Dicas de Viagem Para Aproveitar Zermatt
Zermatt: guia completo do vilarejo sem carros aos pés do Matterhorn, com preços, mirantes e o que fazer em cada estação.

Zermatt fica no fundo do vale de Nikolaital, no cantão do Valais, a 1.608 metros de altitude, e é um vilarejo de pouco mais de 5.800 habitantes permanentes que recebe cerca de dois milhões de pernoites por ano. É proibido circular com carro de combustão ali dentro. E o motivo de tudo isso é uma montanha de 4.478 metros com uma forma que virou símbolo de um país inteiro.
A montanha, primeiro
O Matterhorn tem 4.478 metros. Não é o pico mais alto da Suíça, esse título é do Dufourspitze, no maciço do Monte Rosa, com 4.634 metros, e que fica logo ali do lado de Zermatt. Mas o Matterhorn é de longe o mais reconhecível dos Alpes.
O formato de pirâmide de quatro faces não é acaso. Ele é o que os geólogos chamam de horn, uma montanha esculpida por glaciares atacando simultaneamente de vários lados, cada um cavando um circo glacial até restar apenas essa lasca central. As quatro faces apontam de forma quase exata para os pontos cardeais.
Outro detalhe que quase ninguém sabe: o cume do Matterhorn é geologicamente africano. A rocha do topo pertence à placa Adriática, um fragmento continental que foi empurrado por cima da crosta europeia durante a formação dos Alpes. Você olha para uma montanha suíça cuja ponta veio da África.
A fronteira com a Itália passa exatamente pelo cume. Do lado italiano, a montanha se chama Cervino e a estação correspondente é Breuil-Cervinia.
A primeira escalada, e a tragédia
A primeira subida foi em 14 de julho de 1865, liderada pelo inglês Edward Whymper, com os guias Michel Croz, Peter Taugwalder pai e filho, e os britânicos Charles Hudson, Douglas Hadow e Lord Francis Douglas.
Na descida, uma corda arrebentou. Quatro dos sete morreram, caindo pela face norte. O corpo de Lord Francis Douglas nunca foi encontrado. Whymper sobreviveu e passou o resto da vida sendo perguntado sobre aquilo.
O evento fechou o que se chama de “era de ouro do alpinismo” e, paradoxalmente, foi o que colocou Zermatt no mapa mundial. Antes disso era uma aldeia de pastores pobres. Depois, virou destino. O cemitério dos alpinistas, ao lado da igreja no centro, guarda dezenas de túmulos de gente que morreu na montanha, muitos jovens, com epitáfios diretos e duros. Vale entrar. É o lugar mais silencioso de Zermatt e o que mais dá perspectiva.
O museu Matterhorn Museum – Zermatlantis fica em uma construção enterrada no centro do vilarejo e reconstrói um pedaço da aldeia antiga em escala real. A corda rompida de 1865 está exposta lá. Custa em torno de 12 francos e é uma hora muito bem gasta.
Sobre a língua, e uma correção importante
O Valais é um cantão oficialmente bilíngue, e na verdade a maioria da população do cantão fala francês, na parte baixa, em torno de Sion, Sierre e Martigny. Quem chega de Genebra atravessa quilômetros de território francófono antes de chegar à zona alemã.
O que acontece é que a divisa linguística passa perto de Raron e Leuk, e Zermatt está bem no lado germanófono, o chamado Oberwallis, o Alto Valais.
E o alemão falado ali é o Walliserdeutsch, considerado o dialeto mais difícil de entender de toda a Suíça germanófona. Não é exagero de folheto turístico. Suíços de Zurique frequentemente não acompanham uma conversa entre dois habitantes de Zermatt. O dialeto conservou formas medievais que desapareceram do resto do idioma. Os Walser, povo que colonizou vales altos dos Alpes a partir do século 13, saíram justamente dessa região e levaram esse alemão para o Ticino, Grisões, Itália e Áustria.
Na prática, você não vai precisar de nada disso. Zermatt é um dos vilarejos mais internacionais dos Alpes. Inglês em todo lugar, e boa parte dos funcionários de hotel e restaurante é portuguesa, italiana, alemã ou de países do Leste. Não é raro alguém te atender em português.
Como chegar, e a parte que confunde
Zermatt é livre de carros de combustão desde os anos 1960, por decisão da própria comunidade. Isso significa uma coisa muito concreta: você não chega de carro.
