3 Destinos Para Visitar Perto de Santiago do Chile

Os arredores de Santiago reservam três experiências que valem a viagem por si só: o Vale do Maipo com suas vinícolas e a famosa uva carmenère, Valparaíso com seu casario colonial Patrimônio da Humanidade e a casa de Pablo Neruda, e Viña del Mar com seus jardins, palácios históricos e o tradicional Cassino Municipal.

Fonte: Civitatis

Tem viagem que vale só pela capital. Santiago, por exemplo, segura facilmente uma semana inteira sem ficar repetitiva. Mas seria meio injusto vir até o Chile e não esticar um pouco, porque ali do lado existem três destinos que mudam completamente a cara do roteiro. Um pega o lado do vinho. Outro pega o lado boêmio, artístico, poético. E o terceiro pega aquele charme antigo de balneário sofisticado. Os três cabem em poucos dias, e se complementam de um jeito que parece feito de propósito.

Vamos por partes.

Vale do Maipo, onde o vinho chileno mostra do que é capaz

A capital tem boas vinícolas nos arredores próximos e algumas lojas de vinho no centro que satisfazem qualquer enólogo, daqueles mais exigentes inclusive. Tem garrafa antiga, tem rótulo de produção limitada, tem sommelier que fala três línguas e conhece cada vale do país. Para muita gente, isso já basta.

Mas quem gosta de vinho de verdade, daquele jeito que faz a pessoa querer ver onde a uva nasce, precisa pegar um carro e ir além. A viagem até o Vale do Maipo, a 80 quilômetros de Santiago, é uma dessas experiências reveladoras. Não é só sobre beber. É sobre entender.

A região concentra alguns dos grandes nomes da viticultura chilena. A Concha y Toro, talvez a mais conhecida internacionalmente, tem visitas guiadas pelos parreirais, pelas adegas históricas e pela famosa Casillero del Diablo, aquele subsolo que deu origem à lenda do diabo guardando os melhores vinhos do fundador. A Cousiño Macul, com história de mais de 160 anos, ainda funciona dentro de Santiago, no que sobrou de uma propriedade que já foi enorme. As instalações antigas, com tijolos aparentes e arcadas, valem a visita só pela arquitetura.

Mas o Maipo não é só dos gigantes. Existem vinícolas praticamente artesanais espalhadas pelo vale, de produção restrita, atendimento personalizado, donos que recebem visitas pessoalmente e contam a história de cada safra. Esse tipo de experiência costuma ser mais memorável do que o tour das grandes adegas.

E aí entra a estrela do Chile vinícola: a carmenère. Essa cepa francesa, originária de Bordeaux, tinha sido considerada extinta depois que a praga da filoxera devastou os vinhedos europeus no final do século XIX. Mas, sem ninguém perceber, ela continuava frutificando aqui no Chile, plantada lado a lado com a merlot e confundida com ela durante mais de cem anos. Só nos anos 1990 a diferença foi finalmente identificada por análise genética. De repente, o Chile descobriu que tinha entre as mãos a maior reserva mundial de uma uva que o mundo dava como perdida.

Hoje a carmenère é praticamente sinônimo de vinho chileno premium. Encorpada, com notas de pimenta, frutas escuras, especiarias. Combina bem com churrasco, com queijos fortes, com pratos de inverno. Provar uma boa garrafa direto da vinícola onde ela nasceu é diferente de beber em qualquer outro lugar do mundo.

E não é só a carmenère. O vinho chileno em geral é beneficiado por algo que poucas regiões do planeta oferecem: a grande amplitude térmica entre dia e noite nos vales e encostas dos Andes. Calor durante o dia, frio depois do pôr do sol. As uvas amadurecem devagar, acumulam açúcar, mantêm acidez. O resultado aparece na taça. Cabernet sauvignon, syrah, malbec, sauvignon blanc, chardonnay. Tudo cresce bem ali.

VinícolaEstiloDestaque
Concha y ToroTradicional, larga escalaCasillero del Diablo
Cousiño MaculHistóricaAdegas centenárias
Santa RitaEstrutura completaMuseu Andino
UndurragaTradicionalJardim e arquitetura
Pequenos produtoresArtesanalAtendimento exclusivo

A dica prática é simples: não tente visitar mais de duas vinícolas no mesmo dia. Os tours costumam levar duas a três horas, com degustação. Mais do que isso vira atropelo, e o paladar cansa antes do final da tarde. Vale também combinar a visita com um almoço em algum dos restaurantes das próprias vinícolas, que costumam servir comida pensada para harmonizar com os rótulos da casa.

