Roteiro de Viagem de Carro Pela US 89 nos EUA
A US Route 89 atravessa o oeste americano do Arizona até a fronteira com o Canadá, ligando Grand Canyon, Zion, Bryce Canyon, Grand Teton, Yellowstone e Glacier em uma única estrada de mais de 1.900 km, e este guia mostra como planejar o roteiro, quando ir e o que não perder no caminho.

Existe uma estrada nos Estados Unidos que parece ter sido desenhada por alguém obcecado por paisagem. Ela começa em Flagstaff, no norte do Arizona, sobe pelo planalto do Colorado, corta Utah de ponta a ponta, entra em Wyoming pelo vale de Jackson Hole, atravessa Yellowstone e termina em Montana, encostada na fronteira canadense. O nome é modesto: US Route 89. O que ela entrega, não.
Quem viaja pelos Estados Unidos costuma pensar em roteiros por interestaduais, aquelas rodovias largas de quatro pistas onde você anda rápido e não vê nada. A 89 é o oposto disso. Boa parte dela é pista simples, com curvas, subidas, mirantes improvisados no acostamento e cidades pequenas onde o posto de gasolina é também mercado, lanchonete e ponto de encontro. É mais devagar. E é justamente por isso que vale.
O que exatamente é a US 89
A US 89 é uma rodovia federal norte-sul. Hoje ela começa em Flagstaff, no Arizona, e termina na fronteira com o Canadá, no posto de Piegan, ao lado do Parque Nacional Glacier, onde vira Alberta Highway 2 e segue para o Waterton Lakes, no Canadá.
Vale um detalhe histórico que confunde muita gente: durante décadas a US 89 ia bem mais ao sul, até Nogales, na fronteira com o México. Esse trecho foi desmembrado com o tempo, substituído pela Interstate 17 e pela rodovia estadual Arizona 89. Ou seja, se você ler em algum lugar que a 89 nasce em Nogales, é referência ao traçado antigo. O ponto de partida oficial atual é Flagstaff.
A extensão atual gira em torno de 1.900 km. Parece pouco para quem está acostumado com distâncias brasileiras, mas aqui o cálculo é diferente: você não roda essa estrada para chegar, roda para parar. Muito.
Os parques nacionais que a estrada conecta
Sete parques nacionais aparecem no roteiro, com uma ressalva importante: nem todos ficam exatamente sobre a rodovia. Alguns pedem desvios curtos, outros pedem desvios longos. Vale entender isso antes de montar o cronograma, porque é aqui que a maioria dos roteiros de internet mente por omissão.
| Parque | Estado | Como se chega pela US 89 | Desvio aproximado |
|---|---|---|---|
| Saguaro | Arizona | Extensão opcional a partir de Tucson | Fora do traçado atual |
| Grand Canyon (South Rim) | Arizona | AZ 64 a partir de Cameron | 90 km |
| Zion | Utah | US 89 até Mt. Carmel Junction, depois UT 9 | 20 km |
| Bryce Canyon | Utah | UT 12 e UT 63 a partir de Bryce Junction | 30 km |
| Grand Teton | Wyoming | A rodovia atravessa o parque | Zero |
| Yellowstone | Wyoming | Entrada Sul, pela própria US 89 | Zero |
| Glacier | Montana | Entrada de St. Mary, sobre a rodovia | Zero |
Repare no padrão: no norte, a 89 entra nos parques. No sul, ela passa perto e você faz pequenos desvios. Grand Canyon é o maior deles, mas ninguém no mundo vai deixar de ver o Grand Canyon por causa de 90 km.
Trecho 1: Flagstaff, Page e o Arizona vermelho
Flagstaff é um bom lugar para começar por três motivos práticos: tem aeroporto pequeno com conexões, fica a duas horas de Phoenix e está a 2.100 metros de altitude, o que ajuda a esquecer o calor do deserto. A cidade tem cara de cidade universitária de montanha, com cervejarias, trilhos de trem cortando o centro e neve no inverno.
Saindo de Flagstaff pela 89 em direção ao norte, os primeiros desvios chegam rápido. O Sunset Crater Volcano National Monument guarda um cone vulcânico que entrou em erupção por volta do ano 1085, com campos de lava preta que parecem recentes. Na mesma estrada em loop está o Wupatki National Monument, com ruínas de pueblos construídos pelos povos ancestrais da região. Um pouco antes, a leste de Flagstaff, o Walnut Canyon exibe habitações encravadas nas paredes do cânion. São três paradas curtas, de uma a duas horas cada, e mudam completamente a percepção de que o deserto americano é vazio. Não é. Está cheio de história, só não é uma história contada com pedra sobre pedra em catedrais.
