Kartli: Uma Viagem ao Coração Histórico e Agrícola da Geórgia

Deixando para trás a energia cosmopolita de Tbilisi, uma viagem pela Geórgia nos leva naturalmente à sua região central: Kartli. Esta vasta e fértil planície, dividida pelo rio Mtkvari, não é apenas o celeiro agrícola do país, mas também seu núcleo histórico e espiritual. Foi aqui que o antigo reino da Ibéria floresceu, onde o cristianismo foi adotado como religião estatal no século IV e onde algumas das páginas mais significativas da história georgiana foram escritas.

Foto de Eslam Mohammed Abdelmaksoud: https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-aerea-da-mae-da-georgia-32542554/

Explorar Kartli é como folhear um livro de história vivo. A paisagem, pontilhada por pomares, vinhedos e campos de cereais, é também o cenário de cidades-caverna milenares, catedrais imponentes e locais de nascimento de figuras que mudaram o curso da história mundial. Nossa jornada por esta região fascinante se concentrará em dois de seus pontos mais emblemáticos e contrastantes: a cidade pagã de Uplistsikhe e a cidade natal de Joseph Stalin, Gori.

Uplistsikhe: A Fortaleza do Senhor Esculpida na Rocha

Nossa primeira parada nos transporta para um passado remoto, muito antes da era cristã. Erguendo-se dramaticamente em uma margem rochosa do rio Mtkvari, encontramos Uplistsikhe. O nome, que em georgiano significa “A Fortaleza do Senhor” ou “A Cidade de Deus”, evoca um senso de poder e espiritualidade que ainda hoje permeia o local. Datada do primeiro milênio a.C., Uplistsikhe é uma das mais antigas e impressionantes cidades-caverna do mundo.

Um Centro de Poder Pagão: Antes da chegada do cristianismo, Uplistsikhe era o principal centro político, religioso e cultural do Reino da Ibéria, o precursor do estado georgiano. Durante séculos, foi o epicentro do paganismo na região, um lugar onde se cultuavam diversas divindades, principalmente a deusa do sol. A cidade foi inteiramente escavada em uma enorme massa de arenito, uma proeza de engenharia e arquitetura que demonstra a sofisticação de seus construtores.

Explorando a Cidade de Pedra: Caminhar por Uplistsikhe é uma experiência única. O complexo se estende por uma área de aproximadamente 4 hectares e é um labirinto de estruturas interconectadas. Ao explorar o local, é possível identificar diferentes áreas funcionais que compunham a cidade:

  • Salas e Residências: Cavernas de vários tamanhos serviam como moradias para a população. As mais elaboradas, pertencentes à elite, apresentam tetos esculpidos que imitam vigas de madeira, demonstrando um desejo de replicar a arquitetura convencional na rocha.
  • O Teatro: Uma das estruturas mais notáveis é um grande salão com um palco elevado e assentos em degraus, identificado por arqueólogos como um teatro. Isso sugere que a vida cultural e as performances rituais eram parte integrante da vida na cidade.
  • Templos e Altares: No ponto mais alto do complexo, encontram-se os restos de templos pagãos, onde sacrifícios e rituais eram realizados. Altares esculpidos na rocha e nichos para ídolos são testemunhas silenciosas da fé antiga que aqui prosperou. Com a cristianização da Geórgia, uma basílica de três naves foi construída no topo da cidade no século IX, um símbolo claro da nova fé se sobrepondo à antiga.
  • Estruturas Funcionais: A cidade era surpreendentemente complexa. É possível encontrar uma “farmácia” com nichos para ervas medicinais, uma padaria, uma grande adega de vinhos (marani) com buracos para os qvevris (potes de barro), e até mesmo uma prisão secreta. Uma rede de túneis secretos conectava diferentes partes da cidade e servia como rota de fuga em tempos de cerco, com um túnel principal que leva até o rio.

No auge de sua prosperidade, estima-se que a população de Uplistsikhe tenha alcançado 20.000 habitantes. A cidade continuou a ser um centro importante mesmo após a transferência da capital para Mtskheta e depois Tbilisi, servindo como uma fortaleza estratégica na Rota da Seda. No entanto, as invasões mongóis no século XIII marcaram o início de seu declínio final, levando ao seu abandono gradual.

