Turismo na Ilha de Hokaido no Japão

Hokkaido é a ilha do Japão onde a neve em pó encontra onsen fumegantes, vilarejos Ainu, frutos do mar gigantes e estradas vazias sob um céu imenso — e saber quando ir e como circular muda completamente a experiência (e o orçamento).

Vídeo mostras as belezas naturais da Ilha de Hokkaido

Hokkaido sempre me deu a sensação de “Japão em câmera aberta”. Em Tóquio, o olho aprende a ler detalhes; em Hokkaido, ele reaprende a medir distâncias. É uma ilha que convida a desacelerar: menos gente, mais horizonte, natureza que manda no roteiro com todas as letras. No verão, a estrada é o seu melhor amigo; no inverno, a neve reescreve as regras — do calçado ao cronograma. E, em qualquer estação, é um pedaço do país onde o peixe chega à mesa com um frescor quase agressivo, a cultura Ainu ganha voz, e a água quente dos banhos públicos parece uma religião paralela.

Por que Hokkaido é diferente
Não é só o frio. É a combinação de espaço, natureza primária e uma cultura culinária que respeita ingredientes de um jeito visceral. É também a sensação de fronteira: ursos-pardos que realmente existem (e exigem respeito), estradas que cruzam planícies inteiras sem uma curva, penínsulas de água tão azul que você duvida da câmera, e um inverno que não pede licença. Mais de uma vez eu acordei em Sapporo com a janela desenhada por cristais de gelo e fui dormir em Noboribetsu com o cheiro de enxofre do vale do “inferno” impregnado no casaco — e, no meio, comi o melhor caranguejo da vida e vi neve cair silenciosa no pátio de um santuário. É esse contraste que me faz voltar.

Quando ir (e o que esperar de cada estação)

  • Inverno (dezembro a março): Hokkaido vira sinônimo de neve “powder”. Se você esquia ou pratica snowboard, nomes como Niseko, Rusutsu, Furano e Tomamu soam como promessa. Mesmo sem pisar numa pista, é uma época mágica: festivais de neve (Sapporo Snow Festival no início de fevereiro, Asahikawa Winter Festival, Otaru Snow Light Path), cruzeiros quebra-gelo no mar de Okhotsk, esculturas de gelo em Sounkyo e no Lago Shikotsu. O frio é sério (−10 ºC não é notícia no interior), ruas escorregam, e dirigir requer experiência e pneus de inverno. É quando as onsen brilham: mergulhar numa água a 40 ºC com flocos pousando no rosto reorganiza o pensamento.
  • Primavera (abril e maio): a ilha demora mais a aquecer que Honshu. As cerejeiras florescem mais tarde (final de abril a início de maio em Hakodate; começo a meados de maio em Sapporo), e o degelo abre trilhas aos poucos. É época de ver ursos saindo da hibernação (com todo o cuidado do mundo), pássaros retornando aos pântanos de Kushiro e céu cristalino em dias frios.
  • Verão (junho a agosto): seco em comparação ao resto do Japão, com menos tufões e um calor que raramente sufoca. É a hora das estradas, dos campos de lavanda em Furano (pico em julho), das flores em Biei desenhando colchas de retalhos nos morros, das trilhas em Daisetsuzan e Shiretoko, das praias frias e belas da península de Shakotan. É também quando os ilhéus Rishiri e Rebun explodem em flores alpinas.
  • Outono (setembro a novembro): Hokkaido inicia a temporada de koyo (folhas vermelhas) antes do resto do país. Daisetsuzan costuma ser um dos primeiros lugares do Japão a se colorir (às vezes já em meados de setembro). O ar fica crocante, os onsen ficam ainda mais convidativos e a cozinha vira uma ode a cogumelos, batatas e frutos do mar gordinhos.

Como chegar e se deslocar
Chegar

  • De Tóquio, a forma mais prática é voar para o Aeroporto de New Chitose (CTS), que atende Sapporo. Voos domésticos são frequentes (LCCs como Peach e Jetstar costumam ter tarifas atraentes). Para o sul da ilha, Hakodate (HKD); para o leste selvagem, Kushiro (KUH) e Memanbetsu (MMB, para Abashiri/Shiretoko).
  • Existe o Shinkansen até Shin-Hakodate-Hokuto (via túnel de Seikan). Se sua ideia é explorar o sul (Hakodate, Onuma), faz sentido. Para Sapporo, por enquanto, ainda é complementar ao trem expresso ou a um trecho de ônibus; no dia a dia, o avião vence no tempo total.

