Roteiro de Viagem de 10 Dias no Vietnã
O Vietnã é daqueles destinos que bagunçam completamente a forma como você enxerga o mundo — e bastam dez dias para isso acontecer. Não é exagero. É um país que cabe num fuso horário e se estica por mais de três mil quilômetros de costa, com paisagens que mudam radicalmente a cada parada do roteiro. Montanhas calcárias que brotam da água como se fossem cenário de filme, cidades antigas preservadas com uma delicadeza que envergonha muita metrópole ocidental, e uma gastronomia de rua que, sinceramente, torna difícil voltar a comer phở de saquinho sem um certo arrependimento.

Eu organizei esse tipo de roteiro mais de uma vez — para casais, para grupos de amigos, para viajantes solo que queriam sair do óbvio. E o que sempre impressiona é como o Vietnã entrega muito mais do que a gente espera. É barato? Sim, absurdamente barato para o padrão brasileiro. Mas o que conquista de verdade não é o preço. É a intensidade. É atravessar uma rua em Hanói com vinte motos vindo na sua direção e, de alguma forma, sobreviver — e rir disso depois.
Esse roteiro de dez dias cobre o país de norte a sul, passando por Hanói, Ninh Binh, Halong Bay, Huế, Da Nang, Hoi An, Ho Chi Minh City e o Delta do Mekong. É corrido? Um pouco. Mas é o tipo de correria que vale cada minuto. E vou explicar por quê.
Chegando ao Vietnã: o que você precisa saber antes de embarcar
Antes de qualquer coisa, o básico: brasileiros precisam de visto para entrar no Vietnã. A boa notícia é que, desde as atualizações de 2023 que seguem vigentes, o e-visa ficou muito mais acessível. Ele vale por até 90 dias, o que é mais que suficiente para esse roteiro, e pode ser solicitado online sem precisar passar pelo consulado. O processo é relativamente simples — preenche o formulário no site oficial, paga a taxa (em torno de 25 dólares) e espera alguns dias úteis. Só não deixe para a última hora. Tem gente que faz isso e passa sufoco.
Outra opção é o visa on arrival, que funciona bem para quem vai de avião e desembarca em Hanói, Da Nang ou Ho Chi Minh. Nesse caso, você precisa de uma carta de aprovação prévia, que é obtida por agências online. Funciona, mas confesso que prefiro o e-visa. Menos estresse no aeroporto.
O passaporte precisa ter validade de pelo menos seis meses a partir da data de entrada e uma página em branco para o carimbo. Detalhe que parece bobo mas já vi gente ser barrada por isso.
Sobre vôos saindo do Brasil, não existe direto. A maioria dos itinerários inclui pelo menos uma conexão — geralmente em Doha, Dubai, Istambul ou alguma cidade da Ásia como Bangkok ou Singapura. Saindo de São Paulo ou do Rio, conte com algo entre 24 e 30 horas de viagem, dependendo das conexões. Os preços variam muito conforme a temporada, mas fique de olho nos meses de maio a setembro: como é período de chuvas no Vietnã, as passagens costumam cair bastante.
A moeda local é o dong vietnamita, e a cotação vai te surpreender. Um dólar compra algo em torno de 25 mil dongs. Sim, você vai se sentir milionário ao sacar dinheiro. Um almoço completo na rua custa entre 40 e 80 mil dongs — coisa de dois a quatro dólares. Hotel três estrelas decente? Entre 35 e 80 dólares a diária. Para quem está acostumado com preços brasileiros, o Vietnã é um alívio.
Dias 1 e 2: Hanói — o caos que faz sentido
Hanói não se entrega fácil. A capital vietnamita é barulhenta, poluída no horário de pico, com trânsito que parece uma coreografia improvisada de motos e bicicletas. Mas é justamente nesse caos que mora o charme. Depois de algumas horas, você começa a entender o ritmo. E quando entende, não quer mais sair.
O Old Quarter é obrigatório. Não como atração turística, mas como experiência de imersão. São ruas estreitas onde cada uma era tradicionalmente dedicada a um tipo de comércio — seda, papel, prata, sapatos. Hoje é tudo misturado, claro, mas a atmosfera permanece. Caminhar por ali de manhã cedo, quando os vendedores estão montando suas barracas e o cheiro de café fresco domina o ar, é um daqueles momentos que você guarda.
O café vietnamita, aliás, merece um parágrafo à parte. Forte, servido com leite condensado, às vezes gelado — o famoso cà phê sữa đá. Sente numa daquelas cadeirinhas de plástico minúsculas na calçada e observe a cidade passar. É quase meditativo, de um jeito barulhento.
