Roteiro de Viagem de 14 Dias Pelo Vietnã
Roteiro de 14 dias no Vietnã passando por Hanói, Sapa, Baía de Halong, Ninh Binh, Da Nang, Hoi An, Saigon e Delta do Mekong, com dicas reais de transporte, clima, custos e o que vale mesmo a pena em cada parada.

Vietnã em 14 dias: o roteiro que atravessa o país de norte a sul
O Vietnã tem uma geografia que parece feita de propósito para roteiros longos. O país é comprido e estreito, com cerca de 1.650 quilômetros de norte a sul, e em alguns pontos a largura chega a menos de 50 quilômetros. Isso significa uma coisa prática: você não roda em círculos. Você desce (ou sobe) o mapa, e cada parada entrega uma paisagem diferente da anterior.
Um roteiro de 14 dias cobrindo Hanói, Sapa, Baía de Halong, Ninh Binh, Da Nang, Hoi An, Ho Chi Minh e o Delta do Mekong é, na minha leitura, o desenho mais equilibrado possível para uma primeira viagem. Não é pouco tempo. Também não é folgado. É aquele tipo de itinerário em que você precisa aceitar que algumas manhãs vão começar cedo.
Vou destrinchar dia por dia, mas com o que interessa de verdade: distâncias, tempos de deslocamento, o que costuma decepcionar, o que costuma surpreender, e onde vale gastar dinheiro.
Antes de tudo: entender a lógica do país
O Vietnã se divide, na prática, em três blocos climáticos e culturais.
O norte (Hanói, Sapa, Halong, Ninh Binh) tem quatro estações razoavelmente definidas. Inverno frio e cinzento entre dezembro e fevereiro, com temperaturas que em Sapa podem cair abaixo de 5 °C e, ocasionalmente, nevar. Verão quente e úmido de maio a agosto.
O centro (Da Nang, Hoi An, Hue) tem uma estação de chuvas concentrada entre setembro e dezembro, e essa é a época dos tufões. Hoi An alaga com certa frequência nesse período, o que virou até parte da identidade da cidade, com barcos passando pelas ruas do centro histórico.
O sul (Ho Chi Minh, Delta do Mekong) é tropical e quente o ano inteiro. Só muda entre seco (dezembro a abril) e chuvoso (maio a novembro). E a chuva do sul é aquela pancada forte de fim de tarde que passa em uma hora.
Aqui está o ponto que ninguém conta: não existe mês perfeito para fazer o Vietnã inteiro. Se o norte está impecável, o centro pode estar chovendo. Se o centro está no auge, o norte pode estar em névoa densa. Março, abril, outubro e novembro são os melhores compromissos. Abril e outubro, na minha opinião, ganham por pouco.
Visto e documentação
Brasileiros precisam de visto para entrar no Vietnã. O e-visa eletrônico é emitido pelo portal oficial de imigração do governo vietnamita, tem validade de até 90 dias e permite múltiplas entradas desde a ampliação da regra em agosto de 2023. O processo é online, envolve foto no formato passaporte, foto da página do passaporte e pagamento de taxa. O prazo oficial de processamento é de cerca de três dias úteis, mas atrasos acontecem, então peça com pelo menos duas ou três semanas de antecedência.
Cuidado com sites intermediários que cobram cinco vezes mais pelo mesmo serviço. Só use o portal oficial do governo.
O passaporte precisa de validade mínima de seis meses a partir da data de entrada.
Dinheiro e como pagar as coisas
A moeda é o dong vietnamita (VND). Os números assustam no começo, porque uma refeição simples pode custar 50.000 VND. Um truque mental que funciona: corte três zeros e divida por mais ou menos cinco para ter uma noção grosseira em reais. Não é exato, mas serve para não pagar dez vezes mais do que deveria por engano.
Cartão funciona bem em hotéis, restaurantes de médio porte e lojas de shopping. Mercados, barracas de rua, motoristas e a maior parte dos vendedores locais funcionam em dinheiro vivo. Saque em ATMs de bancos grandes e evite as máquinas isoladas em corredores de hotel, que aplicam taxas absurdas.
Dia 1: chegada em Hanói e o primeiro choque de realidade
O voo do Brasil para o Vietnã não é curto. Somando conexões, costuma passar de 30 horas de porta a porta, geralmente com escalas no Oriente Médio (Doha, Dubai, Abu Dhabi) ou na Ásia (Istambul, Bangkok, Singapura, Seul). O aeroporto internacional de Noi Bai fica a cerca de 35 quilômetros do centro de Hanói, e o traslado leva de 45 minutos a uma hora, dependendo do trânsito.