Valparaíso, o caos colorido que virou Patrimônio da Humanidade

Trocar Santiago por Valparaíso é trocar de mundo. Bastam menos de duas horas de estrada, mas a sensação é de ter atravessado uma fronteira invisível. Onde Santiago é organizada, Valparaíso é caótica. Onde a capital tem prédios espelhados, o porto tem casinhas penduradas no morro. Onde uma é polida, a outra é boêmia, suja em alguns pontos, espontânea, viva de um jeito que cidade nenhuma do Chile consegue copiar.

É o principal porto e a segunda maior cidade do país, e isso explica muita coisa. Marinheiros, imigrantes, comerciantes, artistas, todo mundo passou por ali em algum momento. O resultado é uma mistura cultural que se vê em cada esquina. As ruas sobem e descem morros íngremes. As casas têm cores impossíveis, fachadas pintadas em amarelo, azul, rosa, verde, vermelho, sem padrão nenhum, e ainda assim formando um conjunto bonito. Os grafites cobrem muros inteiros, alguns de altíssima qualidade artística, e fazem da cidade uma das capitais latino-americanas da street art.

O casario colonial é Patrimônio da Humanidade pela UNESCO desde 2003, e isso ajudou a preservar uma cidade que poderia ter se descaracterizado rapidamente. As escadarias, os becos, as pequenas praças, os ascensores históricos, tudo isso continua funcionando.

Por falar em ascensores, eles são uma marca registrada de Valparaíso. Construídos no final do século XIX e começo do XX, ligam a parte baixa, comercial e portuária, à parte alta, residencial, espalhada pelos morros. O Ascensor Artillería é um dos mais visitados, e a vista lá de cima compensa cada peso da passagem. O porto inteiro se abre diante de você, com os navios cargueiros, o Pacífico se estendendo até o horizonte, e Viña del Mar aparecendo logo ali à direita.

E tem a casa do Neruda. La Sebastiana fica no alto do Cerro Florida, e foi escolhida pelo poeta porque a vista de lá é grande demais para ignorar. Neruda era apaixonado por Valparaíso. Tinha já a La Chascona em Santiago e a Isla Negra na costa, mas Valparaíso pedia uma casa também. La Sebastiana tem aquele jeito caótico e bem humorado das outras casas do poeta. Ambientes muito coloridos, móveis vindos de viagens, objetos esquisitos colecionados ao longo da vida, passagens estreitas que parecem de barco, janelas amplas voltadas para o mar. É a cara de Valparaíso, ou talvez a cara do Neruda em Valparaíso. Difícil separar.

E tem ainda os frutos do mar, claro. Sendo um porto, a oferta é fresquíssima. Restaurantes simples espalhados pela parte alta servem ceviche, machas a la parmesana, congrio frito, paila marina. Os preços costumam ser bem mais camaradas do que em Santiago, e o ambiente é incomparavelmente mais charmoso.

Uma observação prática que faz diferença: Valparaíso tem áreas onde é melhor não circular à noite, principalmente perto do porto e em algumas partes baixas. Não é motivo para evitar a cidade, mas vale pesquisar antes da viagem e ouvir as recomendações dos locais. O Cerro Concepción e o Cerro Alegre, onde estão os hotéis boutique mais conhecidos, são as áreas mais seguras e charmosas para se hospedar.

Viña del Mar, o balneário que não depende da praia

Aqui vai uma observação que costuma surpreender. Quem vai a Viña del Mar esperando praia de verão brasileiro pode se decepcionar. A praia não é o forte do lugar. A água do Pacífico nessa altura do continente é fria, com forte influência da corrente de Humboldt, e nem mesmo no verão chileno ela esquenta o bastante para um banho longo. As areias são bonitas, sim, e o cenário funciona muito bem como passeio. Mas se a expectativa é Florianópolis, melhor ajustar.

A graça de Viña está em outro lugar. Em vários outros lugares, na verdade.

Primeiro, nos jardins. A cidade é conhecida como a Cidade Jardim, e essa fama não é à toa. Os parques, praças e canteiros se conectam uns aos outros formando uma cadeia verde quase ininterrupta. Caminhar por Viña é caminhar entre flores, palmeiras, gramados cuidados, fontes, monumentos. O relógio de flores na entrada da cidade, na praia Caleta Abarca, virou um dos símbolos do Chile, com aquele mostrador gigante feito de plantas vivas, que continua marcando a hora certa.

