O que é o Termo Open Jaw Usado na Aviação Comercial?
O open jaw é uma das estratégias mais inteligentes que existem na hora de comprar passagens aéreas, e mesmo assim a maioria dos viajantes nunca ouviu falar nesse termo — ou ouviu e não entendeu direito o que significa na prática.

Eu lembro da primeira vez que me deparei com essa expressão. Estava montando um roteiro pela Europa e, ao pesquisar vôos, percebi que sair de uma cidade e voltar de outra ficava mais barato do que comprar ida e volta pro mesmo lugar. Achei que era um erro do sistema. Não era. Era open jaw funcionando exatamente como deveria.
De onde vem esse nome estranho?
O termo “open jaw” vem do inglês e significa, literalmente, “mandíbula aberta”. Parece bizarro, eu sei. Mas faz sentido quando você visualiza o itinerário no mapa. Numa passagem tradicional de ida e volta, o trajeto forma um circuito fechado — você sai de A, vai para B, e volta de B para A. Tudo redondinho. Agora, no open jaw, um dos trechos fica “aberto”. Você sai de A, vai para B, mas volta de C para A. Ou então sai de A para B e volta de B para D. Esse trecho solto, quando desenhado no mapa, lembra uma mandíbula que ficou aberta. Simples assim.
Na aviação comercial, o open jaw é classificado como um bilhete de múltiplos destinos. Ele não é nem uma simples ida, nem uma ida e volta convencional. É algo no meio do caminho — e é justamente aí que mora a graça.
Os tipos de open jaw que existem
Nem todo open jaw é igual. Existem basicamente três variações, e entender a diferença entre elas muda completamente a forma como você monta um roteiro.
O open jaw de destino é o mais comum. Funciona assim: você sai de São Paulo para Paris, mas em vez de voltar de Paris, você volta de Roma. O ponto de origem é o mesmo (São Paulo), mas os destinos são diferentes (Paris na ida, Roma na volta). O trecho Paris–Roma fica por sua conta — você resolve esse deslocamento por terra, trem, ônibus ou até um vôo de baixo custo.
O open jaw de origem é o inverso. Você sai de São Paulo para Lisboa e volta de Lisboa para Belo Horizonte. O destino é o mesmo (Lisboa), mas a origem muda. Isso é particularmente útil pra quem mora em uma cidade mas tem facilidade de chegar a outro aeroporto no início ou no fim da viagem. Eu já usei isso partindo de Confins e voltando pra Guarulhos porque tinha um compromisso em São Paulo na semana seguinte.
O open jaw duplo é o mais ousado. Tanto a origem quanto o destino mudam. Sai de Belo Horizonte para Madri e volta de Londres para São Paulo. Aqui, os dois lados ficam “abertos”. Esse tipo é mais raro de conseguir com preço bom, mas quando aparece, é ouro.
Klook.comPor que o open jaw pode sair mais barato?
Essa é a pergunta que todo mundo faz — e a resposta não é intuitiva. A lógica diz que quanto mais complexo o itinerário, mais caro deveria ser. Mas a precificação de passagens aéreas não segue a lógica do mundo real. Ela segue algoritmos, demanda, concorrência entre companhias e uma série de fatores que, francamente, às vezes nem os próprios profissionais do setor entendem por completo.
O que acontece na prática é o seguinte: quando você compra duas passagens separadas — uma de ida para Paris e outra de volta saindo de Roma — cada bilhete é precificado de forma independente, geralmente como trecho só de ida. E passagens só de ida, especialmente em vôos internacionais, costumam ser desproporcionalmente caras. Em muitos casos, um trecho só de ida custa quase o mesmo que a ida e volta.
Já o open jaw é emitido como um bilhete único, com dois trechos. O sistema da companhia aérea trata isso como uma espécie de ida e volta, mas com destinos diferentes. E aí o preço costuma ficar bem mais razoável do que a soma de dois bilhetes separados.
Eu já vi casos — e não foram poucos — em que a diferença passava de 40%. Num vôo para a Europa saindo do Brasil, isso pode representar milhares de reais de economia. Não é exagero. É matemática.
Quando o open jaw faz mais sentido?
Tem situações em que usar open jaw é quase obrigatório do ponto de vista estratégico. Se você está planejando um roteiro por vários países ou cidades, não faz o menor sentido voltar ao ponto de partida no destino só pra pegar o vôo de retorno. Isso gasta tempo, dinheiro e energia.
