A Cidade Subterrânea de Chongqing na China

Guia detalhado da cidade subterrânea de Chongqing: os abrigos antiaéreos da Segunda Guerra transformados em mercado de carregadores, casas de chá, restaurantes de hotpot e museus, com história, endereços, horários, o funcionamento do mercado nos dias terminados em 3, 6 e 0, e dicas práticas para visitar sem parecer turista perdido.

Guia detalhado da cidade subterrânea de Chongqing: os abrigos antiaéreos da Segunda Guerra transformados em mercado de carregadore

Mercado, Casa de Chá e Hotpot Dentro de Antigos Abrigos Antiaéreos

Chongqing é uma cidade que não faz sentido na primeira olhada. Prédios saem do meio de morros, um metrô atravessa um edifício residencial no oitavo andar, uma rua que parece térrea na verdade é o vigésimo andar de outra rua, e dois rios enormes se encontram embaixo de tudo isso. Mas a parte mais estranha de Chongqing não está na superfície. Está debaixo dela.

A cidade tem, escavado na rocha, um sistema de túneis que ninguém sabe contar com precisão. As estimativas mais citadas por órgãos municipais falam em algo próximo de mil e seiscentos abrigos antiaéreos remanescentes, com números que já apareceram bem maiores em levantamentos históricos. Não são túneis decorativos. São galerias de verdade, com paredes de pedra bruta, teto abobadado, corrente de ar fria saindo pela boca de entrada mesmo no pico do verão. E boa parte delas hoje está ocupada por gente vivendo a vida: vendendo verdura, jogando carta, bebendo chá, comendo hotpot fervendo às onze da noite.

É isso que as fotos do “Bunker Market”, da “Bunker Teahouse” e do “Bunker Hotpot” mostram. E vale entender de onde isso veio, porque a história é bem mais dura do que o clima descontraído de hoje sugere.

Klook.com

Por que Chongqing tem tantos túneis

A capital de guerra

Em 1937, com a invasão japonesa avançando pelo leste da China e a queda de Nanquim, o governo nacionalista de Chiang Kai-shek transferiu a capital para o interior. O destino escolhido foi Chongqing, então uma cidade portuária de província encravada entre montanhas, no encontro do rio Yangtzé com o rio Jialing. A escolha tinha lógica geográfica: montanha em volta, nevoeiro pesado durante meses do ano, distância enorme do litoral.

Chongqing virou a capital provisória da China entre 1937 e 1946. Junto com o governo vieram ministérios, embaixadas, universidades, fábricas desmontadas e transportadas rio acima, e uma população que explodiu em poucos anos, passando de algo em torno de meio milhão de habitantes para mais de um milhão.

Os bombardeios

E vieram também os aviões. Entre 1938 e 1943, a força aérea japonesa realizou uma campanha de bombardeios prolongada contra a cidade, uma das mais longas da Segunda Guerra contra um único alvo urbano. Os números variam conforme a fonte, mas os registros chineses apontam centenas de incursões aéreas e dezenas de milhares de mortos e feridos ao longo dos anos, com grande destruição do centro histórico.

O episódio mais lembrado aconteceu em junho de 1941, no que ficou conhecido como a tragédia do túnel da Grande Passagem, o Jiaochangkou. Durante um alarme aéreo prolongado, uma multidão se abrigou em um dos maiores túneis do centro. A ventilação não deu conta, houve pânico, empurra-empurra e asfixia em massa. As estimativas de mortos são disputadas e variam de centenas a milhares, dependendo do critério, mas o fato central é aceito: pessoas morreram sufocadas dentro do abrigo que deveria salvá-las. Existe um memorial no local, discreto, no meio de uma das áreas comerciais mais movimentadas da cidade.

Escavar aquelas galerias foi resposta direta a isso. Cavar na rocha era a única defesa disponível para uma cidade sem sistema antiaéreo eficiente. Homens, mulheres e adolescentes trabalharam com picareta e cesto, muitas vezes sob alarme. A rocha de Chongqing, um arenito relativamente estável, ajudou: dava para abrir túneis longos sem revestimento de concreto e eles se mantinham de pé. É por isso que as paredes que você vê hoje nas fotos são pedra crua, sem acabamento.

