Visite Ostuni na Puglia e se Encante
Ostuni, a Cidade Branca da Puglia, é um labirinto mediterrâneo de luz, cal e oliveiras milenares onde a Itália parece renascer a cada pôr do sol.

Chegar a Ostuni pela primeira vez é como ver um sonho ganhar contorno. A estrada serpenteia entre colinas baixas, muros de pedra seca e oliveiras retorcidas que parecem esculturas vivas, até que, de repente, a cidade surge empilhada sobre a colina como uma miragem: uma cascata de casas totalmente brancas, coroada por uma catedral elegante. Eu sabia que Ostuni era bonita. Mas ninguém tinha me contado que ela mudava de cor com o dia — leite na manhã, marfim ao meio-dia, ouro pálido no entardecer. É esse jogo de luz que me fez voltar outras vezes, sempre com a sensação de que estava conhecendo uma cidade ligeiramente diferente.
Também foi aqui que entendi, de vez, um traço que atravessa toda a Puglia: a beleza é indissociável da vida real. Ostuni não é uma vitrine perfeita; é uma cidade que vive, respira e se movimenta, com crianças correndo pelas ruelas íngremes, senhoras regando vasos de gerânios nas janelas, conversas ao vento, um cheiro insistente de pão saindo do forno. Isso dá contexto ao cenário. E o cenário, convenhamos, é daqueles que a gente não esquece.
A primeira vez, cheguei de Brindisi. Duas curvas depois, a cidade me acertou em cheio. Parei num mirante improvisado, meio sem jeito, e fiquei alguns minutos só olhando, como quem tenta memorizar um rosto. Nas viagens seguintes, passei a procurar esse mesmo ponto de observação quase como ritual. Sempre valia a pena. Ostuni é isso: você cria seus próprios pequenos rituais, e de repente eles viram parte da história.
Quando ir, para ver Ostuni no seu estado de graça? Se você puder escolher, fique com maio, junho, setembro ou começo de outubro. A luz é generosa, as temperaturas são amigáveis, o mar ali perto já (ou ainda) está convidativo e a cidade respira no ritmo certo. Julho e, principalmente, agosto trazem calor forte e muita gente — ainda é lindo, claro, mas tudo pede mais paciência e planejamento. No inverno, a beleza ganha um tom de melancolia doce; alguns negócios fecham, o vento corta mais, e o silêncio preenche as ruelas de um jeito quase cinematográfico. Eu gosto desse clima, mas entendo quem prefira a Ostuni festiva da primavera e do fim de verão.
Chegar é simples. Quem voa para Brindisi está a cerca de 35 km; de Bari, uns 80 km. De carro, é um sopro — e eu recomendo fortemente que você alugue um. Não para enfrentar o centro histórico (já falo das ZTL), mas para ter liberdade de ir e vir, incluir as praias, as masserie, os vilarejos vizinhos. De trem, Ostuni tem estação própria, com a ressalva essencial: ela fica na parte baixa, a uns 3 km da cidade antiga, então será preciso um táxi ou ônibus local para vencer a subida. Não é um drama, mas não é o “cheguei e entrei” de uma cidade plana. Planeje esse trecho e tudo flui.
O centro histórico é uma ZTL — zona de tráfego limitado — e as câmeras não perdoam. Deixe o carro num estacionamento nos arredores das muralhas e suba a pé. É parte da experiência. Eu costumo procurar os parkings sinalizados nas vias de acesso; sempre há um funcionário, uma cancela, uma máquina simples de pagamento. É prático. E andar é a única maneira de realmente decifrar Ostuni. As ruas se enroscam, abrem, se fecham, criam atalhos inesperados, frames perfeitos de fotografia aos montes. Sapatos com sola boa fazem toda a diferença. O piso é de calcário, lindo, mas escorregadio se estiver úmido.
A primeira caminhada que sugiro é quase um gesto intuitivo: subir da Piazza della Libertà até a Catedral. É um caminho curto, porém cheio de distrações deliciosas: portas antigas, escadarias estreitas que se bifurcam, varandas baixas com roupa no varal, um café pequenino que parece te chamar pelo nome. Não é uma cidade para ir direto, é uma cidade para ir desviando. E esse desvio quase sempre te apresenta a Ostuni de verdade.