No primeiro dia, recomendo explorar o Old Quarter sem pressa. Visite o Templo da Literatura, que é a universidade mais antiga do Vietnã e tem jardins bonitos, bem cuidados. À noite, vá ao mercado noturno que acontece às sextas, sábados e domingos — é agitado, tem comida de rua por todos os lados e uma energia contagiante.
No segundo dia, o Mausoléu de Ho Chi Minh vale a visita, mesmo que a fila seja longa. É um lugar carregado de significado para os vietnamitas, e respeitá-lo faz parte de entender o país. Perto dali, o Pagode de Um Pilar e o Museu de Ho Chi Minh complementam a visita. À noite, não perca o espetáculo de marionetes aquáticas — parece coisa de criança, mas é uma tradição cultural fascinante e bem mais sofisticada do que aparenta.
Uma dica prática: reserve hotel no Old Quarter ou bem próximo dele. A maioria dos hostels e hotéis boutique ali são excelentes e custam pouco. Dá para encontrar quartos bons por 20 a 40 dólares.
Dia 3: Ninh Binh — a Halong Bay em terra firme
Se Halong Bay é famosa pelas formações calcárias na água, Ninh Binh é a versão terrestre — e, para muita gente, ainda mais bonita. Fica a cerca de duas horas de Hanói, e o bate-volta é perfeitamente viável, embora pernoitar na região permita curtir com mais calma.
O passeio de barco por Tam Coc é o ponto alto. Você vai num barquinho pequeno, remado geralmente por senhoras que, por incrível que pareça, usam os pés para remar. Os braços ficam livres. E enquanto o barco desliza entre arrozais alagados e montanhas que parecem ter sido desenhadas, você percebe que certas paisagens simplesmente não cabem em fotografia. É mais silencioso que Halong Bay, mais íntimo. Tem uma qualidade contemplativa que surpreende.
Trang An é outra opção na mesma região, com grutas e cavernas ao longo do percurso. Foi cenário de filmagem de Kong: A Ilha da Caveira, se isso servir de referência visual. Mua Cave também vale a subida — são muitos degraus, aviso logo, mas a vista lá de cima é recompensadora.
Dia 4: Halong Bay — o cartão-postal que não decepciona
Halong Bay é patrimônio mundial da UNESCO e um daqueles lugares que você já viu em mil fotos, mas que ainda assim impressiona ao vivo. São mais de 1.600 ilhas e ilhotas de calcário espalhadas pelo Golfo de Tonkin, formando uma paisagem que parece de outro planeta.
A forma mais comum de conhecer é em cruzeiros que variam de um a três dias. Para um roteiro de dez dias no total, o cruzeiro de uma noite funciona bem. Você embarca de manhã, almoça a bordo, visita grutas e praias, assiste ao pôr do sol do deck e janta com frutos do mar frescos. Na manhã seguinte, ainda dá para fazer caiaque ou nadar antes de voltar.
Existe uma variação enorme de preços e qualidade nos cruzeiros. Cruzeiros mais baratos (a partir de 80 dólares por pessoa) são simples, mas funcionam. Os de categoria média, entre 150 e 250 dólares, oferecem cabines confortáveis, refeições excelentes e atividades incluídas. Os de luxo passam de 400 dólares e são experiências realmente sofisticadas. Minha recomendação honesta: vá pelo menos no nível intermediário. A diferença de conforto é significativa e, considerando que é uma experiência única, vale o investimento.
Um detalhe importante: evite os meses de fevereiro e março, quando a névoa pode prejudicar a visibilidade. De outubro a dezembro costuma ser a melhor janela.
Dia 5: Huế — a cidade imperial que poucos exploram como deveria
Huế geralmente é tratada como parada de passagem, e isso é um erro. A antiga capital imperial do Vietnã tem uma personalidade própria, mais lenta e melancólica que Hanói ou Ho Chi Minh. A Cidadela, com seus palácios e templos parcialmente destruídos durante a guerra, carrega um peso histórico difícil de ignorar. Você caminha por aqueles portões monumentais e sente o fantasma do que já foi.
Além da Cidadela, os túmulos imperiais ao longo do Rio Perfume são belíssimos. O túmulo de Khai Dinh, em particular, mistura influências europias e asiáticas de um jeito meio extravagante, meio genial. Vale alugar uma moto ou bicicleta e percorrer a região com calma. O trânsito em Huế é bem mais tranquilo que em Hanói.
E a comida. Huế é considerada a capital gastronômica do Vietnã central, com pratos que você não encontra facilmente em outros lugares. O bún bò Huế — uma sopa de macarrão com carne bovina e porco, temperada com capim-limão e pimenta — é possivelmente o melhor prato que comi no país inteiro. E olha que a concorrência é pesada.
