Viagem de Trem de Tóquio Para Sapporo

Viajar de Trem de Tóquio Para Sapporo é Uma Das Rotas Ferroviárias Mais Épicas do Japão — Mas Tem Segredos Que Poucos Contam.

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Antes de tudo: ninguém faz essa viagem de trem porque é rápido. Fazem porque é uma experiência à parte — e porque atravessar o Japão de Honshu até Hokkaido passando por dentro de um túnel submarino já vale o ingresso. Se você quer velocidade, pega o avião. Se quer uma jornada que te dá contexto geográfico do país e ainda entrega paisagens que não aparecem em nenhum guia turístico, o trem é o caminho.

A rota existe desde 2016, quando o Hokkaido Shinkansen foi inaugurado. Mas ela não é direta. Não existe, hoje, um trem que sai da Estação de Tóquio e chega até a Estação de Sapporo sem parar para trocar. A extensão completa do Shinkansen até Sapporo estava prevista para 2030, foi adiada e agora a previsão oficial é para 2038 ou 2039. Por enquanto, quem quer fazer a viagem de trem precisa entender que são dois trens, uma baldeação, e cerca de oito horas de viagem no total. Isso não é problema — é parte da aventura. Mas tem que saber antes de sair de casa.

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A Rota Completa: Como Funciona na Prática

A viagem começa na Estação de Tóquio. Você embarca no Hayabusa, o Shinkansen mais veloz da linha Tohoku, que opera em conjunto entre a JR East e a JR Hokkaido. O nome significa “falcão-peregrino” em japonês — e ele realmente voa. Entre Tóquio e Sendai, o trem atinge até 320 km/h.

O Hayabusa segue para o norte: Omiya, Sendai, Morioka, Shin-Aomori. Já passaram quase três horas. Depois de Shin-Aomori, você entra no trecho que é, tecnicamente, o Hokkaido Shinkansen propriamente dito. E aqui começa algo que pouca gente menciona nos guias: o trem entra no Túnel Seikan.

O Seikan é um dos túneis mais longos do mundo — cerca de 54 quilômetros, com 23 deles completamente submersos sob o Estreito de Tsugaru, que separa as ilhas de Honshu e Hokkaido. Você está dentro de um trem, a 260 km/h, embaixo do fundo do mar. Parece pouca coisa quando descrito assim, mas dentro do trem existe um momento em que você percebe que está cruzando de uma ilha para outra sem ver a água, sem sentir o mar, sem nenhum drama — e isso tem um peso estranho e bom.

Após o túnel, o trem chega a Shin-Hakodate-Hokuto. Essa é a baldeação.


A Baldeação em Shin-Hakodate-Hokuto

Esse ponto merece atenção porque confunde muita gente. A estação de Shin-Hakodate-Hokuto não é a estação de Hakodate. São estações diferentes, separadas por uns 20 minutos de trem local. Se você quiser visitar Hakodate — e eu recomendo muito, a cidade é linda — você pega o trem Hakodate Liner nessa estação e chega lá por cerca de 360 ienes.

Mas se o destino é Sapporo, você segue em frente. A conexão em Shin-Hakodate-Hokuto é com o Super Hokuto, um trem expresso limitado que percorre a linha convencional de Hokkaido até Sapporo. Esse trecho leva aproximadamente 3 horas e 30 minutos.

O Super Hokuto não é Shinkansen. É um trem convencional, mas de bom padrão, com assentos confortáveis. E o percurso tem algo que o Shinkansen não tem: a paisagem de Hokkaido se abrindo pela janela, com campos agrícolas imensos, montanhas cobertas de neve no inverno, e aquela sensação de estar indo cada vez mais para dentro de uma ilha que parece outro país dentro do Japão.

Chegada em Sapporo Station. Total da viagem: em torno de 7 horas e 30 minutos a 8 horas, dependendo do horário e do tempo de espera na baldeação.


Quanto Custa e O Que Vale a Pena Comprar

Esse é o ponto onde muita gente tropeça, porque as opções são várias e cada uma faz sentido para um tipo de viagem diferente.

Compra avulsa, sem pass:

O trajeto completo — Tóquio a Shin-Hakodate-Hokuto no Hayabusa mais Super Hokuto até Sapporo — custa em torno de 31.000 a 32.000 ienes na classe padrão. Isso equivale, na cotação atual, a algo entre R$ 1.400 e R$ 1.600 dependendo do câmbio do dia. Não é barato. E aí o avião começa a parecer atraente, porque voos de Tóquio a Sapporo saem por 5.000 a 15.000 ienes dependendo da companhia e da antecedência da compra.

Com o Japan Rail Pass:

A viagem inteira é coberta pelo Japan Rail Pass global — tanto o Hayabusa quanto o Super Hokuto são trens JR. Se você já vai usar o pass para outras rotas na sua viagem (Tóquio-Quioto, Quioto-Hiroshima, por exemplo), a conta fecha facilmente. O pass de 14 dias custa em torno de 50.000 ienes e cobre tudo isso.

Existe também um pass regional chamado JR East South Hokkaido Rail Pass, que é mais específico e pode ser interessante se o roteiro se concentra no norte do Honshu e em Hokkaido. Vale comparar os dois dependendo de como está estruturado o seu roteiro.

