Vale a Pena Visitar Sapporo no Japão?
Sapporo é uma das cidades mais subestimadas do Japão — e quem já pisou lá sabe exatamente por quê isso é um erro que não se comete duas vezes.

A maioria dos roteiros clássicos de Japão segue o mesmo caminho: Tóquio, Quioto, Osaka, talvez Nara ou Hiroshima, e volta para o aeroporto. É um roteiro perfeitamente válido, mas existe um Japão diferente lá no norte, numa ilha chamada Hokkaido, numa cidade que tem uma personalidade completamente própria. Sapporo não é uma versão menor de Tóquio. É outra coisa.
Quando fui pela primeira vez, fui em fevereiro. Não por acaso — fui exatamente por causa do Festival da Neve, o famoso Sapporo Yuki Matsuri, que acontece todo ano durante uma semana no início de fevereiro. E olha, eu achei que ia ser algo bonito. Não imaginava que ia ser uma das experiências mais impactantes que tive num destino asiático.
Klook.comA Cidade Que Parece Não Ser Japão — Mas É
Tem uma coisa que pega todo mundo de surpresa ao chegar em Sapporo: a cidade parece ocidental. As ruas são largas, o traçado urbano é racional, em blocos. Não tem aquela densidade caótica e orgânica de Tóquio, nem os becos históricos de Quioto. Sapporo foi planejada com influência americana no século XIX, quando o Japão abriu suas fronteiras e chamou especialistas estrangeiros para ajudar a desenvolver Hokkaido.
O resultado é uma cidade de quase dois milhões de habitantes que tem cara de cidade do meio-oeste americano — mas com japoneses. É estranho no melhor sentido possível. Você está claramente no Japão, a língua é japonesa, os letreiros são japoneses, a comida é japonesa, o comportamento das pessoas é japonês. Mas a escala urbana te desorienteiza de um jeito bom.
Eu lembro de estar caminhando pelo centro e pensar: isso parece Toronto. Depois vi alguém escrever a mesma coisa num blog de viagens e ri, porque é a comparação mais precisa e mais improvável ao mesmo tempo.
O Festival da Neve: Aquilo Que as Fotos Não Conseguem Passar
Falar do Festival da Neve de Sapporo sem ter estado lá é quase impossível de fazer com honestidade. As fotos são bonitas, mas não transmitem a escala do negócio.
O festival acontece em três locais diferentes. O principal é o Parque Odori, uma avenida ajardinada de 1,5 quilômetro de extensão que atravessa o centro da cidade. Durante o festival, esse parque se transforma em algo que parece saído de uma fantasia. As esculturas de neve gigantes — algumas chegam a 15 metros de altura e 25 metros de largura — ficam iluminadas até as 22h, e a neve fresca caindo por cima daquilo tudo cria um ambiente que você não esquece em décadas.
O festival começou em 1950, quando estudantes do ensino médio construíram algumas estátuas de neve no parque como brincadeira. Hoje atrai em torno de dois milhões de visitantes por ano. Em 2026, as datas são de 4 a 11 de fevereiro — e se você tem algum plano de ir ao Japão nesse período, eu diria que seria uma das decisões mais acertadas da sua vida viajante.
Além das esculturas gigantes em Odori, tem o local em Susukino — o bairro de vida noturna da cidade — onde ficam as esculturas de gelo. São menores, mas com um nível de detalhe absurdo. A luz noturna atravessa o gelo e cria reflexos que nenhuma foto captura direito. E tem ainda o Tsudome, mais afastado do centro, com atividades para crianças e tobogãs de neve enormes. Se for com família, esse terceiro local vale muito.
Uma coisa que eu não esperava: o frio em fevereiro em Sapporo é sério. Não é aquele frio de paulistano reclamando de 15°C. É frio de verdade, com temperatura negativa constante, vento e neve caindo com regularidade. A cidade recebe em média cinco metros de neve por ano — é uma das cidades mais nevadas do mundo. Roupa adequada não é opcional, é sobrevivência.
A Comida. Ah, a Comida.
Sapporo tem uma coisa que poucos destinos no mundo podem oferecer: uma cena gastronômica específica da região que é simplesmente extraordinária.
Começa pelo ramen. O ramen de Sapporo é diferente do que você come em outros lugares do Japão. É um caldo denso de missô — a pasta de soja fermentada — com manteiga, milho, brotos de feijão, cebolinha e fatias de carne de porco. É o prato perfeito para o inverno local: quente, calórico, reconfortante. Existe uma rua inteira chamada Ramen Alley (Ganso Sapporo Ramen Yokocho) no centro da cidade, com estabelecimentos minúsculos onde você come cotovelo a cotovelo com o vizinho e o caldo fuma na sua frente. É glorioso.
Mas Hokkaido não é só ramen. A ilha é famosa por seus laticínios — os melhores do Japão vêm daqui — e por frutos do mar frescos. Ouriço-do-mar (uni), caranguejo (kani), vieira (hotate). O mercado de Nijo, no centro de Sapporo, funciona de manhã cedo e é onde os locais compram seu peixe. Chegar lá às sete da manhã, com frio, pegar um bowl de arroz com ouriço-do-mar fresco e comer ali mesmo, em pé, é uma experiência que vale a viagem inteira.