O primeiro dia é, sinceramente, dia de sobrevivência. Chegou, fez check-in, tomou um banho. E é isso.
O que dá para fazer com energia baixa: caminhar sem rumo pelo Old Quarter e simplesmente sentar em uma calçada com um copo de cerveja Bia Hoi, que é a cerveja artesanal fresca servida do dia, ou tomar um café vietnamita. A cena de rua de Hanói é o próprio atrativo. Motos por todos os lados, gente cozinhando na calçada, banquinhos plásticos baixos, fios elétricos formando emaranhados que desafiam qualquer noção de engenharia.
Uma dica sobre atravessar a rua em Hanói: você não espera uma brecha, porque ela não vem. Você anda em ritmo constante, sem hesitar, sem correr e sem parar de repente. As motos calculam sua trajetória e desviam. Parece loucura na primeira vez. Depois de dois dias você faz sem pensar.
Dia 2: Hanói de verdade
Hanói tem mais de mil anos de história e isso aparece nas camadas da cidade. Templos budistas ao lado de prédios coloniais franceses, ao lado de arquitetura socialista dos anos 1970, ao lado de arranha-céus recentes.
Pagode Tran Quoc
É o templo budista mais antigo de Hanói, fundado no século VI, e fica em uma pequena península do Lago Oeste (Ho Tay). A torre principal, de onze andares, é o cartão-postal. Vale ir no fim da tarde, quando a luz bate no lago e a torre vermelha ganha contraste. Entrada gratuita, mas respeite o código de vestimenta: ombros e joelhos cobertos.
Pagode de um Pilar (One Pillar Pagoda)
Pequeno, muito pequeno. Muita gente sai frustrada porque esperava algo monumental. O templo original é do século XI, construído no reinado do imperador Ly Thai Tong, e a estrutura atual é uma reconstrução de 1955, depois que os franceses destruíram o original em 1954. O valor aqui é histórico e simbólico, não arquitetônico. Fica no complexo do Mausoléu de Ho Chi Minh, então a visita é rápida e encaixa naturalmente.
Já que está ali: o Mausoléu de Ho Chi Minh só abre pela manhã, geralmente até 11h, e fecha em algumas semanas do ano para manutenção do corpo embalsamado. Silêncio absoluto, sem fotos, sem mãos no bolso, sem chapéu. Os guardas são rígidos.
Templo da Literatura (Van Mieu)
Esse é o que mais me agrada em Hanói. Fundado em 1070, funcionou como a primeira universidade nacional do Vietnã, formando funcionários públicos por quase 700 anos. São cinco pátios sucessivos, cada um com uma função. O destaque são as 82 estelas de pedra apoiadas em tartarugas esculpidas, com os nomes dos doutores aprovados nos exames imperiais entre 1442 e 1779. É Patrimônio Documental da UNESCO desde 2010.
O lugar é tranquilo, arborizado, e funciona como um respiro no meio do caos. Estudantes vietnamitas vão lá tirar foto de formatura de quimono tradicional. Vá cedo, antes das 9h, se quiser fotos sem multidão.
Old Quarter e o resto da tarde
O Old Quarter é um labirinto de 36 ruas antigas, cada uma historicamente dedicada a um ofício. Hang Bac era prata, Hang Ma era papel, Hang Gai era seda. Muitas mantêm a especialização até hoje, o que é fascinante de observar.
Coma na rua. Bun cha, que é porco grelhado com macarrão de arroz em caldo agridoce (o prato que Anthony Bourdain comeu com Barack Obama em 2016, no Bun Cha Huong Lien), banh cuon, banh mi. Uma refeição de rua em Hanói fica entre 30.000 e 70.000 VND.
Dia 3: Hanói até Sapa, subindo as montanhas
Sapa fica na província de Lao Cai, a cerca de 315 quilômetros de Hanói, perto da fronteira com a China. Existem duas formas de ir.
A limusine van, que é uma van de 9 lugares com assentos reclináveis, leva de 5h30 a 6h30 pela rodovia expressa Noi Bai–Lao Cai. É a opção mais usada hoje e a mais confortável para quem não quer perder a noite.
O trem noturno até Lao Cai leva cerca de 8 horas, e depois é preciso pegar um ônibus por mais 1h de estrada de montanha até Sapa. Tem um charme retrô inegável, mas o tempo total é maior.