Um detalhe importante que aprendi na prática: a reserva de assento é obrigatória no Hayabusa. Você não pode simplesmente comprar o pass e embarcar — precisa reservar. Isso pode ser feito gratuitamente nos guichês JR com o pass na mão, ou online através do site oficial da JR. Durante temporada alta — especialmente nas semanas do Festival da Neve de Sapporo em fevereiro — os trens lotam, e a reserva precisa ser feita com antecedência séria.


Os Horários e Como Planejar a Saída

Os primeiros trens Hayabusa de Tóquio em direção a Hokkaido saem a partir das 5h43 da Estação de Tóquio. Se você pegar um trem cedo, chega em Sapporo no começo da tarde. Isso é ideal para aproveitar o dia.

Os últimos trens partem até por volta das 11h36, chegando a Sapporo no fim da tarde ou início da noite. Não existe serviço noturno de Shinkansen — o sistema para durante a madrugada para manutenção.

Existiam trens noturnos históricos na rota Tóquio-Sapporo, como o lendário Hokutosei e o Cassiopeia, que faziam a viagem overnight em cabines com camas. Foram descontinuados. Quem ia com saudade desse tipo de viagem vai precisar se contentar com a memória ou partir para a balsa como alternativa de viagem lenta.


A Alternativa Que Quase Ninguém Considera: a Balsa

Existe uma rota de balsa entre o porto de Oarai — cerca de 100 quilômetros a nordeste de Tóquio — e o porto de Tomakomai, a uns 50 quilômetros ao sul de Sapporo. A travessia leva cerca de 18 horas, e as balsas têm diferentes categorias de cabines, desde dormitórios coletivos até suítes razoavelmente confortáveis.

Eu nunca fiz essa rota, mas conheço gente que fez e voltou encantada. O custo é geralmente mais baixo do que o trem, tem um aspecto de aventura que o avião não tem, e você chega em Hokkaido pelo mar — o que tem uma poesia própria. Para quem não tem pressa e quer uma experiência fora do comum, vale pelo menos considerar.


Trem ou Avião? A Comparação Honesta

Essa é a pergunta que todo mundo faz, e a resposta depende do que você está buscando.

De avião: 90 minutos de voo. Preços que começam em 5.000 ienes e sobem dependendo da antecedência e da companhia. Você chega ao Aeroporto de New Chitose e pega um trem de 40 minutos até o centro de Sapporo. Total de porta a porta: em torno de 4 a 5 horas quando você conta deslocamento até o aeroporto, check-in, espera e transporte no destino.

De trem: 8 horas de viagem. Custa mais, entre 30.000 e 32.000 ienes avulso. Mas você embarca no centro de Tóquio e desembarca no centro de Sapporo, sem aeroporto, sem fila de check-in, sem limitação de bagagem. E tem a janela.

A janela é o argumento definitivo para o trem. Entre Tóquio e Sendai, o Tohoku desfila cidades, vales e o contorno da cadeia de montanhas que corre pelo centro do Japão. Depois de Sendai, as terras ficam mais abertas, os campos maiores. Shin-Aomori entra numa atmosfera de norte — você já sente que está longe do Japão caótico e quente das metrópoles do sul. E depois de Hakodate, quando o Super Hokuto vai cortando Hokkaido em direção a Sapporo, a paisagem muda de caráter completamente. É uma ilha diferente.

Se você for no inverno, como eu fui, tudo isso estará sob neve. As cidades pequenas que o trem passa sem parar aparecem embranquecidas, os campos são coberturas planas e brancas, e a luz de fim de tarde em Hokkaido no inverno tem uma tonalidade que não tem paralelo.

Pelo avião você não vê nada disso.


Dicas Práticas Para Não Errar

Algumas coisas que eu gostaria de ter sabido antes da primeira vez que fiz essa rota:

Reserve o assento cedo. Principalmente em fevereiro, período do Festival da Neve. Os trens saem lotados com semanas de antecedência.

Leve comida e bebida de Tóquio. Os trens têm um serviço de bordo básico, mas as ekiben — marmitas ferroviárias vendidas nas estações — são muito melhores e mais baratas. A Estação de Tóquio tem uma seleção fantástica. Comprar antes de embarcar é uma tradição japonesa que vale adotar.

Escolha o lado certo da janela. Tecnicamente, dependendo do trecho, um lado tem mais montanha e outro tem mais litoral. Mas na prática, a neve cobre tudo no inverno e a paisagem é boa nos dois lados. Não perca tempo com isso.

Chegue à estação com antecedência. Não porque os trens atrasam — eles não atrasam — mas porque a Estação de Tóquio é grande e complexa. Encontrar a plataforma certa na primeira vez leva tempo.

Guarde a passagem ou o QR Code. O sistema usa validação tanto na entrada quanto na saída da plataforma.

E por último: quando chegar em Sapporo e descer na estação, você vai ver aquelas ruas largas e aquele frio diferente e vai entender por que valeu cada hora de viagem. Tem destinos que pedem ser chegados devagar. Sapporo é um deles.

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