Tem ainda a cerveja. A Sapporo é uma das marcas de cerveja mais antigas do Japão, fundada em 1876. O museu da cervejaria fica num prédio histórico de tijolos vermelhos que é lindo por si só, e ao final do passeio você bebe uma Sapporo Classic — que só é vendida em Hokkaido — gelada. É diferente. Melhor, aliás.
O Que Fazer Além do Festival
Sapporo não vive só de neve e festival. A cidade tem uma agenda o ano inteiro, e dependendo de quando você vai, a experiência é completamente diferente.
A Torre de TV de Sapporo fica no início do Parque Odori e tem um mirante com vista para toda a avenida. É uma das poucas atrações que cobra ingresso e vale cada centavo, especialmente à noite quando o parque está iluminado.
O Antigo Gabinete do Governo de Hokkaido é um prédio de tijolos vermelhos do século XIX que sobreviveu ao tempo e fica de graça para visitar. É um dos poucos edifícios históricos de Sapporo — a cidade é relativamente nova para os padrões japoneses — e tem exposições sobre a história da ilha.
O Moerenuma Park é uma surpresa. Projetado pelo escultor americano Isamu Noguchi, é um parque gigante com formas geométricas que parecem esculturas paisagísticas. No inverno vira um campo de esqui para iniciantes. No verão, é um dos parques mais incomuns do mundo.
Para esqui de verdade, a região tem resorts excelentes a menos de uma hora de Sapporo. Niseko, que fica a cerca de duas horas de carro, é famosa mundialmente pela qualidade da neve — os japoneses chamam de Japow (Japan Powder), uma neve leve e seca que é considerada a melhor para esquiar. Quem vai para Sapporo e tem interesse em esqui não pode ignorar essa possibilidade.
No verão, a cidade muda completamente de cara. Os parques ficam verdes, há caminhadas nas montanhas ao redor, e a temperatura é deliciosamente amena quando o resto do Japão está sufocando com 35°C e umidade brutal. Julho traz o famoso Festival de Cerveja de Sapporo no Parque Odori — mesas ao ar livre, chopeiras, comida de rua e uma energia completamente diferente da frieza do inverno.
A primavera também tem seu charme particular: Sapporo é o último lugar do Japão a ter cerejeiras em flor, geralmente no final de abril e começo de maio. Quando o restante do país já passou pela febre das sakuras, Hokkaido ainda está florescendo.
Como Chegar e Se Locomover
Sapporo tem um aeroporto próprio, o New Chitose Airport (CTS), que fica a cerca de 40 minutos de trem da cidade. Há voos diretos de várias cidades do Japão, e dependendo de quando você comprar, os preços domésticos são razoáveis. De Tóquio, o shinkansen chegou a Hokkaido em 2016, mas a viagem de trem até Sapporo completa ainda leva tempo — o voo continua sendo a opção mais prática.
Dentro da cidade, o metrô funciona muito bem. São três linhas que cobrem as principais áreas turísticas e funcionam com a eficiência japonesa de sempre. Dá para se virar bem sem saber japonês — a sinalização em inglês melhorou bastante nos últimos anos.
O IC Card — o mesmo sistema de cartão recarregável que funciona em Tóquio — serve no metrô de Sapporo, o que facilita muito para quem já veio de outras cidades do Japão com o cartão carregado.
Quanto Custa Visitar Sapporo
Sapporo não é o destino mais barato do Japão, mas também não é o mais caro. A grande variável é a época.
Fevereiro, durante o Festival da Neve, é temporada alta absoluta. Os hotéis triplicam de preço e precisam ser reservados com quatro a seis meses de antecedência — sem exagero. Quem deixar para a última hora ou vai pagar absurdo ou vai ficar sem opção decente perto do centro.
Fora da temporada de neve, os preços caem bastante. Hotéis de boa qualidade ficam acessíveis, e a cidade tem uma boa oferta de alojamento em diferentes faixas de preço.
A alimentação é o ponto alto da equação custo-benefício: você come muito bem em Sapporo com um orçamento moderado. Um bowl de ramen num lugar bom custa em torno de 900 a 1.200 ienes. Uma refeição com frutos do mar frescos no mercado de manhã pode ser inesquecível por menos de 2.000 ienes.
Por Que Sapporo É Para Quem Já Foi ao Japão — e Também Para Quem Nunca Foi
Existe uma escola de pensamento que diz que Sapporo é destino para segunda ou terceira viagem ao Japão — que na primeira você tem que fazer o circuito clássico. Eu entendo o raciocínio, mas discordo em parte.
Sapporo pode muito bem ser o ponto de partida de uma viagem que depois desce para Tóquio e Quioto. A lógica de voar para o norte, explorar Hokkaido, e ir descendo até o sul funciona e evita ficar voltando para o mesmo aeroporto. Logisticamente, faz sentido.
O que eu diria é o seguinte: se você tem interesse em escapar das multidões, comer bem, sentir frio de verdade, ver neve de um jeito que vai te marcar, e conhecer um Japão que a maioria dos turistas não chega — Sapporo é a resposta. Não é o Japão dos cartões postais com gueixas e pagodes. É o Japão das sopas fumegantes, das esculturas de gelo gigantes e das ruas silenciosas no amanhecer com neve fresca cobrindo tudo.
Valeu a pena quando fui. Voltaria sem hesitar. E raramente digo isso de um lugar.