O ponto final para veículos é Täsch, cinco quilômetros antes. Ali existe o Matterhorn Terminal Täsch, um estacionamento coberto grande, e um trem-vaivém que sai a cada 20 minutos e leva 12 minutos até Zermatt. A diária de estacionamento fica em torno de 16 a 20 francos, e o vaivém custa cerca de 8 a 9 francos por trecho.
Quem chega de trem vem pela Matterhorn Gotthard Bahn, uma linha de bitola estreita com trechos de cremalheira que sobe de Brig ou Visp, no vale do Ródano. De Visp são uns 65 minutos. É uma viagem bonita, subindo por um vale apertado com viadutos e túneis.
Tempos aproximados:
| Origem | Tempo | Trocas |
|---|---|---|
| Genebra | 3h30 a 3h50 | 1 a 2, via Visp |
| Zurique | 3h10 a 3h30 | 1, em Visp |
| Berna | 2h a 2h20 | 1, em Visp ou Brig |
| Interlaken | 2h10 a 2h30 | 1 a 2, via Spiez/Visp |
| Milão | 4h a 4h30 | Via Domodossola e Brig |
Dentro do vilarejo circulam táxis elétricos pequenos, ônibus elétricos e carrinhos de hotel. É tudo caminhável: da estação à outra ponta do centro dá uns 20 minutos a pé. Táxi elétrico da estação ao hotel custa por volta de 15 a 25 francos, e vários hotéis fazem a busca de graça se você avisar.
O Glacier Express
Zermatt é um dos dois terminais do Glacier Express, que vai até St. Moritz em cerca de oito horas, atravessando 291 pontes e 91 túneis, e cruzando o passo do Oberalp a 2.033 metros. É chamado de “o expresso mais lento do mundo”, apelido justo e bem humorado.
É uma experiência bonita, com vagões panorâmicos e almoço servido no lugar. Mas seja realista: oito horas sentado, e a reserva de assento é obrigatória e paga além do bilhete, algo em torno de 49 a 79 francos dependendo da temporada, fora a passagem. Muita gente faz apenas o trecho Zermatt–Andermatt ou Andermatt–Chur, que concentra o melhor da paisagem, e economiza um dia inteiro.
Os mirantes, e como escolher
Zermatt tem três sistemas principais de subida, e cada um tem lógica diferente. Fazer todos custa muito dinheiro.
Gornergrat, 3.089 metros
Se você só fizer uma coisa em Zermatt, faça essa.
A Gornergratbahn, inaugurada em 1898, foi a primeira ferrovia elétrica de cremalheira da Suíça. Sai de uma estação própria em frente à estação principal e sobe em cerca de 33 minutos.
No topo você vê o Matterhorn de frente e, ao lado, o Glaciar Gorner, o segundo maior dos Alpes, e um anfiteatro com 29 picos acima de 4.000 metros, incluindo o Dufourspitze. Não existe painel de montanha comparável a esse em nenhum outro mirante acessível de trem na Europa.
Dica prática que muda a foto: sente-se do lado direito na subida. É onde fica o Matterhorn.
Ida e volta custa em torno de 132 francos em alta temporada, com metade do preço para quem tem Half Fare Card e desconto de 50% com Swiss Travel Pass. Existem bilhetes mais baratos no primeiro trem da manhã, e vale a pena, porque a luz é melhor e não tem ninguém.
Matterhorn Glacier Paradise, 3.883 metros
O ponto mais alto da Europa acessível por teleférico. Uma sequência de cabines sobe de Zermatt até o Klein Matterhorn, e no topo há uma plataforma panorâmica, um palácio de gelo escavado no glaciar a 15 metros de profundidade e o acesso à área de esqui de verão.
É o mais caro do conjunto, em torno de 120 a 130 francos ida e volta com descontos aplicados, e mais que isso sem nenhum passe. E o alerta é sério: a 3.883 metros, saindo de 1.608, o mal de altitude é comum. Dor de cabeça, náusea, falta de ar. Não corra, não fume, beba água e não vá se estiver com problema cardíaco ou respiratório sem falar com médico.
Desde 2023 existe o Matterhorn Alpine Crossing, que permite atravessar de teleférico de Zermatt até Cervinia, na Itália, por cima do glaciar. É a travessia alpina de altitude mais alta do mundo com esse tipo de transporte. Leve passaporte, porque é cruzamento de fronteira, e confira o funcionamento, porque depende de tempo e de manutenção sazonal.