Depois, no charme nostálgico. Viña del Mar foi, na primeira metade do século XX, a praia preferida da elite chilena. Os barões da mineração, os grandes proprietários de terras, os herdeiros de fortunas construídas na lã e no nitrato, todos quiseram ter um palácio à beira-mar. Esses palácios continuam ali. Alguns viraram museus, outros centros culturais, outros funcionam como residências oficiais ou propriedades particulares preservadas.

O Palacio Rioja, aberto para visitação, é um exemplo típico. Construído em 1907 para o banqueiro espanhol Fernando Rioja, mostra exatamente como vivia a alta sociedade chilena no auge da belle époque sul-americana. Mobiliário europeu, salões enormes, jardins ao redor, decoração no estilo Luís XV. Sai dali e parece que se passaram cem anos, o que de fato se passaram.

Outro símbolo do mesmo período é o Cassino Municipal, inaugurado em 1930. O prédio, com sua arquitetura elegante voltada para o mar, recebe visitantes para jogar nas mesas de roleta, blackjack, pôquer, ou apenas tomar um drinque no bar e olhar pelas janelas o Pacífico se quebrando contra as pedras. Mesmo quem não joga, e talvez principalmente quem não joga, costuma curtir a experiência de entrar num lugar que parece preservado em outra época.

A cidade tem também boa oferta de hotéis, restaurantes voltados para turistas e brasileiros em particular, calçadões para caminhar, e a vantagem prática de ficar literalmente colada em Valparaíso. Os dois centros são ligados por avenida, ônibus e metrô. Dá para se hospedar em uma e visitar a outra todo dia sem perder tempo no deslocamento.

Uma boa estratégia para quem tem três ou quatro dias é dividir, dormir uma noite ou duas em Viña, com mais conforto e estrutura, e outra em Valparaíso, em algum boutique nos morros, para sentir a cidade no escuro, quando ela fica ainda mais cinematográfica.

Como organizar esses três passeios saindo de Santiago

Existe a opção do bate e volta para cada um deles, mas vale fazer uma ressalva. Bate e volta funciona para o Vale do Maipo sem maiores problemas, porque é perto e a visita às vinícolas costuma caber bem num dia. Para Valparaíso e Viña, sair de manhã, voltar à noite e querer ver tudo no mesmo dia é receita para cansaço. A distância chega aos 120 quilômetros, e a graça das duas cidades exige tempo de caminhada, de conversa, de café, de fim de tarde.

A combinação que costuma render mais é mais ou menos assim:

  • Um dia inteiro no Vale do Maipo, com almoço numa vinícola.
  • Dois dias para Valparaíso e Viña del Mar juntas, com pernoite na região.
  • O restante do tempo dedicado à própria Santiago.
RoteiroDias mínimosModal recomendado
Só Vale do Maipo1Tour guiado ou carro alugado
Só Valparaíso e Viña2Carro ou ônibus
Os três juntos3 a 4Carro alugado

Carro alugado oferece flexibilidade, principalmente para quem quer parar em paradas extras, como mirantes na estrada, vinícolas menores, povoados costeiros entre Valparaíso e o sul. Para quem não quer dirigir, há empresas em Santiago que organizam day tours bem estruturados, com guia em português inclusive.

O que essas paradas acrescentam à viagem

Santiago é uma capital completa, mas tem ali um lado mais polido, mais urbano, mais previsível. O Vale do Maipo coloca a paisagem rural na conta da viagem, com os vinhedos se estendendo ao pé dos Andes, e ainda entrega o lado gastronômico que muita gente busca quando vem ao Chile. Valparaíso adiciona o boêmio, o artístico, o tortuoso, o inesperado. E Viña del Mar fecha com elegância nostálgica, jardins, palácios, calçadão à beira-mar.

Os três juntos formam um retrato muito mais completo da região central do Chile do que apenas a capital. E a verdade é que muita gente, ao voltar dessa viagem, descobre que os passeios pelos arredores acabaram sendo mais memoráveis do que a própria cidade grande. Não tira o brilho de Santiago, mas reforça uma verdade simples: o Chile recompensa quem se dispõe a sair do centro e ir explorar o que tem em volta.

E ali, em volta, tem muito.

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