Chegando, a paisagem muda por completo. Sapa está a mais ou menos 1.500 metros de altitude e a temperatura cai bastante. Névoa é regra, não exceção, especialmente de dezembro a março. Leve corta-vento e uma camada quente, mesmo em viagem de verão.
Cat Cat, Y Linh Ho e os terraços de arroz
O vilarejo de Cat Cat é o mais próximo do centro de Sapa, a cerca de 2 quilômetros, e por isso o mais turístico. Tem cachoeira, casas tradicionais e muitas lojas de artesanato. É bonito, mas comercial.
Y Linh Ho e o vale de Muong Hoa entregam a experiência que a maioria das pessoas quer: caminhada por trilhas entre terraços de arroz esculpidos nas encostas, sem a densidade de lojas.
Sobre os terraços de arroz, aqui vai a informação que muda o planejamento: eles não estão verdes o ano inteiro. O ciclo funciona mais ou menos assim. Em maio e junho os campos estão inundados e refletem o céu como espelhos. De julho a agosto ficam intensamente verdes. Em setembro e começo de outubro ficam dourados, prontos para a colheita, e esse é o período mais fotografado. De novembro a abril os campos estão em terra nua ou com restos de palha. Bonito de outra forma, mas sem o verde dos cartões-postais.
Cultura H’mong Negro
A região de Sapa é habitada por vários grupos étnicos minoritários, com destaque para os H’mong Negro, Dao Vermelho, Tay e Giay. As mulheres H’mong são reconhecíveis pelos tecidos escuros tingidos com índigo e pelos bordados geométricos.
Uma observação necessária: o turismo em Sapa criou uma dinâmica em que mulheres e crianças de vilarejos acompanham caminhantes durante horas e depois oferecem artesanato. Não é golpe, é economia de subsistência. Se você não quiser comprar, seja gentil e claro desde o início, porque deixar a pessoa andar duas horas ao seu lado para depois dizer não é pior. Se quiser comprar, compre direto de quem produz. Faz diferença real.
Dia 4: Fansipan, o teto da Indochina
O monte Fansipan tem 3.147 metros e é o ponto mais alto do Vietnã, do Laos e do Camboja. Até 2016, chegar ao topo exigia dois ou três dias de trekking. Hoje existe o teleférico Sun World Fansipan Legend, que detém recordes mundiais Guinness pelo maior desnível de teleférico de três cabos (1.410 metros) e pelo maior comprimento nessa categoria (mais de 6.200 metros). O trajeto leva cerca de 15 minutos.
Antes do teleférico, você pega o funicular Muong Hoa, um trem de montanha que sai do centro de Sapa e leva à estação do cabo, com vistas do vale ao longo do caminho.
Chegando na estação superior, ainda faltam cerca de 600 degraus até o cume. Existe um segundo funicular curto para quem não quiser subir a pé.
No topo há um complexo de pagodes budistas, uma estátua de Buda de 21,5 metros, sinos e mirantes. A parte irônica: em muitos dias você não vê absolutamente nada além de nuvem branca. A visibilidade é imprevisível. Se o dia estiver aberto, é uma das vistas mais impressionantes do sudeste asiático. Se estiver fechado, você paga para caminhar dentro de uma nuvem, o que também tem sua atmosfera, mas não é o que estava no folheto.
Vá o mais cedo possível, porque a névoa tende a se adensar ao longo do dia. E leve agasalho, porque no cume a temperatura fica facilmente 10 °C abaixo da de Sapa.
Dia 5: volta a Hanói e um dia sem pressa
O retorno leva as mesmas 5 a 6 horas. Na prática, você chega em Hanói no fim da manhã ou início da tarde, e o resto do dia é livre. Isso é bom. Roteiros de 14 dias precisam de respiros.
Lago Hoan Kiem e Templo Ngoc Son
O lago Hoan Kiem é o coração simbólico de Hanói. O nome significa “lago da espada restituída”, e a lenda conta que o imperador Le Loi recebeu uma espada mágica de uma tartaruga divina para expulsar os invasores Ming no século XV, devolvendo-a depois da vitória.
O Templo Ngoc Son fica em uma ilhota conectada pela ponte vermelha Huc, que significa “onde a luz do sol se deposita”. Dentro do templo há um espécime taxidermizado de uma tartaruga gigante de casco mole do lago, uma espécie criticamente ameaçada. O último exemplar vivo conhecido no lago morreu em 2016.
Nos fins de semana, as ruas ao redor do lago fecham para carros a partir da noite de sexta até domingo, e a área vira uma feira gigante de rua, com música, jogos infantis, dança e comida. Se sua data coincidir, não perca.
