Os Lugares Reais no Japão que Inspiraram A Viagem de Chihiro

Um Roteiro Para Quem Quer Viver o Filme de Verdade

Se você já assistiu A Viagem de Chihiro e ficou com aquela sensação de que os cenários são reais demais para serem inventados, saiba que a intuição estava certa — diversos lugares no Japão (e até fora dele) serviram de inspiração direta para Hayao Miyazaki compor o universo visual de um dos filmes de animação mais premiados da história. É o tipo de descoberta que muda completamente o jeito como a gente planeja uma viagem ao Japão. Em vez de seguir apenas os roteiros óbvios de Tóquio e Quioto, dá para montar um itinerário inteiro perseguindo os cenários do filme — e eu garanto que cada parada vale a pena.

Foto de Pedro Roberto Guerra: https://www.pexels.com/pt-br/foto/36103665/

O Gênio por Trás dos Cenários

Antes de falar dos lugares, vale entender como Miyazaki trabalha. Ele não inventa cenários do nada. O cara viaja, fotografa, coleciona imagens de ruas, construções, florestas e paisagens do cotidiano japonês. Depois, mistura tudo — pega um pedaço de uma casa de banho aqui, uma ponte vermelha dali, a atmosfera de uma cidadezinha de montanha acolá — e cria algo que parece familiar sem ser exatamente nenhum lugar específico. O próprio Studio Ghibli já declarou oficialmente que A Viagem de Chihiro não tem uma única locação modelo. Não existe um lugar só que inspirou o filme. Existem vários. E é justamente isso que torna a peregrinação tão interessante: cada destino tem um fragmento do filme, uma cena que salta da tela para a realidade.

Hayao Miyazaki também já disse que tinha vontade de fazer um filme ambientado em uma casa de banhos desde criança. Isso explica a obsessão pelos detalhes do grande balneário da bruxa Yubaba, que é provavelmente o cenário mais icônico do filme. Quando a gente visita os lugares que inspiraram aquela construção, entende por que ele passou décadas acumulando referências visuais. A riqueza está nos detalhes — nos azulejos, nas escadarias de madeira, no vapor saindo das águas termais.

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Dogo Onsen — O Berço da Casa de Banhos de Yubaba

Se existe um lugar que disputa com mais força o título de “inspiração principal” para a casa de banhos de Yubaba, esse lugar é o Dogo Onsen Honkan, em Matsuyama, na província de Ehime, na ilha de Shikoku. E faz todo sentido. Dogo Onsen é uma das mais antigas fontes termais do Japão — estamos falando de mais de três mil anos de história. A construção principal, o Honkan, mantém praticamente a mesma aparência desde 1893. É um edifício de madeira escura, com vários andares, telhados sobrepostos e aquela atmosfera que mistura grandiosidade com acolhimento.

Quando eu visitei Dogo Onsen, a primeira coisa que me chamou atenção foi como a fachada do prédio à noite, iluminada por lanternas suaves, realmente evoca aquela cena em que Chihiro avista a casa de banhos pela primeira vez. Tem algo de onírico ali, especialmente no fim da tarde, quando o vapor das águas quentes começa a subir e o céu escurece. Os hóspedes circulam de yukata pelas ruas estreitas do bairro, e a sensação é de ter entrado num portal temporal.

Para chegar a Dogo Onsen, o caminho mais prático é voar até o Aeroporto de Matsuyama — que fica a cerca de uma hora e meia de Haneda — e de lá pegar um táxi ou o bonde local. O bonde, aliás, é uma atração à parte: são aqueles bondinhos charmosos e antigos, que levam uns trinta minutos da estação JR Matsuyama até Dogo Onsen. Recomendo chegar no final da tarde, quando o movimento começa a aumentar e as luzes se acendem. É quando a magia acontece de verdade.

Uma observação importante: o Honkan passou por restaurações nos últimos anos. Ainda assim, parte do complexo segue aberta para visitação e banho. Verifique o calendário antes de ir, porque eventualmente algumas áreas ficam fechadas para manutenção.

Sekizenkan — A Pousada Que é Quase Uma Cena do Filme

Se Dogo Onsen é o candidato mais famoso, Sekizenkan é o mais fotogênico. Essa ryokan (pousada tradicional japonesa) fica em Shima Onsen, uma pequena cidade termal na província de Gunma, a algumas horas de Tóquio. Sekizenkan funciona desde 1691 — sim, mais de trezentos anos — e é um daqueles lugares que parecem ter parado no tempo de propósito.

