Uzbequistão: Destino Cultural do ano de 2025
Há destinos que você visita e esquece na semana seguinte. E há aqueles que ficam instalados dentro de você de um jeito que é difícil de explicar para quem não foi. O Uzbequistão pertence claramente ao segundo grupo. Eleito o Destino Cultural do Ano de 2025 pelo Voyage Awards — um dos prêmios mais respeitados do setor de turismo internacional —, o país finalmente está recebendo a atenção que merecia há décadas. E ao mesmo tempo em que o reconhecimento é justo, existe um leve receio entre quem conhece o lugar: que a fama chegue rápido demais e desfigure aquilo que torna o destino tão especial.

Por enquanto, esse risco ainda está longe de se concretizar. O Uzbequistão continua sendo um lugar onde a autenticidade não é encenada para turistas. Ela simplesmente existe.
Klook.comA Rota da Seda não é um museu
Quando se fala em Samarcanda, Bukhara e Khiva, a tendência é imaginar cidades-museu. Lugares preservados numa espécie de redoma, congelados no século XIV, exibidos atrás de vidro. Não é bem assim. Ou melhor: não é nada assim.
Samarcanda tem a Praça Registan, que é sim, uma das construções mais grandiosas que os olhos humanos já contemplaram. Três madrassas de azulejos azuis e dourados formando um conjunto que foi concebido literalmente para rivalizar com as grandes capitais imperiais do mundo. Timur — o mesmo Tamerlão que aparece nos livros de história como conquistador inclemente — queria que Samarcanda fosse o centro do mundo conhecido. E, durante um tempo considerável, foi. Essa ambição ainda está gravada em cada tijolo da cidade.
Mas o que define Samarcanda não é só a arquitetura monumental. É o que acontece ao redor dela. Os moradores que passam pela praça a caminho do trabalho, sem nem levantar a cabeça para os minaretes. O mercado que funciona a poucos quarteirões, com especiarias empilhadas em montanhas laranja e amarela. O orgulho tranquilo de quem nasceu numa cidade que foi capital de um império e sabe disso, mas não precisa anunciar.
Samarkand também carrega em 2025 o título de Capital Cultural do Mundo Islâmico, concedido pela ICESCO. É reconhecimento sobre reconhecimento. Ainda assim, a cidade não parece inflada pela vaidade.
Bukhara, a cidade que ainda respira o passado
Se Samarcanda impressiona pela escala e pela grandiosidade, Bukhara seduz de outro jeito. É uma cidade mais íntima, mais labiríntica, mais viva nas suas contradições. A cidade velha de Bukhara é Patrimônio Mundial da UNESCO há décadas, mas não parece ter se rendido à armadilha de muitos centros históricos tombados pelo mundo afora — aquela síndrome de virar cenário, de perder alma à medida que ganha visitantes.
Lá, as oficinas de artesanato ainda funcionam atrás de portas entalhadas em madeira. São portas que poderiam estar em museus, mas estão nos fundos de ateliers onde artesãos trabalham do mesmo modo que seus avós trabalhavam. Seda bordada à mão. Cerâmica pintada com padrões geométricos que remetem diretamente à matemática islâmica medieval. Instrumentos musicais feitos com técnicas transmitidas de geração em geração.
Os mercadores de Bukhara cumprimentam os vizinhos como seus ancestrais faziam. Existe uma continuidade ali que é rara, quase perturbadora para quem vem de cidades onde tudo muda a cada ciclo eleitoral.
Há uma coisa específica em Bukhara que chama atenção: a escala humana da cidade. Não existem arranha-céus se impondo sobre os minaretes. O horizonte ainda é dominado pelas construções do século X, do século XVI, do século XIX. Isso não é nostalgia, é simplesmente a arquitetura de uma cidade que não teve pressa de se destruir para se reinventar.
Khiva: uma fortaleza habitada
Khiva é a mais surpreendente das três grandes cidades do Uzbequistão, principalmente para quem chega sem grandes expectativas. A Ichan-Kala — a cidade interior amuralhada — é uma fortaleza do século XVII preservada de um jeito que parece improvável. As muralhas de barro cru seguem em pé. Os minaretes inclinados, como lembretes de que o tempo passa mas não apaga tudo.
E dentro dessas muralhas classificadas como Patrimônio da UNESCO, famílias vivem. Crianças correm entre as construções históricas. Moradores estão no mesmo espaço que os turistas, não como figuras decorativas, mas como habitantes reais de um lugar real. Isso muda completamente a experiência de visitar Khiva. Você não está caminhando por um cenário reconstituído. Está atravessando um bairro que existe há séculos e segue existindo, no mesmo ritmo, sob as mesmas paredes.
Ao entardecer, quando a luz bate oblíqua nas muralhas de terra e os azulejos dos minaretes capturam o dourado do sol, Khiva tem o aspecto daquelas imagens que você acha que só existem em pinturas orientais do século XIX. Só que é real, e você está lá no meio.
O que torna o Uzbequistão diferente de verdade
Existe um dado cultural sobre o Uzbequistão que não aparece nos guias de viagem convencionais, mas que qualquer pessoa que passe algum tempo no país vai perceber: a relação das famílias uzbecas com a transmissão de conhecimento é diferente da maioria dos lugares no mundo.
As casas são multigeracionais. Avós, pais, filhos e netos vivendo sob o mesmo teto não é exceção, é regra. O respeito pelos mais velhos não é protocolo social vazio — é estrutura genuína. E dentro dessa estrutura, o conhecimento passa de mão em mão de um jeito que produziu algo raro: artesãos que praticam tradições com cinco, seis gerações de continuidade. Em um mundo onde a palavra “artesanal” virou rótulo de marketing aplicado em qualquer coisa produzida em série, isso tem um peso diferente.
