O Líbano que Poucos Viajantes Conhecem
Ruínas fenícias, templos romanos, uma estátua sobre o Mediterrâneo e um museu que sobreviveu à guerra, tudo isso no Líbano.

Viajar pelo Líbano é uma experiência que desafia expectativas com uma frequência desconcertante. O país carrega nas costas décadas de manchetes pesadas, e essa imagem prévia faz com que muita gente chegue com uma mistura de curiosidade e cautela. O que se encontra, porém, é um território de riqueza histórica sem paralelo no mundo árabe — talvez no mundo todo. Fenícios, gregos, romanos, cruzados, omíadas, otomanos: cada um deixou marcas físicas que ainda estão de pé, ainda visitáveis, ainda capazes de provocar aquele silêncio interno de quem se depara com algo que vai além do turismo convencional.
O roteiro que percorre Beirute, o Vale do Bekaa, o litoral sul e o monte sobre a baía de Jounieh não é um passeio simples. É uma leitura em camadas de uma das civilizações mais antigas do planeta, e merece ser feito com tempo, com atenção e sem pressa de chegar ao próximo ponto.
Beirute: o museu que recusou desaparecer
Toda visita ao Líbano começa em Beirute, e Beirute começa a ser entendida quando se para para ouvir o que a cidade tem para contar. A capital libanesa foi destruída e reconstruída mais vezes do que a maioria dos livros de história consegue documentar com clareza. Uma guerra civil de quinze anos — de 1975 a 1990 — deixou marcas físicas que ainda aparecem em alguns prédios do centro. E mesmo assim, o país preservou o que tinha de mais precioso.
O Museu Nacional de Beirute é, talvez, o lugar mais honesto para começar qualquer roteiro pelo Líbano. Inaugurado em 1942 e quase completamente destruído durante a guerra civil — o edifício ficou no exato ponto de divisão entre as frentes beligerantes —, o museu passou por uma reforma que demorou anos e foi reaberto ao público em 1997. O que se vê hoje é o resultado de um esforço de recuperação que envolveu o governo libanês, arqueólogos, especialistas internacionais e cidadãos comuns que ajudaram a recuperar peças que tinham sido saqueadas durante o conflito.
O acervo é de tirar o fôlego: cerca de 100 mil objetos no total, dos quais aproximadamente 1.300 estão expostos. Sarcófagos fenícios, mosaicos, estátuas, relevos em pedra calcária — tudo organizado cronologicamente do 3º milênio a.C. até o período medieval mameluco. No térreo, os objetos maiores criam uma espécie de floresta de pedra; nos andares superiores, as peças menores permitem uma leitura mais íntima da vida cotidiana das civilizações que passaram por aqui. A arquitetura do prédio em si é interessante — inspiração francesa com influência egípcia, exterior em calcário ocre, telhado de vidro sobre o mezanino que joga luz natural sobre as coleções.
Sair dali sem ter parado em frente a alguma peça específica por mais tempo do que o previsto é quase impossível.
Anjar: a cidade que durou trinta anos
Do Museu Nacional, qualquer roteiro que se preze segue em direção ao Vale do Bekaa, a faixa fértil entre dois maciços montanhosos que concentra algumas das ruínas mais importantes do Oriente Médio. A primeira parada é Anjar, e ela costuma surpreender quem chega sem saber exatamente o que esperar.
Anjar é, formalmente, um sítio arqueológico omíada — o único desse período no Líbano inteiro. Foi fundada pelo califa Walid I no início do século VIII d.C. como cidade comercial, estrategicamente posicionada no cruzamento das principais rotas entre o norte e o sul e entre o leste e o oeste. O nome vem do árabe ayn al-jar, que significa “água da rocha”, referência às abundantes fontes naturais da região.
O que chama atenção em Anjar não é apenas o que está de pé, mas o que aquelas ruínas revelam sobre o planejamento urbano daquela civilização. A cidade foi organizada com uma precisão que faria inveja a muitos urbanistas modernos. Dois grandes eixos viários se cruzam em ângulo reto — um Cardo Maximus e um Decumanus Maximus, nos moldes das cidades romanas, o que revela a forte influência da antiguidade clássica sobre os arquitetos omíadas. Na intersecção, um tetrapylon marcava o centro da cidade. As principais ruas eram ladeadas de arcadas com lojas, havia dois palácios, uma mesquita e banhos públicos de modelo romano.
O detalhe mais impressionante da história de Anjar é a sua brevidade. A cidade foi construída, prosperou como polo comercial e foi abandonada — tudo em menos de trinta anos. Os abássidas derrubaram os omíadas por volta de 750 d.C. e Anjar caiu no esquecimento por mais de mil anos, até ser redescoberta por arqueólogos na década de 1940. A UNESCO incluiu o sítio na lista do Patrimônio da Humanidade em 1984.