Em Cameron, uma parada minúscula na reserva Navajo, sai a AZ 64 para o Grand Canyon. Essa entrada leste é subestimada. Você chega pelo Desert View Watchtower e vai descendo a borda sul por uma série de mirantes com muito menos gente do que na área do Grand Canyon Village. Se o objetivo é fotografar sem esbarrar em ninguém, comece por aqui.
De volta à 89, o próximo grande capítulo é Page. Cidade pequena, criada nos anos 1950 para abrigar os trabalhadores da barragem de Glen Canyon, e hoje base de três atrações que viraram fenômeno de internet:
Horseshoe Bend. A curva em ferradura do Rio Colorado, vista de um mirante a cerca de 300 metros de altura. Caminhada curta, estacionamento pago, sem grade em boa parte da borda. Cuidado real, não retórico.
Antelope Canyon. Um slot canyon estreitíssimo em terra Navajo. Só se entra com tour guiado autorizado, e os horários do meio-dia são os que pegam os famosos feixes de luz. Reserve com bastante antecedência, porque esgota.
Lake Powell. O grande reservatório formado pela barragem. Vale dizer que o nível da água oscilou muito na última década por causa da seca prolongada na bacia do Colorado, o que mudou rampas de barco e visuais. Confira a situação atual antes de contar com passeio de lancha.
Entre Page e a fronteira de Utah, a estrada atravessa o Vermilion Cliffs National Monument, com falésias de arenito que ficam absurdas na luz do fim do dia. É também a região da Wave, aquela formação ondulada famosa, cujo acesso é controlado por sorteio de permissões. Chances baixas, mas o sorteio existe e é gratuito de tentar.
Trecho 2: Utah, o coração do roteiro
Se alguém me perguntasse qual pedaço da 89 justifica a viagem inteira, eu apontaria para o sul de Utah. É onde a densidade de coisas boas por quilômetro fica quase indecente.
Kanab é a base natural. Cidade pequena, apelidada de Little Hollywood porque serviu de cenário para dezenas de faroestes, com hotéis de todos os preços e restaurantes decentes. Dali você alcança Zion, Bryce, o Grand Staircase-Escalante e o Grand Canyon North Rim.
Zion se acessa pela UT 9, subindo por uma estrada com túneis escavados na rocha nos anos 1920. Na alta temporada, o cânion principal só é acessível por ônibus lançadeira, o que é chato para quem gosta de liberdade e ótimo para quem gosta de estacionamento. As trilhas famosas são Angels Landing, que exige permissão por sorteio e tem trechos com corrente em beira de precipício, e The Narrows, onde você caminha dentro do rio, dentro do cânion. Água fria. Muito fria.
Bryce Canyon é diferente de tudo. Não é bem um cânion, é uma série de anfiteatros naturais cheios de hoodoos, aquelas colunas de rocha finas e alaranjadas. Fica acima de 2.400 metros, o que significa noites frias mesmo no verão e neve no inverno. Bryce com neve, aliás, é uma das imagens mais bonitas dos Estados Unidos, e quase ninguém vai nessa época.
No caminho, dois complementos que muita gente pula e não deveria: o Kodachrome Basin State Park, com chaminés de arenito esquisitas e trilhas curtas, e o Cedar Breaks National Monument, um anfiteatro parecido com Bryce mas a mais de 3.000 metros de altitude, com estrada fechada no inverno.
Depois disso a 89 segue norte pelo centro de Utah, num trecho mais tranquilo, de fazendas e vilarejos mórmons, até Salt Lake City. Aqui vale um aviso honesto: esse pedaço central é o menos espetacular da rota. Muita gente encurta pegando a Interstate 15 e não perde grande coisa. Se preferir manter a 89, o prêmio vem depois de Logan, no Logan Canyon, que desemboca no Bear Lake, um lago de água turquesa improvável na divisa entre Utah e Idaho. Param todos para comer milkshake de framboesa nas barraquinhas da beira da estrada. É meio turístico e meio irresistível.
Trecho 3: Wyoming, Tetons e Yellowstone
A entrada em Wyoming muda o clima da viagem. Sai o deserto, entra a montanha alta.
Jackson é uma cidade de esqui com praça central decorada com arcos feitos de chifres de alce, restaurantes caros, galerias de arte e um saloon com selas no lugar de banquetos. É agradável e é caro. Hospedagem em julho e agosto costuma ter preços que assustam, então reservar meses antes não é exagero, é sobrevivência financeira.
Ao norte de Jackson, a US 89 atravessa o Grand Teton National Park. A cadeia dos Tetons sobe direto da planície, sem morros intermediários, o que cria aquele perfil vertical inconfundível. Paradas obrigatórias: Snake River Overlook, Schwabacher Landing e Oxbow Bend nas primeiras horas da manhã, quando o vento ainda não estragou o reflejo na água. Alces, bisões e ursos aparecem. Alces, especialmente, atravessam a estrada sem aviso.