Sunnegga, Blauherd e Rothorn
O terceiro sistema, e o mais barato de todos para começar. Um funicular subterrâneo leva de Zermatt a Sunnegga (2.288 m) em cinco minutos. De lá, gôndolas seguem para Blauherd (2.571 m) e Rothorn (3.103 m).
É aqui que está o Stellisee, o lago pequeno onde se tira a fotografia mais reproduzida do Matterhorn, com o pico refletido na água. Fica a uns 20 a 25 minutos de caminhada de Blauherd, terreno fácil. Vá de manhã cedo, antes do vento, porque com vento não há reflexo nenhum.
Também nessa área estão o Leisee, com margem rasa onde crianças entram na água, e o Grindjisee e o Grünsee, os outros lagos da chamada Cinco Lagos (5-Seenweg), uma trilha de cerca de 9,5 quilômetros e duas horas e meia, com três dos cinco lagos refletindo o Matterhorn. É a melhor caminhada de dificuldade baixa da região.
As cabras, e o que realmente acontece
Aqui vale corrigir uma expectativa que circula muito.
As cabras não vivem soltas pelas ruas de Zermatt todos os dias. O que existe é uma tradição sazonal: um pequeno rebanho de cabras de colo preto do Valais, a raça Walliser Schwarzhalsziege, com a metade dianteira preta e a traseira branca, desce pela rua principal, a Bahnhofstrasse, acompanhado por um pastor, geralmente duas vezes ao dia durante os meses de verão, tipicamente de meados de junho até meados de setembro. Uma vez pela manhã e uma no fim da tarde.
É bonito, é autêntico como raça e como costume regional, mas é um desfile com horário. Se você chegar em novembro esperando cabras na calçada, não vai encontrar nenhuma.
A raça, aliás, é antiga e originária justamente do Valais, e sobrevive porque foi resgatada de quase extinção no século 20.
Caminhadas e bicicleta
Zermatt tem cerca de 400 quilômetros de trilhas sinalizadas no verão. A sinalização suíça usa placas amarelas com tempo estimado, não distância, e esses tempos são realistas.
Trilhas que valem:
O 5-Seenweg, já citado, é o melhor custo-benefício de esforço e paisagem.
O Gornergrat–Riffelberg–Riffelsee permite subir de trem e descer caminhando por etapas, pegando o trem de volta em qualquer estação intermediária. O Riffelsee é outro lago com reflexo perfeito do Matterhorn, e fica a poucos minutos da estação de Rotenboden.
O Hörnlihütte é o refúgio a 3.260 metros onde os alpinistas dormem antes de atacar o cume. Chegar até lá a pé é uma caminhada exigente, de alta montanha, com trechos expostos, e não é para quem não tem experiência. Não se meta nisso sem preparo.
A Europaweg, entre Grächen e Zermatt, é uma travessia de dois dias com pernoite em refúgio, e inclui uma das pontes suspensas para pedestres mais longas dos Alpes, a Charles Kuonen, com 494 metros de vão.
Sobre bicicleta: sim, existe aluguel, e existe mountain bike com rotas específicas descendo de Sunnegga e Blauherd. Mas atenção, porque isso confunde muita gente: as trilhas de caminhada não são livres para bicicleta. Zermatt tem rotas de MTB demarcadas e o resto é proibido, com fiscalização. E dentro do vilarejo o trânsito de bicicleta é regulado, com algumas restrições de horário na rua principal. Diária de e-bike ou MTB fica em torno de 50 a 90 francos.
Esqui no inverno, e no verão também
A área esquiável de Zermatt, somada a Cervinia do lado italiano, forma o Matterhorn Ski Paradise, com mais de 350 quilômetros de pistas contando os dois lados. Vai de 1.620 a 3.883 metros, o que dá o maior desnível esquiável dos Alpes.
E aqui está o dado que separa Zermatt de todo o resto: por causa do glaciar do Theodul, ela é a única estação europeia com esqui em todos os meses do ano. É onde as equipes nacionais treinam em julho e agosto. A área de verão é pequena e alta, mas funciona.
No inverno, dá para almoçar na Itália e voltar esquiando. Leve passaporte.
Comida, queijo e preços
Sobre queijo: o da região é o Raclette du Valais AOP, e a raclette aqui não é a versão de máquina elétrica. A tradicional é meia roda de queijo derretida diante do fogo e raspada sobre batata cozida, com pepino em conserva e cebolinha em vinagre. Comer com vinho branco local, não com água gelada, é o costume, e existe até uma crença regional de que água fria com queijo derretido dá indigestão.