No topo, a Catedral te espera com uma serenidade que combina com a praça. A fachada é uma joia — nem tão monumental quanto outras da Puglia, mas harmônica e cheia de detalhes, do portal trabalhado à rosácea que captura a luz de maneira hipnótica. Ultrapasse a porta com calma, deixe os olhos se acostumarem, repare nos relevos, no mármore gasto, no silêncio dos fiéis. Ao lado, um arco liga a antiga residência episcopal à igreja — o Arco Scoppa. É o ângulo fotográfico clássico, mas não por isso menos emocionante. Ali, no fim da tarde, a luz volta a dourar a cidade branca, e a gente percebe que Ostuni não é só a cor que vemos — é o modo como essa cor absorve o sol e devolve um brilho suave para quem olha.
Eu sempre quebro o caminhar com pequenas pausas. Um caffè em pé no balcão, dois goles, três palavras com o barista, e pronto: a energia muda. A gastronomia local parece ter sido pensada para essas pausas. O “fave e cicoria” — purê de favas com chicória selvagem — é de camponês, de raiz, e é perfeito para um almoço leve ou para aquecer no inverno. As “orecchiette alle cime di rapa” resumem a Puglia em um prato: simples, vegetal, honesto, com um fio de azeite que faz a ponte entre tudo. E Ostuni é território de azeites extraordinários — alguns com certificação da colina de Brindisi, outros de pequenos produtores que você conhece por acaso numa loja minúscula, num papo que começa com “posso provar?” e termina com “como eu levo duas garrafas na mala?”. Leva. Vale cada centavo, e cada sorriso do produtor quando você diz que o azeite dele vai atravessar o Atlântico.
Ostuni rende bem em dois dias inteiros, mas três dias permitem ir além do óbvio. Eu gosto de intercalar cidade e natureza. Depois de um dia pendurado nas ruelas, desço para a costa no seguinte. A “Costa Merlata” é um mosaico de enseadas — rocha, areia clara, água translúcida que muda de turquesa a azul-marinho conforme o fundo. Rosa Marina e Pilone têm mais estrutura, com beach clubs que oferecem guarda-sol, espreguiçadeira e serviço à beira-mar (preços variam com a estação). Quando quero algo mais selvagem, sigo para a Reserva Natural de Torre Guaceto. É uma faixa preservada, com dunas, trilhas, mar limpo e uma sensação de respiro que às vezes a gente esquece como é. Estacione na área oficial e caminhe um pouco. O presente vem em forma de silêncio.
Entre cidade e mar, há um terceiro cenário que me fascina: o campo. O Parco Naturale Regionale Dune Costiere, entre Ostuni e Fasano, protege um território que conta a história local de um jeito muito concreto — as dunas, os pomares, os muretes de pedra, os olivais seculares. Não são oliveiras comuns. São árvores de troncos monstruosos, retorcidos como se tivessem passado a vida dançando. Eu encosto a mão em alguns troncos e fico ali um segundo, meio ridículo, mas é como apertar a mão do tempo. Se você quiser mergulhar, algumas masserie organizam visitas guiadas, degustações, piqueniques ao pôr do sol. É a ideia certa no lugar perfeito.
Falar de masserie em Ostuni é quase obrigatório. Essas antigas fazendas fortificadas viraram hotéis e restaurantes com personalidade, sem perder o vínculo com a terra. Há as rústicas-chic, com pedra aparente e lareiras que parecem de filme; há as minimalistas contemporâneas, brancas, silenciosas, inteiramente voltadas para o horizonte; há as familiares, com o dono te explicando cada parte do jantar como quem apresenta um parente querido. Dormir numa masseria nos arredores de Ostuni muda o ritmo da viagem. Você acorda com o cheiro do campo, toma café sob a sombra de uma oliveira imensa e, quando dá por si, está discutindo com o produtor a diferença entre colheita precoce e tardia. Dica que aprendi apanhando: reserve com antecedência para a alta temporada e confirme se a masseria fica a uma distância confortável do centro histórico — 10 a 20 minutos de carro é o balanço ideal entre paz e praticidade.