Mover-se dentro da ilha

  • Trem: confortável e confiável entre grandes pontos (Sapporo–Otaru, Sapporo–Asahikawa, Sapporo–Hakodate). No interior, frequências diminuem e baldeações crescem. O Hokkaido Rail Pass pode compensar se você fizer muitos deslocamentos longos em poucos dias — eu calculo caso a caso.
  • Ônibus: subestimados, mas essenciais. Conectam vales, onsen e parques onde o trem não chega. Em áreas de natureza (Daisetsuzan, Akan-Mashu, Shiretoko), eles são a espinha dorsal fora da alta temporada de carro.
  • Carro: liberdade máxima, com responsabilidade máxima. O asfalto é bom, a sinalização é decente (e o GPS sempre salva), mas o inverno exige experiência com neve e gelo. Nas estações quentes, dirigir é um prazer: retas hipnóticas, lagos que aparecem do nada, estradinhas que acabam em penínsulas azuis. Sobre habilitação: visitantes precisam estar em conformidade com as regras japonesas (IDP conforme a Convenção de 1949, ou tradução oficial da CNH via JAF para alguns países). Como as exigências variam por nacionalidade, vale checar com antecedência no site da JAF e da locadora para não ter surpresa no balcão. Dica prática: reserve carro com ETC (sistema de pedágio), peça pneus de inverno na temporada fria e planeje combustível — fora das cidades, postos 24 h são raros.

Bases e regiões que contam histórias
Sapporo: porta de entrada e boa vida
Sapporo é uma cidade que entende inverno e comemora verão. O eixo Odori Park, Sapporo TV Tower e Susukino concentra o básico urbano; no museu da cerveja Sapporo, você aprende um pouco de história e termina num beer garden com jingisukan (o churrasco de cordeiro típico de Hokkaido). O soup curry nasceu aqui e deveria ser obrigatório num dia frio — caldo intenso, legumes bons, proteína à sua escolha, ardência sob medida. De Sapporo você salta para Jozankei (onsen em meio a montanhas, 40 minutos de ônibus) e para o Lago Shikotsu (água absurdamente clara). No inverno, o Sapporo Snow Festival transforma Odori em um corredor de esculturas monumentais; à noite, com luz, é de cair o queixo.

Otaru: canal, vidro e sushi que derrete
A meia hora de trem de Sapporo, Otaru tem um canal pitoresco, vitrines de vidro soprado e caixas de música — e, sim, muito restaurante bom de sushi. Quando a neve cai, a cidade fica com cara de postal; no festival Otaru Snow Light Path, lanternas e velas criam um cenário íntimo no início de fevereiro. Eu gosto de andar sem objetivo, entrar em ateliês, e terminar com um kaisendon (tigela de arroz com sashimi) que parece excesso e é só Hokkaido sendo Hokkaido.

Hakodate: mar, história e uma das melhores vistas noturnas do Japão
O mercado matinal entrega caranguejos, ouriço (uni), ovas de salmão e um ramen salgado que aquece a alma (Hakodate é famosa pelo shio ramen). Subir ao Monte Hakodate de teleférico ao entardecer é um clássico que não envelhece: a cidade se acende com o mar dos dois lados como se alguém tivesse recortado um mapa de luz. O forte Goryokaku, em forma de estrela, é lindo na floração das cerejeiras e visto do alto da torre rende fotos que fazem bonito sem filtro. Perto dali, Onuma Quasi-National Park dá um gostinho de natureza com trilhas curtas, lagos e ilhotas.

Noboribetsu e o Vale do Inferno
Cheiro de enxofre, rochas fumegantes, água que canta de quente — o Jigokudani (Vale do Inferno) é um lembrete de que Hokkaido é terra de fogo sob a neve. Ficar num ryokan com onsen aqui é uma daquelas escolhas que alteram o ritmo da viagem. Caminhar entre as fumarolas e depois mergulhar num ofurô ao ar livre, com o vapor criando um halo no frio, é experiência que não cabe em foto.