Imagine que você vai fazer uma viagem pela Europa começando por Barcelona e terminando em Amsterdã. Se você compra ida e volta pra Barcelona, precisa de algum jeito retornar a Barcelona no final da viagem só pra embarcar. Isso significa um vôo extra, um trem, horas de deslocamento. Com open jaw, você simplesmente voa de volta a partir de Amsterdã. Ponto.
Outro cenário clássico é quando as passagens de ida são baratas para um destino, mas as de volta são caras. Nesses casos, pesquisar a volta saindo de outra cidade pode revelar preços muito melhores. Eu já montei roteiros inteiros baseado nessa lógica: “pra onde o vôo de volta é mais barato?” E a partir daí, construí o itinerário ao contrário.
Viagens de negócios também se beneficiam bastante. Profissionais que precisam passar por duas cidades diferentes em uma mesma trip usam open jaw o tempo todo. É mais prático, mais eficiente e, na maioria dos casos, mais econômico.
Como comprar uma passagem open jaw
Aqui vai um ponto que pega muita gente: nem todos os buscadores de passagem mostram a opção de open jaw de forma clara. Se você entra no site da companhia aérea ou em um comparador de preços e seleciona apenas “ida e volta”, não vai encontrar open jaw. Você precisa procurar pela opção “múltiplos destinos” ou “multicity” — que é como a maioria das plataformas chama essa funcionalidade.
No Google Flights, por exemplo, basta selecionar “Vários destinos” em vez de “Ida e volta”. No Skyscanner, é a opção “Multicity”. Na Kayak, mesma coisa. E nos sites das próprias companhias aéreas — Latam, Gol, Azul, TAP, Air France, KLM — a funcionalidade também está lá, geralmente escondida atrás de um clique extra.
O que eu recomendo é pesquisar em etapas. Primeiro, veja quanto custa a ida e volta convencional para ter uma base de comparação. Depois, simule o open jaw com os destinos que fazem sentido pro seu roteiro. Compare. Muitas vezes a economia é gritante. Outras vezes, não compensa. Cada caso é um caso, e não existe regra universal.
Uma dica que pouca gente dá: ao pesquisar open jaw com milhas aéreas, a economia pode ser ainda maior. Programas de fidelidade como Smiles, Latam Pass e TudoAzul permitem emissões em múltiplos destinos, e as tabelas de resgate muitas vezes favorecem esse tipo de bilhete. Eu já emiti passagens em classe executiva para a Europa usando open jaw com milhas e pagando menos pontos do que pagaria numa ida e volta simples. Parece mentira, mas não é.
Open jaw não é stopover — e é importante não confundir
Muita gente mistura open jaw com stopover, e são coisas diferentes. O stopover é uma parada longa (geralmente mais de 24 horas) em uma cidade de conexão, dentro do mesmo bilhete. Ou seja, o vôo para e você fica ali por um tempo antes de seguir viagem, tudo coberto pela mesma passagem.
O open jaw, como já expliquei, é quando o ponto de chegada e o ponto de partida no destino são diferentes, e o deslocamento entre eles fica por sua conta. Ninguém vai te levar de Paris a Roma de graça — esse trecho, você resolve sozinho.
O ideal? Combinar os dois. Existem bilhetes que permitem open jaw com stopover incluído. Isso transforma uma simples passagem de avião em um roteiro completo. Já montei itinerários com dois stopovers e open jaw, tudo no mesmo bilhete, pagando menos do que uma ida e volta direta. É trabalhoso de pesquisar? É. Mas compensa demais.
O trecho aberto: como resolver o deslocamento por conta própria
Quando você faz um open jaw, inevitavelmente sobra aquele trecho entre as duas cidades que você precisa cobrir sozinho. E aqui entra uma parte divertida do planejamento.
Na Europa, esse trecho geralmente é fácil de resolver. Trens de alta velocidade, vôos de companhias low cost como Ryanair e EasyJet, ou até mesmo ônibus como os da FlixBus dão conta do recado por preços baixíssimos. Eu já fiz Paris–Roma de trem, dormindo no caminho, e gastei menos de 50 euros. Esse tipo de deslocamento, além de barato, acrescenta experiência à viagem.
Na América do Sul, ônibus são uma opção viável entre países vizinhos. Na Ásia, vôos internos costumam ser absurdamente baratos. Nos Estados Unidos, alugar um carro entre as cidades é praticamente um rito de passagem — e combina perfeitamente com open jaw.
O ponto é: o trecho aberto não é um problema. É uma oportunidade. Ele te força a pensar no roteiro de forma diferente, e quase sempre o resultado é uma viagem mais rica e mais interessante do que simplesmente ir e voltar do mesmo lugar.