O elemento que conecta Sekizenkan ao filme de forma mais imediata é a ponte vermelha. Há uma ponte de madeira vermelha que cruza um pequeno rio em frente à pousada e que, vista à noite, com as luzes refletidas na água, lembra assustadoramente a ponte que Chihiro precisa atravessar para chegar à casa de banhos. A semelhança é tão forte que o local virou ponto de peregrinação para fãs do Studio Ghibli do mundo inteiro.

O acesso a Shima Onsen envolve pegar um trem até Nakanojo Station e depois um ônibus de cerca de quarenta minutos até a vila. Não é o destino mais acessível do Japão, e talvez justamente por isso mantenha aquele ar de lugar escondido, meio misterioso. Quando eu estive lá, o silêncio da montanha era quase palpável. Poucas pessoas, muita natureza e aquela arquitetura de madeira que range sob os pés.

Se o orçamento permitir, dormir no Sekizenkan é uma experiência completa. Os quartos tradicionais com tatami, o banho nas águas termais ao amanhecer, o café da manhã kaiseki servido no quarto — tudo conspira para fazer você sentir que está hospedado dentro do filme. Mas se a ideia for só visitar e tirar fotos, a ponte vermelha e os arredores já compensam a viagem.

Na mesma região de Shima Onsen, aliás, existe outra ryokan encantadora chamada Kashiwaya, que fica a poucos minutos de Sekizenkan e oferece uma experiência semelhante, talvez com um pouco mais de privacidade.

O Museu de Arquitetura ao Ar Livre Edo-Tokyo — A Inspiração Confirmada

Esse é um dos poucos lugares que Miyazaki confirmou publicamente como fonte de inspiração. O Edo-Tokyo Open Air Architectural Museum fica em Koganei, uma cidade no oeste de Tóquio, e funciona como uma espécie de parque-museu onde construções históricas japonesas foram preservadas e remontadas ao ar livre.

O que Miyazaki fez foi caminhar por ali, absorver a atmosfera das vielas comerciais, das fachadas de lojas do período Edo e Meiji, dos prédios de madeira com seus letreiros antigos e calçadas estreitas. Se você prestar atenção, vai reconhecer elementos da rua principal da cidade espiritual do filme — aquela mesma rua onde os pais de Chihiro se empanturram de comida e são transformados em porcos.

O museu tem mais de trinta construções históricas, incluindo casas residenciais, lojas comerciais, um antigo escritório e até um banho público. É um passeio para dedicar pelo menos meio dia. Fica aberto das 9h30 às 17h30 na maioria dos meses (com fechamento um pouco mais cedo no inverno) e pode ser acessado pela estação Musashi-Koganei na linha JR Chuo. De lá, um ônibus de cinco minutos ou uma caminhada de uns vinte minutos pelo Koganei Park.

Uma dica: vá num dia de semana se puder. Nos fins de semana e feriados, o lugar fica bem movimentado, especialmente depois que vários vlogs e redes sociais popularizaram a conexão com A Viagem de Chihiro. Num dia calmo, a experiência de andar por aquelas ruas é genuinamente imersiva. Dá para entender por que Miyazaki viu ali o germe de uma cidade onde espíritos vivem, comem e fazem negócios.

Ginzan Onsen — A Atmosfera de Neve e Lanternas

Ginzan Onsen é daqueles lugares que aparecem em fotos e a pessoa imediatamente pensa: “isso não é real”. Fica na província de Yamagata, no norte da região de Tohoku, e é uma pequena vila termal encravada num vale estreito, com ryokans de madeira enfileiradas nas duas margens de um riacho. À noite, com as lanternas acesas e a neve cobrindo os telhados, parece uma pintura.

Embora o Studio Ghibli nunca tenha confirmado Ginzan Onsen como inspiração direta, a semelhança visual com certos cenários de A Viagem de Chihiro é inegável. A disposição das casas, a iluminação quente contrastando com o frio exterior, o vapor subindo das águas — tudo isso evoca a cidade dos espíritos de uma maneira visceral.