Furano e Biei: lavandas e patchworks
Em julho, os campos de lavanda da Farm Tomita (e vizinhas) tingem o ar de roxo e perfume. Mesmo fora do ápice, Biei é passeio obrigatório: “Patchwork Road” e “Panorama Road” revelam morros plantados em geometrias coloridas, intercalados por árvores solitárias fotogênicas. O Aoiike, o “Blue Pond” de Biei, é de um azul que parece ter sido inventado no computador; em pleno inverno, quando congelado, mantém uma aura meio extraterrestre.

Daisetsuzan: o coração selvagem
Maior parque nacional do Japão, Daisetsuzan é para quem gosta de trilha, vento no rosto e silêncio que estala no ouvido. Sounkyo, no norte do parque, oferece gargantas, cachoeiras e, no inverno, um festival de gelo noturno que parece sonho. Asahidake (2.291 m) é o pico mais alto de Hokkaido; o teleférico leva você a um planalto sulfuroso de crateras fumegantes, com trilhas que variam de passeio curto a pernoites de montanha. No outono, as cores chegam primeiro aqui — e chegam fortes.

Kushiro, Akan e Mashu: lagos vulcânicos e cultura Ainu
O triângulo de lagos (Akan, Mashu, Kussharo) traz águas profundas e mitos. O Lago Mashu é famoso pela transparência e pela neblina teimosa — se você pegar o lago descoberto, comemore (os Ainu diziam que ver Mashu “rouba” um pouco da sua sorte para o lago; eu prefiro pensar que ele te devolve com juros). Em Akan, procure as marimo, esferas de algas únicas e, mais importante, visite um vilarejo Ainu (Akan Ainu Kotan) para uma apresentação — é turístico, mas respeitoso o suficiente para abrir portas. Perto de Noboribetsu, o Upopoy (National Ainu Museum and Park), em Shiraoi, oferece um mergulho cuidadoso na história Ainu que me deixou com a cabeça cheia por dias.

Shiretoko: fim da estrada e começo do mundo
Peninsula Patrimônio Mundial da UNESCO, Shiretoko é lugar de urso, orca, neblina baixa e trilhas que às vezes fecham por segurança (e tudo bem). No verão, caminhadas levam a cachoeiras e platôs com vista para o mar. Em inverno, Abashiri e Shiretoko recebem o gelo marinho (ryūhyō) vindo da Sibéria — cruzeiros quebra-gelo (Aurora em Abashiri, Garinko-go em Monbetsu) colidem com placas que estalam debaixo do casco. É bonito e estranho de um jeito primitivo. Em Kushiro Marshland, os tsuru (grous-de-coroa-vermelha) dançam no frio; eu acordei às 4h para ver o nascer do sol no Otowa Bridge e ainda sinto o som seco das asas na garganta.

Niseko, Rusutsu e Tomamu: neve que vicia
Niseko é internacional e tem infraestrutura caprichada: pistas largas, fora de pista que atrai gente do mundo inteiro, restaurantes e bares animados — e preços que refletem a fama. Rusutsu é mais família, excelente em pistas e parques de neve. Furano tem um equilíbrio ótimo: cidade simpática, boa neve, vibe mais local. Tomamu é um resort completo (com a “Ice Village” no inverno e a famosa plataforma Unkai, da “mar de nuvens”, nas manhãs frias de verão). Se você nunca viu neve cair, qualquer um desses lugares entrega um primeiro amor que você vai querer repetir.

A península de Shakotan: o azul impossível
No verão, a água em torno do Cabo Kamui parece editada. É fria, transparente e, com sol, vira uma aquarela que faz a gente andar devagar só para prolongar o espanto. As trilhas são acessíveis e ventosas; num dia claro, você enxerga camadas de azul que sua memória não apaga. Para mim, Shakotan é um dos lugares que justificam alugar carro na estação quente.

Comer em Hokkaido (e por que é diferente)
Hokkaido é o prato que se serve fresco: caranguejo (taraba, kegani, zuwaigani), ovas que estouram na boca (ikura), ouriço cremoso, salmão de texturas múltiplas. Em mercados matinais (Hakodate, Nijo Market em Sapporo), o kaisendon é religião de café da manhã — e é melhor aceitar o dogma sem resistência. Ramen tem sotaque regional: miso encorpado de Sapporo (com manteiga e milho), shoyu robusto de Asahikawa, shio limpo de Hakodate. O soup curry, já citei, é abraço líquido num dia frio. O jingisukan (cordeiro grelhado com vegetais numa chapa em forma de elmo) divide opiniões; eu adoro. Laticínios são assunto sério: leite denso, manteiga boa, queijos que surpreendem quem ainda acha que o Japão é terra só de soja. Sorvete de leite fresco (soft cream) em beira de estrada tem gosto de infância. Melão Yubari, quando é época, parece indecente de tão doce. E há destilarias — a Nikka em Yoichi é passeio com aroma de barril e uma aula pequena sobre como o clima frio constrói um whisky com personalidade.

