Roteiro em Casablanca, Fez, Meknes, Rabat, Zagora e Marrakech
Viajar pelo Marrocos sem agência é perfeitamente viável — e, na maioria das vezes, muito mais rico do que qualquer pacote turístico consegue oferecer. O país tem uma infraestrutura de transporte razoavelmente eficiente, os hotéis e riads aceitam reservas diretas sem o menor drama, e as medinas foram feitas para ser exploradas no seu próprio tempo, sem guia segurando uma bandeirinha na sua frente. O roteiro que você tem em mãos cobre dez dias intensos, passando por Casablanca, Fez, Meknes, Rabat, Zagora e Marrakech — um circuito clássico das cidades imperiais com uma pitada de deserto. Veja como montar isso por conta própria, do aeroporto ao último jantar.

Chegada em Casablanca
O aeroporto Mohammed V (CMN) é o principal hub do Marrocos para vôos intercontinentais. Do Brasil, você vai parar por Lisboa, Madrid, Paris ou Istambul antes de chegar — a Royal Air Maroc faz conexão via Casablanca a partir de São Paulo. Assim que pousar, a opção mais prática para chegar ao centro da cidade é o trem da ONCF que sai direto do aeroporto até a Gare Casa Voyageurs, em menos de 40 minutos. Custava algo em torno de 50 MAD (cerca de R$ 30) na segunda classe. Taxi cobra entre 200 e 300 MAD para o mesmo percurso, dependendo da sua habilidade de negociação.
Casablanca não é a cidade mais bonita do Marrocos — isso é quase consenso entre quem viaja por lá. Mas subestimá-la é um erro. A Mesquita Hassan II é de tirar o fôlego: com seu minarete de 210 metros e parte construída sobre o oceano Atlântico, é uma das maiores mesquitas do mundo e aceita visitação de não muçulmanos em horários específicos (manhã e início de tarde, exceto sexta-feira). Não deixe de reservar o ingresso com antecedência — as filas sem reserva podem ser longas.
O Mercado Central (no centro da ville nouvelle) vale uma manhã. O bairro Habous, construído pelos franceses nos anos 1920, é uma medina planejada com lojas de artesanato e uma atmosfera muito mais tranquila do que a de Fez ou Marrakech. A Praça Mohammed V, rodeada por prédios art déco coloniais, é boa para uma caminhada no fim do dia. Para comer, fuja dos restaurantes turísticos da beira-mar e entre em qualquer lugar movimentado na medina — um tajine com frango e limão preservado costuma custar menos de 60 MAD.
Casablanca → Fez: o trem que vale a pena
O trajeto de trem entre Casablanca e Fez dura em torno de 3h30 e é uma das viagens ferroviárias mais agradáveis da África. Compre o bilhete no site da ONCF (oncf.ma) com dois ou três dias de antecedência, especialmente se viajar em temporada alta. A primeira classe custa cerca de 250 MAD e é bem confortável — ar-condicionado, poltronas reclinadas, tomadas. Na segunda classe, por 150 MAD, você vai bem também.
Se quiser parar em Rabat no caminho (o roteiro original inclui Rabat no 6º dia), o trem passa pela capital. Tecnicamente, dá para reorganizar: fazer Casablanca → Rabat → Meknes → Fez, tudo de trem, e depois seguir para o sul.
Fez: a cidade que desorenta de propósito
Dê pelo menos dois dias completos em Fez. A medina (Fes el-Bali) é Patrimônio Mundial da UNESCO e é, sem exagero, um labirinto com mais de 9.000 ruas, becos e vielas. Os aplicativos de GPS travam, as rotas mudam, e tem gente com muito boa vontade querendo te “ajudar” — com direito a comissão na loja de tapetes ao final. Mantenha a calma, aceite a desorientação e caminhe.
O Souk el-Attarine, o Mausoléu de Moulay Idriss II e a Madrasa Bou Inania são paradas obrigatórias. Mas o destaque absoluto são os curtumes Chouara — aquelas valas coloridas de corantes onde o couro é tingido da mesma forma há séculos. Para vê-los de cima, entre em qualquer das lojas de couro que circundam o espaço (elas ficam em andares elevados exatamente para isso) e ignore com gentileza o discurso de vendas. Se quiser comprar algo de couro em Fez, negocie com paciência: o preço inicial é sempre o dobro do real.