A segunda vida na Guerra Fria

Terminada a guerra contra o Japão, os túneis não foram fechados. Nas décadas de 1960 e 1970, com a tensão entre China e União Soviética e a política de dispersão industrial conhecida como Terceira Frente, Chongqing recebeu fábricas estratégicas e ampliou o sistema subterrâneo. Novas galerias foram abertas, algumas grandes o suficiente para abrigar linhas de produção inteiras, oficinas mecânicas, depósitos e até instalações militares.

Chongqing tem, aliás, um dos exemplos mais impressionantes dessa fase: uma base nuclear inacabada escavada dentro de uma montanha em Fuling, o chamado 816, com uma sala de reator de dezenas de metros de altura, hoje aberta à visitação. Não é no centro, fica a algumas horas de distância, e é uma visita à parte, mas ajuda a dar escala do que essa cidade fez com rocha e explosivo.

E depois?

Quando o risco de guerra saiu do horizonte, sobrou infraestrutura ociosa em uma das cidades mais densas e verticais do mundo. Chongqing tem pouco terreno plano. Espaço é caro, escasso e disputado. Então aconteceu o óbvio: as pessoas ocuparam os túneis.

Primeiro de forma informal. Depósitos, oficinas, garagens de bicicleta, adegas de conserva. Depois, a partir dos anos 1990 e 2000, com força comercial, veio o restaurante, a casa de chá, o mercado, a loja de peças. E, mais recentemente, o governo municipal passou a organizar o processo, com programas de reaproveitamento que catalogaram e liberaram centenas de abrigos para uso público, incluindo salas de leitura, pontos de refrigeração no verão e espaços culturais.

Existe um detalhe climático que explica tudo. Chongqing é conhecida como uma das “fornalhas” da China, com verões brutais, temperaturas passando dos 40 graus e umidade sufocante. Dentro dos túneis, a temperatura fica estável, algo em torno de 18 a 22 graus, sem ar-condicionado, todo dia do ano. Em julho, entrar em um túnel de Chongqing é uma sensação física de alívio. Foi essa vantagem, mais que a nostalgia histórica, que consolidou o hábito.


O Mercado do Bunker: o famoso mercado dos carregadores

O que é, de fato

A foto com as faixas verdes e amarelas na boca do túnel é um mercado que ficou conhecido nos últimos anos por um motivo específico: ele é dedicado aos beidou, os carregadores tradicionais de Chongqing.

Vale explicar quem eles são, porque essa figura é uma das mais importantes da história social da cidade. Chongqing é toda escada, ladeira e beco. Até pouco tempo atrás, carrinho de mão não subia, caminhão não entrava, e a única forma de levar mercadoria de um ponto a outro era nas costas de alguém. Os carregadores usavam uma cesta de bambu amarrada nas costas, o beidou, ou uma vara de bambu apoiada no ombro, e por isso ficaram conhecidos também como o “exército dos bambus”, os bangbang jun. Milhares deles, muitos vindos do campo, sustentaram o comércio da cidade por décadas. Quem já subiu as escadarias de Shibati ou as ladeiras perto do porto entende por que essa profissão existiu.

Com a modernização, elevadores, escadas rolantes públicas, aplicativos de entrega e o metrô, essa profissão praticamente desapareceu. Os que restam são idosos. E o mercado do bunker nasceu, em boa medida, como um espaço para esse pessoal e para pequenos produtores rurais venderem sem pagar taxa de banca.

As faixas na entrada dão a pista. Uma delas diz literalmente “banca gratuita”. Outra anuncia o horário. É um mercado de vendedor pequeno: verdura colhida na véspera, ovo caipira, cogumelo, brotos de bambu, pimenta seca, conserva de mostarda, ervas medicinais, frango vivo em gaiola, sapato, roupa barata, ferramenta usada. Nada de suvenir.

O horário, e por que ele é estranho

O ponto que confunde todo turista: esse mercado não abre todos os dias. Ele funciona nas manhãs dos dias cujo número termina em 3, 6 ou 0. Ou seja, dias 3, 6, 10, 13, 16, 20, 23, 26 e 30 de cada mês. E abre cedo, no começo da manhã, com o movimento forte terminando por volta das onze horas.