Mercado Dong Xuan
O maior mercado coberto de Hanói, com três andares de atacado. Roupas, tecidos, brinquedos, utensílios, comida. Não é um mercado bonito de turismo, é um mercado de verdade. Barganhe. Comece por 40% a 50% do preço pedido e negocie de bom humor.
Pho e bun cha
Pho é o prato símbolo do Vietnã, e o do norte é diferente do do sul. O pho de Hanói é mais limpo, com caldo translúcido, poucos acompanhamentos e foco no sabor do próprio caldo, que ferve por horas com ossos, gengibre queimado e cebola. O do sul vem com prato à parte de brotos de feijão, manjericão tailandês e molhos.
Não subestime uma tigela de pho às 7h da manhã em um boteco de calçada. É uma das melhores coisas do país.
Dia 6: Baía de Halong em barco tradicional
A Baía de Halong fica a cerca de 165 quilômetros de Hanói. Com a rodovia expressa Hanói–Haiphong–Halong, inaugurada em etapas até 2018, o trajeto caiu para algo entre 2h30 e 3h. Antes, levava 4 horas.
A baía é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1994 e reúne cerca de 1.600 ilhas e ilhotas de calcário cársico, a maioria desabitada, formadas ao longo de mais de 500 milhões de anos de erosão.
O que realmente esperar do cruzeiro
Um cruzeiro de um dia inclui, tipicamente, navegação entre as formações, visita a uma caverna, caiaque ou barco de bambu em alguma enseada, almoço de frutos do mar a bordo e tempo para nadar em determinadas épocas do ano.
Aqui vai a opinião: se você tem a chance, faça pernoite no barco em vez de day trip. A diferença é grande. Os barcos de um dia concentram-se nas mesmas rotas e nos mesmos pontos, e a baía nas horas centrais fica cheia. Um cruzeiro de duas noites permite navegar até áreas menos visitadas, como Lan Ha, e ver o amanhecer sobre a água, que é o momento mais bonito do lugar.
As cavernas mais visitadas são Sung Sot (Surprise Cave), com galerias amplas e iluminação cênica, e Thien Cung (Heavenly Palace). São bonitas, mas cheias. A caverna Luon, acessada de caiaque por um túnel natural até uma lagoa fechada por paredões, é mais especial na minha visão.
Um alerta prático: a baía fecha para navegação em dias de tufão ou mau tempo, por determinação das autoridades portuárias. Isso não é negociável e não é culpa da agência. Deixe folga no roteiro e entenda que reembolsos parciais são a norma nesses casos.
Sobre os “junk boats”: as embarcações com velas vermelhas em formato tradicional que aparecem nas fotos são hoje, em larga medida, réplicas turísticas. Os barcos com casco de madeira e conforto moderno são o padrão real. Nada de errado nisso, só não espere um veleiro do século XIX.
Dia 7: Ninh Binh, a Halong de terra firme
Ninh Binh fica a cerca de 100 quilômetros ao sul de Hanói, aproximadamente 2 horas de carro. É, para muita gente, a surpresa positiva do roteiro. Mesmas formações cársicas dramáticas de Halong, mas emergindo de arrozais e rios em vez do mar.
Hoa Lu
Foi a capital do Vietnã entre 968 e 1010, sob as dinastias Dinh e Le Anterior, antes da transferência para Thang Long, atual Hanói. Restam templos dedicados aos imperadores Dinh Tien Hoang e Le Dai Hanh, cercados por muralhas de pedra e picos calcários. A cidadela original em si praticamente desapareceu, mas o conjunto é um dos sítios históricos mais importantes do país.
Trang An, o passeio de barco
Trang An é o passeio que vale o dia. Barcos de remo levam duas a quatro pessoas por rios calmos, atravessando nove cavernas inundadas ao longo de rotas de duas a três horas. Em algumas passagens o teto da caverna fica tão baixo que você precisa se abaixar dentro do barco.
O detalhe que quase ninguém menciona: as remadoras, na maioria mulheres locais, remam frequentemente com os pés, técnica desenvolvida para poupar os braços em jornadas longas. Ver isso de perto é impressionante.
Trang An integra o Complexo Paisagístico de Trang An, Patrimônio Mundial Misto da UNESCO desde 2014, reconhecido tanto por valor natural quanto cultural. Foi também locação de “Kong: A Ilha da Caveira” (2017).
Sobre gorjeta: as remadoras recebem muito pouco da bilheteria e contam com gorjeta. Algo entre 100.000 e 200.000 VND por barco é bem recebido e justo.
