O que Visitar em 2 Dias em Lauterbrunnen na Suíça?

Lauterbrunnen é uma daquelas coisas que parece ter saído direto de um quadro e você fica com a sensação de que nada pode ser tão bonito assim de verdade — mas acredite, pode sim. Esse pequeno vilarejo de menos de 3 mil habitantes fica espremido num vale glacial onde 72 cachoeiras despencam dos paredões rochosos com uma força que a gente sente na pele, literalmente. O barulho da água caindo é a trilha sonora constante do lugar, e depois de alguns minutos você nem nota mais, vira parte do ambiente.

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Quando cheguei lá pela primeira vez, confesso que pensei que dois dias seria mais que suficiente. Parecia tão pequeno, tão concentrado. Me enganei completamente. Lauterbrunnen não é só o vilarejo em si — é a porta de entrada para uma região inteira de montanhas, vilarejos suspensos, mirantes absurdos e trilhas que fazem você esquecer que caminhar pode ser cansativo. Dois dias é o mínimo para sentir o gostinho da região, mas se você planejar bem, dá para aproveitar bastante coisa.

Vou dividir aqui como organizei minhas próprias visitas por lá. Não é um roteiro engessado, porque a beleza de Lauterbrunnen está justamente em poder improvisar um pouco, sentar num banco de praça olhando para as montanhas, ou decidir na hora que vai subir mais um teleférico só porque o céu está limpo. Mas ter uma base ajuda muito, especialmente se você quer equilibrar o lado contemplativo com o aventureiro.

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Dia 1: Mergulho no Vale das Cachoeiras

No primeiro dia, deixo sempre a manhã para explorar o próprio vilarejo e as cachoeiras que ficam ali na porta de casa. Acordar cedo faz toda a diferença — não só pela luz, que fica suave e dourada sobre os penhascos, mas porque o lugar ainda está quieto. Lauterbrunnen recebe turistas o dia todo, mas às 7h da manhã é quase só seu.

A Cachoeira Staubbach é impossível de perder. Ela está ali, literalmente no meio do vilarejo, caindo de 297 metros de altura com aquela aparência etérea, quase fantasmagórica quando o vento sopra e espalha a água no ar. Tem gente que acha exagero dizer que ela parece um véu, mas olhando de baixo é exatamente essa a impressão. Você consegue chegar bem perto da base, e dependendo da época do ano e do volume de água, vai sair de lá molhado. Eu saí. Vale cada gota.

Depois da Staubbach, peguei a trilha que leva até a Cachoeira Trümmelbach. Essa é diferente de todas as outras. Fica dentro da montanha, e são na verdade dez quedas d’água glaciais que correm por dentro da rocha. Você entra em túneis iluminados, sobe escadas, sente o chão tremer com a força da água. É uma experiência meio claustrofóbica, meio hipnotizante. Eu não esperava muito, achei que seria só “mais uma cachoeira”, mas acabei ficando quase uma hora lá dentro. O ingresso custa em torno de 12 francos suíços, e sim, vale cada centavo.

Para almoçar, voltei para o vilarejo. Lauterbrunnen não é cheio de opções gastronômicas sofisticadas, mas tem padarias e restaurantes pequenos que servem comida honesta. Peguei um sanduíche, um pedaço de torta de maçã e sentei num banco olhando para o vale. Às vezes a melhor refeição não é a mais elaborada, é a que vem com aquela vista ridícula de boa.

A tarde do primeiro dia reservei para Mürren, um dos vilarejos que ficam nas alturas ao redor de Lauterbrunnen. Para chegar lá, você pega um teleférico em Lauterbrunnen até Grütschalp e depois um trenzinho panorâmico até Mürren. O trajeto já é metade da experiência. O trem desliza pela lateral da montanha e a cada curva aparece um ângulo novo do vale, das cachoeiras, dos picos nevados ao fundo. Eu tentei tirar foto, mas nenhuma fez jus.

Mürren é um vilarejo livre de carros, então você anda por ruazinhas estreitas com chalés de madeira, floreiras nas janelas, o cheiro de lenha queimando no ar. Parece cenário de filme. Mas o motivo principal de subir até lá é o mirante Allmendhubel. Você pode pegar um funicular curtinho até o topo e de lá tem uma vista de 360 graus dos Alpes Berneses. Eiger, Mönch e Jungfrau — os três gigantes — estão ali, bem na sua frente. Tem também um parque infantil temático e trilhas que partem dali, mas eu confesso que fiquei só sentado olhando. Às vezes não precisa fazer muita coisa.

Voltei para Lauterbrunnen no fim da tarde, quando a luz já estava ficando alaranjada e as sombras começavam a subir pelos paredões do vale. Jantei algo simples e fui dormir cedo, porque sabia que o dia seguinte ia ser puxado.

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Dia 2: Subindo aos Gigantes

No segundo dia, a ideia era ir mais alto. E quando digo mais alto, falo sério: Jungfraujoch, o famoso “Topo da Europa”, que fica a 3.454 metros de altitude. É uma das atrações mais conhecidas da Suíça e, sim, é caro — o trem cremalheira custa mais de 200 francos suíços ida e volta se você não tiver o Swiss Travel Pass. Mas é uma daquelas coisas que você faz uma vez na vida e não se arrepende.