Dicas Práticas para a Visita a Uplistsikhe:

  • Calçado: O terreno é irregular, composto de rocha de arenito, com subidas, descidas e escadas esculpidas. O uso de sapatos fechados confortáveis ou tênis com boa aderência é essencial para uma exploração segura.
  • Proteção Solar: O local é totalmente exposto ao sol. É altamente recomendável levar protetor solar, chapéu ou boné e óculos de sol, especialmente durante os meses mais quentes.
  • Acessibilidade: A natureza do terreno torna o acesso difícil para pessoas com mobilidade reduzida. A exploração completa envolve caminhar por superfícies rochosas e subir degraus irregulares.
  • O Túnel: A saída do complexo pode ser feita por um fascinante túnel de fuga que desce até a base do penhasco, próximo ao rio. É uma experiência que completa a visita, mas pode ser escorregadio e escuro em alguns trechos.

Gori: A Cidade Natal de Stalin

A poucos quilômetros de Uplistsikhe, a cidade de Gori nos transporta abruptamente da antiguidade pagã para a complexa história do século XX. Gori é mundialmente conhecida por ser o local de nascimento de Ioseb Besarionis dze Jughashvili, o homem que o mundo viria a conhecer como Joseph Stalin, o líder da União Soviética.

A cidade em si tem uma história que remonta à Idade Média, com uma fortaleza imponente que domina o horizonte. No entanto, a atração principal que atrai visitantes de todo o mundo é o controverso Museu Joseph Stalin.

Uma Visita ao Museu Stalin: Fundado em 1957, ainda durante a era soviética, o museu é um complexo que oferece um olhar singular e, para muitos, perturbador, sobre a vida de uma das figuras mais poderosas e brutais da história. O complexo é dividido em três partes principais:

  1. O Museu Principal: O edifício central é um grande palácio de estilo gótico-stalinista. Em seu interior, a exposição narra a vida de Stalin de forma cronológica, desde sua infância humilde em Gori até sua ascensão ao poder absoluto. As salas exibem uma vasta coleção de fotografias, documentos, pertences pessoais, presentes recebidos de outros líderes mundiais e até mesmo uma das doze cópias de sua máscara mortuária. A narrativa apresentada é, em grande parte, a da era soviética, retratando-o como um líder genial e arquiteto da vitória na Segunda Guerra Mundial. É importante notar que a exposição original glorificava Stalin, omitindo quase completamente as purgas, os gulags, a fome e a repressão brutal que marcaram seu regime e custaram a vida de milhões de pessoas. Nos últimos anos, uma pequena seção foi adicionada para abordar esses aspectos sombrios, mas a apresentação geral ainda é vista por muitos como acrítica.
  2. A Casa Natal de Stalin: Em frente ao museu principal, protegida por um pavilhão greco-romano, está a pequena e humilde casa de madeira onde Stalin nasceu em 1878 e passou seus primeiros quatro anos. A modéstia da habitação, onde sua família alugava um único cômodo, contrasta de forma chocante com o poder monumental que ele viria a exercer.
  3. O Vagão de Trem Pessoal: Ao lado do museu, está o vagão de trem blindado que Stalin usava para suas viagens dentro da URSS e para conferências internacionais, como as de Yalta e Teerã. Ele tinha um conhecido medo de voar. Os visitantes podem ver o interior do vagão, que inclui seus aposentos, sala de reuniões e banheiro, preservados como eram na época.

Uma visita ao Museu Stalin é uma experiência complexa e que provoca reflexão. É um mergulho em uma era de propaganda, um monumento a um passado que a Geórgia e o mundo ainda lutam para compreender e reconciliar. Para o viajante, é uma oportunidade única de confrontar a história do século XX em seu local de origem, longe das narrativas simplificadas.

De Uplistsikhe a Gori, a região de Kartli oferece uma jornada de contrastes profundos, do poder espiritual da antiguidade à personificação do poder político totalitário do século XX. É uma prova da incrível densidade histórica da Geórgia, um país onde cada vale e cada cidade têm uma história profunda e fascinante para contar.

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