Tailândia em 2026: O que Mudou e o que Ninguém te Conta
Quem planeja uma viagem para a Tailândia precisa saber que o país mudou — e bastante — nos últimos anos, especialmente no que diz respeito às regras de entrada, comportamento e até pagamento.

Não estou falando de mudanças cosméticas. Estou falando de coisas que podem literalmente impedir a sua entrada no país, te gerar uma multa absurda ou simplesmente estragar uma experiência que poderia ser incrível. A Tailândia continua sendo um dos destinos mais fascinantes do mundo, mas ela exige um preparo específico. Diferente do que muita gente pensa, não é só chegar e se jogar.
Vamos começar pelo começo.
Klook.comA entrada no país: o TDAC que ninguém conhece e que é obrigatório
Desde maio de 2025, existe um formulário digital chamado TDAC — Thailand Digital Arrival Card — que substituiu o antigo cartão de imigração de papel. Todo estrangeiro que entra na Tailândia, seja por ar, terra ou mar, precisa preencher esse formulário online antes de chegar. Sem exceção.
O prazo é de até 72 horas antes do desembarque, e o acesso é gratuito pelo site oficial tdac.immigration.go.th. Ao final, você recebe um QR Code que deve apresentar na imigração. Parece simples — e é — mas o número de turistas que só descobre isso na fila do aeroporto ainda é impressionante.
Para quem viaja com passaporte brasileiro, existe uma boa notícia que muita gente ainda não sabe: brasileiros podem ficar até 90 dias na Tailândia sem necessidade de visto. Noventa dias. Isso dá uma liberdade enorme para quem quer explorar o país com calma, sem a pressão de um prazo curto.
Mas há um detalhe que é específico para quem sai do Brasil: é obrigatório apresentar o comprovante de vacinação contra febre amarela e preencher o Thai Health Pass antes de embarcar. Brasileiros que residem no exterior estão dispensados desse segundo formulário, mas quem mora no Brasil precisa ter esse documento em mãos. A imigração tailandesa pode solicitar — e solicita, sim.
Outros documentos que vale ter acessíveis (não necessariamente em papel, o celular tem sido aceito na maioria dos casos): passagem de saída da Tailândia, comprovante de hospedagem e, por precaução, uma comprovação de recursos financeiros. A recomendação geral é ter pelo menos 10.000 baht por pessoa disponíveis.
O vape que vai te prender
Aqui vou ser direto porque esse é um erro que atrapalha viagens de verdade: cigarro eletrônico é ilegal na Tailândia. Não é proibido em alguns lugares. É ilegal no país inteiro. Isso inclui vapes, e-líquidos, pods, qualquer variação do produto.
Levar ou usar pode resultar em multa pesada ou até prisão. E não é uma regra esquecida no papel — a fiscalização é real e acontece. Turistas são multados todos os anos. Se você usa vape no dia a dia, a orientação é simples: não leve. Deixe em casa ou descarte antes de embarcar. Não há meio-termo aqui.
O cigarro convencional tem regras mais específicas por local — é proibido em muitos espaços públicos — mas não há a mesma ilegalidade absoluta do vape.
Álcool com horário marcado
A Tailândia tem uma relação interessante com o álcool. Ele está por toda parte — nos bares de Khao San Road, nas praias de Koh Samui, nos rooftops de Bangkok — mas a venda segue horários rígidos: das 11h às 24h.
Uma mudança importante para quem conhecia o país há alguns anos: a proibição de venda entre 14h e 17h, que vigorou por muito tempo, foi extinta. Hoje, dentro da janela das 11h às meia-noite, a venda é contínua.
O ponto que ainda pega muita gente de surpresa são os feriados budistas. Nesses dias — que não seguem o calendário ocidental e podem cair em datas que você não antecipa — a venda de álcool é totalmente proibida. Nenhum supermercado, nenhum bar, nenhuma conveniência. Vale pesquisar as datas antes de viajar se isso for relevante para o seu roteiro.
Dinheiro: o cash ainda é rei, mas o PIX tailandês já existe
Bangkok é uma cidade que engana. Parece ultra moderna, e é — shoppings gigantescos, metrô eficiente, tecnologia por toda parte. Mas ao virar a esquina tem uma barraquinha de pad thai que só aceita dinheiro em espécie, e o vendedor olha pra você com paciência infinita enquanto você procura cédula na carteira.
O sistema local de pagamento instantâneo se chama PromptPay, e funciona de forma bem parecida com o Pix brasileiro. Está muito difundido entre os tailandeses e em estabelecimentos maiores. Para turistas que não são chineses, a alternativa mais prática é o aplicativo TAGTHAi, que permite criar uma carteira digital (Easy Pay) conectada ao PromptPay. Com ele, dá para pagar via QR Code em vários pontos turísticos e restaurantes.
Turistas chineses têm ainda mais facilidade — Alipay, WeChat Pay e UnionPay são aceitos em uma quantidade impressionante de estabelecimentos, refletindo o volume gigantesco de turistas vindos da China.
Dito isso: carregue sempre dinheiro em espécie. Mercados de rua, barraquinhas de comida, templos, transporte local — em boa parte desses lugares, cash é o único método aceito. Sacar baht em caixas eletrônicos tem taxa, então vale sacar valores maiores de uma vez e guardar com segurança.
