Liwa Date Festival em Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos
Se você imagina Abu Dhabi apenas como uma cidade de arranha-céus reluzentes e shopping centers com ar-condicionado no último grau, o Liwa Date Festival vai virar essa percepção do avesso. Esse festival acontece no coração do oásis de Liwa, uma região chamada Al Dhafra, encravada na borda do Rub al-Khali — o famoso Quarteirão Vazio, o maior deserto de areia contínua do planeta. E ali, no meio daquela imensidão cor de ouro, milhares de pessoas se reúnem todos os anos por causa de uma fruta: a tâmara.
Pode parecer estranho para quem vem do Brasil, onde festival de fruta é coisa de açaí no Pará ou uva em Bento Gonçalves. Mas nos Emirados Árabes, a tâmara carrega um peso cultural que a gente dificilmente consegue medir de primeira. É sustento, hospitalidade, história. Quando alguém te recebe numa casa emiradense, a primeira coisa que aparece na mesa é um prato de tâmaras com café árabe. Então o Liwa Date Festival não é simplesmente um evento agrícola: é uma declaração de identidade.
Klook.comComo tudo começou — e por que isso importa
O festival surgiu há mais de duas décadas, sob o patrocínio da família governante de Abu Dhabi. A ideia original era simples: reunir os agricultores da região de Al Dhafra, valorizar suas colheitas e criar um espaço para que a tradição de cultivo de tamareiras não se perdesse no meio da modernização acelerada dos Emirados. O nome oficial é “Mazayinet al Ratab”, que basicamente significa a celebração das tâmaras frescas. A edição de 2025, a 21ª, aconteceu entre 14 e 27 de julho, organizada pela Autoridade do Patrimônio de Abu Dhabi, e atraiu mais de 50 mil visitantes nos primeiros cinco dias.
Cinquenta mil. Em pleno verão do Golfo Pérsico, onde a temperatura bate facilmente 45°C. Isso diz bastante sobre o que o festival representa para a população local.
O que me impressionou quando visitei a região pela primeira vez foi perceber que ali não existe nenhuma encenação turística fabricada. Os agricultores que participam das competições são os mesmos que passaram meses cuidando das palmeiras. Muitos deles são de famílias beduínas que cultivam tâmaras há gerações. O festival é o momento do ano em que esse trabalho silencioso ganha palco.
O que acontece no Liwa Date Festival, na prática
Vou ser direto: se você está pensando em ir, precisa saber que o Liwa Date Festival é diferente de qualquer festival gastronômico que você já viu. Não espere tendas gourmet com chefs em avental impecável. O clima é mais de feira grande, de encontro comunitário, de gente que se conhece há décadas se reencontrando para comparar colheitas.
O coração do evento são as competições de tâmaras. Existem 24 categorias diferentes, e os produtores inscrevem suas melhores amostras de variedades como Khalas, Dabbas, Fard, Lulu e muitas outras que a maioria dos estrangeiros nunca ouviu falar. Os juízes avaliam tamanho, cor, textura, sabor, aparência geral. É uma coisa levada extremamente a sério. O prêmio total ultrapassa 8,7 milhões de dirhams — algo em torno de 12 milhões de reais. Alguns vencedores individuais levam para casa até 100 mil dirhams só por uma categoria. Então não, não é brincadeira de amador.
Além das tâmaras, há competições para mangas, limões e até para os cestos de palha trançada que são usados tradicionalmente na colheita. Isso me chamou atenção porque mostra que o festival tenta preservar toda a cadeia da cultura agrícola local, não só o produto final.
Há também leilões de tâmaras ao vivo. Vi lotes sendo arrematados por valores que me fizeram questionar se eu estava entendendo direito a conversão de moeda. Uma bandeja com tâmaras Khalas de qualidade excepcional pode alcançar preços absurdos, porque para os compradores emiradenses, aquilo tem um valor simbólico que vai muito além do sabor.