Peguei o trem logo cedo em Lauterbrunnen. A viagem até o topo leva cerca de duas horas e meia, passando por Wengen e Kleine Scheidegg, onde você troca de trem. A partir daí, o trem começa a subir literalmente por dentro da montanha. São túneis escavados na rocha há mais de cem anos, com paradas estratégicas onde você pode olhar para fora através de janelas abertas na encosta. A sensação é de estar entrando no coração dos Alpes.

Lá em cima, é outro mundo. Tem neve o ano inteiro, uma plataforma de observação com vista para o Glaciar Aletsch (o maior glaciar dos Alpes), um palácio de gelo esculpido dentro da geleira, restaurantes, lojinhas de souvenirs e uma área externa onde você pode caminhar pela neve mesmo em pleno verão. Faz frio, muito frio. Eu levei casaco, luvas, gorro, e mesmo assim fiquei tremendo. Mas a sensação de estar ali, no meio de picos nevados que parecem infinitos, é surreal.

Fiquei umas três horas lá em cima. Explorei o palácio de gelo, que é basicamente uma série de túneis e esculturas de gelo azul brilhante (meio turístico, mas bonito). Almocei num dos restaurantes do complexo — nada excepcional, mas funcional. E fiquei um bom tempo só olhando. Tem algo de meditativo em ficar parado na neve, no topo do mundo, sem pressa.

Na volta, desci até Kleine Scheidegg e resolvi fazer uma parada estratégica. Dali saem várias trilhas, e uma das mais famosas é a trilha do Eiger, que passa bem na base da face norte dessa montanha lendária. Eu não tinha tempo (nem preparo) para fazer a trilha inteira, mas caminhei um trecho, só para sentir a energia do lugar. A face norte do Eiger é uma das mais temidas do alpinismo, e estar ali embaixo, olhando para aquela parede de rocha e gelo, dá uma dimensão do desafio.

Voltei para Lauterbrunnen no meio da tarde, mas ainda tinha gás para mais uma parada. Dessa vez, fui para Wengen, outro vilarejo que fica do lado oposto de Mürren. O acesso é por trem direto de Lauterbrunnen, e a viagem é curta. Wengen é maior que Mürren, mas também é livre de carros e tem aquele charme alpino intacto. Andei sem rumo pelas ruas, entrei numa confeitaria, peguei um café e um pedaço de bolo de cenoura, e sentei num banco olhando para o vale lá embaixo.

Uma coisa que percebi em Lauterbrunnen e nos vilarejos ao redor é que você não precisa estar sempre fazendo algo. Parte do encanto é justamente desacelerar. Ficar olhando. Respirar aquele ar gelado e puro. Ouvir o silêncio interrompido só pelo tilintar dos sinos das vacas.

Dicas Práticas que Fazem Diferença

Agora, um pouco do que aprendi na prática e que pode te poupar dor de cabeça.

Swiss Travel Pass é essencial. Se você vai ficar mais de dois dias na Suíça e pretende usar trem, teleférico, ônibus, vale muito a pena. Ele cobre a maioria dos trajetos e dá descontos significativos em atrações como Jungfraujoch. Sem ele, os transportes ficam absurdamente caros.

Clima é imprevisível. Mesmo no verão, pode nevar lá em cima. E mesmo num dia ensolarado em Lauterbrunnen, pode estar nublado em Mürren ou no Jungfraujoch. Eu cometi o erro de não levar roupa adequada na primeira vez e passei frio desnecessário. Leve camadas, casaco corta-vento, e sempre tenha um gorro e luvas na mochila.

Supermercado antes de subir. Comer nos vilarejos e nas atrações de montanha é caríssimo. Se você comprar água, snacks, frutas e sanduíches no supermercado Coop de Lauterbrunnen, economiza fácil uns 30 ou 40 francos por dia. Eu fiz isso sempre e não me arrependi.

Horários dos teleféricos e trens. Eles funcionam como relógio suíço (literalmente), mas têm horários limitados, especialmente no fim do dia. Se você está em Mürren ou Wengen, fique de olho no último trem de volta. Perder o último significa ter que pagar táxi (se é que existe) ou dormir fora do planejado.

Fotografia. Se você curte fotografia, acorde cedo. A luz da manhã em Lauterbrunnen é mágica, e tem pouquíssima gente na rua. O golden hour da tarde também é lindo, mas é mais lotado. E se quiser fotos no Jungfraujoch, torça para o dia estar limpo — nuvem baixa estraga completamente a experiência.

O que Não Deu Tempo (Mas Fica na Lista)

Dois dias é pouco. Muito pouco. Tem uma porção de trilhas que eu queria ter feito e não consegui. A trilha de Mürren até Gimmelwald, por exemplo, é curta (cerca de uma hora) e dizem que é linda, passando por campos de flores no verão. A trilha do North Face, que vai de Eigergletscher até Alpiglen, também ficou pendente.