Onsen, sento e água que cura
Hokkaido tem águas para todos os humores: Noboribetsu (sulfurosa, potente), Tokachigawa (moor onsen, rica em compostos orgânicos de plantas — pele agradece), Sounkyo (montanha), Jozankei (perto de Sapporo, perfeita para um bate-volta chuvoso), Akan (cheia de histórias). A etiqueta segue o padrão japonês: banho antes de entrar, nada de roupa, cabelo preso, silêncio que respeita o lugar. Tatuagens ainda encontram restrições em alguns estabelecimentos — eu pesquiso “tattoo friendly” antes de ir e evito surpresa na porta.

Cultura Ainu além do folclore
Hokkaido é terra Ainu. Em muitos roteiros, o encontro com essa cultura aparece como exótico; para mim, faz mais sentido como centro — porque muda a forma de olhar a ilha. No Upopoy, as exibições são tão bem montadas que você sai com a sensação de ter inaugurado uma janela. Em Akan, as apresentações noturnas (danças, canto, instrumentos como o tonkori) já foram mais turísticas; nas vezes recentes, encontrei curadoria melhor, explicações mais cuidadosas e artesanato que dá vontade de trazer para casa com o respeito devido.

Dois roteiros que funcionam (de verdade)

  • 7 dias de verão (estradas e flores)
    Dia 1: Sapporo sem pressa (Odori, soup curry, cerveja no fim da tarde).
    Dia 2: Otaru (canal, vidro, sushi) e península de Shakotan (Cabo Kamui) — de carro, retorna a Sapporo.
    Dia 3: Furano e Biei (lavandas, Blue Pond, mirantes). Dormir em Furano.
    Dia 4: Daisetsuzan (Asahidake Ropeway, trilha curta) e seguir a Asahikawa. Ramen de jantar.
    Dia 5: Lago Akan e Mashu (mirantes, vilarejo Ainu). Dormir em Akan.
    Dia 6: Kushiro Marshland (tancho se for inverno; no verão, pântanos e observatórios). Trem ou carro de volta rumo a Sapporo (com pernoite intermediário, se necessário).
    Dia 7: Jozankei onsen e aeroporto.
  • 8 dias de inverno (neve, festivais e onsen)
    Dia 1: Chegada em Sapporo. Noite em Susukino.
    Dia 2: Sapporo Snow Festival (se for a época) + Sapporo Beer Garden (jingisukan).
    Dia 3: Otaru Snow Light Path (início de fevereiro) ou dia de ski em Teine/Kokusai (opção urbana).
    Dia 4: Trem para Asahikawa (Winter Festival) ou ônibus para Jozankei onsen.
    Dia 5–6: Estação de ski (Niseko/Rusutsu/Furano/Tomamu). Onsen e ramen no jantar.
    Dia 7: Noboribetsu (Jigokudani e ryokan com banho ao ar livre).
    Dia 8: Sapporo, compras de última hora e voo.

Dicas práticas que salvam perrengue (e dinheiro)