O souk do festival merece uma boa caminhada. Barracas vendem tâmaras de todos os tipos — frescas, secas, recheadas com amêndoas, banhadas em chocolate, transformadas em pasta, em xarope. Tem mel de tâmara, vinagre de tâmara, até cosméticos feitos com óleo de caroço de tâmara. A variedade é surpreendente para quem nunca parou para pensar que uma única fruta pode gerar tantos subprodutos.
E tem mais. Demonstrações de falcoaria, danças tradicionais como a Ayala e a Harbiya, oficinas de artesanato, apresentações culturais. O festival funciona como uma vitrine viva do patrimônio emiradense, e é um dos poucos lugares onde você consegue ver isso sem o filtro do turismo de luxo.
Quando ir — a questão do calendário
Aqui preciso fazer um alerta importante: o Liwa Date Festival e o Liwa International Festival são eventos diferentes, embora ambos aconteçam na mesma região.
O Liwa Date Festival (o festival das tâmaras propriamente dito) acontece no verão, geralmente em julho. A edição de 2025 foi de 14 a 27 de julho. É quando a colheita das tâmaras frescas (rutab) está no auge. O problema óbvio é o calor. Estamos falando de temperaturas que passam dos 45°C com facilidade, com umidade variável. O festival funciona das 10h às 20h30, e a maioria das pessoas concentra suas visitas no final da tarde e à noite, por razões óbvias.
Já o Liwa International Festival é um evento de inverno, focado em motorsport, aventura no deserto e entretenimento familiar. A edição 2025-2026 aconteceu de 12 de dezembro a 3 de janeiro, com corridas nas dunas de Tal Moreeb, Monster Jam, balões de ar quente e shows noturnos. É espetacular, mas o foco não são as tâmaras — é adrenalina e cultura beduína sob temperaturas muito mais amenas.
Se o seu interesse principal é a experiência agrícola e cultural autêntica, o Date Festival de julho é o que você quer. Se prefere aventura no deserto com conforto climático, o International Festival de dezembro-janeiro é a escolha certa. Idealmente, quem tem flexibilidade deveria ir aos dois em anos diferentes, porque são experiências completamente distintas.
Klook.comComo chegar ao oásis de Liwa
Liwa fica a aproximadamente 300 km de Abu Dhabi e cerca de 350 km de Dubai. A estrada é excelente — rodovia bem sinalizada, bem pavimentada, sem pedágios. O trajeto desde Abu Dhabi leva em torno de três horas, e as placas indicam claramente a direção de Liwa/Al Dhafra.
Se você está acostumado com as distâncias brasileiras, três horas de estrada nem assusta. E a paisagem durante o percurso vai mudando de forma fascinante: você sai da cidade moderna, passa por áreas industriais, depois vê plantações de tamareiras começarem a surgir nos dois lados da estrada, e então o deserto toma conta de tudo.
A melhor opção é alugar um carro. Um veículo comum dá conta do recado se você vai apenas ao festival — a estrada até o local do evento é asfaltada. Porém, se planeja explorar as dunas ao redor ou seguir para o Quarteirão Vazio, aí sim precisa de um 4×4 com tração nas quatro rodas. Não arrisque com carro comum na areia. Já vi gente atolada a poucos metros da estrada, e desatolar no deserto a 45°C não é a experiência turística que ninguém deseja.
Táxis também fazem o trajeto, mas a conta fica salgada. Uma alternativa é usar apps de transporte até certo ponto e combinar algo localmente. Não existe transporte público frequente até Liwa, então carro alugado continua sendo a melhor pedida.
Onde ficar na região
A oferta de hospedagem perto de Liwa melhorou muito nos últimos anos, mas ainda é limitada comparada às opções de Abu Dhabi ou Dubai. Alguns dos hotéis e resorts na região:
O Qasr Al Sarab Desert Resort by Anantara é provavelmente o mais conhecido. Um resort cinco estrelas plantado no meio das dunas, com aquela arquitetura que imita um forte do deserto. É lindo, caro e distante de tudo — exatamente o que algumas pessoas procuram. Diárias facilmente passam dos 2.000 reais na alta temporada.