Dia 6: Da Nang — a transição perfeita entre história e praia
O trajeto de trem entre Huế e Da Nang é frequentemente citado como um dos mais bonitos do mundo, e não é força de expressão. São cerca de três horas passando por montanhas verdes, arrozais e trechos de litoral. A linha atravessa o Passo de Hai Van, que oferece vistas que fazem qualquer pessoa largar o celular e simplesmente olhar pela janela. Se puder, compre assento do lado esquerdo — a vista é melhor.
Da Nang em si é uma cidade moderna, mais organizada que a média vietnamita, com praias bonitas e uma orla bem cuidada. A Ponte Dourada (Golden Bridge), sustentada por duas mãos gigantes de pedra nas colinas de Bà Nà, virou uma das imagens mais icônicas do Vietnã nos últimos anos. É turístico? Muito. Mas o visual é realmente impressionante.
As Marble Mountains — cinco colinas de mármore com cavernas, templos e mirantes — ficam entre Da Nang e Hoi An e valem uma manhã de exploração. A subida é tranquila, com escadas bem construídas, e a vista do topo compensa qualquer esforço.
Da Nang funciona bem como base para quem quer aproveitar a praia. My Khe Beach é extensa, limpa e relativamente pouco cheia fora da alta temporada. E os restaurantes de frutos do mar na beira da praia servem refeições fartas a preços que fariam qualquer carioca chorar de inveja.
Dia 7: Hoi An — a cidade que todo mundo ama (com razão)
Hoi An é, para muita gente, o ponto alto de qualquer viagem ao Vietnã. E eu entendo perfeitamente. A cidade antiga, patrimônio mundial da UNESCO, é uma cápsula do tempo: ruas de casas coloniais com fachadas amarelas, lanternas coloridas penduradas em cada esquina, rios tranquilos cruzados por pontes de madeira. À noite, quando as lanternas se acendem e os barquinhos com velas flutuam no rio Thu Bồn, o cenário é quase irreal.
Mas Hoi An é mais que visual. É uma cidade para caminhar sem rumo, entrar em lojas de alfaiataria (a cidade é famosa por ternos e vestidos feitos sob medida em 24 horas), experimentar o cao lầu — um prato de macarrão exclusivo de Hoi An — e pedalar pelos arrozais nos arredores. Alugar uma bicicleta custa quase nada e muda completamente a experiência.
A Ponte Japonesa Coberta é o cartão-postal, mas as casas de mercadores antigos, os templos chineses e as galerias de arte espalhadas pelo centro histórico merecem atenção. E se você gosta de praia, An Bang Beach fica a poucos minutos de bicicleta e é um refúgio agradável.
Uma observação pessoal: Hoi An é onde eu recomendo reservar um dia a mais, se o roteiro permitir. É o tipo de lugar que pede contemplação, não correria. Dois dias seriam ideais.
Dias 8 e 9: Ho Chi Minh City — a antiga Saigon em ritmo acelerado
Se Hanói é o coração cultural, Ho Chi Minh City — que todo mundo ainda chama de Saigon — é o motor econômico. É maior, mais rápida, mais cosmopolita. O trânsito de motos aqui faz Hanói parecer um passeio no parque. E a energia é diferente: menos contemplativa, mais urgente.
Dois dias em Ho Chi Minh permitem cobrir o essencial e ainda respirar. O Museu dos Vestígios da Guerra é uma visita pesada, mas necessária. As fotografias e artefatos da Guerra do Vietnã são expostos sem filtro, e é impossível sair de lá indiferente. É o tipo de museu que muda a perspectiva sobre o que você aprendeu nos livros.
O Palácio da Reunificação, onde o tanque norte-vietnamita derrubou os portões em 1975, encerrando oficialmente a guerra, é outro lugar carregado de história. A arquitetura dos anos 1960 ficou praticamente intacta — os salões, as salas de comando, o bunker subterrâneo. Parece que o tempo parou ali.
Para algo mais leve, o distrito de Bến Thành oferece o mercado mais famoso da cidade. É caótico, cheio de gente, e os preços iniciais são sempre inflados — pechinchar faz parte do jogo. Os arredores do mercado à noite viram uma feira gastronômica a céu aberto que vale muito a pena.
Os Túneis de Cu Chi ficam a cerca de uma hora do centro e são uma experiência única. São quilômetros de túneis subterrâneos usados pelos vietcongues durante a guerra, e você pode entrar em trechos adaptados para turistas. É apertado, escuro e claustrofóbico — exatamente como era para quem viveu ali por meses. Não é passeio para quem tem dificuldade com espaços fechados, mas é revelador de um jeito que nenhum livro consegue ser.