Para se mover dentro da medina, esqueça táxi ou moto — os pés são o único veículo possível. A medina é proibida para carros na maior parte. Entre pelas portas Bab Bou Jeloud (a mais famosa, com azulejos azuis e verdes) ou Bab Guissa, dependendo do que quiser ver primeiro.
A parte nova da cidade, o Ville Nouvelle, tem os melhores restaurantes contemporâneos, cafés e supermercados. Ideal para descansar do ritmo acelerado da medina.
Fez → Meknes → Volubilis → Fez: o dia de excursão
Meknes fica a apenas 45 minutos de trem ou ônibus a partir de Fez — é um dos trajetos mais curtos e baratos do roteiro. A cidade é chamada de “a Versalhes marroquina” pelo sultan Moulay Ismail, que a construiu no século XVII com uma ambição faraônica. A Bab Mansour, a porta monumental que dá entrada à medina, é fotografada à exaustão — e ainda assim impressiona ao vivo.
De Meknes, para chegar a Volubilis (as ruínas romanas mais bem preservadas do Marrocos, a 33 km), a opção mais prática é contratar um grand taxi compartilhado na praça principal — negocie o preço de ida e volta com espera, algo em torno de 200 a 250 MAD por pessoa. Volubilis é patrimônio da UNESCO e tem mosaicos que sobreviveram mais de 2.000 anos. É um daqueles lugares que te lembra como a história do norte da África é muito mais profunda do que a narrativa turística costuma contar.
Dá para fazer Meknes e Volubilis em um dia a partir de Fez, voltando à noite de trem.
Rabat: a capital que surpreende quem chega sem expectativa
Rabat tem a reputação de ser a cidade mais “discreta” do Marrocos. E é mesmo — mas de um jeito bom. Sem a intensidade mercantil de Marrakech nem o labirinto infinito de Fez, a capital tem um ritmo quase mediterrâneo. A Kasbah dos Oudaias, com suas ruas brancas e azuis debruçadas sobre o rio Bou Regreg, é um dos cartões-postais mais bonitos do país. O Mausoléu de Mohammed V e a Torre Hassan (minarete inacabado do século XII) ficam um do lado do outro e podem ser vistos a pé em menos de uma hora.
A medina de Rabat é pequena e tranquila — boa para comprar artesanato sem a pressão que você vai enfrentar em outros lugares. O bairro de Agdal e o centro da ville nouvelle têm ótimos restaurantes.
Para se locomover dentro de Rabat, o tram (bonde) é excelente, moderno e cobre boa parte da cidade.
Rabat → Zagora: a parte mais desafiadora do roteiro
Aqui o roteiro enfrenta seu maior salto logístico. Zagora fica a mais de 500 km de Rabat, atravessando as montanhas do Alto Atlas e o vale do Draa. Não existe trem até lá.
As opções são:
1. Ônibus CTM ou Supratours — partem de Rabat ou Casablanca e chegam a Zagora em aproximadamente 9 a 10 horas. É a opção mais barata (em torno de 180 a 250 MAD), mas exige disposição. Os ônibus da CTM têm ar-condicionado e banheiro a bordo.
2. Ônibus até Ouarzazate + conexão para Zagora — divide o trajeto em duas etapas e permite conhecer Ouarzazate (a “porta do deserto”, famosa pelos estúdios de cinema onde foram filmadas cenas de Game of Thrones e Gladiador). De Ouarzazate, grand taxis fazem a rota até Zagora.
3. Carro alugado — dá liberdade total e é especialmente vantajoso nessa parte do roteiro, onde o transporte público é mais escasso. A estrada N9 de Ouarzazate a Zagora passa pelo vale do Draa e é visualmente deslumbrante — palmeirais, kasbahs de barro, vilas berberes. Dirigir no Marrocos exige atenção (trânsito das cidades é caótico), mas nas estradas do interior é tranquilo.
Em Zagora, o ponto alto é claramente a excursão às dunas de Erg Chegaga — as mais remotas e menos turísticas do Marrocos. A rota alternativa pelas dunas de Erg Chigaga (a 50 km de M’Hamid, mais ao sul) é ainda mais impressionante para quem quiser gastar uma noite em acampamento no meio do deserto.