Logo em seguida vem a Entrada Sul do Yellowstone. Aqui é bom calibrar expectativa: Yellowstone é enorme, as estradas internas são lentas por causa de tráfego e de animais, e ver o parque em um dia é frustração garantida. Old Faithful, Grand Prismatic Spring, o Grand Canyon of the Yellowstone com as cachoeiras Lower e Upper Falls, e o vale de Lamar para observação de fauna. Três dias é o mínimo razoável. A 89 sai do parque pela Entrada Norte, em Gardiner, sob o arco de pedra construído em 1903.
Trecho 4: Montana até a fronteira
De Gardiner a estrada segue pelo vale do Paradise até Livingston, e depois cruza Montana em direção a Great Falls e Choteau. É um trecho de planície, com as Rocky Mountain Front aparecendo à esquerda como uma parede. Menos parada obrigatória, mais estrada aberta e sensação de distância.
O final é um dos melhores. Perto de Browning, na reserva Blackfeet, a 89 se aproxima do Glacier National Park e chega a St. Mary, onde começa a Going-to-the-Sun Road. Essa estrada de 80 km é obra de engenharia dos anos 1930 e sobe até o Logan Pass entre paredões e geleiras remanescentes. Detalhe crucial de planejamento: ela só abre por completo geralmente entre o fim de junho e meados de outubro, dependendo da neve, e nos últimos anos o parque adotou sistema de reserva de veículo para determinados horários e áreas. Verifique as regras do ano no site oficial do parque, porque elas mudam com frequência.
Depois de St. Mary, poucos quilômetros até o posto de fronteira de Piegan, aberto em horário limitado. Fim de linha.
Quando ir
| Época | Prós | Contras |
|---|---|---|
| Junho a setembro | Todas as estradas abertas, Going-to-the-Sun liberada | Multidão, preços altos, calor no Arizona |
| Maio e outubro | Menos gente, luz bonita, preços menores | Risco de neve no norte, trechos fechados |
| Novembro a abril | Bryce e Zion vazios, tarifas baixas | Glacier e Yellowstone praticamente inacessíveis pelo norte |
Se você tem julho ou agosto e mais nada, faça em julho ou agosto. Só reserve tudo antes. Se pode escolher, setembro é a aposta mais equilibrada da rota inteira.
Quanto tempo separar
Fazer a 89 completa correndo é possível em uns dez dias. Fazer bem, com respiro, pede de três a quatro semanas. Um recorte honesto e realista para quem tem duas semanas: Flagstaff, Grand Canyon, Page, Kanab com Zion e Bryce, vôo interno ou trecho longo até Jackson, Tetons e Yellowstone. Deixa Glacier para outra viagem. Tentar encaixar tudo em quinze dias transforma a viagem num transporte de bagagem entre hotéis.
Coisas práticas que fazem diferença
Compre o passe anual America the Beautiful. Custa 80 dólares e cobre a entrada em todos os parques nacionais para o veículo. Com três parques já se paga.
Reservas em hotéis e lodges dentro dos parques abrem com muitos meses de antecedência e esgotam rápido. Lodges de Yellowstone e Zion são o exemplo clássico.
Combustível fica escasso em trechos longos, principalmente na reserva Navajo e no norte de Montana. Regra simples: abasteceu abaixo da metade, abasteceu.
Sinal de celular falha em partes generosas do roteiro. Baixe mapas offline antes.
Altitude é real. Bryce, Cedar Breaks e Logan Pass ficam alto o suficiente para causar dor de cabeça em quem vem do nível do mar. Beba água e não planeje trilha pesada no primeiro dia.
Animais na pista, principalmente ao amanhecer e no fim da tarde. Bater em um alce em Wyoming não é acidente pequeno.
Carro comum dá conta de tudo que é estrada pavimentada aqui. SUV ajuda no espaço e no conforto, não na capacidade. Estradas de terra do Grand Staircase, essas sim pedem tração e cautela com chuva.
Vale mesmo a pena?
Vale, com uma condição: aceitar que essa não é uma viagem de listinha marcada. Quem tenta cumprir tabela some com o que a estrada tem de melhor, que é a liberdade de parar num mirante sem nome, ficar meia hora olhando um paredão vermelho mudar de cor e seguir sem culpa.
A 89 não tem monumento único, não tem uma foto que resuma tudo. Ela tem acumulação. Você começa em cactos e termina em geleiras, e no meio disso passa por cânions, hoodoos, lagos turquesa, gêiseres e uma cadeia de montanhas que parece falsa de tão vertical. Poucas estradas no mundo fazem isso numa linha reta só. Essa faz.