E onde ficar dentro de Ostuni? Se a ideia é viver a cidade por dentro, eu gosto das casas de pedra no miolo antigo — muitas transformadas em apartamentos charmosos, com terraços que dão direto para o mar distante. Há um porém: degraus. Vários. Se escadas são um problema, prefira a área imediatamente fora da ZTL, perto da Piazza della Libertà. Ali, você chega com mais facilidade, quase sempre encontra estacionamento, e continua a poucos minutos de tudo. Em família, gosto de dividir: duas noites no centro para mergulhar na vibe urbana, duas noites numa masseria para desacelerar.
Ostuni tem mais camadas do que parece. A arqueologia, por exemplo, surpreende. Em uma das minhas voltas, acabei no complexo de Santa Maria di Agnano, onde pesquisadores encontraram a “Donna di Ostuni” — um sepultamento paleolítico, com mais de 20 mil anos, de uma mulher grávida. Há algo de comovente em se deparar com uma vida tão antiga ali, tão perto do cotidiano de gelatos e passeggiatas. O museu local e visitas guiadas contextualizam a descoberta; não é a visita mais óbvia, é verdade, mas é o tipo de história que altera o modo como você enxerga o território.
Falando em gelato: gosto de encerrar a tarde na Piazza della Libertà, olhando a Colonna di Sant’Oronzo, o padroeiro. Se você estiver na cidade na última semana de agosto, vai cair dentro da festa — a Cavalcata di Sant’Oronzo. Cavaleiros trajados, desfiles, rezas, música, um orgulho comunitário bonito de ver. É quando a Ostuni das fotos se mistura com a Ostuni da fé e da tradição. Para alguns, é barulho demais; para mim, foi um privilégio testemunhar.
Gastronomia é um capítulo que eu trato como prioridade. Vale garimpar as trattorias menos óbvias, sobretudo nas vielas que saem da via principal. Entradas de mar e campo convivem naturalmente: polvo grelhado com azeite e limão, caponata com berinjela perfumada, anchovas curadas suaves, queijos de ovelha de sabor limpo. Em um jantar marcante, provei lampascioni — bulbos de uma planta selvagem, ligeiramente amargos, que aparecem muito na cozinha salentina — servidos com azeite potente e pão quente. Viram mania. Outra mania inevitável: friselle. Roscas de pão duro, reidratadas com um pouco de água e cobertas com tomate, orégano, sal, azeite. No calor, é o lanche perfeito. E claro, burrata — nascida mais ao norte da Puglia, mas onipresente por aqui quando fresca de verdade. A faca abre, o creme escapa, e você entende por que esse pedaço de queijo ganhou o mundo.
O vinho acompanha a viagem. Primitivo e negroamaro vão aparecer em toda carta. Em noites quentes, eu cedo mais facilmente para os brancos locais: limpos, minerais, com cara de mar. Quando o garçom me sugere um rótulo da casa e os olhos dele brilham, eu aceito. Nunca me arrependi em Ostuni. E se você gosta de aprender bebendo, algumas enotecas organizam degustações curtas, que cabem antes do jantar, com explicações suficientes para virar conversas no resto da noite.
Fotografia em Ostuni pede ritmo. A cidade rende muito na primeira hora da manhã, quando o branco ainda não virou espelho. É a hora das ruas vazias, das portas entreabertas, das sombras compridas. No meio do dia, eu largo a câmera e fico só com o celular — a luz é dura, o calcário reflete, e às vezes a melhor foto é não tirar foto nenhuma. No fim da tarde, volta a mágica. Alguns terraços e baluartes oferecem vistas amplas do campo e do mar. A silhueta dos campanários contra o céu laranja é a imagem que eu trago comigo toda vez. Se você quiser um desafio, fotografe detalhes: maçanetas, dobradiças, fechos de janelas, ranhuras da pedra. É um mundo à parte.
