Praias e Ilhas Imperdíveis do Vietnã Para Visitar
Descobrir as melhores praias e ilhas do Vietnã exige ir além do roteiro clássico do Sudeste Asiático para encontrar águas esmeraldas, areias brancas e uma cultura litorânea que mistura o caos fascinante do país com refúgios de paz absoluta.

Quando a maioria das pessoas pensa no Vietnã, a primeira imagem que vem à mente é quase sempre a mesma. Uma rua apinhada de motos em Hanói, o vapor subindo de uma panela de Pho na calçada, ou os barcos de madeira deslizando por entre os paredões de calcário de Ha Long Bay. Tudo isso é real, é vibrante e faz parte da alma do país. Mas, como alguém que já passou horas desenhando roteiros e gastou a sola do sapato (e os pneus de muitas scooters alugadas) por lá, posso te garantir uma coisa: o Vietnã costeiro é um universo à parte.
Existe uma letargia deliciosa quando você desce para o sul ou se concentra na costa central. O ritmo cardíaco do país parece desacelerar. E, por mais que panfletos turísticos muitas vezes confundam as descrições (já vi guia chamando cidade litorânea de planalto montanhoso, acredite se quiser), a realidade no chão é muito mais rica.
Vou te levar agora por seis destinos de praia e ilhas no Vietnã. Não vou te dar apenas a versão maquiada do Instagram. Quero te contar como é o cheiro da brisa, o gosto do marisco grelhado na brasa e a sensação de estar lá, de verdade.
Phu Quoc: O Paraíso (Quase) Perdido do Sul
Phu Quoc fica no extremo sul do país, quase encostando no Camboja. Geograficamente, é uma pérola no Golfo da Tailândia. Durante muito tempo, foi o segredo mais bem guardado dos mochileiros. Hoje, a história é um pouco diferente. O desenvolvimento chegou com força, trazendo resorts gigantescos e até um parque de diversões que parece ter saído de uma realidade paralela.
Mas não deixe isso te assustar. A magia de Phu Quoc ainda existe, você só precisa saber para onde ir.
Eu sempre recomendo alugar uma moto. É a melhor forma de escapar das zonas de turismo de massa. Quando você aponta a scooter para o norte da ilha, o asfalto perfeito dá lugar a estradas de terra avermelhada. O verde da floresta nacional engole a paisagem. De repente, você chega em praias como Sao Beach ou as enseadas mais escondidas no noroeste, onde a areia é tão fina que parece talco e a água tem uma temperatura que te abraça.
No final do dia, o ritual é obrigatório. Encontre um bar na Long Beach, peça uma cerveja Bia Saigon estupidamente gelada e assista ao sol derreter no horizonte. Quando a noite cai, o mar escuro se ilumina com centenas de luzes verdes piscando. São os barcos de pesca de lula. É hipnótico. No mercado noturno de Duong Dong, o cheiro de pimenta do reino fresca (a melhor do mundo cresce lá) se mistura com o do molho de peixe e dos frutos do mar grelhados. É uma confusão sensorial maravilhosa.
Con Dao: O Refúgio Selvagem e o Peso da História
Se Phu Quoc é a ilha badalada, Con Dao é o seu oposto absoluto. Chegar lá já é uma experiência. O voo em um avião bimotor a partir da Cidade de Ho Chi Minh te dá a dimensão do isolamento. É um arquipélago, na maior parte protegido como parque nacional.
A beleza natural de Con Dao é agressiva, quase intocada. Mas o clima lá tem uma densidade diferente, e isso se deve à sua história. Durante a colonização francesa e, mais tarde, na Guerra do Vietnã, a ilha principal foi usada como uma prisão brutal. As “Jaulas de Tigre”, onde prisioneiros políticos eram mantidos, ainda estão lá. Visitar esses lugares é duro. É um soco no estômago. Mas é absolutamente essencial para entender a resiliência do povo vietnamita.
Depois de absorver essa carga histórica, a natureza da ilha serve como um bálsamo. Dam Trau é, na minha opinião, uma das praias mais fascinantes da Ásia. Para chegar nela, você cruza uma estrada de terra flanqueada por mata densa. A praia é um arco perfeito de areia dourada. O detalhe? Ela fica exatamente na cabeceira da pista do pequeno aeroporto. Passar a tarde ali, nadando em águas cristalinas enquanto aviões a hélice passam a poucos metros da sua cabeça, é surreal.
Con Dao não tem a infraestrutura de festas ou dezenas de opções gastronômicas. É um lugar para deitar na rede, observar tartarugas marinhas (se você for na época certa da desova) e escutar o silêncio.