Isso não é invenção turística. É o sistema de feira periódica tradicional do interior da China, o ganchang, em que aldeias e mercados de rua se organizam em ciclos de três, cinco ou dez dias para que produtores possam rodar entre pontos diferentes. Chongqing, sendo uma metrópole cercada de zona rural e distritos montanhosos, herdou esse calendário. Fixaram os dias em 3, 6 e 0 e a coisa pegou.

Na prática, isso muda completamente o planejamento. Se você está três dias na cidade e nenhum deles termina em 3, 6 ou 0, você não vai ver o mercado funcionando. Vai ver um túnel com faixas e nada dentro. Vale abrir o calendário antes de escolher as datas, se isso for prioridade.

Como é a experiência

Não espere nada arrumado. O piso é úmido, a iluminação é uma fileira de lâmpadas penduradas no teto abobadado, o ar é fresco e tem cheiro de terra molhada misturado com legume, pimenta e fumaça de cigarro. As bancas são lençóis de plástico no chão ou caixas empilhadas. A idade média dos vendedores é alta. A idade média dos compradores também: são moradores do bairro comprando comida da semana.

O que faz o lugar valer a visita não é o produto, é o contraste. Você está dentro de um abrigo antiaéreo dos anos 1940, iluminado, cheio de gente negociando o preço da couve, com cipó descendo pela entrada. Poucos lugares no mundo entregam essa sobreposição de camadas em um só quadro.

Etiqueta que evita problema

Algumas coisas simples fazem diferença. Não enfie a câmera na cara de um vendedor idoso sem ao menos um gesto de pedido. Muitos vão aceitar rindo, alguns vão recusar, e a recusa costuma ser rápida e clara. Não bloqueie o corredor central, que é estreito e é por ali que passa mercadoria pesada. Se comprar algo, compre pequeno e pague em yuan, embora quase todo mundo prefira pagamento por celular. E vá cedo de verdade: às dez e meia o movimento já está caindo.


A Casa de Chá do Bunker: o lugar onde o tempo desacelera

O papel da casa de chá em Chongqing

A segunda foto mostra três homens jogando carta em torno de uma mesa, canecas de esmalte com tampa, cadeiras de madeira escura, prateleiras cheias de louça e lanternas vermelhas no teto. É a imagem mais precisa possível da vida social da cidade.

Casa de chá em Chongqing e em toda a região de Sichuan não é o que a palavra sugere para quem vem de fora. Não é lugar de degustação silenciosa nem de cerimônia. É um clube popular de bairro. As pessoas chegam pela manhã, pagam uma quantia baixa por uma caneca ou um copo com folhas soltas, e ficam. Água quente é reposta indefinidamente, sem custo extra. Passam-se três, quatro, cinco horas. Joga-se mahjong, jogam-se cartas locais, discute-se política, futebol, o preço da carne de porco, o resultado do neto na prova.

A caneca de esmalte branca com tampa, exatamente a que aparece na foto, é um objeto com história própria. É a caneca padrão de fábrica e de repartição da China do século vinte, resistente, barata, com o nome do estabelecimento pintado na frente. Muitas casas de chá em túnel usam essa peça de propósito, para reforçar a estética de época.

Dentro do túnel

A casa de chá subterrânea junta duas coisas que combinam bem: um hábito que exige tempo e um ambiente que convida a ficar. Está fresco, não tem sol, não tem barulho de trânsito, e o som fica levemente abafado pela rocha. É comum encontrar essas casas na parte mais funda de um túnel que tem loja e restaurante na boca, e a diferença de temperatura entre a entrada e o fundo é perceptível.

O preço costuma ser irrisório, muitas vezes na faixa de dez a vinte yuan por uma sessão longa, dependendo do lugar e do chá escolhido. Os chás mais comuns são o verde local, o jasmim e o chá de crisântemo. Alguns lugares oferecem também lao yin cha, um chá popular servido em bule grande e compartilhado.

Ninguém vai te apressar. Isso é parte do contrato social do ambiente. Se você senta, pede um chá e fica lendo por duas horas, está fazendo exatamente o que se espera de você.

Como se comportar sem estranheza

O jeito de entrar é simples: entre, olhe se há mesa livre, sente. Alguém vai aparecer. Aponte para o que outra pessoa está bebendo se não souber o nome. Se você for chamado para observar um jogo de carta, aceite. Se for chamado para jogar, saiba que provavelmente não vai entender as regras, e isso é motivo de diversão geral, não de constrangimento.

