Visite o Lago Potrerillos, o Parque Nacional Aconcagua, a Puente del Inca e Uspallata Perto de Mendoza
Para muitos, Mendoza é sinônimo de vinho. Mas para além das vinícolas e das taças de Malbec, existe uma outra Mendoza, uma que se revela em sua forma mais selvagem, grandiosa e avassaladora. É a Mendoza da Alta Montanha, uma jornada pela mítica Rota Nacional 7 que sobe em direção à fronteira com o Chile, rasgando a Cordilheira dos Andes em um espetáculo de cores, geologia e história. Este não é apenas um passeio; é uma peregrinação a alguns dos cenários mais impressionantes da América do Sul. Deixe a taça de lado por um dia e prepare-se para ter o fôlego roubado pelo espelho d’água turquesa do Lago Potrerillos, pela imensidão do Parque Aconcágua, pela beleza surreal da Puente del Inca e pelo vale cinematográfico de Uspallata. Esta é a rota para o céu, uma experiência que redefine a escala da natureza e marca a alma do viajante para sempre.

O tour da Alta Montanha é um clássico, oferecido pela maioria das agências de turismo em Mendoza e também facilmente realizável de carro alugado para os mais aventureiros. O percurso completo de ida e volta pode chegar a 400 quilômetros, exigindo um dia inteiro de dedicação. Mas cada quilômetro é recompensado com uma paisagem que se transforma drasticamente, saindo da aridez da pré-cordilheira para os picos nevados que tocam as nuvens. É uma imersão na geografia, na história e na força bruta dos Andes.
Primeira Parada: Lago Potrerillos – O Oásis Turquesa dos Andes
A jornada começa a apenas 60 quilômetros de Mendoza, mas a paisagem já anuncia que estamos entrando em outro mundo. A primeira grande aparição é o Dique Potrerillos, uma monumental obra de engenharia que represou as águas do Rio Mendoza e criou um lago artificial de uma cor inacreditável. O azul-turquesa ou verde-esmeralda do Lago Potrerillos, dependendo da luz e da época do ano, contrasta de forma espetacular com os tons ocres e avermelhados das montanhas ao redor, criando um cartão-postal de boas-vindas.
A Experiência: Potrerillos é mais do que um ponto para fotos. No verão, o lago se transforma em um centro de atividades náuticas. É possível praticar caiaque, stand-up paddle, windsurf e até mesmo fazer passeios de barco. As margens do lago são pontilhadas por pequenas vilas e clubes que oferecem infraestrutura para passar o dia, com restaurantes e áreas de piquenique. Para quem faz o tour de um dia, a parada é estratégica para um café, para usar os banheiros e, principalmente, para absorver a primeira grande vista panorâmica da cordilheira. A energia do lugar é contagiante, uma mistura de paz e aventura.
Dica do Viajante: A melhor vista do lago geralmente se tem logo no início, em um dos primeiros mirantes da estrada. Não hesite em parar o carro (com segurança) para garantir a foto clássica. A luz da manhã costuma ser a mais bonita, realçando a cor da água.
Segunda Parada: Uspallata – O Vale Cinematográfico e o Portal para os Andes
Continuando a subida pela Rota 7, o próximo ponto de referência é o Vale de Uspallata. Esta ampla planície a cerca de 2.000 metros de altitude funciona como um oásis no meio do caminho montanhoso. A pequena e charmosa cidade de Uspallata é o principal centro de serviços da região, com restaurantes, postos de gasolina e hotéis. Mas sua fama vai muito além da conveniência.
A Experiência: Uspallata tem uma aura mística e cinematográfica. Foi aqui que foram filmadas cenas do filme “Sete Anos no Tibet”, estrelado por Brad Pitt, que encontrou no vale andino a semelhança perfeita com a paisagem do Himalaia. A cidade também é um ponto histórico crucial, tendo sido parte da rota do Exército dos Andes, liderado pelo General San Martín em sua campanha de libertação do Chile e do Peru.
Uma parada imperdível nas proximidades é o “Cerro de los Siete Colores” de Uspallata (não confundir com o mais famoso de Purmamarca, no norte da Argentina). As diferentes camadas de sedimentos minerais criam uma paleta de cores fascinante na montanha. Outro ponto de interesse são as “Bóvedas Uspallata”, construções de adobe do século XVIII usadas para processar minerais e que também serviram de apoio ao exército de San Martín. Parar em Uspallata é a chance de fazer uma refeição, sentir a atmosfera de uma cidade de montanha e entender sua importância estratégica e histórica.