Zagora → Tinerhir → Ouarzazate → Erfoud: o coração do deserto
Essa parte do roteiro atravessa algumas das paisagens mais brutalmente bonitas do Marrocos. A Garganta do Todra (Gorges du Todra), perto de Tinerhir, tem paredes de rocha de até 300 metros de altura por onde passa um rio. É possível caminhar pelo canyon a pé, sem guia, simplesmente seguindo o leito do rio.
Erfoud é o portal de entrada para o Erg Chebbi — as dunas mais icônicas do Marrocos, aquelas que aparecem em todo cartão postal. De lá, um transfer de 4×4 ou dromedário leva até o acampamento no deserto para o pôr do sol e a noite estrelada. Essa é uma das experiências mais supervalorizadas e ao mesmo tempo mais genuínas do Marrocos — é turística, sim, mas o silêncio do deserto de madrugada é real.
Zagora/Erfoud → Marrakech: a volta pelas montanhas
A rota de volta para Marrakech pelo Vale do Draa e pela estrada N9 é, por si só, um passeio. Se você estiver de carro alugado, vale parar na Aït Benhaddou — uma ksar (cidade-fortaleza) de barro que é patrimônio da UNESCO e cenário de dezenas de filmes e séries. Fica a 30 km de Ouarzazate.
De ônibus, a CTM tem linhas de Zagora e Ouarzazate para Marrakech.
Marrakech: o final que não é final
Deixar Marrakech por último é uma boa decisão. A cidade exige energia — e depois de dias viajando pelo interior, você vai chegar mais calibrado para lidar com ela.
A Praça Djemaa el-Fna é o centro da vida marroquina à noite: encantadores de serpentes, músicos Gnawa, contadores de histórias, bancas de suco de laranja e dezenas de barracas de comida que formam um restaurante a céu aberto com capacidade para centenas de pessoas. Chegue por volta das 19h e sente em qualquer terraço ao redor da praça para ver o espetáculo se montar.
O Jardim Majorelle, comprado e restaurado por Yves Saint Laurent, é um dos jardins mais fotografados do mundo — o azul cobalto dos muros contrasta com o verde intenso das plantas. Chegue cedo (abre às 8h) para evitar a fila. O Museu Yves Saint Laurent, ao lado, vale a visita para quem tem interesse em moda e arte.
O Souk de Marrakech é o mais intenso e comercial dos souks marroquinos. Compre o que quiser, mas negocie sempre — a primeira oferta nunca é a real. Especiarias, lanterners de cobre, babuchas (chinelos de couro), argan, cerâmica: tudo está lá.
Para se mover dentro de Marrakech, os petits taxis (táxis pequenos de cor bege/laranja) são a opção mais prática. Sempre combine o preço antes ou exija o taxímetro — os motoristas vão tentar cobrar tarifa turística sem o medidor.
O que guardar antes de embarcar
- Passaporte brasileiro não precisa de visto para o Marrocos — até 90 dias de estadia para turismo.
- Moeda local: o Dirham marroquino (MAD) não é conversível fora do país. Troque no aeroporto apenas o necessário para o primeiro dia e use caixas eletrônicos (ATMs) nas cidades — as taxas são melhores.
- Chip de celular: compre um chip local da Maroc Telecom ou Orange logo na chegada. Custava cerca de 50 MAD com pacote de dados generoso.
- Idiomas: o árabe darija é o dialeto local, mas o francês abre quase todas as portas. Inglês funciona nos pontos turísticos principais. Algumas palavras em árabe (shukran = obrigado, la shukran = não obrigado — essencial nos souks) fazem toda a diferença.
- Roupas: o Marrocos é um país muçulmano. Ombros e joelhos cobertos nas medinas e locais religiosos são tanto uma questão de respeito quanto de evitar assédio desnecessário. As montanhas podem ser frias à noite, mesmo no verão.
Esse roteiro de dez dias é exigente — são muitos quilômetros, muitas cidades, muitas camadas de história e cultura comprimidas em pouco tempo. Mas também é exatamente por isso que funciona: o Marrocos não é um destino para quem quer relaxar numa espreguiçadeira. É um país que te empurra para dentro, que cheira a cominho e couro e incenso, que te faz perder na medina e encontrar algo que não estava procurando. Viajar por conta própria aqui é a melhor forma de deixar isso acontecer.