Duas advertências práticas. Muitas casas de chá tradicionais permitem cigarro, e em ambiente fechado de túnel isso pesa. Se você é sensível a fumaça, procure mesa perto da entrada ou de um ventilador de exaustão. E leve um agasalho leve, mesmo em pleno verão, porque ficar duas horas parado a 19 graus depois de andar no calor de 38 graus derruba qualquer um.


O Hotpot no Bunker: onde a coisa fica séria

Chongqing e o hotpot

A terceira foto mostra a galeria longa, arqueada, com luminárias penduradas em fileira e mesas ocupadas em toda a extensão. É um restaurante de hotpot dentro de um abrigo, e esse é provavelmente o uso mais famoso dos túneis da cidade.

Chongqing é o berço do hotpot picante. A versão local, o maoxuewang e o clássico jiu gong ge, a panela dividida em nove compartimentos, nasceu no porto, entre estivadores e barqueiros do Yangtzé que compravam as partes baratas do boi, miúdos e vísceras, e cozinhavam tudo em um caldo agressivo de pimenta e sebo de boi para disfarçar sabor e conservar melhor. Daí veio a estrutura que hoje é patrimônio gastronômico da cidade e move dezenas de milhares de estabelecimentos.

O caldo de Chongqing é diferente do de Chengdu, e vale saber disso. Chongqing usa mais sebo bovino, é mais oleoso, mais salgado e mais direto na agressão. Chengdu tende ao mais perfumado e ligeiramente mais suave. A dupla sensação característica vem de dois ingredientes que trabalham juntos: a pimenta seca, que traz o calor, e a pimenta de Sichuan, o huajiao, que traz um formigamento anestesiante na língua. Essa combinação é o málà, literalmente “adormecido e ardido”. Não é apenas apimentado. É uma sensação de vibração na boca que surpreende quem experimenta pela primeira vez.

Por que dentro do túnel funciona tão bem

Três razões práticas.

Primeiro, temperatura. Hotpot é uma panela fervente na sua frente por duas horas. No verão de Chongqing, comer isso em ambiente comum é tortura. Dentro do túnel, a rocha compensa o calor da panela.

Segundo, o cheiro. Hotpot de sebo bovino impregna tudo. Túnel com boca aberta e exaustão forte lida melhor com isso que um salão convencional.

Terceiro, espaço. Como já foi dito, terreno é o recurso mais escasso da cidade. Um túnel de cem, duzentos metros de comprimento acomoda uma quantidade enorme de mesas em fila, e o resultado visual é aquela perspectiva de corredor infinito que fez essas casas viralizarem nas redes chinesas.

Onde encontrar

Existem várias casas de hotpot em abrigo espalhadas pela cidade, e a lista muda com o tempo, porque abrem e fecham. Alguns nomes que circulam com frequência entre moradores e viajantes são o Fangkongdong Laozao Huoguo, na região de Jiefangbei, e casas nos bairros de Yuzhong e Jiangbei que ocupam galerias longas. Há também um conjunto conhecido como cidade subterrânea, o Dixia Zhi Cheng, com corredor comercial, praça de alimentação e ambientação temática, mais organizado e mais voltado a visitante.

A dica mais útil é usar aplicativos locais de avaliação, como o Dianping, e filtrar por hotpot com a palavra que designa abrigo antiaéreo. As fotos dos usuários mostram imediatamente se o salão é de rocha ou não. Fila de uma hora em noite de fim de semana é normal nas casas populares, e a senha é entregue na entrada.

Como pedir sem se queimar

O ritual é sempre parecido. Você escolhe o caldo: totalmente picante, dividido em picante e claro, ou apenas claro. Peça a versão dividida se for a primeira vez, porque você vai querer um lugar para descansar a boca. Existe nível de pimenta, e o nível que o garçom chama de “leve” costuma ser bem mais forte do que a média brasileira espera.

Depois vêm os pratos crus, servidos em travessas. Fatia fina de carne, tripa de boi, aorta bovina, filé de pato, camarão, tofu, batata em fatia, cogumelos, folhas verdes, macarrão de batata-doce, e o clássico da cidade, o miolo bovino, que cozinha até virar creme. Cada item tem um tempo próprio: carne fina é questão de segundos, tripa também, batata e cogumelo levam minutos.