O Al Dhafra Resort (Vignette Collection, IHG) é uma opção um pouco mais acessível, mas ainda de alto padrão. Tem piscina, spa, restaurantes e uma localização conveniente para quem vai ao festival.
O Bab Al Nojoum Bateen Liwa oferece tendas de glamping que são uma experiência à parte. Você dorme em tendas confortáveis com vista para as dunas, o que é particularmente mágico à noite, quando a ausência de poluição luminosa transforma o céu num espetáculo à parte.
Para quem quer economizar — ou para quem gosta da experiência raiz — existe a opção de acampar. O Liwa Sports Club disponibiliza áreas de camping durante os festivais, e você pode reservar pelo app ou telefone. Levar sua própria barraca e suprimentos é a forma mais autêntica de viver a região, mas exige planejamento: água abundante, protetor solar, roupas adequadas e um bom isolante térmico para a barraca, porque as noites no deserto podem ser surpreendentemente frias, mesmo quando o dia foi escaldante.
O que comer (além de tâmaras)
A culinária da região é um capítulo à parte. No festival, além de tâmaras em todas as formas imagináveis, você encontra pratos tradicionais emiradenses que raramente aparecem nos restaurantes de Dubai.
O machboos — arroz temperado com especiarias e carne (geralmente frango ou cordeiro) — é presença constante. O harees, uma espécie de papa espessa de trigo com carne desfiada, é reconfortante de um jeito que surpreende. Há também o luqaimat, bolinhos fritos banhados em xarope de tâmara, que são a definição de comfort food emiradense.
O café árabe (gahwa) merece menção especial. Servido em pequenos copos sem asa, com cardamomo e às vezes açafrão, é suave e aromático — completamente diferente do café turco ou do nosso cafezinho brasileiro. E a etiqueta manda que você aceite pelo menos um copo. Recusar é considerado falta de educação. Quando quiser parar, basta balançar levemente o copinho de um lado para o outro.
O que vestir e como se comportar
Vou ser pragmático. O calor de julho em Liwa é brutal. Use roupas leves, de cores claras, que cubram os braços e as pernas. Não é apenas por respeito cultural — embora isso conte muito nos Emirados — mas porque expor a pele ao sol do deserto é receita para queimaduras sérias.
Mulheres não precisam usar abaya ou véu, mas roupas modestas são apreciadas. Ombros cobertos e calças ou saias na altura do joelho são o mínimo esperado. Para homens, bermudas muito curtas podem gerar olhares tortos, especialmente em um festival frequentado majoritariamente por famílias emiradenses.
Calçados fechados e confortáveis são essenciais. Chinelos ficam cheios de areia em segundos e não protegem do calor do solo, que pode ser literalmente escaldante.
Sobre comportamento: os Emirados são um país muçulmano, e a região de Al Dhafra é mais conservadora que Dubai. Demonstrações públicas de afeto entre casais devem ser discretas. Fotografar pessoas — especialmente mulheres emiradenses — sem permissão é desrespeitoso e pode gerar problemas. Sempre peça antes.
O consumo de álcool não é permitido no festival e é extremamente restrito na região em geral. Hidrate-se com água. Muita água. Mais água do que você acha necessário.
Quanto custa a experiência
Uma notícia boa: a entrada no Liwa Date Festival é gratuita. Não existe ingresso. Você simplesmente chega e entra.
Os gastos ficam por conta de transporte, hospedagem, alimentação e compras no souk. Um orçamento realista para um brasileiro indo ao Date Festival por dois ou três dias, já estando em Abu Dhabi:
Aluguel de carro por três dias: de 300 a 600 reais, dependendo do veículo. Combustível ida e volta: em torno de 100 reais (gasolina nos Emirados é barata). Hospedagem: de 400 reais por noite em opções intermediárias a mais de 2.000 reais em resorts de luxo. Alimentação: entre 50 e 150 reais por dia, dependendo de onde e quanto você come. Compras no souk: leve o quanto quiser gastar, mas caixas de tâmaras premium fazem excelentes presentes e custam entre 50 e 300 reais dependendo da variedade e apresentação.