Tam Coc é o passeio alternativo, mais curto, com três cavernas, e costuma ser mais lotado e mais insistente na venda de bordados no meio do rio. Se tiver que escolher, fico com Trang An.
Mua Cave e os 500 degraus
Mua Cave é menos sobre a caverna e mais sobre a escalada. São cerca de 500 degraus de pedra até dois pontos no alto do pico Ngoa Long, um com um pagode e outro com uma estátua branca de Quan Am, a deusa da compaixão. De cima, você vê o rio serpenteando entre os arrozais e as montanhas.
É a vista mais famosa de Ninh Binh e uma das mais bonitas do Vietnã. Suba cedo ou no fim da tarde, porque não tem sombra nos degraus e o calor do meio-dia é punitivo. Calçado com aderência decente é importante, porque os degraus são irregulares e ficam escorregadios com umidade.
Dias 8 e 9: Da Nang, a cidade que mudou de cara
De Hanói para Da Nang são cerca de 760 quilômetros. O voo leva 1h20 e é o meio óbvio. Existe também o trem, com paisagem costeira espetacular no trecho final, mas leva de 15 a 17 horas.
Da Nang é hoje a cidade mais organizada e moderna do Vietnã, com uma orla longa, pontes iluminadas e um ritmo bem mais calmo que Hanói ou Saigon. A praia de My Khe se estende por quilômetros.
Ponte Dourada (Golden Bridge)
Está no complexo Ba Na Hills, a cerca de 35 quilômetros do centro. Inaugurada em 2018, é uma passarela de 150 metros aparentemente sustentada por duas mãos gigantes de pedra, a 1.400 metros de altitude. Viralizou no mundo inteiro.
O que precisa ser dito: Ba Na Hills é um parque temático. Tem uma vila francesa cenográfica, jardins, montanha-russa alpina, área de jogos. O teleférico para chegar lá bateu recordes mundiais de comprimento de trecho único e desnível quando foi construído. É divertido, é fotogênico, mas não é uma experiência cultural vietnamita. Se você espera autenticidade, vai estranhar. Se aceitar pelo que é, aproveita bem.
Chegue na abertura, por volta das 7h30 ou 8h. Depois das 10h a Ponte Dourada fica com fila para foto e a névoa costuma subir.
Pagode Linh Ung e a Senhora Buda
Na península de Son Tra, o Pagode Linh Ung abriga a maior estátua de Quan Am do Vietnã, com 67 metros de altura, visível de grande parte da cidade. O terreno é amplo, com vista para a baía e para a praia de My Khe. Entrada gratuita. Um dos lugares mais serenos de Da Nang, e vale combinar com uma volta de moto ou carro pela península, que tem estradas de montanha com vistas boas.
Montanhas de Mármore (Marble Mountains)
Cinco colinas de mármore e calcário nomeadas segundo os cinco elementos. A maior, Thuy Son (água), é a visitável, com cavernas, pagodes, túneis e mirantes. Durante a Guerra do Vietnã, as cavernas serviram de hospital de campanha e esconderijo para forças vietcongues, com vista direta para a base aérea americana. Há elevador para quem não quiser subir os degraus.
Fantasy Park e o restante
Fantasy Park é a área de entretenimento indoor de Ba Na Hills, voltada para famílias com crianças. Se você viaja sem crianças, dá para pular sem culpa e usar o tempo em Hoi An ou na praia.
Da Nang tem, por outro lado, uma cena gastronômica excelente e mais barata que as cidades grandes. Mi quang, que é um macarrão amarelo grosso com pouco caldo, camarão, porco e amendoim, é o prato regional. Banh xeo também é obrigatório na região.
Dia 10: Hoi An, a cidade das lanternas
Hoi An fica a cerca de 30 quilômetros de Da Nang, uns 40 minutos de carro. Foi um dos portos comerciais mais importantes do sudeste asiático entre os séculos XV e XIX, ponto de encontro de mercadores japoneses, chineses, holandeses, portugueses e indianos. O centro antigo é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1999, justamente por preservar essa arquitetura híbrida.
Cidade antiga
Ruas estreitas, casas de madeira amarelas com telhados de telha, casas de comércio de famílias chinesas, templos e salões de assembleia. A Ponte Coberta Japonesa, do século XVI ou XVII, é o símbolo da cidade e aparece na nota de 20.000 VND. Ela passou por um restauro amplo concluído em 2024, que gerou polêmica porque as cores novas ficaram muito vivas em comparação com o desgaste anterior.