O molho de imersão é montado por você em uma tigela na mesa. A versão tradicional de Chongqing é simples e implacável: óleo de sésamo, alho picado, cebolinha, coentro se você gostar, e um pouco de sal. O óleo de sésamo é o que salva a boca, porque ele recobre e reduz a queimação. Em Pequim usa-se pasta de gergelim, em Chongqing é óleo. Não peça leite. Peça leite de soja ou refrigerante, ou a cerveja local, que é o que todo mundo faz.

Um alerta que ninguém dá: o dia seguinte pode ser desconfortável para quem não tem hábito de comida muito apimentada. Não é história de terror, é apenas realista. Comece com moderação.

Klook.com

Outros usos dos abrigos que valem a visita

A parte comercial famosa é a ponta do iceberg. Andar por Chongqing atento às bocas de túnel revela uma variedade quase engraçada.

Salas de leitura e espaços frescos. O governo municipal mantém, em várias regiões, abrigos abertos ao público como pontos de refrigeração durante as ondas de calor do verão, alguns com cadeira, ventilador, água e wi-fi. É uma política pública de saúde, não atração turística, mas entrar em um deles em julho é uma aula sobre como a cidade se organiza.

Museus e memoriais. O tema da capital de guerra tem vários pontos de visita na cidade, incluindo o memorial do túnel do Jiaochangkou, museus dedicados ao período da resistência e antigas residências e postos de comando preservados em Shapingba e nos arredores. Um lugar que vale citar é o antigo quartel-general de guerra do governo nacionalista, no centro, com túnel e salas subterrâneas.

Comércio comum e depósitos. Muitos túneis viraram supermercado de bairro, oficina de moto, loja de peças, adega de conserva. Alguns funcionam como estacionamento.

Locais de fermentação e armazenagem. A temperatura e a umidade constantes fazem dos abrigos um lugar excelente para guardar conserva de mostarda, o famoso zhacai da região de Fuling, e para envelhecer bebida.

Bares e casas noturnas. Nos últimos anos apareceram bares de coquetel em galerias, com acústica peculiar e ambientação que dispensa cenografia.


Como encaixar isso no roteiro de Chongqing

A cidade subterrânea não é destino isolado. Ela se encaixa bem em uma visita de dois a quatro dias, e vale organizar por região porque a topografia castiga quem anda em zigue-zague.

A região central de Yuzhong, a península entre os dois rios, concentra Jiefangbei, o monumento da libertação, cercado por arranha-céus e shoppings, a área de Hongyadong, aquele conjunto de construções penduradas no barranco que fica iluminado à noite e virou símbolo da cidade nas redes, e várias bocas de túnel com comércio. É aqui que estão os hotpots subterrâneos mais conhecidos e as escadarias históricas.

Liziba é a estação onde o metrô atravessa um prédio residencial. É um espetáculo de engenharia urbana e leva dez minutos para ver, mas está no caminho.

O Kuixing Lou é um dos melhores exemplos de como Chongqing engana quem chega: um edifício em que se entra pelo que parece a rua e se descobre estar no primeiro andar de um lado e no vigésimo do outro. Perto dele, na região do porto, há um elevador e teleféricos.

O teleférico do Yangtzé, que cruza o rio suspenso sobre a água, é barato e entrega uma vista que nenhum mirante oferece.

Shibati, a região das dezoito escadarias, foi bastante reconstruída nos últimos anos, mas mantém o desenho de ladeira histórica e explica visualmente por que os carregadores existiram.

Uma sugestão de encaixe: reserve para a manhã de um dia terminado em 3, 6 ou 0 a visita ao mercado no túnel, saindo do hotel antes das oito. Passe da manhã para o começo da tarde em uma casa de chá subterrânea, que é onde você vai descansar as pernas. Faça o resto da tarde em Yuzhong, com Kuixing Lou, teleférico e Hongyadong ao anoitecer. E deixe o hotpot para a noite, porque depois dele você não vai querer subir mais nenhuma escada.