Dica do Viajante: Muitos tours fazem a parada para o almoço em Uspallata na volta. Se estiver por conta própria, considere um almoço em um dos restaurantes que servem o “chivito” (cabrito) assado, uma especialidade local.
Terceira Parada: Puente del Inca – A Obra de Arte da Natureza
Avançando ainda mais pela Rota 7, a paisagem se torna cada vez mais árida e dramática. É então que surge uma das formações geológicas mais curiosas e belas do planeta: a Puente del Inca. Declarada Monumento Natural, esta ponte de rocha não foi esculpida pelo homem, mas pela ação combinada de um antigo rio e das águas termais sulfurosas que brotam no local.
A Experiência: A ponte natural, com seus tons vibrantes de amarelo, laranja e ocre, é um espetáculo visual. As águas ricas em minerais, ao escorrerem pela estrutura, depositaram sedimentos que a “cimentaram” e a coloriram ao longo de milhares de anos. Abaixo da ponte, correm as águas do Rio Las Cuevas. No passado, um luxuoso hotel termal funcionava ali, aproveitando as propriedades curativas das águas. Hoje, restam apenas as ruínas do hotel, que foi destruído por uma avalanche em 1965, adicionando um ar melancólico e fantasmagórico à paisagem.
Atualmente, não é mais permitido caminhar sobre a ponte para garantir sua preservação, mas uma série de passarelas e mirantes permite observá-la de vários ângulos. Ao redor, uma pequena feira de artesanato vende produtos locais, incluindo objetos “petrificados” pela água mineralizada.
Dica do Viajante: O cheiro de enxofre é forte no local, mas faz parte da experiência. Aproveite para observar os detalhes da coloração da rocha e imaginar como era a vida no antigo hotel termal.
Quarta Parada: Parque Provincial Aconcágua – Cara a Cara com o Gigante da América
Este é o clímax da jornada. A poucos quilômetros da fronteira com o Chile, a entrada do Parque Provincial Aconcágua nos coloca aos pés do “Sentinela de Pedra”, a montanha mais alta das Américas e de todo o Hemisfério Sul, com seus imponentes 6.962 metros de altitude.
A Experiência: Para o turista do tour de um dia, a visita ao parque consiste em uma caminhada leve e acessível. Após pagar uma taxa de entrada, um circuito de trekking de aproximadamente 40 minutos a uma hora (ida e volta) leva até a Laguna de Horcones. Este lago de degelo, com sua cor intensa, serve como um espelho para a majestosa parede sul do Aconcágua.
Estar ali é uma experiência de humildade. A imensidão da montanha, o silêncio quebrado apenas pelo vento, o ar rarefeito da altitude (a entrada do parque está a quase 3.000 metros) e a visão dos picos eternamente nevados criam um sentimento de profunda conexão com a natureza. É possível avistar alpinistas se preparando para a expedição de suas vidas, o que adiciona uma camada de admiração e respeito ao ambiente. A sensação de estar diante do “Teto das Américas” é poderosa e inesquecível.
Dica do Viajante: Vá preparado para o clima. Mesmo em um dia de sol em Mendoza, na Alta Montanha o tempo pode mudar rapidamente. Leve agasalho, protetor solar, óculos de sol e chapéu. Beba muita água para ajudar com os efeitos da altitude e caminhe devagar, respeitando os limites do seu corpo.
Uma Jornada de Transformação
O tour da Alta Montanha é muito mais do que uma sucessão de belas paisagens. É uma narrativa sobre a força da natureza, a resiliência humana e a passagem do tempo. Começa com a beleza serena de Potrerillos, um convite ao relaxamento. Passa pela história e pelo cenário de cinema de Uspallata, um portal para um mundo diferente. Surpreende com a arte geológica da Puente del Inca, uma prova da criatividade do planeta. E culmina com a grandiosidade avassaladora do Aconcágua, um lembrete de nosso lugar no universo.
Voltar para Mendoza ao final do dia, com a retina cheia de imagens espetaculares e os pulmões cheios de ar puro da montanha, é voltar transformado. A experiência coloca em perspectiva não apenas a geografia da Argentina, mas a nossa própria existência. E prova, sem sombra de dúvida, que os maiores tesouros de Mendoza não estão apenas em suas garrafas, mas também no topo de suas montanhas.