Jeju tem o Único Patrimônio Natural da UNESCO da Coréia do Sul

A Ilha de Jeju fica no extremo sul da Coréia do Sul, separada do continente por um braço de mar que parece pouco, mas que muda tudo. O clima é diferente. A paisagem é diferente. O ritmo também. Quem vai direto de Seul para Jeju sente como se tivesse chegado a outro país — não tanto pela cultura, que continua sendo visivelmente coreana, mas pela textura da terra, pelo cheiro do ar, pela forma como a ilha parece carregar em si mesma uma história muito mais antiga do que qualquer uma das cidades ao norte.

Foto de Pedro Roberto Guerra: https://www.pexels.com/pt-br/foto/36348348/

Essa história é geológica. E é exatamente por isso que a UNESCO, em 2007, inscreveu a Ilha Vulcânica de Jeju e seus Tubos de Lava na Lista do Patrimônio Mundial da Humanidade — o único reconhecimento desse tipo na Coréia do Sul. Não são ruínas, não são templos, não são obras humanas. É a terra em si que recebeu o título. Três sítios específicos compõem esse patrimônio: o Monte Halla, o Sistema de Tubos de Lava de Geomunoreum e o Cone de Tufo de Seongsan Ilchulbong. Juntos, eles somam quase 19 mil hectares de paisagem vulcânica preservada.

Visitar os três exige ao menos três ou quatro dias dedicados. E vale cada um deles.

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O Monte Halla — quando a montanha fica acima das nuvens

O Hallasan, como os coreanos chamam, tem 1.950 metros de altitude. É o ponto mais alto da Coréia do Sul, e sobe do centro da ilha como se tivesse sido empurrado de baixo — porque foi exatamente isso que aconteceu. O vulcão está extinto, mas a paisagem que ele deixou para trás é viva em tudo: na vegetação que muda de tipo a cada centena de metros de altitude, nas rochas de basalto escuro que aparecem entre o verde, na névoa que frequentemente abraça o cume como se não quisesse sair.

Há duas trilhas principais para quem quer chegar ao topo. A Seongpanak tem 9,6 km de extensão, é mais suave, e termina na borda da cratera. A Gwaneumsa tem 8,7 km, mais íngreme, mais dramática, com vistas mais abertas ao longo do percurso. Nenhuma das duas é para iniciantes absolutos. As duas exigem saída cedo — há um horário limite de entrada para garantir que todo mundo desça antes do escurecer, e o parque nacional leva isso a sério.

No topo, quando o tempo abre, o que aparece é um lago dentro da cratera. O Baengnokdam. A água é escura, parada, cercada por rocha vulcânica. Não é uma vista que você esquece facilmente. Tem algo de primordial naquilo — a cratera de um vulcão cheio de água, no alto de uma ilha, no meio do oceano. A questão é que o cume frequentemente está coberto por nuvens, especialmente na primeira metade do dia. Muita gente sobe e não vê nada além de névoa branca. Isso faz parte.

O parque nacional que envolve o Hallasan é área central da Reserva da Biosfera da UNESCO — um reconhecimento separado do Patrimônio Mundial, concedido já em 2002. A flora é notavelmente diversa: do litoral ao topo, a ilha atravessa quatro ecossistemas distintos, do subtropical ao alpino. Tem espécies endêmicas que só existem aqui. Para quem tem interesse em botânica ou simplesmente gosta de uma trilha que vai mudando de cara enquanto você anda, o Hallasan é difícil de superar.

Uma coisa prática: no inverno, o cume fica coberto de neve. A descida pode ser escorregadia. No verão, o calor e a umidade tornam a subida pesada. A primavera e o outono são as janelas mais generosas — o frio ainda não chegou, ou já foi embora, e as chances de ver o lago lá em cima são maiores.


Geomunoreum — o subsolo que a maioria dos turistas não vê

Este é o componente menos visitado dos três, e talvez o mais impressionante do ponto de vista científico. O Geomunoreum é um cone vulcânico parasita — uma dessas formações secundárias que se desenvolvem nas encostas de vulcões maiores. Mas o que o fez entrar na Lista do Patrimônio Mundial não é o cone em si, e sim o sistema de tubos de lava que ele originou há centenas de milhares de anos.

Tubos de lava se formam quando a crosta externa de um fluxo de lava endurece enquanto o interior continua escorrendo. Quando o fluxo para, o que sobra é um túnel. Às vezes pequeno, às vezes enorme. O sistema que parte do Geomunoreum tem dezenas de quilômetros de extensão e inclui algumas das cavernas de lava mais bem preservadas do mundo — com formações carbonatadas de cores surpreendentes nos tetos, estalactites que não deveriam existir numa caverna de origem vulcânica, mas existem porque a água que infiltra pela areia sobreposta carrega minerais que se depositam na pedra escura.

O problema — ou o privilégio, dependendo do ponto de vista — é que o acesso é restrito. O cone do Geomunoreum só pode ser visitado com guia e reserva antecipada. Das grutas que fazem parte do sistema, a Manjanggul é a única aberta ao público de forma ampla. E mesmo ela abre apenas uma fração do seu comprimento total: 1 km dos 7,4 km totais da caverna.

A Manjanggul fica no nordeste da ilha, próxima à cidade de Gimnyeong. A entrada custa cerca de 4.000 won — menos de quatro dólares. O que você vê lá dentro não tem preço equivalente. O túnel tem altura suficiente para uma pessoa adulta caminhar sem se curvar na maior parte do trajeto, com paredes de lava que ainda guardam as marcas do fluxo original, como se o tempo tivesse parado. No final do trecho aberto ao público, há uma coluna de lava de quase 7 metros — a maior do mundo desse tipo. Está lá no escuro, iluminada como se fosse uma escultura, porque de certa forma é.