Quando ir e o que esperar do clima

Chongqing tem um clima que exige planejamento. O verão, de junho a agosto, é famoso pelo calor extremo e pela umidade, com temperaturas frequentemente acima dos 38 graus e picos passando de 40. Nesse período, o apelo dos túneis é máximo, e as próprias pessoas da cidade migram para eles. O inverno, de dezembro a fevereiro, é ameno em temperatura, dificilmente chegando a temperatura negativa, mas cinzento e úmido, com nevoeiro persistente. Chongqing é conhecida como cidade da névoa por bons motivos.

As melhores janelas são a primavera, de março a maio, e o outono, de setembro a novembro, com preferência para outubro, que costuma ter céu mais aberto e temperatura confortável. Vale evitar a semana de feriado nacional que começa em 1º de outubro, quando a cidade recebe uma quantidade absurda de visitantes domésticos, e a região de Hongyadong fica praticamente intransitável. Também vale evitar o período do Ano Novo Lunar para deslocamentos, embora a cidade em si fique bonita e cheia de decoração.


Coisas práticas que fazem diferença

Pagamento. A China opera quase inteiramente por celular, com Alipay e WeChat Pay. Ambos aceitam cartão internacional cadastrado, o que resolveu um problema antigo dos viajantes. Vendedor de mercado de rua tem QR code colado em pedaço de papelão. Ainda vale carregar algum dinheiro em espécie para o caso raro de recusa, mas é uso de exceção.

Idioma. Fora dos hotéis e das atrações organizadas, o inglês é raro. Em mercado de bairro e casa de chá, praticamente inexistente. Aplicativo de tradução com câmera resolve menu, e apontar resolve o resto. O dialeto local, aliás, não é mandarim padrão, e mesmo chineses de outras regiões às vezes têm dificuldade.

Transporte. O metrô é extenso, moderno e barato, e é a maneira mais eficiente de circular em uma cidade onde a distância em linha reta engana por causa do relevo. Táxi por aplicativo funciona bem. Mas prepare-se para caminhar bastante em subida.

Calçado. Isso parece detalhe bobo e não é. Chongqing é escada, ladeira e piso irregular. Sapato com sola boa muda a viagem. No túnel, o chão é frequentemente molhado.

Segurança. É uma cidade tranquila para andar, inclusive de noite, com movimento intenso até tarde. Os cuidados são os de qualquer metrópole grande.

Sinal e conectividade. Dentro dos túneis, o sinal de celular cai em alguns trechos. Se você depende de mapa e tradutor, baixe o mapa da área para uso off-line antes de entrar.

Respeito ao contexto. Vale lembrar, ainda que soe óbvio, que esses túneis foram construídos porque a cidade estava sendo bombardeada e pessoas morreram dentro de um deles. Comer hotpot ali não é falta de respeito, é reaproveitamento urbano legítimo, e os próprios moradores tratam a coisa com naturalidade. Mas se você entrar num memorial, o tom muda, e vale acompanhar o tom das pessoas em volta.


O que essa cidade subterrânea diz sobre Chongqing

Existe um jeito preguiçoso de contar essa história, que é chamar os túneis de curiosidade exótica e seguir em frente. Mas a coisa é mais interessante que isso.

Chongqing não transformou os abrigos em atração porque teve uma ideia de marketing. Transformou porque tinha um problema geográfico real, espaço nenhum e um recurso ocioso enorme. O uso veio antes do turismo. As pessoas estavam vendendo verdura e tomando chá naquelas galerias muito antes de alguém fotografar isso para postar. É por isso que o resultado funciona: não foi cenografia, foi necessidade que virou hábito e depois virou identidade.

E isso conversa com o resto da cidade. O metrô que atravessa um prédio existe porque não havia onde passar. O elevador público existe porque a diferença de nível entre duas ruas é de vinte andares. A cidade toda é uma sequência de soluções improvisadas para um terreno impossível, e essas soluções acabaram virando a paisagem mais fotografada da China contemporânea.

Se você tiver que escolher uma única dessas três experiências, minha inclinação pessoal é a casa de chá. O mercado é visualmente mais forte e o hotpot é mais saboroso, mas é sentado numa cadeira de madeira, com uma caneca de esmalte na mão, ouvindo um jogo de cartas que você não entende a cem metros de profundidade dentro de uma montanha, que a cidade finalmente para de ser espetáculo e passa a ser lugar onde gente mora.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário