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Roteiro de Viagem de 17 Dias por Vietnã e Camboja

Roteiro detalhado de 17 dias por Vietnã e Camboja: Hanói, Ninh Binh, Ha Long Bay, Hoi An, Da Nang, Ba Na Hills, Ho Chi Minh, Cu Chi, Ben Tre, Mekong e o complexo de Angkor, com vôos internos, clima, vistos, custos e o que esperar de cada dia.

Roteiro detalhado de 17 dias por Vietnã e Camboja: Hanói, Ninh Binh, Ha Long Bay, Hoi An, Da Nang, Ba Na Hills, Ho Chi Minh, Cu Chi, Ben Tre, Mekong e o complexo de Angkor

Vietnã e Camboja em 17 dias: como esse roteiro funciona de verdade

Dezessete dias parece muito tempo. Não é. O Vietnã tem mais de 1.600 quilômetros de norte a sul, o Camboja fica do outro lado de uma fronteira, e a tentação de encaixar tudo faz muita gente montar roteiro que só funciona no papel.

O desenho que aparece nesse itinerário resolve o problema de uma forma inteligente: divide o Vietnã em três blocos geográficos (norte, centro, sul), usa vôo doméstico para vencer as distâncias grandes, e reserva o final para o Camboja com Siem Reap como base única. É o formato mais usado por operadores sérios da região, e o motivo é simples: é o que cabe sem transformar a viagem em corrida de aeroporto.

Vou passar por cada trecho, explicando o que é cada lugar, quanto tempo as coisas realmente levam, onde o roteiro é generoso e onde ele é apertado, e o que você precisa saber de burocracia, clima e dinheiro antes de comprar passagem.


A lógica geral do roteiro

Os quatro blocos

Vietnã do Norte (dias 1 a 4): Hanói como base, com Ninh Binh e Ha Long Bay como extensões. É a parte cultural e histórica, com a paisagem de calcário do delta do Rio Vermelho.

Vietnã Central (dias 5 a 9): Da Nang como porta de entrada aérea e Hoi An como base. É a parte mais relaxada, com cidade histórica, praia, comida e o parque de Ba Na Hills.

Vietnã do Sul (dias 10 a 13): Ho Chi Minh como base, com Cu Chi e o delta do Mekong. É a parte mais urbana e a mais ligada à história recente do país.

Camboja (dias 14 a 17): Siem Reap e o complexo de Angkor. É o clímax arqueológico da viagem.

Por que essa ordem faz sentido

Norte para sul é a direção lógica por causa da temperatura. O norte é mais frio e o sul é quente e constante, então você vai ganhando calor conforme desce. Também é mais fácil de encaixar em vôos internacionais, porque tanto Hanói quanto Ho Chi Minh têm boas conexões, e Siem Reap fecha bem com saída por Bangkok, Ho Chi Minh ou Singapura.

O ponto forte desse desenho são os três dias livres (dia 9 em Hoi An, dia 13 em Ho Chi Minh, dia 16 em Siem Reap). Roteiro de 17 dias sem dia livre é armadilho. Você chega em casa precisando de férias das férias.


Antes de embarcar: burocracia, dinheiro e clima

Visto para o Vietnã

Brasileiros precisam de visto para entrar no Vietnã. A forma mais usada hoje é o e-visa, solicitado online pelo portal oficial de imigração vietnamita, com validade de até 90 dias e opção de entrada única ou múltipla.

Pontos práticos que geram confusão:

O processo é feito no site oficial do governo. Existem dezenas de sites intermediários que cobram muito mais caro pelo mesmo serviço, e alguns são simplesmente golpe. Vá pelo canal oficial.

Você precisa enviar foto do passaporte e uma foto de rosto tipo retrato, em fundo claro, sem óculos.

O prazo de processamento costuma ficar em alguns dias úteis, mas pode variar. Solicite com pelo menos duas ou três semanas de antecedência.

Você declara a data de entrada e o ponto de entrada. O e-visa vietnamita moderno permite entrar por vários postos de fronteira e aeroportos internacionais, mas confira se o ponto que você vai usar está na lista.

Imprima o e-visa aprovado. Companhia aérea pede na hora do check-in.

Passaporte com validade mínima de seis meses a partir da entrada, e páginas em branco disponíveis.

Visto para o Camboja

O Camboja aceita visto na chegada para brasileiros nos aeroportos internacionais, incluindo Siem Reap, e também oferece e-visa online pelo site oficial do governo cambojano.

O visto de turista tem custo em dólares, pago em espécie no caso do visto na chegada, e permite 30 dias. Leve uma foto tamanho passaporte, porque simplifica o processo no guichê, e dólares em notas boas, sem rasgo e sem marcação.

Vale o mesmo alerta: existem sites falsos que imitam o portal de e-visa cambojano. Confirme o endereço oficial.

Dinheiro: dong, dólar e riel

No Vietnã, a moeda é o dong (VND). Os números são grandes e isso confunde todo mundo nos primeiros dias. Uma referência mental que ajuda: divida por mil e você tem uma ideia aproximada em unidades pequenas. Um café de rua sai por alguns dezenas de milhares de dong, uma refeição simples por algo entre cem e duzentas mil, e nada disso é caro.

Cuidado clássico: as notas de 20.000 e de 500.000 dong têm cores parecidas em algumas séries, e é comum errar na pressa. Confira sempre.

Cartão funciona bem em hotéis, restaurantes de médio porte, redes e lojas em cidades grandes. Não funciona em barraca de rua, em mercado, em barco de pescador. Mantenha espécie sempre.

No Camboja, a situação é peculiar: a moeda oficial é o riel (KHR), mas o dólar americano circula livremente e é aceito na maioria dos lugares em Siem Reap. Na prática, você paga em dólar e recebe troco em riel para valores abaixo de um dólar. Leve notas pequenas de dólar, em bom estado, porque nota rasgada ou muito velha costuma ser recusada.

Taxas de entrada em Angkor são pagas em dólar ou cartão no centro oficial de bilhetes.

Clima: a variável que muda a viagem

O Vietnã não tem um clima só. Isso é o erro de planejamento mais comum.

No norte (Hanói, Ninh Binh, Ha Long): de outubro a abril é a temporada seca. Novembro e dezembro dão dias claros e frescos. Janeiro e fevereiro podem ser bem frios e cinzentos, com neblina que arruína a vista em Ha Long Bay. De maio a setembro faz calor forte, umidade alta e chove, com risco de tufão entre julho e setembro, que pode cancelar cruzeiro.

No centro (Da Nang, Hoi An): a temporada de chuva é diferente e cai mais tarde, concentrada entre setembro e dezembro, com pico em outubro e novembro. Hoi An tem histórico de alagamento nesse período, com o centro histórico literalmente com água na rua em anos mais intensos. De fevereiro a agosto é seco e quente, ótimo para praia.

No sul (Ho Chi Minh, Mekong) e no Camboja: duas estações. Seca de novembro a abril, chuvosa de maio a outubro. A chuva da estação úmida geralmente vem em pancada forte no fim da tarde e passa, não é chuva de dia inteiro. Março, abril e maio são os meses mais quentes, com calor pesado.

A janela que funciona melhor para o roteiro inteiro: de fevereiro a abril e o mês de novembro. Fevereiro e março são provavelmente os melhores meses, com norte já saindo do frio, centro seco e sul na estação seca.

Se você viaja em outubro, aceite que Hoi An pode chover bastante e planeje o dia livre com isso em mente.

Vacinas e saúde

Não há exigência obrigatória para entrada, mas é recomendado estar em dia com hepatite A e tifóide, e conversar com um serviço de medicina do viajante sobre profilaxia. A malária não é uma preocupação nas cidades e nos pontos deste roteiro, mas dengue é presente, então repelente de verdade, com DEET ou icaridina, é item essencial.

Água: beba engarrafada ou filtrada. Gelo em restaurantes estabelecidos e em cafés é normalmente feito de água tratada e é usado por todo mundo. Comida de rua é uma das melhores coisas da viagem; escolha bancas movimentadas, com rotatividade alta e comida sendo feita na sua frente.

Seguro de viagem com cobertura médica alta não é luxo. É o item mais barato de tudo em relação ao risco que cobre.


DIAS 1 A 4: O NORTE DO VIETNÃ

Dia 1: chegada em Hanói

O vôo do Brasil para Hanói leva de 26 a 34 horas com uma ou duas conexões, geralmente por Doha, Dubai, Istambul, Paris ou Amsterdã. A chegada costuma ser à noite ou de madrugada, e o corpo está destruído: são 10 ou 11 horas de fuso à frente do Brasil, dependendo do horário de verão.

O aeroporto é o Noi Bai, a cerca de 30 a 40 quilômetros do centro, com trajeto que leva de 40 minutos a uma hora.

O primeiro dia sem programação, com transfer e check-in, é a escolha certa. Não tente aproveitar. Tome banho, coma alguma coisa leve, caminhe meia hora no entorno do hotel e durma o mais cedo que conseguir. Isso encurta o jet lag.

Uma dica sobre hospedagem: ficar no Old Quarter ou perto do lago Hoan Kiem coloca você a pé de quase tudo. O Old Quarter é barulhento até tarde, então se você tem sono leve, procure hotel em rua secundária ou pergunte por quarto que não dê para a rua principal.

Dia 2: Hanói a fundo

O city tour desse roteiro cobre exatamente os pontos que definem a cidade.

Mausoléu de Ho Chi Minh: o corpo embalsamado do líder que declarou a independência do Vietnã em 1945 está exposto em um mausoléu de granito na praça Ba Dinh. Vale saber de antemão que o local tem horário restrito, geralmente só de manhã, fecha em determinados dias da semana, e costuma fechar por semanas para manutenção do corpo, tradicionalmente em setembro e outubro. As regras são rígidas: silêncio, roupa cobrindo ombros e joelhos, nada de câmera dentro, nada de mão no bolso, fila em ordem. Se o mausoléu estiver fechado, ainda vale ver a praça, o palácio presidencial amarelo e a casa sobre estacas onde Ho Chi Minh viveu.

Pagode de um Pilar (Chua Mot Cot): pequeno, com estrutura de madeira sobre uma coluna única no meio de um tanque de lótus. A origem é do século XI, ligada a uma lenda sobre o imperador Ly Thai Tong e um sonho com a deusa Quan Am. A construção atual é uma reconstrução, já que o original foi destruído em 1954, no fim da guerra da Indochina. É rápido de ver e virou símbolo de Hanói.

Templo da Literatura (Van Mieu): para mim é o ponto mais bonito de Hanói. Fundado em 1070 e sede da primeira universidade nacional do Vietnã a partir de 1076, funcionou por séculos como centro de formação dos mandarins. Está organizado em cinco pátios sucessivos, com portões, um lago, e o conjunto de estelas de pedra sobre tartarugas, que registram os nomes dos aprovados nos exames imperiais entre os séculos XV e XVIII. Esse acervo de estelas foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio documental. Vá com calma, é um lugar para caminhar devagar.

Old Quarter: o bairro comercial antigo, com ruas nomeadas segundo a corporação de ofício que ali se instalou. Hang Bac era prata, Hang Ma era papel, Hang Gai era seda. Muitas ainda mantêm alguma relação com o produto original. É um caos organizado, com motos, comida, calçadas ocupadas e cheiro de carvão.

Lago Hoan Kiem: o centro emocional da cidade. Tem o pequeno templo Ngoc Son, acessível pela ponte vermelha The Huc, e a torre da tartaruga no meio da água. De manhã bem cedo, o entorno se enche de gente fazendo tai chi, corrida e ginástica. Nos fins de semana, as ruas ao redor fecham para carros e viram área de pedestres com jogos de rua e música. Se a sua estada cair no sábado ou domingo à noite, vá.

O que o roteiro não lista mas vale encaixar: a prisão de Hoa Lo, apelidada “Hanoi Hilton” pelos prisioneiros americanos, é uma visita curta e forte. Um espetáculo de marionetes na água (múa rối nước), tradição do delta do Rio Vermelho, é uma hora bem gasta. E o café de ovo (cà phê trứng), invenção de Hanói dos anos 1940, com gema batida com leite condensado sobre café forte, é obrigatório.

Dia 3: Ninh Binh

Ninh Binh fica a cerca de 95 a 100 quilômetros ao sul de Hanói, com trajeto de rodovia que leva de 1h30 a 2h. É uma paisagem de picos de calcário emergindo de arrozais e rios, muitas vezes chamada de “Ha Long Bay em terra”.

Hoa Lu, a antiga capital: foi a capital do Vietnã no século X, sob as dinastias Dinh e Le anterior, antes de a corte se mudar para o local onde hoje é Hanói, em 1010. O que resta hoje são principalmente os templos dedicados aos imperadores Dinh Tien Hoang e Le Dai Hanh, em um vale cercado de montanhas que serviam como muralha natural. Não espere uma cidadela imponente, e sim um sítio histórico com templos de madeira e pátios sombreados. O valor está no contexto: ali começou o Vietnã independente organizado como estado.

Tam Coc, o passeio de barco: este é o ponto alto do dia. Você embarca em um barco de remo pequeno, guiado por uma pessoa local, e navega pelo rio Ngo Dong entre paredões de calcário, passando por três túneis-caverna naturais (Tam Coc significa literalmente “três cavernas”), com o teto baixo e a rocha molhada logo acima da sua cabeça. O trajeto dura em torno de 1h30 a 2h, ida e volta.

Um detalhe encantador: muitas remadoras da região remam com os pés, uma técnica local que alivia os braços em jornadas longas. É estranho de ver na primeira vez e absurdamente eficiente.

Duas observações práticas. Primeira: leve chapéu ou compre um cônico ali, porque o sol no barco é direto e não há sombra. Segunda: é costume dar gorjeta ao remador ao final, e é justo, porque a remuneração base do serviço é baixa e o trabalho é pesado. Também é comum haver oferta de bebida e souvenir no meio do rio, o que incomoda algumas pessoas; um “não, obrigado” gentil resolve.

Templo Thai Vi: um templo pequeno no vale de Tam Coc, dedicado a imperadores da dinastia Tran. É tranquilo, quase sempre vazio, e dá um contraponto bom ao movimento do rio.

Pagode Bich Dong: um conjunto construído em três níveis na encosta de uma montanha de calcário, com partes escavadas na própria rocha e um caminho que sobe por escadas de pedra e passagens em caverna. O nome significa algo como “gruta de jade”. O último nível dá vista para os arrozais em volta. A subida é curta mas exige atenção, porque os degraus são irregulares e ficam escorregadios quando molhados.

Alternativas que valem saber: a região também tem Trang An, outro sistema de barco reconhecido pela UNESCO como patrimônio misto, natural e cultural, com mais cavernas e trajeto mais longo; o pagode Bai Dinh, um complexo budista moderno de escala enorme; e Hang Mua, com uma escadaria de centenas de degraus até um mirante que dá a foto clássica de Ninh Binh. Se você tiver energia e o dia render, Hang Mua no fim da tarde é espetacular.

Dia 4: Ha Long Bay com pernoite a bordo

Ha Long Bay fica a cerca de 160 quilômetros a leste de Hanói. Com a rodovia expressa concluída, o trajeto hoje leva algo em torno de 2h a 2h30, bem menos do que os antigos quatro horas.

A baía tem por volta de 1.600 a 2.000 ilhas e ilhotas de calcário, formadas por erosão cárstica ao longo de milhões de anos, e é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1994, com extensão do reconhecimento em 2000 por critérios geológicos.

Bai Tu Long: o roteiro menciona especificamente essa área, e é uma escolha acertada. Bai Tu Long é a porção nordeste do mesmo sistema de baías, com paisagem equivalente à de Ha Long, mas com muito menos barcos circulando. O número de licenças de operação ali é menor, e a diferença de tranquilidade é perceptível. Quem já foi nas duas quase sempre prefere Bai Tu Long.

Como funciona um cruzeiro de uma noite: você embarca no fim da manhã, almoça a bordo enquanto o barco navega, faz uma ou duas atividades à tarde (caverna, caiaque, praia, banho no mar), assiste ao pôr do sol no deque superior, participa de uma aula de culinária ou de um workshop, janta, e a noite tem pesca de lula com lanterna no costado do barco. No dia seguinte, tai chi ao amanhecer para quem acordar, café, uma última visita, brunch e desembarque no meio da manhã.

Vila de pescadores flutuante: comunidades vivem em casas sobre flutuadores, com criação de peixe e molusco em tanques. Vale saber que houve políticas de reassentamento nos últimos anos, o que reduziu bastante a população dessas vilas, e várias hoje funcionam mais como ponto de visita e de aquicultura do que como comunidade residencial ativa. Ainda assim, é interessante ver a lógica do lugar, e o remo entre as casas em barco pequeno é agradável.

Aula de culinária a bordo: normalmente é a preparação de rolinho primavera fresco (gỏi cuốn) ou frito, com o chef mostrando a dobra do papel de arroz. É simples, é divertido, e o rolinho que você fizer vem para a mesa no jantar.

Escolher barco é a decisão mais importante do trecho. A faixa de preço em Ha Long é enorme, e a diferença entre um barco econômico e um de categoria superior não é apenas conforto: é limpeza, é segurança, é qualidade da comida e é o nível de aglomeração nas paradas. Alguns pontos a verificar: quantas cabines o barco tem (menos cabines significa grupo menor), se as janelas abrem, se há colete e saída de emergência claramente sinalizados, e quais atividades estão incluídas de fato e quais são pagas à parte.

Riscos reais: entre julho e setembro, tufões podem levar a autoridade portuária a suspender a navegação. Isso não é raro. Em janeiro e fevereiro, névoa densa pode reduzir a visibilidade e tirar boa parte da beleza. Nos dois casos, tenha plano B e, de preferência, reserva com política de cancelamento razoável.


DIAS 5 A 9: O CENTRO DO VIETNÃ

Dia 5: desembarque, vôo para Da Nang e chegada em Hoi An

O dia começa a bordo, com o cruzeiro da manhã, brunch e desembarque. Depois vem o retorno a Hanói e o vôo doméstico para Da Nang, que leva cerca de 1h20.

Um alerta de logística: esse é o dia mais apertado do roteiro. Desembarque de cruzeiro, transfer de duas horas e meia até o aeroporto e vôo na mesma tarde deixa pouca margem. Se o cruzeiro atrasar ou o trânsito de entrada em Hanói travar, o vôo aperta. Vale escolher um vôo do fim da tarde ou início da noite, não do meio da tarde, e vale confirmar com o operador quem assume o risco em caso de perda de conexão.

De Da Nang até Hoi An são cerca de 30 quilômetros, com trajeto de 40 a 50 minutos. Boa parte do caminho é pela costa, o que já apresenta o litoral central do país.

Uma nota sobre trem: existe também a opção de fazer Hanói para Da Nang de trem noturno, em cabine-leito, num trajeto de cerca de 16 a 17 horas. Não é o que este roteiro propõe, e realmente o avião é mais eficiente aqui, mas quem gosta de trem acha o trecho central, entre Hue e Da Nang, um dos mais bonitos da Ásia.

Dia 6: Hoi An, spa, cidade antiga e barco ao anoitecer

Hoi An foi um dos portos comerciais mais importantes do sudeste asiático entre os séculos XV e XIX. Chineses, japoneses, holandeses, portugueses e indianos negociaram ali, e a cidade guardou essa mistura na arquitetura. O centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1999.

Colocar spa no roteiro logo depois de dois dias intensos e um vôo é uma decisão inteligente. Massagem no Vietnã é acessível e bem-feita, e Hoi An tem casas de spa boas em quantidade.

A cidade antiga a pé: ruas estreitas de casas de dois andares em amarelo desbotado, com telhado de telha, lanternas de seda penduradas, portas de madeira escura e buganvílias caindo das paredes. O sistema de visitação funciona com um bilhete único vendido na entrada da área histórica, que dá direito a entrar em um número determinado de atrações a escolher entre casas antigas, salões de assembleia das comunidades chinesas, templos, museus e o teatro de música tradicional.

Os pontos mais visitados: a Ponte Coberta Japonesa, do século XVI ou XVII, que virou símbolo da cidade e aparece na nota de vinte mil dong; a Casa Antiga de Tan Ky, residência de família de comerciantes com sete gerações e uma mistura clara de estilos vietnamita, chinês e japonês; a Casa Phung Hung; o Salão de Assembleia Fujian (Phuc Kien), o mais elaborado, dedicado à deusa protetora dos navegantes; e o mercado central, mais movimentado de manhã.

Cruzeiro com jantar no rio Thu Bon: ao anoitecer, a cidade acende as lanternas e as pessoas soltam pequenas velas em barquinhos de papel na água. É comercial, é cheio, e é bonito de qualquer forma. Ver o casario iluminado do meio do rio é uma das imagens que ficam.

Uma sugestão: Hoi An muda completamente de caráter conforme o horário. Entre 10h e 17h, o centro fica lotado de excursões de ônibus. Antes das 8h da manhã e depois das 21h, é outra cidade, quase vazia, com luz melhor e silêncio. Se você quer fotos boas, acorde cedo.

Dia 7: aula de culinária, mercado e vilarejo

Este é o tipo de dia que as pessoas mais lembram meses depois. A estrutura padrão de uma aula de culinária em Hoi An tem três partes.

Mercado: você caminha com o chef pelo mercado central, aprendendo a identificar ervas, tipos de papel de arroz, molhos de peixe, brotos, legumes e peixes locais. É a parte mais educativa, porque o vocabulário de ingredientes da cozinha vietnamita é grande e o cheiro do mercado explica muita coisa.

Deslocamento de barco ou bicicleta até o vilarejo: muitas escolas ficam em vilarejos vizinhos, como Tra Que, conhecido pela horta de ervas cultivada com algas do rio como fertilizante, ou nas ilhas fluviais próximas. O trajeto em si é parte do programa, muitas vezes em barco de rio ou de bicicleta entre arrozais.

A aula: você cozinha de três a cinco pratos e almoça o que fez. O repertório costuma incluir gỏi cuốn (rolinho fresco), bánh xèo (panqueca crocante de arroz e cúrcuma com camarão e broto de feijão), uma salada vietnamita com ervas, e às vezes um caril ou peixe em folha de bananeira.

A comida local que você precisa provar em Hoi An especificamente:

Cao lầu: talvez o prato mais interessante do Vietnã central. Macarrão espesso de arroz, tradicionalmente feito com água de um poço específico da cidade e cinza de lenha, servido com fatias de carne de porco, ervas, broto e uma quantidade pequena de caldo concentrado, além de pedaços crocantes de massa frita por cima. Só existe em Hoi An de forma legítima.

Mì quảng: macarrão amarelo com caldo curto, carne ou camarão, amendoim, ervas e bolacha de arroz de gergelim.

White rose (bánh bao bánh vạc): massa de arroz translúcida recheada com camarão, moldada em forma de flor, com alho frito por cima. É produzida por poucas famílias na cidade.

Bánh mì: o sanduíche vietnamita em pão baguete, herança do período colonial francês, com patê, carnes, coentro, pepino em conserva e pimenta. Hoi An tem casas famosas por isso, e a fila costuma valer.

Dia 8: Ba Na Hills

Ba Na Hills fica na montanha, a cerca de 40 quilômetros a oeste de Da Nang e a mais ou menos 1h30 de Hoi An, a uma altitude em torno de 1.400 a 1.500 metros.

O teleférico é parte do atrativo. O sistema de Ba Na tem linhas que já bateram recordes mundiais de comprimento sem apoio intermediário e de desnível, e a subida atravessa vale, floresta e cachoeira. A viagem em si dura em torno de 15 a 20 minutos e a vista, quando não há nuvem, é excelente.

A Golden Bridge (Cầu Vàng) é a razão pela qual Ba Na virou fenômeno global. Inaugurada em 2018, é uma passarela curva sustentada visualmente por duas mãos gigantescas de pedra e fibra, aparentemente antigas e desgastadas, projetadas pelo escritório vietnamita TA Landscape Architecture. É teatral, é artificial, é claramente feita para foto, e mesmo assim funciona: com névoa passando pelo vale, o efeito é impressionante.

A Vila Francesa reproduz uma cidade europeia com praça, igreja, hotel e restaurantes. É um cenário. Se você gosta desse tipo de coisa, vai adorar; se detesta, vai achar bizarro. Não há meio termio.

Fantasy Park é um parque de diversões coberto, com jogos, simuladores, montanha-russa interna e brinquedos para criança. Muita coisa está incluída no ingresso; algumas atrações são pagas à parte.

Verdades práticas sobre Ba Na Hills:

É muito cheio. Fim de semana e feriado, especialmente, com filas longas no teleférico e na ponte. Chegue na abertura, por volta das 7h ou 8h, e faça a ponte primeiro.

O clima na montanha é imprevisível. Pode estar sol em Da Nang e névoa fechada em Ba Na, com visibilidade de dez metros. Não há como garantir. Leve uma blusa, porque a temperatura lá em cima é vários graus mais baixa.

É um dia inteiro de parque temático no meio de uma viagem cultural. Algumas pessoas acham o contraste refrescante. Outras preferem trocar esse dia por Hue, a antiga capital imperial a cerca de 3h de Hoi An, com a Cidadela e as tumbas dos imperadores Nguyen, ou pelas ruínas do My Son, santuário do reino Champa dos séculos IV a XIII, reconhecido pela UNESCO, a cerca de 1h de Hoi An. Se seu interesse é história, My Son ou Hue rendem mais.

Dia 9: dia livre em Hoi An

Melhor dia livre do roteiro, no melhor lugar para tê-lo.

Praia: An Bang e Cua Dai ficam a poucos quilômetros do centro, acessíveis de bicicleta ou de moto-táxi. An Bang é a mais agradável, com bares de pé na areia e cadeiras de aluguel. A erosão da costa afetou bastante Cua Dai nos últimos anos, então a faixa de areia varia.

Alfaiataria: Hoi An é o centro de roupa sob medida do Vietnã, com centenas de ateliês. Terno, vestido, camisa, casaco, sapato de couro, tudo feito em um ou dois dias com uma ou duas provas. A qualidade varia muito entre casas, então busque referências recentes, pergunte sobre o tecido específico e não aceite prazo apertado demais, porque pressa gera acabamento ruim. Se você quer roupa sob medida, encomende no primeiro dia em Hoi An, não no último.

Vilarejo de cerâmica de Thanh Ha e o vilarejo de carpintaria de Kim Bong, ambos alcançáveis de barco ou bicicleta, são passeios curtos e agradáveis.

Ciclismo entre arrozais: Hoi An é plana e as estradinhas rurais em volta são perfeitas para pedalar. Muitos hotéis emprestam bicicleta sem custo.

Massagem, café, e nada: também é uma opção plenamente válida no nono dia de uma viagem dessas.


DIAS 10 A 13: O SUL DO VIETNÃ

Dia 10: vôo para Ho Chi Minh

Manhã livre em Hoi An, transfer até Da Nang e vôo de cerca de 1h20 até Ho Chi Minh, ainda chamada de Saigon por boa parte da população e sinalizada como SGN nos aeroportos.

O aeroporto Tan Son Nhat é praticamente dentro da cidade, o que é conveniente, mas o trânsito no entorno é intenso. O bairro Distrito 1 concentra hotéis, restaurantes e os pontos históricos, e é onde vale ficar.

A mudança de clima é imediata: Ho Chi Minh é quente e úmida todo o ano, sem estação fria. E a cidade é maior, mais rápida e mais moderna que Hanói. Se Hanói é história e formalidade, Saigon é comércio e energia.

Dia 11: Túneis de Cu Chi e centro histórico

Cu Chi fica a cerca de 60 a 70 quilômetros a noroeste do centro, com trajeto de 1h15 a 2h dependendo do trânsito. É um dos locais mais visitados do Vietnã e um dos mais impactantes.

Durante a Guerra do Vietnã, a região de Cu Chi abrigou uma rede de túneis subterrâneos operada pelas forças da guerrilha, com extensão estimada em algo em torno de 200 a 250 quilômetros no auge, em múltiplos níveis de profundidade. Os túneis incluíam áreas de dormitório, cozinha com dutos de fumaça dispersos para não denunciar posição, enfermaria, oficina de armas e poços de água.

A visita mostra entradas camufladas do tamanho de um alçapão, exemplos de armadilhas com estacas de bambu, veículos e crateras de bomba, e permite entrar em um trecho de túnel alargado para visitantes, geralmente com 20, 40 ou 100 metros de percurso.

Sobre isso, um aviso direto: o túnel é apertado, escuro, quente e sem ventilação. Quem tem claustrofobia deve pular sem culpa, e há saídas intermediárias em vários pontos para quem desistir no meio. Também vale lembrar que os túneis originais eram significativamente mais estreitos do que a versão adaptada.

Existe um estande de tiro no local, onde é possível pagar por munição e atirar com armas do período. É polêmico e barulhento. Ninguém é obrigado.

Sobre os dois sítios: Ben Dinh é o mais próximo de Saigon e o mais visitado; Ben Duoc é mais afastado, menos frequentado e considerado mais próximo do original por muita gente. Se você tem escolha e quer menos gente, pergunte por Ben Duoc.

À tarde, o centro histórico:

Palácio da Independência (Palácio da Reunificação): o edifício modernista onde funcionava a presidência do Vietnã do Sul, e o local onde um tanque norte-vietnamita atravessou o portão em 30 de abril de 1975, marcando o fim da guerra. O interior está preservado como estava, com salas de reunião, gabinete presidencial, sala de mapas, bunker de comando no subsolo com equipamento de comunicação da época e helicóptero no terraço. É uma cápsula de tempo dos anos 1960 e 70, e o projeto arquitetônico em si é notável.

Catedral de Notre Dame de Saigon: construída entre 1877 e 1880, com tijolos importados de Marselha e duas torres com campanários. Está em restauro há vários anos, com estrutura e andaimes cobrindo boa parte da fachada, e as visitas ao interior podem estar limitadas. Confirme a situação antes.

Correio Central: projetado no fim do século XIX, com uma sala principal de teto abobadado em estrutura metálica, mapas históricos pintados nas paredes e cabines de madeira. Ainda funciona como correio de verdade, e mandar um cartão-postal de lá é um dos souvenirs mais bonitos que existem.

Mercado Ben Thanh: o mercado central, com comida, roupa, café, souvenir e um setor de comida preparada. Os preços para estrangeiro começam bem acima do valor real, e barganha é a regra da casa. A área de comida em volta do mercado, que se abre à noite quando as ruas laterais viram praça de alimentação, é mais interessante do que o interior do mercado em si.

O que vale encaixar mesmo não estando na lista: o Museu dos Vestígios da Guerra é a visita mais forte de Ho Chi Minh, com fotografia de guerra, documentação sobre o agente laranja e suas consequências, e um acervo militar externo. É pesado, e algumas salas são difíceis de encarar. Ainda assim, é o lugar que mais explica o país.

Dia 12: Ben Tre e o delta do Mekong

Ben Tre fica a cerca de 85 quilômetros ao sul de Ho Chi Minh, com trajeto de 2h a 2h30, na província conhecida como “terra do coco”.

Por que Ben Tre e não My Tho: essa é uma escolha significativa. My Tho é o destino de delta mais próximo de Saigon e recebe volume enorme de excursão de ônibus, com paradas quase coreografadas. Ben Tre é um pouco mais longe, tem menos movimento, e os canais são mais estreitos e mais bonitos. Quem monta roteiro com atenção escolhe Ben Tre. Alternativas ainda melhores para quem tem tempo são Can Tho, com o mercado flutuante de Cai Rang funcionando de madrugada, e Vinh Long, com homestays em ilhas.

Como o dia funciona:

Barco maior pelo rio principal: você sai por um braço do Mekong, vendo casas sobre estacas, cargueiros de areia, currais de pesca e a vida ribeirinha.

Oficina de coco: Ben Tre é o centro nacional do coco, e as oficinas mostram o ciclo inteiro: quebra do fruto, extração da polpa, prensagem do leite, cozimento do caramelo de coco, corte e embalagem do doce. Também se vê o uso da fibra e da casca para corda, carvão e artesanato. É pegajoso, é doce, e o caramelo de coco quente recém-cortado é bom demais.

Artesanato tradicional: dependendo do operador, a parada inclui tecelagem de esteira de junco, produção de papel de arroz, fábrica de tijolo ou destilaria de aguardente de arroz, com degustação.

Barco a remo pelos canais estreitos: este é o momento que define o passeio. Você troca o barco grande por um sampan de madeira para duas ou quatro pessoas, remado por uma pessoa local, e entra em canais tão estreitos que as folhas de nipa se fecham por cima. É silencioso, sombreado e completamente diferente do rio aberto. Costuma-se oferecer o chapéu cônico e, na volta, é praxe dar gorjeta ao remador.

Almoço à beira do rio: o prato clássico do delta é o cá tai tượng chiên xù, peixe elefante-orelha frito inteiro, servido em pé, com a carne sendo retirada à mesa e enrolada em papel de arroz com ervas, macarrão e molho. Vem geralmente com camarão grelhado, sopa e arroz. É uma das melhores refeições da viagem.

Bicicleta e carroça: vários programas incluem trechos de bicicleta por caminhos de concreto entre pomares, ou passeio de charrete. É opcional na maioria dos casos.

Fruta da estação: o delta produz uma variedade impressionante. Rambutan, longan, mangostim, jaca, pitaia, e a durian, que divide a humanidade em dois grupos. Prove.

Uma nota: o dia de Mekong com retorno a Saigon no mesmo dia significa cerca de cinco horas de estrada no total. Quem consegue, troca por um pernoite em homestay no delta, e a experiência melhora bastante: o rio ao amanhecer é uma coisa completamente diferente do rio ao meio-dia.

Dia 13: dia livre em Ho Chi Minh

Bom momento para escolher entre descanso e mais cidade.

Comida: Ho Chi Minh é uma das melhores cidades de comida de rua do mundo. Bánh mì, phở (que no sul vem com mais brotos e ervas do que no norte), bún thịt nướng (macarrão com carne grelhada e molho), hủ tiếu, bánh khọt, cơm tấm (arroz quebrado com costeleta de porco grelhada). O bairro chinês, Cholon, com o mercado Binh Tay e o templo Thien Hau, é um programa de meio dia por si só.

Compras: de artesanato em lojas de design contemporâneo no Distrito 1 a café vietnamita para levar, que é um dos melhores souvenirs possíveis. O Vietnã é o segundo maior produtor mundial de café, com predominância de robusta, e a torra local, escura e intensa, faz o café gelado com leite condensado (cà phê sữa đá) funcionar.

Vista de cima: os observatórios em torres altas do centro dão uma noção da escala da cidade e do rio Saigon ao anoitecer.

Alternativa mais ambiciosa: o templo Cao Dai em Tay Ninh, de uma religião sincrética fundada no Vietnã nos anos 1920 que combina budismo, taoísmo, confucionismo, cristianismo e islamismo, com cerimônias em horários fixos e um interior de cores e simbolismo intensos. Fica a cerca de 100 quilômetros de Saigon e costuma ser combinado com Cu Chi.


DIAS 14 A 17: O CAMBOJA E ANGKOR

Dia 14: vôo para Siem Reap

O vôo direto de Ho Chi Minh para Siem Reap leva cerca de 1 hora, o trecho mais curto de toda a viagem. Existem também rotas via Phnom Penh.

O aeroporto que serve Siem Reap hoje é o Siem Reap Angkor International Airport, inaugurado em 2023, que fica bem mais longe do centro do que o antigo, a cerca de 40 a 50 quilômetros, com trajeto de aproximadamente uma hora. Isso pega muita gente de surpresa, porque guias antigos falam de dez minutos até a cidade. Combine o transfer com antecedência.

O visto na chegada é processado no aeroporto. Tenha dólares em espécie e foto tamanho passaporte.

Siem Reap é uma cidade pequena e voltada ao turismo, com a área de Pub Street, mercados, restaurantes e hotéis concentrados. É confortável, é fácil, e o tuk-tuk é o transporte natural, com aplicativos locais funcionando bem para chamar corrida com preço definido.

Dia 15: o complexo de Angkor

Este é o dia mais importante do roteiro, e vale entender o que é Angkor antes de chegar lá.

Angkor foi a capital do Império Khmer entre os séculos IX e XV, e no seu auge foi provavelmente a maior aglomeração urbana pré-industrial do mundo, com uma área urbana estimada em centenas de quilômetros quadrados e um sistema hidráulico monumental de reservatórios e canais que sustentava a agricultura. O sítio é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1992 e abrange mais de 400 quilômetros quadrados de templos, muralhas, reservatórios e estradas.

Ingresso: o passe é vendido no centro oficial de bilhetes, o Angkor Enterprise, a alguns quilômetros do centro de Siem Reap, com opções de um dia, três dias (usáveis em dias não consecutivos dentro de uma janela) e sete dias. O passe leva sua foto impressa, é pessoal e é verificado na entrada de cada templo. Perder o passe significa comprar outro. Crianças abaixo de uma certa idade entram sem custo, com apresentação de passaporte.

Angkor Wat: o maior monumento religioso do mundo em área, construído no início do século XII por Suryavarman II como templo hindu dedicado a Vishnu, e posteriormente convertido ao uso budista. É cercado por um fosso enorme e organizado em três galerias concêntricas que sobem até cinco torres em forma de flor de lótus, representando o Monte Meru da cosmologia hindu.

O que realmente vale olhar de perto: os baixos-relevos da galeria externa, com quase 800 metros de extensão narrativa, contando episódios do Mahabharata e do Ramayana, cenas de batalha histórica, e a mais famosa de todas, a Agitação do Oceano de Leite, com deuses e demônios puxando a serpente Vasuki para extrair o néctar da imortalidade. E as apsaras, bailarinas celestiais esculpidas em quantidade impressionante nas paredes, cada uma com penteado e adorno diferente.

O nascer do sol atrás das torres, refletido no tanque frontal, é a imagem clássica. Também é o momento mais lotado do dia, com centenas de pessoas no mesmo trecho de borda. Vale ir uma vez na vida. Só não espere solidão.

Angkor Thom: a última grande capital do império, fundada por Jayavarman VII no fim do século XII, cercada por muralha de cerca de 3 quilômetros de lado e um fosso. As entradas são portões monumentais com torres de faces, e as pontes de acesso têm fileiras de figuras de deuses e demônios segurando uma serpente.

Bayon: o templo central de Angkor Thom, e para muita gente o mais fascinante de todos. É um labirinto vertical de torres cobertas por faces de pedra sorridentes, com contagens que passam de 200 rostos. A identidade dessas faces é debatida entre representação do bodisatva Avalokiteshvara e retrato idealizado do próprio rei. Andar entre elas em silêncio, com a luz batendo de lado, é uma das experiências mais estranhas e memoráveis do sudeste asiático. O Bayon também tem galerias com relevos de cenas de batalha naval e de vida cotidiana, com mercados, pescas e partos, que são um registro histórico raro.

Ta Prohm: o templo tomado pela floresta, com raízes gigantes de figueira-de-bengala e de árvore-do-algodão abraçando muros e desabando galerias. Foi deliberadamente mantido em estado parcialmente selvagem pelos restauradores, com estabilização estrutural em vez de reconstrução, e é por isso que ficou tão conhecido, inclusive pelo cinema. Vá cedo ou no fim da tarde, porque o meio do dia ali é insuportável de gente e de calor.

Srah Srang ao pôr do sol: um reservatório real do século X, com um terraço de pedra e degraus que descem até a água, guardado por leões e nagas. É bem mais tranquilo que os pontos famosos de sunset, como o Phnom Bakheng, que limita o número de visitantes e enche muito. Assistir ao sol descer sobre a água de Srah Srang, sentado nos degraus, é uma escolha melhor do que brigar por espaço em uma colina.

Mercado noturno: de volta a Siem Reap, os mercados noturnos vendem artesanato, prata, tecido, especiaria, arte e comida. Barganha é normal. Vale ficar atento à procedência: peça khmer genuinamente antiga não pode ser exportada legalmente, e qualquer coisa vendida como “antiguidade de templo” é ou falsa ou ilegal.

Conselhos práticos para um dia em Angkor:

Roupa cobrindo ombros e joelhos é obrigatória em vários templos, com fiscalização real em Angkor Wat, especialmente no nível superior. Não é sugestão.

Água, muita. Chapéu, protetor solar, repelente. O calor entre 11h e 15h no Camboja é sério e a insolação é o problema de saúde mais comum entre visitantes.

Calçado fechado e com boa sola. Você vai subir escada de pedra irregular, pisar em pedra solta e caminhar bem mais do que imagina.

Contrate um guia licenciado. Angkor sem interpretação é uma sequência de pedras bonitas. Com um bom guia, é um curso de história, religião e engenharia hidráulica. Faz diferença enorme.

Tuk-tuk contratado para o dia inteiro é o transporte mais confortável, porque circula com o vento entre os templos e espera você em cada parada.

