Visite o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza em Madrid na Espanha

No coração do Paseo del Prado, em Madri, ergue-se um elegante palácio do século XVIII que abriga uma das histórias mais extraordinárias do mundo da arte. O Museu Nacional Thyssen-Bornemisza não é apenas um museu; é o legado de uma paixão familiar que atravessou duas gerações e que resultou na segunda maior coleção de arte privada do mundo. Ao lado de seus vizinhos gigantes, o Prado e o Reina Sofía, o Thyssen completa o “Triângulo da Arte” de Madri, oferecendo uma perspectiva única e abrangente: uma viagem cronológica e quase ininterrupta por setecentos anos de história da arte ocidental.

Museu Nacional Thyssen-Bornemisza

Diferente de outros grandes museus, que nasceram de coleções reais ou eclesiásticas, o Thyssen é o triunfo do colecionismo privado. Sua coleção é um reflexo do gosto pessoal, da visão e da determinação de um pai e um filho que reuniram obras-primas que preenchem as lacunas deixadas por outras instituições. Visitar o Thyssen é como folhear uma enciclopédia da pintura, passando dos primitivos italianos ao impressionismo, do expressionismo alemão à pop art, tudo sob o mesmo teto.


A Saga de uma Coleção: A Paixão da Família Thyssen-Bornemisza

A história do museu é a história de uma dinastia industrial e de sua paixão pela arte. A coleção foi iniciada na década de 1920 pelo Barão Heinrich Thyssen-Bornemisza (1875-1947), um industrial alemão-húngaro. Com uma fortuna construída no aço e em armamentos, o Barão começou a adquirir obras de mestres antigos, especialmente da Renascença alemã, italiana e flamenga, em um momento em que muitas coleções aristocráticas europeias estavam sendo desfeitas. Sua visão era reunir um acervo que abrangesse toda a história da pintura europeia.

Após sua morte, a coleção foi dividida entre seus herdeiros. Foi seu filho, o Barão Hans Heinrich “Heini” Thyssen-Bornemisza (1921-2002), quem assumiu a monumental tarefa de não apenas reunir as obras dispersas de seu pai, mas de expandir a coleção de forma exponencial. Com um olhar apurado e uma mente aberta, “Heini” começou a adquirir obras de movimentos que seu pai havia ignorado, como o impressionismo, o pós-impressionismo, as vanguardas do século XX e a pintura norte-americana.

Ele e sua quinta esposa, Carmen “Tita” Cervera, uma ex-Miss Espanha, transformaram a coleção em um acervo verdadeiramente enciclopédico. A coleção cresceu tanto que a Villa Favorita, a mansão da família em Lugano, na Suíça, já não era suficiente para abrigá-la.


A “Batalha dos Museus”: Por que Madri?

No final da década de 1980, ficou claro que a coleção precisava de uma nova casa, um espaço público que pudesse exibi-la adequadamente. O que se seguiu foi uma intensa disputa internacional, uma verdadeira “batalha dos museus”. Governos e instituições de todo o mundo, incluindo o Reino Unido (com propostas de Margaret Thatcher), Alemanha, França e a Fundação Getty nos Estados Unidos, fizeram ofertas milionárias para abrigar o tesouro dos Thyssen.

A Espanha, impulsionada pela forte conexão de Carmen Cervera com seu país natal e pelo empenho do governo espanhol, entrou na disputa. A oferta espanhola não era a mais alta financeiramente, mas era a mais sedutora culturalmente. O governo ofereceu o Palácio de Villahermosa, um edifício neoclássico estrategicamente localizado em frente ao Museu do Prado, e prometeu uma reforma completa para transformá-lo em um museu de classe mundial.

Destaque: A Decisão Final
Em 1988, o Barão Thyssen assinou um acordo de empréstimo de dez anos com a Espanha. O museu abriu suas portas em Madri em 1992, e o sucesso foi imediato. A forma como a coleção complementava perfeitamente o Prado (focado em mestres antigos até Goya) e o Reina Sofía (dedicado à arte moderna e contemporânea a partir de Picasso) foi um triunfo. A decisão de ficar em Madri foi selada em 1993, quando o Estado espanhol adquiriu a maior parte da coleção (775 obras) por 350 milhões de dólares, um valor considerado simbólico, muito abaixo de seu preço de mercado. Foi uma das maiores transações culturais do século XX, garantindo que a paixão de uma família se tornasse patrimônio de uma nação.


Uma Viagem no Tempo: A Organização Cronológica

Uma das características mais geniais e apreciadas do Museu Thyssen-Bornemisza é sua organização. Diferente da disposição por escolas nacionais do Prado, o Thyssen organiza sua coleção permanente de forma estritamente cronológica. A visita começa no segundo andar com os primitivos italianos do século XIII e, à medida que o visitante desce para o primeiro e o térreo, ele avança no tempo, passando pela Renascença, Barroco, Rococó, Romantismo, Impressionismo, Expressionismo, Cubismo, Surrealismo e Pop Art.

Essa disposição permite uma compreensão clara e didática da evolução da história da arte. Em poucas horas, é possível testemunhar a transição da pintura religiosa para a secular, o desenvolvimento da perspectiva, a revolução da luz e da cor dos impressionistas e a fragmentação da forma nas vanguardas.


Obras-Primas que Preenchem Lacunas

O grande valor do Thyssen é que ele possui obras-primas de movimentos artísticos que estão sub-representados ou ausentes em outras coleções espanholas. É o único lugar em Madri onde se pode ver uma coleção tão completa de:

  • Primitivos Italianos e Flamengos: Obras de Duccio, Jan van Eyck e seus contemporâneos que mostram o início da pintura sobre painel.
  • Renascimento Alemão: Retratos icônicos de Hans Holbein e obras de Dürer e Cranach.
  • Pintura Holandesa do Século XVII: Cenas de gênero e paisagens que complementam as coleções do Prado.
  • Impressionismo e Pós-Impressionismo: Uma das seções mais populares, com obras de Monet, Renoir, Degas, Van Gogh (“Les Vessenots em Auvers”), Gauguin e Cézanne.
  • Expressionismo Alemão: O Thyssen possui uma das melhores coleções do mundo fora da Alemanha, com obras de Kirchner, Nolde e Kandinsky.
  • Vanguardas Russas e Construtivismo: Movimentos raros de se ver na Espanha.
  • Pintura Norte-Americana: Desde o século XIX até a Pop Art, com obras de Winslow Homer, Edward Hopper (“Quarto de Hotel”) e Roy Lichtenstein.

A Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza

Além da coleção principal, o museu abriga, em um edifício anexo, a Coleção Carmen Thyssen-Bornemisza. Esta é a coleção pessoal da Baronesa, que continuou a adquirir arte após a morte de seu marido. Focada principalmente na pintura espanhola do século XIX e início do século XX, ela preenche outra lacuna importante, conectando o final do acervo do Prado (Goya) com o início do Reina Sofía (Picasso). Obras de Sorolla, Zuloaga e outros mestres do modernismo catalão brilham nesta seção.

O Museu Thyssen-Bornemisza é, portanto, a peça-chave que dá sentido ao “Triângulo da Arte”. É a ponte que conecta mundos, o fio que costura séculos de criatividade. É a prova de que uma coleção, nascida da paixão e da visão de indivíduos, pode se tornar um tesouro universal, oferecendo a cada visitante uma jornada pessoal e inesquecível pela história da beleza.

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