O acesso ao centro histórico funciona por ticket que dá direito a entrar em um número determinado de casas e templos patrimoniais. Ande sem roteiro. Hoi An é uma cidade para perder tempo.
Um aviso: o centro é fechado para veículos em determinados horários, e à noite fica bem cheio, com muita gente e muitas lojas. A magia acontece cedo, por volta das 6h30 e 7h, quando os moradores estão varrendo as calçadas e a luz é dourada, ou depois das 21h30, quando o fluxo diminui.
Hoi An também é a capital da alfaiataria sob medida. Ternos, vestidos e camisas prontos em 24 a 48 horas por preços muito abaixo do ocidental. A qualidade varia enormemente entre ateliês, então peça para ver acabamentos e desconfie de promessas de “pronto em 4 horas”.
Barco de lanterna no rio Thu Bon
À noite, o rio se enche de barquinhos com lanternas de seda coloridas. Você paga uma volta curta de remo e solta uma lanterna de papel com vela na água, um gesto que na tradição local pede sorte e realização de desejos. É clichê. Também é bonito de verdade.
Na noite de lua cheia de cada mês lunar, Hoi An desliga a iluminação elétrica no centro histórico e fica apenas com lanternas. Se sua data coincidir, prioridade absoluta.
Vila do Coco (Cam Thanh)
A cerca de 5 quilômetros do centro, a vila de Cam Thanh tem um manguezal de palmeiras nipa onde se navega em thung chai, os barcos redondos de bambu. Durante a Guerra do Vietnã, essa área de vegetação densa serviu de esconderijo para forças vietcongues, o que rendeu à região o apelido de floresta de coco de Bay Mau.
O passeio hoje tem uma parte cultural (pesca com rede circular, caranguejos) e uma parte de puro entretenimento, com barqueiros girando o barco redondo em velocidade absurda ao som de música alta. Alguns adoram. Outros acham exagerado e barulhento. Depende muito do operador escolhido, e vale pedir uma versão mais tranquila se preferir.
Dia 11: Ho Chi Minh, do calmo para o elétrico
De Da Nang para Ho Chi Minh são cerca de 610 quilômetros. Voo de 1h20. Saindo de Hoi An, o traslado até o aeroporto de Da Nang leva 40 minutos, então dá para voar no fim da manhã e ter a tarde inteira em Saigon.
A cidade ainda é chamada de Saigon por praticamente todos os moradores, mesmo tendo sido renomeada oficialmente em 1976. É a maior cidade do país, com cerca de 9 a 10 milhões de habitantes na área metropolitana, e o motor econômico do Vietnã.
O contraste com Hanói é imediato. Saigon é mais quente, mais vertical, mais comercial, mais rápida. Hanói é história e tradição. Saigon é negócio e futuro.
Rua Nguyen Hue
É um calçadão largo que vai da prefeitura até o rio Saigon, entregue em 2015. À noite vira ponto de encontro da cidade, com famílias, skatistas, artistas de rua e fotógrafos de casamento. O prédio da prefeitura, de estilo colonial francês, fica iluminado ao fundo.
No número 42 fica o Cafe Apartment, um edifício residencial dos anos 1960 onde quase cada apartamento virou um café ou uma lojinha independente, distribuídos em nove andares. Suba pelo elevador (com taxa pequena) ou pela escada e escolha um com sacada de frente para a rua. É um dos melhores lugares para ver Saigon de cima com café na mão.
Mercado Ben Thanh
O mercado mais conhecido da cidade, com estrutura atual de 1914. Café, castanha de caju, especiarias, tecidos, souvenirs, barracas de comida. Precisa de contexto: é um mercado bastante voltado ao turista, com preços iniciais inflados e vendedores insistentes. Barganhe sem culpa, começando bem baixo. A área de comida no interior é boa, e do lado de fora, à noite, monta-se um mercado noturno de rua com restaurantes de frutos do mar.
Se quiser um mercado mais local, procure o Binh Tay, em Chinatown (Cho Lon).
Tarde livre
Uso possível para o resto do dia: Museu dos Remanescentes da Guerra, que documenta a Guerra do Vietnã da perspectiva vietnamita. É duro. Tem fotografias de vítimas de napalm e do agente laranja, e um andar dedicado às consequências dos desfolhantes químicos. Não é um passeio leve, e algumas pessoas saem abaladas. Ainda assim, na minha visão, é a visita mais importante da cidade para entender o Vietnã contemporâneo.