Caminhar entre as arcadas ainda de pé, com a Serra do Antilíbano ao fundo, dá uma sensação estranha de solidão histórica. Uma cidade inteira que existiu, brilhou brevemente e desapareceu como se o mundo tivesse simplesmente seguido em frente sem olhar para trás.
Baalbek: quando Roma decidiu mostrar do que era capaz
A poucos quilômetros de Anjar, ainda no Vale do Bekaa, aparece aquilo que pode muito bem ser a maior expressão da ambição arquitetônica romana fora da própria Itália. Baalbek — chamada de Heliópolis pelos gregos, “Cidade do Sol” — é um complexo de templos que demorou mais de dois séculos para ser construído e que ainda hoje impõe uma escala que simplesmente não se consegue preparar antes de chegar.
A história do lugar começa muito antes dos romanos. Registros arqueológicos mostram ocupação humana em Baalbek desde pelo menos 9.000 a.C. Os fenícios construíram aqui um templo dedicado a Baal, seu deus solar. Alexandre, o Grande, passou por aqui. E quando Roma finalmente estabeleceu controle sobre a região, decidiu que aquele sítio seria o palco de algo extraordinário.
O Templo de Júpiter é o mais imponente e o mais perturbador. Dedicado a Júpiter Heliopolitano — uma fusão do deus romano com o antigo Baal fenício —, é considerado o maior templo dedicado a Júpiter em todo o Império Romano. A construção começou por volta do século I a.C. e não foi totalmente concluída nem mesmo no século II d.C. As colunas que restam têm 19,9 metros de altura e quase 2,5 metros de diâmetro — as maiores do mundo clássico. Apenas seis delas ainda estão de pé, mas são suficientes para fazer qualquer visitante sentir-se completamente pequeno.
O que torna Baalbek ainda mais desconcertante é a questão da engenharia. No subsolo do complexo estão as chamadas pedras do Trilíton — três blocos de calcário usados na fundação, cada um pesando em torno de 800 toneladas. Como eles foram cortados, transportados e posicionados com a precisão que exibem é uma questão que os arqueólogos ainda não responderam de forma definitiva. Há uma pedra ainda na pedreira próxima, a “Pedra da Grávida”, que pesa aproximadamente 1.000 toneladas e nunca chegou a ser usada. O simples fato de que alguém planejou movê-la já é suficiente para gerar uma pausa reflexiva.
O Templo de Baco, ao lado do de Júpiter, está em estado de conservação ainda melhor — o que parece injusto, dado o tamanho menor, mas que permite uma leitura mais detalhada dos relevos, dos entalhes nas colunas coríntias, dos detalhes que decoram o friso. É considerado um dos templos romanos mais bem preservados do mundo. O Festival de Baalbek, realizado anualmente nas ruínas do complexo, usa esse cenário de forma que nenhum teatro convencional conseguiria igualar.
Harissa: uma estátua sobre o Mediterrâneo
O roteiro desce do Vale do Bekaa em direção ao litoral, e antes de chegar à costa sul, há uma parada que tem uma natureza completamente diferente de tudo que veio antes. Harissa, na encosta do Monte Líbano, abriga o Santuário de Nossa Senhora do Líbano — e a vista dali justificaria a visita mesmo que não houvesse mais nada para ver.
A Igreja de Nossa Senhora do Líbano — ou Santuário de Harissa, como é mais conhecida — foi inaugurada em 1908 depois de um processo que envolveu o Patriarca Maronita e a Santa Sé. No topo da colina, a uma altitude de 650 metros acima do nível do mar, está a estátua de bronze branco da Virgem Maria: 8,5 metros de altura, 15 toneladas, os braços abertos em direção ao mar e, ao fundo, a baía de Jounieh e Beirute ao longe.
O lugar tem uma qualidade que vai além da religião. É um dos centros marianos mais importantes do Oriente Médio, e o dado que melhor descreve o seu alcance é este: o santuário recebe tanto cristãos quanto muçulmanos em peregrinação. Em um país onde a convivência entre confissões religiosas foi tantas vezes violentamente interrompida, Harissa funciona como um ponto de convergência raro. Em dezembro de 2025, o Papa Leão XIV visitou o santuário durante sua viagem apostólica ao Líbano, reunindo cerca de 4 mil pessoas na basílica maronita do complexo.
Para chegar ao topo, há duas opções: a estrada de carro ou o teleférico que sobe a partir da cidade de Jounieh. O teleférico não é uma experiência turística qualquer. A vista que se abre à medida que a cabine sobe pela encosta verde — com o mar expandindo no horizonte e a cidade se miniaturizando lá embaixo — é o tipo de perspectiva que reorganiza as proporções de um lugar.