O Valais também é o maior produtor de vinho da Suíça, com destaque para os brancos Fendant (feito de Chasselas) e Petite Arvine, e os tintos de Cornalin e Humagne Rouge. Vinho suíço quase não é exportado, então provar ali é uma das poucas chances.
Outros itens locais: o Walliser Trockenfleisch (carne seca curada ao ar da montanha, IGP), o pão de centeio do Valais (AOP, escuro e denso), o Cholera, uma torta salgada de batata, queijo, alho-poró e maçã com nome que vem justamente da época de epidemia, e a abricot do Valais, o damasco, que é fruta regional forte e vira aguardente.
Custos, sem enfeite:
| Item | Faixa aproximada |
|---|---|
| Hotel 3 estrelas, alta temporada | CHF 260 a 420 a diária |
| Hotel 4/5 estrelas | CHF 450 a 900+ |
| Cama em albergue | CHF 55 a 95 |
| Refeição simples | CHF 30 a 45 |
| Restaurante médio | CHF 45 a 70 |
| Fondue ou raclette | CHF 35 a 55 por pessoa |
| Supermercado, almoço improvisado | CHF 12 a 20 |
| Gornergrat, ida e volta | CHF 132 (metade com Half Fare) |
| Glacier Paradise, ida e volta | CHF 120 a 130 |
| Sunnegga, ida e volta | CHF 30 a 40 |
| Passe de esqui, diária | CHF 89 a 105 |
Zermatt é caro mesmo pelos padrões suíços, e não há muito o que fazer sobre isso. O que funciona: usar o Coop do centro para café da manhã e almoço, comer o prato principal em restaurante de montanha no meio do dia (frequentemente mais barato e com vista melhor que no vilarejo), e evitar o Peak Pass, um passe multi-mirante, se você não pretende usar todos os sistemas.
Sobre passes: o Half Fare Card é quase sempre a melhor conta para quem faz Zermatt como parte de uma viagem curta. O Swiss Travel Pass cobre o trem até Zermatt inteiro e dá 50% nas montanhas, mas não cobre teleférico de graça.
Multidões, e por que dormir ali muda tudo
Isso é verdade e vale reforçar. Zermatt recebe um volume enorme de gente que chega no primeiro trem, sobe ao Gornergrat, tira foto e vai embora no fim da tarde. Entre umas dez da manhã e cinco da tarde, a Bahnhofstrasse fica congestionada.
Depois das seis, o vilarejo muda de personalidade. As lojas fecham, os grupos vão embora, os táxis elétricos somem, e você consegue caminhar pelo bairro velho, o Hinterdorf, onde ainda existem uns trinta celeiros e casas de madeira dos séculos 16 a 18, erguidos sobre pilares de pedra com lajes redondas no topo. Aquelas lajes não são decoração: eram para impedir que ratos subissem no depósito de grãos. É o pedaço mais bonito e mais antigo de Zermatt, fica a cinco minutos da rua principal e a maioria dos visitantes de um dia nunca chega ali.
Dormir pelo menos duas noites resolve outro problema também: o Matterhorn passa muitos dias escondido em nuvem. Quem tem só uma tarde aposta na sorte. Quem tem três manhãs quase sempre pega uma limpa.
E se você conseguir estar acordado no nascer do sol, olhe para o pico. A primeira luz bate no cume e desce, deixando o resto do vale ainda no escuro. Chamam isso de Alpenglühen. Dura poucos minutos e é gratuito, o que em Zermatt já é uma raridade.
Um roteiro de três dias que funciona
No dia da chegada, largue a bagagem e caminhe: o Hinterdorf, o cemitério dos alpinistas, o museu Zermatlantis e a ponte Kirchbrücke, de onde sai a foto clássica do vilarejo com o pico ao fundo.
No dia de céu mais limpo, primeiro trem para o Gornergrat, e desça caminhando até Rotenboden para ver o Riffelsee, pegando o trem de volta ali.
No terceiro, subida ao Sunnegga cedo, o Stellisee com reflexo, e a trilha dos cinco lagos com calma, almoçando em um restaurante de montanha no caminho.
O Glacier Paradise entra se sobrar orçamento e disposição para altitude, ou se você quiser fazer a travessia para a Itália. É impressionante, mas o Gornergrat entrega mais montanha por franco gasto, e eu prefiro dizer isso do que empurrar o programa mais caro.