Dia 12: Túneis de Cu Chi e o centro histórico
Cu Chi fica a cerca de 60 a 70 quilômetros do centro de Saigon, entre 1h30 e 2h de carro, dependendo do trânsito de saída da cidade.
A rede de túneis
O sistema de túneis de Cu Chi tinha, na estimativa mais aceita, algo em torno de 250 quilômetros de extensão, escavados manualmente ao longo de décadas, começando na resistência contra os franceses nos anos 1940 e expandidos massivamente durante a Guerra do Vietnã.
Os túneis funcionavam em múltiplos níveis, com salas de reunião, cozinhas com dutos de fumaça desviados para longe, hospitais, dormitórios, alçapões camuflados e armadilhas. As entradas tinham cerca de 40 por 60 centímetros. Havia poços de ventilação disfarçados de cupinzeiros e saídas submersas em rios.
Alguns trechos foram alargados para permitir a passagem de visitantes ocidentais. Mesmo alargados, são apertados, escuros e quentes. Se você tem claustrofobia, avise o guia antes, porque existem saídas intermediárias a cada 20 ou 30 metros.
Há dois sítios abertos: Ben Dinh, mais próximo e mais visitado, e Ben Duoc, mais distante e menos turístico, considerado mais autêntico por muita gente.
O local tem um campo de tiro onde é possível disparar armas da época pagando por munição. É opcional, e o ruído dos tiros é constante ao fundo. Achei um contraponto estranho ao peso histórico do lugar, mas cada um decide.
Old Saigon Post Office
O Correio Central de Saigon foi construído entre 1886 e 1891, em estilo colonial francês, e continua funcionando como agência postal até hoje. O interior tem teto abobadado com estrutura de ferro, mapas históricos pintados nas paredes e cabines de madeira originais. É atribuído com frequência a Gustave Eiffel, mas a autoria é contestada por historiadores, com o crédito mais provável indo para o arquiteto Alfred Foulhoux. Mande um cartão-postal daqui. Chega em duas ou três semanas ao Brasil.
Catedral de Notre Dame de Saigon
Do outro lado da praça, construída entre 1877 e 1883 com tijolos importados de Marselha, que nunca foram pintados e mantêm a cor original. As duas torres de 58 metros foram adicionadas em 1895. A catedral está em obras de restauração amplas desde 2017, com prazos que já foram prorrogados várias vezes, então é possível que você a encontre parcialmente coberta por andaimes. Ainda vale a foto externa.
Palácio da Reunificação
Antigo Palácio da Independência, sede do governo do Vietnã do Sul. Foi aqui que, em 30 de abril de 1975, um tanque norte-vietnamita atravessou os portões, marcando o fim da guerra. O interior está preservado como estava, com salas de conferência, salão de banquetes, aposentos presidenciais, sala de cinema e, no subsolo, o bunker de comando com mapas, rádios e telefones da época. Para mim é a visita mais interessante do centro de Saigon, porque é uma cápsula de tempo intacta.
Pagode do Imperador de Jade
Construído em 1909 pela comunidade chinesa cantonesa, é um templo taoísta escuro, denso de fumaça de incenso, com esculturas de madeira de divindades, guardiões e figuras de inferno e céu. Tem um tanque de tartarugas no pátio. Barack Obama visitou o local em 2016. É pequeno e vale meia hora, mas a atmosfera é muito diferente de qualquer outro templo do roteiro.
Dia 13: Delta do Mekong, a vida na água
O Delta do Mekong cobre cerca de 40.000 quilômetros quadrados no sul do Vietnã e é onde o rio Mekong, depois de atravessar seis países, se ramifica em nove braços antes de chegar ao mar. Os vietnamitas chamam a região de Rio dos Nove Dragões.
A região produz a maior parte do arroz do Vietnã e uma parcela enorme das frutas e do peixe do país. É plana, verde e recortada por milhares de canais.
Os destinos de day trip mais comuns partindo de Saigon são My Tho e Ben Tre, a cerca de 70 a 85 quilômetros, entre 1h30 e 2h de carro. Ben Tre é menos massificado que My Tho.
O que compõe o dia
Canais de coco: barcos pequenos de remo entram em canais estreitos sombreados por palmeiras d’água. É a parte mais bonita do dia e a mais fotografada, com os chapéus cônicos e a vegetação fechando sobre a cabeça.
Olarias de tijolo: fornos tradicionais em forma de colmeia, onde os tijolos são feitos com o barro do rio e queimados com casca de arroz. Ainda é uma indústria ativa na região, e ver o processo de perto é mais interessante do que parece na descrição.
Casas flutuantes e criação de peixe: fazendas de pangasius e outros peixes montadas embaixo de casas construídas sobre flutuadores, onde a família mora em cima e cria os peixes embaixo.
Oficina de papel de arroz: massa de arroz espalhada em finas camadas sobre tecido esticado no vapor, depois seca ao sol em esteiras de bambu. É o papel usado nos rolinhos frescos. Ver como se faz muda a forma de comer aquilo depois.
Bala de coco (coconut candy): leite de coco cozido lentamente com açúcar e malte até virar caramelo, cortado à mão em pedacinhos e embalado em papel de arroz comestível. Ben Tre é a região do coco no Vietnã, e o processo é feito na frente do visitante. Compre um pacote, é barato e dura a viagem.
Uma observação: os passeios de um dia ao Mekong seguem um roteiro padronizado, com paradas em pontos que atendem muitos ônibus. É agradável, mas superficial. Se o Delta te interessa de verdade, um pernoite em Can Tho para ver o mercado flutuante de Cai Rang ao amanhecer (por volta das 5h30, quando os barcos ainda estão em atividade real de atacado e não de show turístico) é outro nível de experiência. Vale considerar se você puder redistribuir um dia do roteiro.
Dia 14: última manhã e volta para casa
O aeroporto internacional de Tan Son Nhat fica a apenas 7 ou 8 quilômetros do centro de Saigon, o que é uma sorte enorme, mas o trânsito pode transformar isso em 40 minutos. Saia com folga.
Se o voo for à tarde ou à noite, dá para usar a manhã em algo leve. Um café vietnamita com leite condensado, uma última passada no Ben Thanh para comprar castanha e café em grão, ou uma tigela de banh mi que custa 25.000 VND e é melhor que muito sanduíche de 40 reais.
O que eu mudaria neste roteiro
Vou ser direto sobre os pontos frágeis.
Sapa consome três dias de um roteiro de 14. Somando ida, volta e o dia do Fansipan, você gasta um quinto da viagem em uma única região que, se estiver com névoa fechada, entrega pouco. Sapa é maravilhosa na época certa (setembro para os campos dourados, maio e junho para os espelhos de água). Fora dessas janelas, considere trocar por dois dias extras entre Hoi An e Hue, ou por Phong Nha, que tem o maior sistema de cavernas do mundo e é ainda pouco visitado por brasileiros.
Halong em um dia é pouco. Se o orçamento permitir, converta em uma noite a bordo.
Hue está de fora. A antiga capital imperial, entre Hanói e Da Nang, tem a Cidadela, os túmulos dos imperadores Nguyen e uma culinária própria muito distinta. Fica a 2h30 de Da Nang por estrada, passando pelo desfiladeiro de Hai Van, uma das estradas costeiras mais bonitas do país. Se puder esticar para 16 ou 17 dias, encaixe Hue.
O ritmo é apertado no meio. Dias 6, 7, 8 e 11 são todos de deslocamento significativo. Isso cansa mais do que parece no papel.
Dicas soltas que economizam dor de cabeça
Baixe Grab antes de embarcar. É o Uber local e funciona para carro, moto e comida. Usar Grab elimina a negociação de preço com taxistas e o risco de taxímetro adulterado, problema real em Saigon e Hanói. Se preferir táxi, use Vinasun ou Mai Linh, que são as empresas confiáveis.
Compre um chip local (eSIM ou físico). Viettel tem a melhor cobertura, inclusive nas montanhas. Um pacote de dados generoso para duas semanas custa muito pouco.
Água só engarrafada ou filtrada. Cuidado com gelo em barracas muito improvisadas, embora na maioria dos lugares urbanos o gelo seja industrial e seguro.
Leve repelente com concentração decente, especialmente para Mekong, Ninh Binh e Hoi An.
Tire os sapatos ao entrar em templos e casas particulares. É regra sem exceção.
Sobre gorjeta: não é obrigatória culturalmente, mas se tornou esperada em contextos turísticos. Guias, motoristas e remadoras dependem disso.
Leve um calçado que possa molhar e um par confortável de caminhada. Você vai andar muito e vai pegar chuva em algum ponto, independentemente da estação.
E o mais importante: reserve espaço mental para as coisas não planejadas. Uma conversa com um dono de café em Hanói, um restaurante encontrado por acaso em uma viela de Hoi An, uma tempestade que te obriga a passar duas horas sentado sob um toldo em Saigon. É disso que as pessoas lembram dez anos depois, não da fila da Ponte Dourada.