A melhor época para visitar Ginzan Onsen é no inverno, entre dezembro e fevereiro. É quando a neve transforma o lugar numa cena de filme — literalmente. Mas prepare-se: o acesso não é dos mais simples. Envolve trem-bala até Oishida (na linha Yamagata Shinkansen a partir de Tóquio) e depois um ônibus de cerca de quarenta minutos. No inverno, com neve pesada, o percurso pode ficar um pouco mais complicado, mas nada que um planejamento mínimo não resolva.

A grande questão de Ginzan Onsen é que o lugar é muito pequeno e ficou extremamente popular. Algumas ryokans estão sempre lotadas, especialmente nos fins de semana de inverno. Se pretende se hospedar lá, reserve com meses de antecedência. Caso contrário, um bate-volta a partir de Yamagata ou Sendai funciona — mas a experiência noturna é o ponto alto, então tente pelo menos ficar até escurecer.

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A Estação Shimonada e os Trilhos Sobre o Mar

Uma das cenas mais poéticas de A Viagem de Chihiro é quando Chihiro e seus companheiros embarcam num trem que viaja sobre águas rasas, como se o oceano tivesse engolido os trilhos. É uma imagem que fica gravada na memória. E no Japão real, existe um lugar que evoca exatamente essa sensação: a Estação Shimonada, na província de Ehime.

Shimonada é uma pequena estação costeira da linha JR Yosan, conhecida por ser uma das estações mais próximas do mar em todo o Japão. A plataforma fica praticamente na praia, e dependendo da maré e do ângulo, os trilhos parecem mergulhar na água. A cerca de quinze minutos a pé da estação, perto da costa de Aose, há trilhos usados para puxar barcos para manutenção que, vistos de cima de uma ponte próxima, criam uma ilusão óptica belíssima — trilhos que entram no mar e desaparecem.

O acesso é feito pela linha JR a partir de Matsuyama, em aproximadamente cinquenta minutos de trem. Dá para combinar com a visita a Dogo Onsen num mesmo roteiro pela ilha de Shikoku. Eu recomendo ir no fim da tarde, quando a luz dourada do pôr do sol bate nos trilhos e no mar. É um daqueles momentos em que você entende por que animadores japoneses são obcecados por luz e atmosfera.

Jiufen, Taiwan — O Estrangeiro no Roteiro

Tecnicamente, Jiufen não fica no Japão. Fica em Taiwan, a uns noventa minutos de ônibus de Taipei. Mas é impossível falar das locações de A Viagem de Chihiro sem mencionar essa vila. Jiufen é construída numa montanha à beira-mar e foi uma antiga cidade de mineração de ouro que hoje funciona como um polo turístico charmoso, com ruas íngremes, escadarias de pedra, casas de chá penduradas na encosta e um mar de lanternas vermelhas.

A conexão de Jiufen com o filme é controversa. O Studio Ghibli nega que tenha sido inspiração direta, mas a semelhança visual é tão marcante que os turistas continuam indo em massa. As ruas estreitas lotadas de vendedores de comida, o brilho das lanternas no escurecer, as casas de chá com vista para o oceano — tudo parece saído diretamente da cidade espiritual do filme.

Mesmo que a inspiração oficial seja negada, Jiufen vale a visita por si só. Se você estiver planejando uma viagem ao Japão com escala ou extensão para Taiwan, inclua essa parada. A dica é ir no final da tarde e ficar até a noite, quando a vila se transforma. De dia é um lugar agradável; de noite é mágico. Aquela transformação, aliás, é muito parecida com o que acontece na cidade do filme — de dia parece abandonada, de noite ganha vida.

O Ghibli Park em Aichi — O Mundo do Filme Construído de Verdade

Para quem quer uma experiência mais direta e menos interpretativa, o Ghibli Park, inaugurado na província de Aichi, é o destino certo. Localizado dentro do Expo 2005 Aichi Commemorative Park, o parque traz áreas temáticas inspiradas em diversos filmes do estúdio, incluindo uma seção dedicada a A Viagem de Chihiro.

Não é um parque de diversões no estilo Disney, com montanhas-russas e shows ao vivo. O Ghibli Park é uma experiência contemplativa, focada em arquitetura, cenografia e imersão. As construções são feitas com atenção obsessiva aos detalhes, reproduzindo ambientes dos filmes em escala real. Para os fãs, é emocionante. Para quem não conhece os filmes, pode parecer estranho — é um parque que privilegia a calma e a observação, não a adrenalina.