  • Reserve com antecedência em alta temporada: festivais de inverno e lavandas de julho lotam hotéis. Nos de onsen, meia pensão costuma valer a pena (jantar kaiseki + café, sem pensar em restaurante depois do banho quentinho).
  • Se dirigir no inverno: vá com calma, dobre margens de tempo, fique atento a estradas fechadas (informes oficiais ajudam), neve pesada exige que você escute o seu instinto. Se estiver inseguro, mude para trem/ônibus — chega um pouco mais tarde, mas chega inteiro.
  • Ursos: em áreas como Shiretoko e Daisetsuzan, siga placas e trilhas oficiais, carregue sino de urso se for para mato denso, jamais se aproxime para foto. Alimentar animais é proibido e perigoso.
  • Roupas: camadas (segunda pele térmica, fleece, casaco impermeável/corta-vento), bota com sola que gruda em gelo (ou pelo menos spikes/adaptadores para sola), luvas boas, gorro, protetor solar (neve reflete), óculos escuros. No verão, leve repelente para pântanos e trilhas.
  • Dinheiro e conexão: cartões funcionam bem nas cidades; em áreas remotas, tenha ienes em espécie. eSIM para dados evita o malabarismo com roteadores. Baixe mapas offline — sinal cai em vales.
  • Gastronomia com consciência: mercados matinais são incríveis, mas evite pedir ouriço fora da safra/local de origem — frescor manda. Caranguejo “grande demais, barato demais” em área turística costuma ser cilada. Bom sushi vive também em balcões discretos de bairro.
  • Respeito Ainu: compre artesanato de quem assina a peça, assista a apresentações com o mesmo silêncio que você levaria a um concerto — é cultura viva, não “atração”.

Pequenas cidades que rendem paradas bonitas

  • Yoichi: além da destilaria Nikka, há mar, maçãs e bons cafés.
  • Biei (além dos mirantes famosos): caminhos secundários revelam celeiros e fileiras de bétulas tão fotogênicos que você esquece o tempo.
  • Lake Toya: no verão, fogos diários sobre a água; trilhas leves, vista de vulcões, ritmo de férias.
  • Wakkanai e Rishiri/Rebun: extremo norte, tundra japonesa, balsas que valem a aventura; flores alpinas no verão viram tapetes.

Quanto tempo ficar (e por que dois dias “sobram” e uma semana “some”)
Com 3–4 dias, você foca no eixo Sapporo–Otaru–Jozankei/Noboribetsu. É bom, dá o gostinho. Com 6–8, você inclui Furano/Biei (verão) ou ski (inverno) e talvez Hakodate. Com 10–14, a ilha se abre: Daisetsuzan, Akan/Mashu, Shiretoko. Parece muito no mapa, mas Hokkaido não se atravessa em meia hora. O segredo é aceitar distâncias e escolher um tema por viagem: neve e onsen; flores e estrada; vida selvagem e lago; culinária e cidades. Se tentar tudo, você volta cansado e com a sensação de ter passado correndo por cartões-postais.

Onde dormir (e como encaixar no bolso)

  • Ryokan com onsen: experiência clássica. Quartos tatami, yukata, jantar kaiseki, banho termal sob estrelas. Eu escolho ao menos uma noite assim (Noboribetsu, Jozankei, Sounkyo ou Akan).
  • Business hotel urbano: prático, limpo, tarifas honestas. Em Sapporo e Hakodate, já fiquei muito bem gastando pouco.
  • Pousadas e minpaku rurais: em Biei/Furano, dormir em hospedagens familiares ou minipousadas com jantar caseiro foi das melhores memórias — comida feita com ingredientes da estação e conversa de fim de noite.
  • Resorts de neve: conveniência e preço sobem juntos. Em alta temporada, vale reservar cedo e, quando possível, cozinhar parte das refeições para equilibrar a conta (muitos quartos têm minicozinhas ou há mercados com bom frescor por perto).
  • Hotéis boutique em Otaru/Hakodate: charme, vista e, às vezes, banheira com janela para o mar. Eu guardo para uma noite especial.

Um punhado de cenas que Hokkaido me deu (e que ainda me puxam de volta)

  • A primeira vez que ouvi o estralo do gelo do Okhotsk debaixo de um navio em Abashiri. O som é seco, quase metálico, e a gente percebe que o mar tem texturas que desconhecia.
  • A fumaça branca saindo do chão em Noboribetsu, no azul quase irreal do fim de tarde. Cheiro de enxofre na roupa e um silêncio que só lugar vulcânico tem.
  • Grous dançando no amanhecer gelado de Kushiro. O vapor saindo do rio, o sol batendo de lado, os fotógrafos segurando a respiração como se fosse parte do ritual.
  • Um bowl de uni tão doce em Otaru que eu ri sozinho no balcão. O itamae sorriu de volta com aquele olhar de “pois é”.
  • A trilha curta em Asahidake, com vento cortante e pedras quentes sob a neve — a montanha lembrando que está viva por dentro.
  • Um banho ao ar livre em Jozankei, com neve caindo devagar e a água borrifando um vapor fino. A cabeça esvazia, o corpo aquieta.

