapatos, malas com nomes escritos, óculos, escovas de cabelo, próteses ortopédicas, cabelos raspados. São os objetos que as pessoas levaram consigo quando foram deportadas, acreditando que iriam trabalhar em outro lugar. Nunca souberam o que as esperava.

Em Auschwitz II-Birkenau, o impacto é diferente — é o impacto da escala. As ruínas das câmaras de gás e crematórios destruídos pelos próprios nazistas antes da fuga, as intermináveis fileiras de barracas de madeira, os trilhos que levavam diretamente à rampa de seleção onde os médicos da SS decidiam em segundos quem iria para o trabalho forçado e quem iria diretamente para a câmara de gás. A maioria das crianças, dos idosos e das mães com bebês no colo era enviada para o extermínio imediato, sem sequer ser registrada.

Caminhar por ali é uma experiência que não cabe em palavras. E é exatamente por isso que o comportamento dos visitantes importa tanto.


O Problema das Selfies e dos Comportamentos Inadequados

Em 2023, uma fotografia viralizou nas redes sociais e gerou indignação internacional: uma mulher com óculos escuros, sorrindo, sentada sobre os trilhos que levam à entrada de Auschwitz-Birkenau, posando para uma foto descontraída. O Memorial foi obrigado a se pronunciar publicamente, pedindo respeito às vítimas.

Não foi a primeira vez. Em 2019, o museu já havia emitido comunicado similar sobre fotos consideradas insensíveis nos mesmos trilhos. A situação se repete com variações — selfies sorridentes em frente às câmaras de gás, fotos com poses descontraídas ao lado das cercas de arame farpado, vídeos de dança filmados nas barracas.

O memorial não proíbe fotografia. Entende que documentar a visita pode ter valor emocional e até educacional. Mas há uma linha — não escrita no regulamento, mas evidente para qualquer pessoa com sensibilidade mínima — entre registrar o que se viu e transformar o maior cemitério sem lápides da Europa em cenário para conteúdo de redes sociais.

O problema não é a câmera. É a postura interior que a foto revela.

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O Que o Memorial Pede — E Por Que Faz Sentido

As regras oficiais do Memorial de Auschwitz-Birkenau existem porque o lugar não é um museu comum. É um local de morte em massa. É um cemitério onde os corpos se tornaram cinzas e os nomes, na maioria dos casos, nunca foram recuperados.

O memorial pede que os visitantes mantenham postura de solenidade e respeito durante todo o percurso. O local é silencioso por natureza, e por isso estão proibidos dispositivos acústicos, conversas telefônicas e qualquer barulho desnecessário. A circulação é permitida apenas nas áreas delimitadas — não se caminha sobre as ruínas, não se toca nos objetos expostos, não se sai dos caminhos marcados.

Sobre vestuário: não há um código rígido escrito, mas há uma orientação clara que o próprio museu sintetiza de forma simples — se você não usaria aquela roupa num funeral, não use em Auschwitz. Roupas modestas, sem logotipos chamados, sem cores excessivamente vibrantes. Chapéus e bonés devem ser removidos dentro dos edifícios, em sinal de respeito — exceto coberturas de caráter religioso.

Comer e beber dentro do complexo é proibido, exceto nas áreas designadas próximas ao Centro de Visitantes. Fumar é proibido em todo o recinto.

O Memorial também recomenda fortemente — e na prática quase exige — que a visita seja feita com guia credenciado. A razão é simples: sem contexto histórico, o que se vê é um conjunto de prédios velhos, ruínas e objetos. É o guia que devolve o nome e a humanidade a cada objeto, a cada barraca, a cada câmara de gás. É ele que impede que a experiência seja apenas visual, transformando-a em algo que fica.


A Questão das Crianças

O Memorial recomenda que crianças menores de 14 anos não visitem o complexo. Essa recomendação existe por razões concretas: o conteúdo das exposições — especialmente as câmaras com os pertences das vítimas e as fotografias dos prisioneiros — é perturbador mesmo para adultos. Para crianças pequenas, o impacto pode ser traumático sem que haja maturidade suficiente para processar o que foi visto.