Nha Trang: A Metrópole à Beira-Mar
Vou ser muito honesto sobre Nha Trang. Como consultor, preciso alinhar as expectativas dos meus clientes. Se você busca uma cabana de palha isolada numa praia deserta, passe longe daqui. Nha Trang é uma cidade grande, barulhenta, vibrante e tomada por arranha-céus colados na faixa de areia. Por anos, foi o destino favorito de turistas russos e chineses, o que moldou muito o comércio local.
No entanto, a baía de Nha Trang é espetacular. O mar, quando não está na época das monções, tem um tom de azul profundo que contrasta violentamente com as montanhas ao fundo. O calçadão à beira-mar é impecável, cheio de jardins bem cuidados e esculturas.
O grande atrativo não é ficar na praia principal da cidade, mas sim usá-la como base. O mergulho autônomo e o snorkeling ao redor das ilhas próximas, como Hon Mun, são fantásticos. A visibilidade da água é excelente e a vida marinha é rica.
Outra experiência peculiar de Nha Trang são os banhos de lama. Parece pega-turista, eu sei. E até é. Mas depois de dias caminhando sob o calor sufocante do Sudeste Asiático, entrar em uma banheira de pedra cheia de lama mineral morna, seguida por jatos de água mineral e piscinas termais, é um reinício para o corpo. É o tipo de lugar onde você abraça a estrutura comercial e aproveita o conforto que ela oferece.
Klook.comDa Nang: O Equilíbrio Perfeito da Costa Central
Eu tenho um carinho especial por Da Nang. Muitas vezes, viajantes passam correndo por ela apenas a caminho da pitoresca Hoi An (que fica a meia hora de distância). É um erro enorme. Da Nang é, na minha visão, a cidade mais habitável do Vietnã e tem uma das faixas litorâneas mais interessantes do país.
My Khe Beach é uma extensão de areia que parece não ter fim. O que mais me encanta em Da Nang é como os locais interagem com o mar. No Vietnã, o padrão de beleza valoriza a pele muito clara, então os vietnamitas fogem do sol do meio-dia como nós fugimos da chuva. Se você for à praia às 14h, estará sozinho com outros turistas ocidentais. Mas coloque o despertador para as 5h da manhã. A praia ferve. É uma cacofonia de pessoas fazendo tai chi, jogando vôlei, nadando (muitas vezes de calça e manga comprida para não queimar) e puxando redes de pesca. Às 8h, todos desaparecem para trabalhar. É um espetáculo cultural diário.
A cidade em si é moderna, cortada pelo Rio Han, que é cruzado pela famosa Ponte do Dragão. Sim, é uma ponte em formato de dragão que cospe fogo e água de verdade nas noites de fim de semana. É o tipo de cafonice monumental que só a Ásia consegue fazer ficar legal.
Da Nang oferece o melhor dos dois mundos. Você tem resorts de luxo incríveis, ondas razoáveis para quem gosta de surfar, as Montanhas de Mármore para explorar e uma cena gastronômica de frutos do mar que é de cair o queixo, tudo isso com uma infraestrutura impecável.
Quy Nhon: O Segredo Mais Bem Guardado
Aqui entramos no território dos viajantes que gostam de sair do óbvio. Quy Nhon (pronuncia-se algo próximo a “Uí Nhom”) é o anti-Nha Trang. Fica na mesma costa, mas o clima é completamente outro. É uma cidade litorânea tranquila, onde o turismo doméstico ainda domina de forma absoluta. Você não vai encontrar menus traduzidos para o inglês em todos os lugares, e o Google Tradutor será o seu melhor amigo.
A orla da cidade é uma curva elegante e limpa, quase sem ondas. Mas a verdadeira recompensa exige que você saia do centro. Alugue uma scooter (percebeu um padrão aqui?) e dirija pelas estradas costeiras. As falésias são dramáticas e escondem pequenas vilas de pescadores onde o tempo parece ter parado.
O grande destaque da região é Ky Co Beach. Chegar lá geralmente envolve negociar um barco com pescadores locais ou pegar lanchas rápidas. Quando você desembarca, entende por que os vietnamitas a chamam de “Maldivas do Vietnã”. A água é de um azul turquesa tão brilhante que chega a doer os olhos, ladeada por formações rochosas imponentes.
E a comida… ah, a comida. Em Quy Nhon, o jantar significa sentar em banquinhos de plástico minúsculos na calçada, apontar para peixes, caranguejos e caramujos vivos em bacias azuis cheias de água, e esperar que eles sejam grelhados na hora com óleo de cebolinha e amendoim torrado. É rústico, é barato e é absurdamente saboroso. A autenticidade desse lugar tem um preço inestimável.