A basílica moderna ao lado da estátua tem uma arquitetura marcadamente diferente das ruínas romanas que dominaram o dia anterior, mas a justaposição faz sentido no Líbano: tradições profundas convivendo com construções de épocas diferentes, tudo no mesmo espaço, sem a necessidade de resolver a contradição.
Sidon: o castelo que entrou no mar
A cidade de Sidon — ou Saida, como é chamada no árabe moderno — foi uma das mais poderosas metrópoles fenícias da Antiguidade. Competia diretamente com Tiro, sua vizinha ao sul, e foi berço de avanços em navegação, comércio marítimo e produção de vidro que influenciaram o mundo mediterrâneo por séculos.
O que mais chama atenção hoje é o Castelo do Mar de Sidon, construído pelos cruzados no século XIII sobre um pequeno ilhéu conectado à costa por uma passagem estreita. Do lado de fora, o castelo tem aquela sobriedade robusta que toda arquitetura militar medieval carrega. Por dentro, os corredores revelam pedras com inscrições em diferentes línguas — árabe, latim, grego — reflexo das múltiplas mãos que construíram, tomaram e reconstruíram o lugar ao longo dos séculos.
A vista do castelo para o porto velho de Sidon é uma das imagens que ficam. O contraste entre a fortaleza medieval e os barcos de pesca coloridos ancorados ao lado cria uma sobreposição de tempos que o Líbano produz com uma naturalidade que parece involuntária.
Os souks históricos de Sidon, logo atrás do castelo, merecem pelo menos uma caminhada sem roteiro definido. O labirinto de ruas cobertas mistura especiarias, sabonetes artesanais — Sidon é famosa pela produção de sabão à base de azeite de oliva desde a Idade Média — e aquela vida cotidiana que nenhum guia turístico descreve com precisão porque ela simplesmente acontece.
Tiro: onde a história fenícia alcança a escala romana
Tiro — em árabe, Sūr — é considerada uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo. Foi daqui que partiram os navegadores fenícios que fundaram Cartago. Aqui foi cunhada a tinta púrpura extraída de pequenos caracóis marinhos, matéria-prima do luxo no mundo mediterrânico, símbolo de poder que imperadores e reis usavam para distinguir sua autoridade dos demais mortais. E foi aqui que Alexandre, o Grande, passou sete meses tentando tomar a cidade em 332 a.C., construindo uma calçada ligando a ilha ao continente quando nenhuma outra estratégia funcionou.
O Recinto Arqueológico de Tiro — Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1984 — concentra ruínas que vão do período romano até o bizantino. O hipódromo romano, datado do século II d.C., é um dos maiores e mais bem preservados do mundo antigo: 480 metros de comprimento, capaz de acomodar dezenas de milhares de espectadores. Caminhar pelo que foi a pista de corridas de bigas, com as arquibancadas esboçadas nos blocos de pedra que restaram, ativa um tipo de imaginação histórica que poucos sítios arqueológicos conseguem provocar com igual intensidade.
Há também uma necrópole romana com sarcófagos de pedra dispostos ao longo de uma estrada pavimentada, um aqueduto cuja extensão surpreende para quem não esperava encontrar infraestrutura desse porte fora da Europa ocidental, e ruas Byzantine decoradas com mosaicos que resistiram milênios.
Uma nota importante para quem planeja visitar em 2026: o sítio arqueológico de Tiro sofreu danos em março deste ano em razão dos bombardeios israelenses na região sul do Líbano. O Ministério da Cultura libanês confirmou danos na área de acesso ao complexo histórico de Al-Bass. Antes de viajar, é fundamental verificar as condições de segurança e o acesso aos sítios da região sul do país.
O que une todos esses lugares
Percorrer esse roteiro no Líbano é aceitar que o tempo funciona diferente nesse país. Em um único dia é possível estar num palácio omíada do século VIII, almoçar na sombra de colunas romanas do século I a.C. e terminar a tarde olhando para o Mediterrâneo de cima de uma colina onde uma estátua de bronze abre os braços para a cidade há mais de um século.
O Líbano tem o dom — ou o fardo, a depender do dia — de nunca deixar o passado quieto. Ele aparece no meio da cidade viva, nas pedras reutilizadas em construções novas, nas inscrições que emergem embaixo de prédios modernos durante obras de infraestrutura. A história não está guardada atrás de vitrines aqui. Ela está na rua, no chão que se pisa, no muro que separa uma loja de especiarias de uma ruína romana.
O Museu Nacional de Beirute resume tudo isso com uma elegância involuntária: um prédio que sobreviveu à guerra civil porque as pessoas se recusaram a deixar que o passado desaparecesse junto com o presente. Entrar nele no primeiro dia de qualquer viagem ao Líbano é a forma mais honesta de entender o que vai se encontrar nos dias seguintes.