Para adolescentes maiores de 14 anos, a visita pode ser uma das experiências educacionais mais significativas da vida, desde que feita com preparação prévia e com um adulto presente que possa responder às perguntas que inevitavelmente surgem durante e depois do percurso.


Por Que Ir Com Guia Muda Tudo

A diferença entre visitar Auschwitz com guia e sem guia é, na prática, a diferença entre entender e apenas ver.

O guia credenciado — e o museu tem guias em sete idiomas, incluindo o português — é quem contextualiza cada espaço dentro da história maior. É quem conta que a maioria das vítimas chegava em vagões lacrados, após dias de viagem sem água ou alimento, e ainda assim muitas acreditavam que estavam sendo realocadas para trabalho. É quem explica que os médicos que faziam a seleção na rampa eram doutores formados, pessoas educadas, e que a banalidade do mal não tem cara de monstro.

Sem esse contexto, corre-se o risco de fazer uma visita superficial — olhar para um sapato de criança numa vitrine sem saber a que história aquele sapato pertence, sem entender que ali havia uma pessoa, com nome, com família, com planos para o dia seguinte.

A visita guiada completa, cobrindo Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, dura entre 3h30 e 5 horas. Quem quiser uma imersão mais profunda pode optar pela visita estendida de 6 a 7 horas, que inclui acesso a áreas e exposições que a visita padrão não cobre, como o percurso até as ruínas dos crematórios e a subida à torre de vigia de Birkenau.


Como Chegar e Como Se Preparar

O memorial fica em Oświęcim, a aproximadamente 60 quilômetros a oeste de Cracóvia. O acesso mais comum a partir de Cracóvia é de ônibus ou van — várias empresas oferecem traslado direto do centro da cidade até o memorial, com reservas que incluem o guia. O trajeto dura em torno de 1h30.

Quem prefere ir por conta própria pode pegar um trem ou ônibus direto para Oświęcim na estação central de Cracóvia. O deslocamento do centro da cidade até o complexo é feito de táxi ou a pé — são cerca de 15 minutos a pé da estação de trem.

A entrada é gratuita para visitantes sem guia, mas desde maio de 2025 a reserva online é obrigatória pelo site oficial visit.auschwitz.org, e só pode ser feita com antecedência de 7 a 90 dias. Visitantes sem reserva prévia não têm garantia de entrada. Os passes gratuitos para visitas individuais estão disponíveis apenas online, não mais no local.

Para as visitas guiadas, há cobrança pelo serviço do guia — o valor varia conforme o tipo e a duração da visita. A reserva antecipada é ainda mais necessária para grupos e para períodos de alta temporada, quando a demanda pode ser muito superior à capacidade do memorial.

Uma dica prática que parece óbvia mas faz toda a diferença: leve agasalho. Mesmo no verão, os interiores dos blocos são frios e o percurso em Birkenau, que é feito a céu aberto, expõe o visitante ao vento. Calçado confortável é igualmente essencial — o chão é irregular em muitos pontos, com pedregulhos e calçamento antigo, e em Birkenau percorre-se aproximadamente 2 quilômetros a pé.


O Que a Visita Transforma

Há pessoas que saem de Auschwitz em silêncio. Pessoas que choram. Pessoas que ficam muito quietas pelo resto do dia. Pessoas que ligam para alguém da família logo que saem, sem saber exatamente por quê — só porque precisam ouvir uma voz familiar.

Há também, infelizmente, pessoas que saem e postam fotos com legendas turísticas. Pessoas que trataram o percurso como mais um item de uma checklist de pontos turísticos da Polônia.

A diferença não está no lugar. O lugar é o mesmo para todos. A diferença está no que cada pessoa trouxe consigo quando entrou — o nível de preparo histórico, a disposição para ser afetada, a consciência de que aqueles sapatos nas vitrines já tiveram donos.

A postura respeitosa em Auschwitz não é uma questão de regras de conduta — é uma questão de presença. De olhar para aquilo tudo e deixar que seja o que é: a evidência concreta de que o ódio, quando institucionalizado, quando industrializado, quando tolerado pelo silêncio de muitos, chega até o fim. Não para um pouco antes.

O memorial existe para que o mundo não esqueça isso. E a visita só cumpre seu papel se o visitante entra disposto a lembrar — não só durante o percurso, mas depois de voltar para casa.

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