Visita na Vinícola Catena Zapata em Mendoza: Modismo ou Realmente Vale a Pena?
Aninhada aos pés da majestosa Cordilheira dos Andes, uma estrutura piramidal que remete a um templo maia se destaca na paisagem de Luján de Cuyo, em Mendoza. Trata-se da Bodega Catena Zapata, um nome que se tornou sinônimo de vinho argentino de alta qualidade e um dos destinos mais cobiçados por enófilos do mundo todo. Mas em meio à fama, prêmios e a alta demanda por visitas, surge a pergunta: a experiência em Catena Zapata é um fenômeno passageiro, impulsionado pelo marketing, ou uma peregrinação que realmente justifica sua reputação?

Mendoza é a principal província vinícola da Argentina, responsável por cerca de 80% da produção nacional, com mais de 1.200 vinícolas, das quais pelo menos 170 estão abertas à visitação. Nesse universo vasto e competitivo, Catena Zapata não apenas se destaca, mas frequentemente dita tendências. A vinícola foi eleita em 2023 como a melhor do mundo para turismo pelo prestigiado ranking “World’s Best Vineyards”, o que apenas intensificou a procura por um lugar em suas concorridas degustações. Conseguir uma reserva exige planejamento, com agendamentos que podem precisar de dois a três meses de antecedência.
Essa exclusividade e a aura de “item obrigatório” em um roteiro por Mendoza podem gerar ceticismo. Seria a visita apenas para “ticar” um item da lista ou há substância por trás da fachada imponente? A resposta, como os vinhos complexos que a família Catena produz, reside em camadas de história, inovação e, claro, na experiência sensorial.
Um Templo Erguido sobre História e Revolução
Para entender o valor de uma visita à Catena Zapata, é preciso primeiro compreender seu papel fundamental na história do vinho argentino. A saga começa em 1902, quando o imigrante italiano Nicola Catena plantou seu primeiro vinhedo de Malbec. Naquela época, a uva era majoritariamente usada em cortes em Bordeaux, mas Nicola suspeitava que ela poderia atingir seu esplendor máximo no terroir andino.
Seu filho, Domingo, expandiu os negócios, mas foi o neto, Nicolás Catena Zapata, um economista com Ph.D., quem orquestrou a grande revolução. Inspirado pela ascensão dos vinhos de Napa Valley, na Califórnia, durante um período como professor visitante na Universidade de Berkeley nos anos 80, Nicolás voltou à Argentina com uma visão clara: produzir vinhos que pudessem competir em pé de igualdade com os melhores do mundo.
Ele abandonou a produção a granel para focar em vinhos finos, introduziu técnicas de vinificação europeias e americanas, e, o mais importante, liderou a “revolução da alta altitude”. Nicolás foi pioneiro em explorar terroirs em altitudes extremas, como o vinhedo Adrianna, a quase 1.500 metros acima do nível do mar, desafiando a crença de que uvas não amadureceriam em condições tão frias. Essa aposta visionária revelou que a altitude, com sua intensa exposição solar e grande amplitude térmica, poderia produzir uvas Malbec com uma complexidade, elegância e capacidade de envelhecimento sem precedentes.
A icônica pirâmide, que hoje é o cartão-postal da vinícola, foi inaugurada em 2001. Inspirada nos templos maias de Tikal, na Guatemala, a estrutura foi uma escolha deliberada de Nicolás para simbolizar um “templo do vinho”, um marco que representa a nobreza e a importância que a família atribui à sua missão. Portanto, a visita não é apenas a um prédio bonito, mas a um monumento que celebra a história de uma família que elevou o status de todo um país no cenário vinícola global.
A Experiência da Visita: Entre a Grandiosidade e o Terroir
As visitas à Catena Zapata são estruturadas para serem mais do que uma simples degustação. Elas são uma imersão na filosofia da família. O tour padrão geralmente começa com um vídeo que narra a trajetória da vinícola, seguido por um passeio pela impressionante arquitetura da pirâmide. O visitante passa por salas de barricas meticulosamente organizadas, que parecem um anfiteatro, e por adegas que guardam safras históricas e a coleção particular da família.
Um dos pontos altos é a explicação sobre os diferentes vinhedos da família – Angélica, La Pirámide, Nicasia, Domingo, Adrianna e Angélica Sur. Os guias detalham como cada um desses terroirs, com suas altitudes e composições de solo distintas, contribui com características únicas para os vinhos. Essa abordagem de “parcelas”, onde cada pequeno lote de terra é cultivado e vinificado separadamente, é um dos segredos da complexidade dos rótulos da Catena.
A degustação, momento mais aguardado, é conduzida de forma técnica e educativa. Dependendo do tour escolhido, os visitantes podem provar desde a linha D.V. Catena até os rótulos mais icônicos como o Angélica Zapata, o Catena Zapata Malbec Argentino e, para os mais afortunados, o Nicolás Catena Zapata, um vinho que em degustações às cegas já superou ícones mundiais como o Château Latour e o Opus One.
Embora alguns visitantes descrevam o tour como um tanto “turístico” e impessoal devido aos grupos, a qualidade inegável dos vinhos servidos e a riqueza das informações compartilhadas costumam superar essa impressão. A experiência é desenhada para ser grandiosa e profissional, refletindo a própria marca.
Analisando o Custo-Benefício: O Veredito
Os tours na Catena Zapata não são baratos, e os preços variam consideravelmente dependendo da seleção de vinhos a ser degustada. Isso, somado à dificuldade de agendamento, leva muitos a questionarem se o investimento vale a pena, especialmente quando Mendoza oferece centenas de outras excelentes vinícolas, muitas delas com experiências mais intimistas e acessíveis.
A resposta depende do perfil do viajante.
Para o entusiasta do vinho e o estudioso: A visita é praticamente indispensável. É uma oportunidade de provar, na fonte, vinhos que são referência mundial e de entender em profundidade o conceito de terroir de altitude que revolucionou a viticultura argentina. É uma aula de história, arquitetura e enologia.
Para o turista que busca uma experiência memorável: A grandiosidade da pirâmide, a paisagem deslumbrante dos vinhedos com os Andes ao fundo e a chance de degustar vinhos de fama mundial criam uma experiência inesquecível. É um programa que entrega o que promete: excelência e um toque de espetáculo.
Para o viajante com orçamento limitado ou que prefere experiências mais rústicas: Talvez outras vinícolas familiares menores em Maipú ou no Vale de Uco ofereçam uma conexão mais pessoal e um custo menor. No entanto, mesmo para esses, existe a opção de visitar a loja da vinícola sem custo e sem reserva, onde é possível comprar vinhos e outros produtos, e ainda assim admirar a arquitetura externa da pirâmide.
Mais do que Modismo, um Marco
A visita à Catena Zapata transcende o modismo. A fama não é vazia; ela é construída sobre uma base sólida de mais de um século de trabalho, inovação disruptiva e uma busca incansável pela qualidade. A vinícola não é apenas um lugar para beber bom vinho, mas um centro de pesquisa e um símbolo do potencial argentino.
A experiência pode não ter o charme rústico de uma pequena bodega familiar, mas compensa com uma aula magna sobre a arte e a ciência do vinho, em um cenário que é, por si só, uma obra de arte. É a chance de estar no epicentro da revolução do Malbec e de compreender por que o nome Catena Zapata é reverenciado nos quatro cantos do mundo.
Portanto, a resposta é sim, realmente vale a pena. Planeje com antecedência, prepare o bolso e a taça. A peregrinação ao templo do Malbec em Mendoza é uma experiência que justifica cada gota de sua fama.