Dia 16: Siem Reap sem pressa

O roteiro menciona o Angkor Central e os Artesãos Angkor, e isso aponta para um dia mais leve e mais urbano.

Artisans Angkor é uma iniciativa nascida de um programa de formação profissional para jovens de áreas rurais do Camboja, que virou uma organização de artesanato com oficinas abertas à visita. Você vê escultura em pedra e madeira, laca, douramento, pintura em seda e produção de peça sacra, com artesãos trabalhando e explicando o processo. A visita ao ateliê central em Siem Reap é gratuita e há uma loja onde a compra sustenta o programa. Existe também uma fazenda de seda a alguns quilômetros da cidade, com o ciclo desde o bicho-da-seda até o tecido.

Templos que sobraram e valem um segundo dia: se você comprou o passe de três dias, o dia 16 é a chance de ver o que não cabe no dia 15. Banteay Srei, a cerca de 35 quilômetros do centro, é um templo pequeno de arenito rosado do século X, com o trabalho de escultura mais delicado de todo o complexo, quase joalheria em pedra. Preah Khan, grande e labiríntico, com galerias parcialmente colapsadas e muito menos gente. Neak Pean, um santuário de água em uma ilha artificial. Banteay Kdei e Pre Rup, esta última um templo-montanha de tijolo e laterita boa para o fim da tarde. E o grupo Roluos, mais antigo, do século IX, para quem se interessa pela evolução da arquitetura khmer.

Lago Tonlé Sap e vilarejos flutuantes: o maior lago de água doce do sudeste asiático, com a peculiaridade de mudar o sentido do fluxo do seu rio duas vezes por ano, expandindo enormemente de área na estação de chuvas. Existem comunidades flutuantes e comunidades sobre estacas altíssimas ao redor. Aqui é preciso critério: alguns tours para essas vilas foram criticados por práticas exploratórias, com paradas em orfanatos, venda agressiva de material escolar e valores que não chegam à comunidade. Escolha operador com reputação sólida e evite qualquer programa que inclua visita a orfanato. Na estação seca, o nível baixo pode tornar o passeio decepcionante.

Museu Nacional de Angkor, para contexto e cronologia. Aula de culinária khmer, com pratos como o amok (peixe cozido no vapor com pasta de curry, leite de coco e folha de bananeira), o lok lak (carne salteada com molho de pimenta kampot e limão) e o num banh chok (macarrão de arroz com caldo de peixe, o café da manhã nacional). E massagem khmer, que é diferente da tailandesa, mais lenta e mais focada em pressão.

Uma nota sobre o Camboja recente: o país passou pelo regime do Khmer Vermelho entre 1975 e 1979, com um número de mortes estimado em torno de 1,7 a 2 milhões de pessoas, por execução, fome, trabalho forçado e doença. Os principais locais de memória, o museu do genocídio de Tuol Sleng e os campos de Choeung Ek, ficam em Phnom Penh, não em Siem Reap, e este roteiro não passa pela capital. Ainda assim, vale saber, porque a história recente está presente na conversa com qualquer pessoa mais velha, e há museus e centros de informação em Siem Reap que tratam do tema, inclusive sobre minas terrestres, um problema que ainda afeta áreas rurais do país.

Dia 17: partida

Transfer para o aeroporto e vôo de volta. Como o novo aeroporto está longe, calcule uma hora de trajeto mais o tempo de antecedência do vôo internacional.

Se o vôo for à tarde ou à noite, ainda cabe uma manhã: um mercado, um café, uma última massagem, ou um templo que ficou faltando.


O que eu ajustaria nesse roteiro

Alguns pontos, sem desmontar a estrutura, que é boa.

O dia 5 é o mais frágil. Cruzeiro, transfer de duas horas e meia e vôo no mesmo dia é apertado demais. Se possível, escolha vôo do início da noite.

Ba Na Hills divide opiniões. Se o seu interesse é história e arqueologia, esse dia rende mais em My Son ou em Hue.

Uma noite no delta do Mekong melhora bastante o trecho sul, e elimina cinco horas de estrada no mesmo dia.

Dois dias de templo em Angkor, com passe de três dias, é bem melhor que um. O dia 16, listado como livre, é a oportunidade natural para isso, e Banteay Srei sozinho já justifica.

Considere o passe de Angkor comprado no fim da tarde do dia anterior. Em alguns períodos, é possível comprar o passe depois de determinado horário e usá-lo já para o pôr do sol daquele dia, com a validade contando a partir do dia seguinte. Vale confirmar a regra vigente na hora, porque muda.

Reserve alguma folga financeira para gorjetas. Remador em Tam Coc, remadora em Ben Tre, guia em Angkor, motorista, tripulação de cruzeiro. Não é obrigatório em nenhum caso, mas é a parte da renda dessas pessoas que depende diretamente de você, e as quantias envolvidas são pequenas para quem viaja do Brasil até ali.


O fio que liga tudo

Dezessete dias entre o delta do Rio Vermelho e a planície de Angkor cobrem mais de mil anos de história em uma linha razoavelmente contínua. O Templo da Literatura em Hanói foi fundado em 1070; Angkor Wat começou a ser construído poucas décadas depois. Hoa Lu era capital vietnamita no mesmo período em que os reis khmer erguiam seus primeiros templos-montanha. Hoi An negociava com o mundo enquanto Angkor já estava abandonada e coberta pela floresta.

E depois vem a camada moderna, que é impossível ignorar. O Palácio da Reunificação, os túneis de Cu Chi, o mausoléu em Hanói, as minas que ainda existem no interior do Camboja. Essa parte é recente o suficiente para haver testemunhas vivas em cada cidade que você atravessar.

O que essa viagem realmente entrega, além das fotos, é a percepção de que essas duas nações não são versões diferentes de um mesmo lugar exótico. São histórias distintas, línguas sem parentesco, alfabetos diferentes, cozinhas com lógicas próprias, que por acaso compartilham um rio e uma fronteira.

Levar isso na bagagem é bem melhor do que qualquer coisa que caiba na mala.

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