Táxi e tuk-tuk: duas regras que evitam dor de cabeça
Bangkok tem frota enorme de táxis. São coloridos, fáceis de pegar na rua, e o preço é razoável — se o taxista ligar o taxímetro. A frase que você vai precisar dizer é simples: “by meter, please”. Alguns motoristas tentam cobrar valor fixo, geralmente muito acima do que o medidor marcaria. Insista no medidor. Se o motorista se recusar, agradeça e pegue outro.
Outra opção é usar aplicativos como Grab — o equivalente ao 99 ou Uber da Ásia — que elimina completamente a negociação de preço.
Já o tuk-tuk é uma experiência à parte. Esses triciclos motorizados, coloridos e barulhentos, são quase um símbolo da Tailândia. Andar em um é divertido, principalmente à noite pelas ruas de Bangkok. Mas há uma regra de ouro: negocie o preço total antes de entrar. Não por pessoa — o valor total da corrida. É comum o motorista dizer um preço e depois, ao chegar, alegar que era por pessoa. Combine tudo antes, de forma clara, e se não houver acordo, siga em frente.
Gorjeta: gesto, não obrigação
Na Tailândia, gorjeta não é compulsória. Não há o costume americano de 15% ou 20% embutido na conta, nem expectativa explícita como em alguns países europeus. Mas é apreciada, especialmente em restaurantes e salões de massagem.
O valor usual fica entre 20 e 50 baht — o equivalente a algo entre R$ 3 e R$ 8, dependendo da cotação. Mas há um detalhe que surpreende: não se deixa gorjeta em moedas. No imaginário tailandês, gorjeta em moeda é associada a algo pejorativo. Sempre em cédula. Se você não tem cédula pequena, vale trocar antes ou simplesmente não deixar gorjeta — o atendimento não piora por causa disso.
Preços duplos: a realidade que ninguém gosta, mas existe
Em boa parte das atrações turísticas da Tailândia, existe uma prática chamada de dual pricing — preços diferentes para tailandeses e para estrangeiros. Em alguns pontos a diferença é pequena. Em outros, é expressiva.
Não existe uma regra oficial única — cada atração define seus valores. E esses preços podem mudar sem aviso prévio. A orientação prática é pesquisar os valores antes de chegar ao local e, se possível, comprar ingressos online com antecedência, quando disponível. Além de garantir o preço, economiza tempo de fila.
Vale dizer: em alguns templos, a entrada para estrangeiros inclui apoio à manutenção do patrimônio. Não é uma exploração — é uma realidade econômica de um país onde o turismo representa parcela enorme do PIB.
Etiqueta com a cabeça e os pés
Esse é um daqueles temas que parece detalhe, mas representa algo muito sério na cultura tailandesa.
A cabeça é considerada sagrada. Não se toca na cabeça de ninguém — adulto, criança, qualquer pessoa. Esse gesto, absolutamente normal em outros países (quem nunca coçou a cabeça de uma criança com carinho?), é ofensivo na Tailândia. Evite completamente.
Os pés, por outro lado, são considerados a parte mais baixa do corpo — tanto física quanto espiritualmente. Não se aponta os pés para pessoas nem para imagens de Buda. Em templos, ao sentar no chão durante uma cerimônia, mantenha os pés apontados para o lado ou para trás. Parece detalhe, mas os tailandeses notam — e o desconforto é real.
Essas regras de etiqueta se aplicam especialmente em templos, que são espaços sagrados, mas a sensibilidade vai além deles.
Bangkok, ilhas e o ritmo que a Tailândia pede
A Tailândia é grande o suficiente para oferecer experiências muito diferentes no mesmo roteiro. Bangkok pode ser intensa — o trânsito, o calor, o volume de gente, os sons, os cheiros da Chinatown. Mas é também uma cidade onde você pode tomar um café num rooftop de hotel cinco estrelas olhando para o Wat Arun ao entardecer e pagar uma conta que não vai te fazer falta.
As ilhas têm outro ritmo. Phuket é mais estruturada, mais cara, mais voltada para o turismo de massa. Koh Lipe ou Koh Chang têm um clima completamente diferente — água cristalina, movimento mais calmo, vida noturna mais modesta. A escolha depende do que você quer da viagem.
Chiang Mai, no norte, é outra Tailândia. Mais fria (sim, Tailândia pode ser fria no norte entre novembro e fevereiro), cheia de templos, com uma cena gastronômica que rivaliza com qualquer grande cidade, e uma tranquilidade que Bangkok simplesmente não tem.
O ideal é não tentar fazer tudo. A Tailândia recompensa quem escolhe menos destinos e mergulha mais fundo em cada um.
O que você não esquece
A Tailândia tem uma capacidade estranha de ficar na memória de um jeito diferente de outros destinos. Talvez seja o sorriso constante dos tailandeses — que não é falso, é cultural — ou o cheiro de jasmim nos mercados noturnos. Talvez seja a comida, que é genuinamente boa em qualquer nível de preço. Talvez seja a luz do entardecer caindo sobre um templo dourado enquanto você observa lanternas subindo no céu de Chiang Mai durante o Loy Krathong.
Mas a viagem começa antes de embarcar. Com o TDAC preenchido, a vacina de febre amarela em dia, o vape deixado em casa e uma carteira com baht em espécie, você já chegou melhor preparado do que boa parte dos turistas que aterrissam em Suvarnabhumi achando que a Tailândia é só praias e pad thai.
É muito mais do que isso. Mas exige respeito — pelas regras, pela cultura, e pelo ritmo de um país que, no fundo, não tem pressa de nada.