Quando você compra uma peça de seda em Bukhara ou um chapéu bordado em Khiva, não está comprando um souvenir. Está levando um objeto que carrega dentro de si um saber acumulado ao longo de mais de um século, passado de avô para pai, de pai para filho, em ciclos que a modernidade não conseguiu romper.
A hospitalidade como linguagem
Existe uma frase que resume bem a relação do povo uzbeque com os visitantes: o convidado tem um lugar especial. Não é figura de linguagem. É um valor cultural que precede o islamismo na região, que foi reforçado por séculos de vida às margens da Rota da Seda — onde receber um viajante era também receber notícias do mundo, mercadorias, histórias.
A hospitalidade começa com chá. Sempre com chá. O famoso choyxona — a casa de chá — é o equivalente uzbeque do café europeu, do bar brasileiro. É onde as conversas acontecem, onde as decisões são tomadas, onde o dia começa e termina.
Mesmo sem um idioma comum, a comunicação acontece. Um gesto para sentar. Uma xícara empurrada gentilmente na sua direção. Comida que aparece na mesa sem que você tenha pedido. Há uma generosidade nessa cultura que não exige reciprocidade imediata, que não calcula troca. Ela simplesmente existe como postura diante do outro.
Para o viajante acostumado com destinos onde turismo virou transação — onde cada sorriso tem preço e cada momento de contato humano é monetizado —, essa experiência pode ser desorientante no bom sentido. Faz lembrar que a viagem, antes de ser consumo, deveria ser encontro.
Questões práticas: o que você precisa saber antes de ir
O Uzbequistão é um país seguro. Esse dado precisa ser dito com clareza porque a localização geográfica do país — Ásia Central, fronteira com o Afeganistão ao sul — costuma gerar um alarme injustificado em quem não conhece a região. Na prática, os índices de criminalidade são baixos, a infraestrutura turística melhorou muito na última década, e os viajantes são bem recebidos.
Acesso: Não existem voos diretos do Brasil para o Uzbequistão, o que significa que qualquer roteiro vai exigir ao menos uma conexão — Istambul, Dubai e Moscou são as mais comuns. A Turkish Airlines e a Uzbekistan Airways operam rotas frequentes. De São Paulo, o tempo total de viagem fica na casa das 16 a 20 horas dependendo da conexão.
Visto: O Uzbequistão oferece e-visa eletrônico para turistas, com processamento em 3 a 6 dias úteis, validade de 90 dias e estadia máxima de 30 dias por visita. O processo é feito completamente online, sem necessidade de ir a embaixada. Para brasileiro, não é necessário visto para um máximo de 30 dias. Viajantes não precisam de visto para estadias a negócios ou turismo de até 30 dias. Para estadias mais longas, é necessário visto.
Melhor época: A primavera (meados de março a final de maio) e o outono (setembro a início de novembro) são as janelas ideais. Os verões no Uzbequistão são extremamente quentes — estamos falando de região desértica, com temperaturas que facilmente chegam a 40°C em julho e agosto. Os invernos são frios, com possibilidade de neve nas cidades mais ao norte.
Moeda: O som uzbeque é a moeda local. O câmbio é feito facilmente em bancos e casas de câmbio nas principais cidades. O país ainda funciona em grande parte com dinheiro em espécie, então vale ter notas em mãos para mercados e restaurantes menores.
Deslocamentos internos: O trem é a melhor opção para percorrer o roteiro clássico entre Tashkent, Samarkand, Bukhara e Khiva. O Afrosiyob — trem de alta velocidade que conecta Tashkent a Samarkand em pouco mais de duas horas — é moderno, pontual e barato. Para chegar a Khiva, a combinação mais comum é trem até Urgench seguido de táxi.
Custo: O Uzbequistão é um destino com excelente custo-benefício. Hospedagem de boa qualidade em riads históricos dentro da cidade velha de Bukhara, por exemplo, sai a preços muito inferiores ao que você pagaria por algo equivalente na Europa. A alimentação local é farta e barata. O plov — arroz com carne de cordeiro, cenoura e especiarias — é o prato nacional e obrigatório.
Por que 2025 é um bom momento para ir
O Voyage Awards não costuma errar quando elege destinos culturais. E a escolha do Uzbequistão em 2025 vai além do reconhecimento turístico — reflete um momento particular do país. Uma nação que passou décadas relativamente fechada, que abriu suas fronteiras de forma mais ampla nos últimos anos e que ainda está naquele ponto delicado entre o descobrimento internacional e a transformação massiva.
É um equilíbrio que não dura para sempre. Os destinos verdadeiramente autênticos têm prazo de validade não porque percam sua essência de um dia para o outro, mas porque o volume de visitantes inevitavelmente altera a dinâmica local. Já aconteceu com destinos que hoje parecem cartões-postais vazios de si mesmos.
O Uzbequistão ainda não chegou lá. A Ichan-Kala de Khiva ainda tem mais famílias do que turistas dentro de suas muralhas. O artesão de Bukhara ainda está mais interessado no processo de criação do que na venda rápida. O habitante de Samarcanda ainda passa pela Registan sem tirá-la do foco do celular.
Há uma Ásia Central que está sendo redescoberta pelo mundo, e o Uzbequistão é seu coração. Um lugar onde a história não está atrás de vidro, onde você é convidado a entrar nela — literalmente — com uma xícara de chá e sem precisar de um idioma em comum para se sentir bem-vindo.
Se você está lendo sobre esse reconhecimento internacional e se perguntando se vale a viagem longa, o visto eletrônico, a conexão em Istambul: vale. Sem dúvida, vale.