Os ingressos devem ser comprados com antecedência pelo site oficial, e costumam esgotar rápido. A venda abre no dia 10 de cada mês para o mês seguinte. Fique de olho e compre assim que abrir, porque a demanda é grande. O acesso é feito pela estação Aikan Aikan-Koen, na linha Aichi Loop, a partir de Nagoya.

Museu Ghibli em Mitaka — Obrigatório, Mas Diferente

O Museu do Studio Ghibli em Mitaka, nos arredores de Tóquio, não é especificamente uma locação de A Viagem de Chihiro, mas é uma visita indispensável para qualquer fã que esteja fazendo esse roteiro temático. Projetado pelo próprio Miyazaki, o museu é uma obra de arte arquitetônica cheia de cantos escondidos, vitrais coloridos e referências sutis a todos os filmes do estúdio.

Assim como o Ghibli Park, os ingressos precisam ser reservados antecipadamente. A experiência dura em torno de duas a três horas e inclui exposições sobre o processo de animação, esboços originais de Miyazaki e exibições de curtas-metragens exclusivos que não são mostrados em nenhum outro lugar. O jardim no terraço, com a estátua do robô de Laputa, é provavelmente o ponto mais fotografado do museu.

O museu fica no Parque Inokashira, acessível a partir da estação Mitaka na linha JR Chuo. Dá para combinar com um passeio pelo bairro de Kichijoji, que fica ao lado e tem padarias e cafés temáticos do Ghibli — como a famosa Shirohige’s Cream Puff Shop, que vende profiteroles no formato do Totoro.

Montando o Roteiro — Uma Sugestão Prática

Para quem quer montar um itinerário cobrindo as principais locações de A Viagem de Chihiro, aqui vai uma sugestão realista que testei e funciona:

Comece por Tóquio, dedicando um dia ao Museu Ghibli em Mitaka pela manhã e ao Edo-Tokyo Open Air Architectural Museum à tarde. São destinos relativamente próximos e complementares. No dia seguinte, pegue o trem-bala para a região de Gunma e passe uma noite em Shima Onsen, visitando Sekizenkan e a ponte vermelha. De lá, volte para Tóquio e pegue um voo doméstico para Matsuyama, em Shikoku, para visitar Dogo Onsen e a Estação Shimonada num período de dois dias.

Se a viagem for no inverno e você tiver tempo extra, suba para Tohoku e inclua Ginzan Onsen — mas esteja ciente de que isso adiciona pelo menos dois dias ao roteiro, considerando deslocamento e estadia. Se puder estender a viagem até Taiwan, Jiufen fica a um voo curto de qualquer aeroporto japonês com conexão para Taipei.

O Japan Rail Pass facilita muito os deslocamentos de trem entre essas regiões, e para os trechos mais remotos (como Shima Onsen e Ginzan Onsen), os ônibus locais são frequentes e pontuais — como tudo no Japão.

A Magia que Conecta Ficção e Realidade

O que me impressiona nesse roteiro não é apenas a semelhança visual entre os lugares e o filme. É a atmosfera. Miyazaki não copiou prédios — ele capturou sensações. O cheiro de enxofre das águas termais, o som da madeira rangendo sob os pés descalços numa ryokan, a luz alaranjada das lanternas num beco estreito, o silêncio absoluto de uma vila de montanha coberta de neve. Tudo isso está no filme, mas de um jeito transformado, quase como se ele tivesse filmado sonhos ao invés de lugares.

Visitar esses destinos é uma forma de completar um ciclo. Você assiste ao filme, se encanta, vai ao lugar, se emociona, e depois reassiste ao filme com olhos diferentes — porque agora sabe como é o chão daquela rua, como é o calor daquela água, como é o frio daquela noite. É uma experiência que poucos roteiros turísticos conseguem oferecer: a sensação de entrar, de fato, dentro de uma história.

E talvez seja essa a maior lição de Miyazaki — a de que o mundo real, quando observado com atenção e afeto suficientes, é tão fantástico quanto qualquer mundo animado. A Viagem de Chihiro não inventou a magia do Japão. Apenas a revelou para quem ainda não tinha olhos para ver.

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