À noite, os rooftop bars de Saigon oferecem vistas espetaculares da cidade iluminada. O Bitexco Financial Tower, com seu heliporto em formato de pétala, é referência visual e tem um bar no topo. A vida noturna no Distrito 1 é animada e acessível.
Dia 10: Delta do Mekong — o Vietnã na sua forma mais autêntica
O último dia do roteiro é dedicado ao Delta do Mekong, e é uma forma perfeita de encerrar a viagem. A região fica ao sul de Ho Chi Minh City, acessível em bate-volta de um dia, e oferece um contraste total com tudo que você viu antes.
O Mekong é um dos rios mais importantes da Ásia, e o delta é onde ele se espalha em centenas de canais antes de encontrar o mar. A vida aqui gira em torno da água. Os mercados flutuantes — Cai Be e Cai Rang são os mais conhecidos — funcionam desde a madrugada, com barcos carregados de frutas tropicais, legumes, flores e peixes. É preciso acordar cedo para ver isso, e confesso que às cinco da manhã, depois de nove dias intensos de viagem, não é fácil. Mas vale demais.
O passeio típico inclui barco pelos canais, visita a oficinas artesanais de coco (onde fazem doces, óleo e até licor), degustação de frutas frescas e, se você tiver sorte, um almoço caseiro preparado por uma família local. Essa interação humana é o que torna o Delta do Mekong especial. Não é sobre paisagem, embora ela seja bonita. É sobre pessoas.
A região é verde de um jeito quase excessivo. Palmeiras, manguezais, jardins de frutas. O ritmo é lento, o calor é úmido, e as pessoas são incrivelmente receptivas. Depois de dez dias no Vietnã, esse ritmo mais calmo funciona como uma espécie de encerramento emocional da viagem.
Klook.comDicas práticas para o roteiro completo
Deslocamento entre cidades: o Vietnã tem boas opções de vôos domésticos (Vietnam Airlines, VietJet e Bamboo Airways operam rotas frequentes entre Hanói, Da Nang e Ho Chi Minh), além de trens e ônibus leito. Para os trechos longos — como Hanói a Huế ou Da Nang a Ho Chi Minh — o avião economiza tempo precioso num roteiro de dez dias. Os vôos internos são baratos, frequentemente abaixo de 50 dólares.
Melhor época para ir: de novembro a abril o clima é mais seco na maior parte do país. O norte pode ser frio entre dezembro e fevereiro (sim, faz frio no Vietnã), então leve pelo menos uma jaqueta. O sul é quente o ano inteiro.
Quanto levar: para um viajante com padrão intermediário — hotéis três estrelas, refeições em restaurantes locais, passeios incluídos — conte com algo entre 60 e 120 dólares por dia. É perfeitamente possível gastar menos se você optar por hostels e street food.
Internet: compre um chip local no aeroporto ao chegar. Custa entre 5 e 10 dólares e resolve tudo — GPS, tradutor, Grab (o Uber do Vietnã), reservas.
Seguro viagem: indispensável. Sem exceção. O Vietnã não tem acordo de saúde com o Brasil, e embora os custos médicos sejam baixos para padrões ocidentais, qualquer emergência séria pode complicar rápido sem cobertura.
Grab: baixe o aplicativo antes de ir. Funciona como Uber para motos e carros e é a forma mais segura e honesta de se locomover nas cidades. Evita perrengue com taxistas que cobram a mais.
O que fica depois dos dez dias
Toda viagem ao Vietnã termina com a sensação de que faltou tempo. É inevitável. Sapa ficou de fora, Phú Quốc também, o norte montanhoso mereceria uma semana inteira. Mas o que esse roteiro de dez dias faz é apresentar o país na sua essência: a história, a natureza, a gastronomia, o caos urbano e a serenidade rural.
O Vietnã não é um destino confortável no sentido convencional. As cidades são barulhentas, o trânsito é assustador, a barreira linguística existe. Mas é justamente essa resistência que torna a experiência tão marcante. Quando você se senta num banquinho de plástico na calçada de Hanói, come uma tigela de phở fumegante que custou menos de dois dólares e olha a cidade viver ao redor, alguma coisa muda dentro de você. É clichê? Talvez. Mas é verdade.
O Sudeste Asiático tem ganhado cada vez mais brasileiros nos últimos anos, e o Vietnã está no centro desse movimento. Não é mais aquele destino exótico que ninguém conhece — mas ainda guarda a autenticidade que muitos outros perderam. Ir agora, enquanto esse equilíbrio existe, é uma decisão que dificilmente alguém se arrepende de tomar.