No total, uma escapada de dois dias e uma noite pode custar entre 1.500 e 5.000 reais para um casal, já em solo emiradense. Isso sem contar a passagem aérea do Brasil, que é outra conversa inteira.
Vale a pena incluir no roteiro?
Vou dar minha opinião honesta: depende do tipo de viajante que você é.
Se você vai aos Emirados Árabes apenas para ver o Burj Khalifa, fazer compras no Dubai Mall e tomar um brunch no Atlantis, o Liwa Date Festival provavelmente não está no seu radar e tudo bem. Nem todo mundo quer dirigir três horas no deserto para ver competição de tâmaras.
Mas se você é do tipo que busca experiências culturais genuínas, que gosta de sair da rota óbvia, que se interessa por entender como as pessoas vivem de verdade — e não apenas como os folders turísticos dizem que vivem — então Liwa é imperdível. Ali você vê o Emirado antes do petróleo, antes do dinheiro, antes do skyline. Vê gente que ainda mede o ano pelo ciclo das tamareiras e que trata cada palmeira como se fosse membro da família.
Tem uma coisa que acontece em Liwa que eu nunca vi em Dubai ou Abu Dhabi: emiradenses conversam com você espontaneamente. No festival, a atmosfera é mais relaxada, mais comunitária. Os agricultores ficam orgulhosos de mostrar suas tâmaras, explicar as diferenças entre as variedades, contar como o avô plantou aquela mesma palmeira cinquenta anos atrás. Esse tipo de interação humana é rara no circuito turístico convencional do Golfo.
Combinando com outros destinos
Se você vai ao Date Festival em julho, considere que o verão é temporada baixa nos Emirados. Isso significa hotéis mais baratos em Dubai e Abu Dhabi, atrações menos lotadas e promoções em todo lugar. A contrapartida é o calor inclemente, mas se você vem do Nordeste brasileiro ou de qualquer cidade do interior de Minas, sabe o que é conviver com calor — embora o calor do Golfo seja de outro patamar por causa da umidade costeira.
Dá para combinar Liwa com uma visita ao Empty Quarter (Rub al-Khali), contratando um safari com operadores locais. Alguns oferecem pacotes que incluem a ida ao festival e um pernoite nas dunas gigantes, com jantar beduíno e observação de estrelas. É o tipo de experiência que gruda na memória.
Se estiver indo ao Liwa International Festival no inverno, a combinação natural é com Abu Dhabi (Mesquita Sheikh Zayed, Louvre, Yas Island) e até uma esticada a Al Ain, a cidade-oásis que é Patrimônio da UNESCO e fica a meio caminho.
Dicas de quem já esteve lá
Leve dinheiro em espécie, preferencialmente dirhams. Nem tudo no souk aceita cartão. Tenha sempre uma garrafa de água gelada no carro — o radiador agradece e você também. Baixe o app do Liwa Sports Club antes de ir, porque as informações sobre programação e ingressos de eventos específicos ficam concentradas ali.
Fotografe o pôr do sol das dunas. Parece clichê, mas quando você vê aquele disco laranja descendo atrás de uma duna de 300 metros, com o silêncio absoluto do deserto, qualquer cinismo turístico evapora.
E prove a tâmara Khalas fresca. Não a seca, não a embalada a vácuo que você compra no aeroporto. A fresca, macia, com aquele caramelo natural que escorre. Se depois de comer uma Khalas colhida em Liwa você não entender por que existe um festival inteiro dedicado a essa fruta, aí realmente não tem jeito.
O Liwa Date Festival é um daqueles eventos que lembram por que vale a pena viajar: não para ver mais do mesmo embalado de forma diferente, mas para entender que o mundo é infinitamente maior e mais variado do que o nosso cotidiano sugere. E que, às vezes, a coisa mais extraordinária que um lugar pode oferecer é algo tão simples quanto uma tâmara perfeita, cultivada com décadas de paciência no meio do maior deserto de areia do mundo.