Ly Son: A Ilha do Alho e dos Vulcões
Se Quy Nhon é fora da rota, Ly Son sequer existe no mapa da maioria dos viajantes internacionais. Fica na costa central, na província de Quang Ngai. É uma ilha vulcânica, pequena, com uma paisagem áspera e belíssima.
Chegar a Ly Son requer planejamento. É preciso ir até o porto de Sa Ky e pegar um ferry rápido. O mar nessa região costuma ser agitado, então a viagem de barco não é para os que enjoam fácil.
Ao desembarcar, a primeira coisa que você percebe não é o visual, mas o cheiro. Ly Son é famosa no Vietnã inteiro por suas vastas plantações de alho e cebola, cultivados no solo vulcânico misturado com areia. O alho de lá é considerado uma iguaria nacional. As plantações formam um mosaico verde e branco que contrasta com a rocha negra vulcânica e o mar incrivelmente azul.
Não há praias de areia macia para estender a canga aqui. A beleza de Ly Son está nas formações geológicas. O pico Thoi Loi, um vulcão extinto, oferece uma vista panorâmica de tirar o fôlego. Os penhascos caem verticalmente no mar revolto. O portão To Vo, um arco de rocha vulcânica natural na beira da água, é o local onde todo turista vietnamita vai para tirar foto no pôr do sol.
Visitar Ly Son é ter um vislumbre de um Vietnã rural, ilhéu e focado no trabalho duro da agricultura e da pesca. A hospitalidade é genuína, as acomodações são simples (muitas homestays) e a sensação é de ter descoberto um pedaço de mundo que a globalização ainda não padronizou.
A Arte de Planejar a Viagem: Conselho de Quem Viveu na Prática
Agora, vamos falar de logística. Porque ler sobre águas cristalinas é ótimo, mas organizar isso num roteiro exige entender como o Vietnã funciona. O país é longo e estreito, o que cria microclimas bizarros.
O erro número um que vejo as pessoas cometerem é achar que o clima será o mesmo no norte, no centro e no sul. Não é. Quando é altíssima temporada de sol forte em Phu Quoc (dezembro a março), Da Nang e Quy Nhon podem estar debaixo de chuvas diluvianas e mar revolto devido às monções do nordeste.
Se você quer fazer o centro do país (Da Nang, Nha Trang, Quy Nhon), os melhores meses são entre março e agosto. Se o foco for o sul (Phu Quoc, Con Dao), vá de novembro a abril. Planejar uma viagem cruzando o país inteiro e pegar tempo bom nas praias de ambas as extremidades é um jogo de sorte e paciência.
Como se deslocar:
A aviação doméstica vietnamita é excelente e barata. Companhias como Vietnam Airlines, Bamboo Airways e VietJet conectam quase todos esses destinos em voos de uma ou duas horas.
No entanto, se você tiver tempo, pegue o trem Reunification Express entre Da Nang e Quy Nhon ou Nha Trang. As paisagens que você vê pela janela – campos de arroz verde-neon cortados por búfalos de água, montanhas mergulhando no mar – justificam o ritmo lento da viagem de trem. Compre uma cabine com cama (soft sleeper) para ter algum conforto, abra uma cerveja e assista ao país passar em ritmo de cinema.
O choque cultural na areia:
Vá preparado para quebrar seus padrões ocidentais de “dia de praia”. Praias no Vietnã não são lugares para ficar torrando ao sol com um livro. São pólos de socialização frenética. Perto das cidades, espere caixas de som tocando karaokê no volume máximo, famílias inteiras fazendo piqueniques épicos na areia, vendedores ambulantes oferecendo de lagostas a bilhetes de loteria.
Se você quer silêncio, precisa ir para os resorts isolados em Phu Quoc, para as praias protegidas de Con Dao, ou estar disposto a alugar uma moto e dirigir meia hora para longe dos centros urbanos. E, de verdade? Recomendo fazer as duas coisas. O isolamento recarrega as energias, mas sentar numa cadeira de lona numa praia lotada em Nha Trang, comendo lula seca enquanto observa o caos organizado ao seu redor, é onde a viagem realmente acontece.
O litoral do Vietnã não é uma cópia barata da Tailândia ou das Filipinas. Ele tem uma personalidade forte. É um lugar onde a beleza natural majestosa divide espaço com uma história pesada, um desenvolvimento acelerado e um povo que parece nunca parar de trabalhar. É imperfeito em muitos momentos. Pode ser sujo em uma esquina e absurdamente deslumbrante na seguinte.
Mas é exatamente essa ausência de polimento excessivo, essa falta de filtros na vida real, que faz com que você volte para casa pensando no Vietnã meses depois de ter desfeito as malas. A areia sai da roupa, o bronzeado desbota, mas aquela sensação do vento morno batendo no rosto enquanto você pilota uma moto sem destino pela costa central… isso fica com você para sempre.