Erros comuns ao usar open jaw
Nem tudo são flores. Existem armadilhas que eu já vi muita gente cair — e confesso que eu mesmo caí em algumas.
O primeiro erro é não considerar o custo do trecho aberto. Às vezes a economia no bilhete aéreo é de R$ 800, mas o deslocamento entre as cidades do open jaw custa R$ 1.200. Conta que não fecha. Sempre some tudo antes de decidir.
O segundo erro é esquecer da questão de bagagens. Se você troca de companhia aérea no trecho terrestre (por exemplo, vai com Latam na ida e volta, mas usa Ryanair no trecho do meio), as regras de bagagem mudam completamente. Já vi gente ser pega de surpresa com taxas de bagagem que eliminaram toda a economia do open jaw.
Terceiro: vistos e imigração. Dependendo dos países envolvidos, entrar por um e sair por outro pode ter implicações de visto. Pra brasileiros na Europa, dentro do Espaço Schengen, não tem problema. Mas se o roteiro envolve países fora do acordo, vale verificar antes.
E o quarto, talvez o mais sutil: não ter flexibilidade de datas. Open jaw funciona melhor quando você tem alguma margem pra ajustar ida e volta. Se as datas são 100% fixas, a chance de encontrar uma boa combinação diminui. Nem sempre o open jaw vai ser a melhor opção — e reconhecer isso também faz parte da estratégia.
Open jaw com programas de milhas: onde a coisa fica realmente interessante
Já mencionei de passagem, mas vale aprofundar. Quando você emite passagens com milhas, o open jaw ganha outra dimensão. Muitos programas de fidelidade, tanto nacionais quanto internacionais, permitem open jaw sem cobrar milhas adicionais pelo trecho aberto. Ou seja, você paga o mesmo número de milhas que pagaria por uma ida e volta, mas com a flexibilidade de chegar por uma cidade e sair por outra.
No programa Smiles, por exemplo, é possível montar open jaw em emissões internacionais sem custo extra de milhas — você paga apenas as taxas aeroportuárias, que podem variar entre os aeroportos de ida e volta. A Latam Pass também permite, assim como programas internacionais como o Flying Blue (da Air France-KLM) e o Avios (da British Airways).
A chave aqui é pesquisar com calma. Os buscadores dos programas de milhas nem sempre são os mais amigáveis, e a opção de múltiplos destinos às vezes fica escondida. Mas ela está lá. E quando você descobre como usar, abre-se um universo de possibilidades.
Eu já fiz São Paulo–Paris / Londres–São Paulo usando milhas, com um trecho de Eurostar (trem sob o Canal da Mancha) entre Paris e Londres por conta própria. O total de milhas foi exatamente igual ao de uma ida e volta São Paulo–Paris. A diferença é que conheci duas cidades em vez de uma, sem gastar um ponto a mais. Esse tipo de emissão é o que separa quem usa milhas de forma básica de quem realmente extrai valor do programa.
Quando não usar open jaw
Transparência é importante, então vou dizer: open jaw não é sempre a resposta. Se seu destino é um só e você não pretende se deslocar por terra ou visitar outras cidades, a ida e volta clássica provavelmente será mais simples e possivelmente mais barata. Nem toda viagem precisa de estratégia elaborada. Às vezes, o simples funciona.
Também não recomendo open jaw pra quem está viajando pela primeira vez ao exterior e já está inseguro com a logística. Adicionar complexidade ao itinerário pode gerar mais estresse do que economia. Nesses casos, vá do básico. Ganha confiança. E na próxima viagem, experimenta o open jaw.
Recapitulando sem ser redundante
O open jaw é, na essência, uma forma de comprar passagem aérea onde você chega por uma cidade e volta por outra — ou sai de uma cidade e retorna para outra diferente. É emitido em bilhete único, frequentemente custa menos que duas passagens separadas, e oferece uma flexibilidade que transforma a maneira como você planeja uma viagem.
Não é nenhum truque secreto. Não é ilegal. Não é bug do sistema. É simplesmente uma funcionalidade que as companhias aéreas oferecem e que a maioria dos passageiros desconhece. Quem descobre, dificilmente volta a viajar sem pelo menos considerar a opção.
E se tem uma coisa que eu aprendi organizando viagens ao longo dos anos é que a diferença entre uma viagem cara e uma viagem inteligente raramente está no destino. Está na forma como você compra a passagem. O open jaw é só mais uma ferramenta no arsenal — mas é daquelas que, quando usada no momento certo, faz uma diferença que você sente no bolso e no roteiro.