Comprar é parte do prazer. Cerâmica de Grottaglie (a meia hora de estrada) aparece em várias lojas da cidade — pratos, jarros, os famosos galos da sorte pintados à mão. Eu sempre escolho um objeto pequeno (penso na mala), mas não resisto a um prato raso com motivos de oliveira. Produtos de azeite — sabonetes, cremes, velas — são lembranças que carregam o cheiro de volta para casa. E os taralli, aqueles anéis assados, crocantes, de diferentes sabores (funcho, pimenta, vinho), duram a viagem inteira. Quer dizer, às vezes não duram, porque eu ataquei todos já na estrada.
Por falar em estrada, Ostuni é base ideal para explorar o Vale d’Itria: Cisternino e suas bracerie, Locorotondo com sua elegância circular, Martina Franca e o barroco mais aristocrático. Em 20, 30 minutos, você muda de atmosfera sem mudar de essência. Se a curiosidade te leva mais longe, Polignano a Mare, Monopoli e até Alberobello encaixam num dia bem montado. Só não cometa o erro de empilhar destinos sem tempo de respirar. A Puglia cobra isso: vagar um pouco, sentar, olhar, ouvir. É quando o lugar conta coisas que não cabem em lista.
A logística é simples, mas alguns detalhes fazem diferença. ZTL é assunto sério: estude os limites do centro histórico e deixe o carro nos parkings oficiais. Siga a sinalização. No verão, reserve restaurantes para jantar — mesmo os pequenos, mesmo os escondidos. No resto do ano, o improviso funciona melhor. Se vier de trem, sincronize horários com o ônibus da estação (as companhias locais costumam ter horários no Google Maps, mas eu confiro no site municipal ou pergunto no hotel). Para o mar, leve sempre uma toalha leve e um sapato aquático básico — as enseadas rochosas são lindas, mas pedem sola firme.
E dinheiro? Ostuni tem opções para todos os bolsos. Um café no balcão custa pouco; um aperitivo com vista fica no meio do caminho; um jantar memorável pode ser muito acessível, a depender do vinho que você escolhe (ou do tanto de antipasti que você aceita com aquele “só mais um”). Masserie variam bastante — de charmosas a luxuosas — e, fora do pico, surpreendem pelo valor.
Eu gosto de propor um mini-roteiro que funciona quase como uma coreografia de dois dias e meio. Chegada à tarde, check-in, pôr do sol entre a Piazza della Libertà e o Arco Scoppa, jantar leve (talvez peixe do dia com um branco local). Dia seguinte, manhã inteira de cidade: catedral, ruelas, museu, pausa para um café gelado com leite de amêndoa. Tarde nas praias (Rosa Marina ou Torre Guaceto), mergulho até cansar, volta com luz dourada, gelato na praça. Segundo dia: campo e masseria — visita a olivais seculares, degustação de azeite, almoço camponês com pão, tomate, queijos e o tal do “fave e cicoria”. Final da tarde livre para um brinde num terraço, sem hora, sem roteiro. No terceiro dia, desencaixe a vontade: Cisternino para um almoço de braceria? Locorotondo para uma taça e fotos do vale? Volte de noite para ver Ostuni outra vez iluminada, como se flutuasse.
No fim, o que me prende em Ostuni não é só a cor. É a mistura. Uma cidade que ao mesmo tempo é palco e bastidor. Que se exibe sem pudor, mas mantém segredos ao alcance de quem caminha devagar. Que cheira a pão, a cal, a azeite novo. Que coloca um arco entre prédios como quem desenha uma assinatura. Que te convida para a mesa sem perguntar de onde você veio. E que, quando você vai embora, deixa no bolso um punhado de pequenas certezas: que a beleza pode ser simples, que o tempo pode ser mais macio, que a luz pode nos ensinar a olhar.
Visitar Ostuni é aceitar esse convite. É subir e descer ruelas que parecem ter sido desenhadas por uma criança genial. É sujar o solado de calcário, colecionar portas preferidas, inventar desculpas para mais um café. É ouvir o barulho da vida ecoando nas paredes brancas e entender, com o corpo todo, por que chamam este pedaço da Puglia de Cidade Branca. Talvez porque, ali, tudo vira tela. E a cada dia, você pinta um pouco diferente.