Tem também Schilthorn, o mirante giratório onde filmaram cenas de 007, que fica acima de Mürren. Não deu tempo de subir, mas todo mundo que foi disse que vale a pena, especialmente pelo restaurante giratório lá em cima.

E claro, tem Grindelwald, que fica na região e é outro hub importante para explorar os Alpes Berneses. Mas aí já seria um terceiro ou quarto dia.

Por que Lauterbrunnen Mexe com a Gente

Tem algo de especial nesse vale. Não é só a beleza, que é inegável. É a escala. É a sensação de ser minúsculo diante daqueles paredões de rocha que sobem 300, 400 metros. É o som constante da água caindo. É o fato de que você pode estar andando na rua do vilarejo, comendo um sanduíche, e de repente olhar para cima e ver um glaciar brilhando ao sol.

Lauterbrunnen não é um lugar para quem quer agito, balada, restaurantes estrelados. É um lugar para quem quer se desconectar, caminhar, respirar fundo, sentar num banco e ficar olhando para as montanhas até perder a noção do tempo.

Eu já voltei lá mais de uma vez, e toda vez que vou, descubro algo novo. Uma trilha diferente, um ângulo novo para fotografar, uma conversa com algum local que abre outra perspectiva. Dois dias é suficiente para ter uma boa amostra do que Lauterbrunnen oferece, mas é também suficiente para te deixar com vontade de voltar.

Onde Ficar e Como Chegar

Fiquei hospedado no próprio vilarejo de Lauterbrunnen, o que facilitou muito a logística. Tem algumas opções de hotéis e hostels, nada muito luxuoso, mas funcionais. O importante é estar perto da estação de trem, porque é de lá que partem todos os acessos para os vilarejos e montanhas ao redor.

Chegar em Lauterbrunnen é simples. De Zurique ou Genebra, você pega trem até Interlaken Ost e de lá outro trem até Lauterbrunnen. No total, são umas três horas de viagem desde Zurique. Os trens são pontuais, limpos, confortáveis — tudo que você espera da Suíça.

Se você estiver de carro, pode chegar também, mas sinceramente não faz muito sentido. O vilarejo é pequeno, tem poucos estacionamentos, e você vai acabar usando transporte público de qualquer jeito para subir nas montanhas. Deixa o carro em Interlaken ou nem aluga.

A Questão do Custo

Não vou mentir: Suíça é cara. Muito cara. Mas Lauterbrunnen, por ser um vilarejo pequeno e menos badalado que lugares como Zermatt, acaba sendo um pouquinho mais acessível. Ainda assim, você vai gastar.

Eu calculei uma média de 150 a 200 francos suíços por dia, incluindo hospedagem simples, transporte local, alimentação básica e uma ou duas atrações. Se você for no Jungfraujoch, some mais uns 100 a 200 francos, dependendo se tem o Swiss Travel Pass ou não.

Mas sabe aquela história de que experiência não tem preço? Pois é. Lauterbrunnen é exatamente isso. Você vai gastar, mas vai levar memórias que não se compram em lugar nenhum.

O Ritmo Certo para Aproveitar

Uma coisa que aprendi viajando pela Suíça é que não adianta querer fazer tudo correndo. O lance é escolher bem o que você quer ver, dar tempo para respirar, para olhar, para absorver. Dois dias em Lauterbrunnen funciona bem se você aceitar que não vai dar para fazer absolutamente tudo. E tudo bem.

No primeiro dia, foque no vale e em um dos vilarejos (Mürren ou Wengen). No segundo, vá para o Jungfraujoch e, se sobrar energia, encaixe outra parada no caminho. Não tente espremer trilhas longas, vários vilarejos e atrações num tempo curto. Você vai acabar cansado e sem aproveitar direito.

Lauterbrunnen pede calma. Pede contemplação. Pede que você pare, olhe ao redor, e simplesmente deixe aquilo tudo entrar. E quando você faz isso, dois dias se transformam em algo muito maior.

Considerações

Dois dias em Lauterbrunnen são suficientes para entender por que esse lugar é tão especial. Para sentir o impacto daquelas cachoeiras, dos paredões, dos vilarejos suspensos, dos picos nevados. Para tirar fotos que vão fazer todo mundo perguntar se é real mesmo. Para voltar para casa com a sensação de que viu algo único.

Mas também são suficientes para te deixar querendo mais. Para te fazer planejar uma volta, com mais tempo, com mais trilhas na lista, com mais manhãs acordando com aquele som de água caindo ao fundo.

Lauterbrunnen não é um lugar que você risca da lista e pronto. É um lugar que entra debaixo da pele e fica ali, te chamando de volta. E se você tiver só dois dias, vá assim mesmo. Vai valer cada segundo, cada franco gasto, cada escada subida, cada vento frio na cara. Vai valer porque tem lugares no mundo que são maiores que o tempo que você passa neles. E Lauterbrunnen, definitivamente, é um desses.

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