Riscos, mitos e ajustes finos

  • “Preciso dirigir para aproveitar?” Não necessariamente. Dá para montar roteiros excelentes com trem/ônibus, especialmente no eixo Sapporo–Otaru–Furano/Biei–Asahikawa e sul (Hakodate/Onuma/Noboribetsu). Para Shiretoko, Akan e alguns trechos de Daisetsuzan, o carro (no verão) adiciona liberdade real. No inverno, se você não tem experiência em neve, eu não recomendo: as estradas exigem técnica e calma; escolha transporte público e excursões locais.
  • “É muito caro?” Hokkaido pode ser generosa com o bolso: hotéis urbanos com bom custo-benefício, refeições honestas (teishoku, ramen, kaisendon de mercado), passes de trem que valem a pena quando bem usados. O que pesa é distância (muitos deslocamentos longos) e resorts de neve na alta. Eu distribuo gastos: uma noite caprichada em ryokan, dias de refeições simples e boas, deslocamentos planejados para não estourar.
  • “Faz muito frio?” Sim — e é libertador quando você está equipado. Camadas resolvem, e o frio seco é mais amigável do que a umidade de Tóquio. Os ambientes internos têm aquecimento competente; o drama mora na rua e nos pés. Sola aderente é meio caminho para a felicidade.

Pequeno guia de bolso para encaixar no roteiro

  • Imperdíveis de inverno: Sapporo Snow Festival; Otaru à luz de velas; onsen em Noboribetsu/Jozankei; um dia de ski (mesmo para iniciantes); cruzeiro no gelo em Abashiri; grous em Kushiro; sopa curry e ramen de região.
  • Imperdíveis de verão: Shakotan (Cabo Kamui); Furano/Biei (lavanda e patchworks); Daisetsuzan (Asahidake ou Sounkyo); Rishiri/Rebun (se tiver tempo); lago Toya com fogos; churrasco de cordeiro ao ar livre.
  • O que comer sem medo: kaisendon no mercado; caranguejo cozido na hora; ramen local; soft cream de leite fresco; melão Yubari (na época); jingisukan; laticínios artesanais; cerveja Sapporo no copo gelado.
  • Cultura: Upopoy em Shiraoi (planeje 3–4 horas); vilarejo Ainu em Akan (noite); destilaria Nikka em Yoichi (reserve tour se possível).

Se eu tivesse que resumir Hokkaido em uma escolha por viagem
Escolha um eixo e deixe o resto para a próxima. Eu já fiz a volta “urbano + mar” (Sapporo, Otaru, Hakodate, Noboribetsu) e saí alimentado de paisagem e de comida. Já fiz “flores + estrada” (Furano, Biei, Daisetsuzan, Shakotan) e voltei com a retina lavada. Já fiz “neve + onsen” (Sapporo, ski, Jozankei, Noboribetsu) e voltei com o corpo grato. Já fiz “selvagem” (Akan/Mashu, Kushiro, Shiretoko) e entendi o que é caminhar no limite do que o Japão ainda guarda de mais bruto. Em todas, Hokkaido pediu a mesma coisa: tempo para respirar — não é ilha de correria, é ilha de presença.

Planejamento rápido para não tropeçar

  • Verifique calendários de festivais e feche hospedagem cedo nas datas críticas.
  • Se optar por carro, confirme os requisitos legais do seu país (IDP ou tradução via JAF), reserve pneus de inverno quando for o caso e acompanhe alertas de estrada.
  • Tenha um plano B de tempo ruim (museus regionais, aquários como o de Otaru, cafés, onsen).
  • Use lockers e takkyubin (entrega de mala) para aliviar deslocamentos longos. Chegar leve muda o humor do dia.
  • Anote saídas de estação recomendadas pelo hotel — especialmente em Sapporo e Hakodate, isso poupa pernas e minutos no frio.

No fim, Hokkaido recompensa quem olha longe e anda devagar. Entre um bowl de ramen fumegante e um lago tão azul que irrita, entre uma estrada sem fim e uma sala aquecida onde o silêncio tem cheiro de madeira, a ilha te convida a uma viagem menos turística e mais vivida. Não é vitrine; é território. E quando você aceita o convite, descobre que Hokkaido cabe em vários bolsos e muitos humores — basta escolher o seu, amarrar bem o cadarço e deixar o vento gelado contar o resto.

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