A temperatura dentro é constante, em torno de 11 graus o ano todo. Não importa em que estação você visita. Leve uma camada extra.


Seongsan Ilchulbong — o cone que emergiu do mar

Dos três componentes do Patrimônio da UNESCO em Jeju, o Seongsan Ilchulbong é o mais fotogênico e o mais visitado. É a imagem que aparece em todos os cartazes de turismo da ilha — um cone vulcânico de 182 metros que se levanta abruptamente da costa leste de Jeju como uma fortaleza natural, com as paredes rochosas caindo direto para o oceano.

O nome significa “Pico do Nascer do Sol”. Ilchul, em coreano, é nascer do sol. E o lugar leva esse nome com razão: por estar na extremidade leste da ilha, é o ponto onde o sol aparece primeiro sobre Jeju. Ver o amanhecer daqui, com o oceano ao redor e a cratera atrás, é uma dessas experiências que ficam guardadas. A cratera do topo tem 90 mil metros quadrados — um anfiteatro de pedra formado há cerca de 5.000 anos quando magma subiu pelo fundo do oceano e explodiu em contato com a água, criando um tufo, um tipo específico de rocha vulcânica que é diferente do basalto comum da ilha.

A trilha de subida tem menos de 2 km e leva em torno de 30 a 40 minutos. É quase toda em escadaria — não é difícil, mas é cansativa pela inclinação em alguns trechos. O esforço compensa quando você chega ao mirante no topo e vê a cratera de perto e o mar ao redor nos três outros lados.

Uma coisa que muita gente não sabe: no base do Seongsan Ilchulbong, nas rochas à beira-mar, é possível ver as Haenyeo — as mergulhadoras tradicionais de Jeju. São mulheres, em sua maioria com mais de cinquenta anos, que mergulham sem equipamento de respiração para capturar frutos do mar do fundo do oceano. A prática existe há séculos. Em 2016, a UNESCO inscreveu a cultura das Haenyeo na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Então, perto do Seongsan, é possível estar diante de dois Patrimônios da UNESCO ao mesmo tempo — o geológico e o humano.

Há um pequeno espetáculo de demonstração organizado perto do local, mas o mais autêntico é simplesmente sentar nas rochas e observar quando elas trabalham de verdade, o que acontece principalmente de manhã cedo.

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A “Tríplice Coroa” da UNESCO — o que isso significa na prática

Jeju é o único lugar do mundo que detém os três principais reconhecimentos da UNESCO ao mesmo tempo: Patrimônio Mundial Natural (2007), Reserva da Biosfera (2002) e Geoparque Global (2010). Os coreanos chamam isso de “tríplice coroa”. É uma distinção rara — e que coloca a ilha numa categoria que poucos destinos no mundo conseguem alcançar.

Na prática, para o viajante, isso significa que Jeju tem uma estrutura de conservação razoavelmente séria. As trilhas do Hallasan têm horários de entrada controlados. O acesso ao Geomunoreum é por reserva. Há fiscalização nas áreas protegidas. Não é perfeito — o turismo massivo cria pressões, e nos fins de semana e feriados alguns lugares ficam lotados de turistas coreanos do continente — mas há uma consciência de que o que existe aqui é raro e precisa ser preservado.

Jeju recebe mais de 12 milhões de visitantes por ano. A maioria é coreana. Os internacionais são minoria, e brasileiros então são raríssimos. Isso tem dois lados: por um lado, a infraestrutura turística da ilha não é muito voltada para quem não fala coreano ou inglês. Por outro, há algo agradável em estar num lugar que ainda não virou destino de massa para ocidentais — a sensação de descoberta ainda existe.


Como se locomover pela ilha

Jeju é razoavelmente grande — tem cerca de 64 km de leste a oeste. Os três sítios do Patrimônio UNESCO ficam espalhados: o Hallasan está no centro, o Geomunoreum e a Manjanggul ficam no nordeste, e o Seongsan fica no extremo leste. Cobrir os três em um único dia é impossível e não faz sentido tentar.

O transporte público existe, mas é lento e nem sempre conveniente para ir de um sítio a outro diretamente. O ônibus 111 faz a rota da cidade de Jeju até o Seongsan em cerca de uma hora e meia. Para o Hallasan, os pontos de entrada das trilhas têm ônibus, mas com frequência menor. A opção mais prática para quem quer liberdade é alugar um carro — e isso é simples de fazer no aeroporto, com carteira de motorista internacional.

Dirigir em Jeju é uma experiência agradável. As estradas são bem sinalizadas, o tráfego fora dos centros urbanos é razoável, e há uma rodovia circular que contorna toda a ilha — a chamada Rota 1132 — que permite visitar os pontos de interesse seguindo a costa. É uma das melhores formas de entender a escala e a diversidade da ilha.


O que mais não dá para ignorar

Os três sítios do Patrimônio UNESCO são o núcleo de qualquer visita a Jeju, mas a ilha oferece mais. As falésias de Jusangjeolli, com suas colunas de basalto hexagonal à beira-mar, têm um impacto visual imediato. A Cachoeira Cheonjeyeon, em três quedas separadas, fica dentro de uma vegetação densa que parece subtropical. As estátuas Dol Hareubang — figuras de pedra vulcânica com cabeças grandes e expressões sérias — aparecem espalhadas pela ilha como guardiões silenciosos, e são um dos símbolos mais reconhecíveis de Jeju.

E tem a comida. A ilha tem uma gastronomia própria, baseada nos frutos do mar que as Haenyeo trazem e em ingredientes específicos da região. O haemul ttukbaegi — um ensopado de frutos do mar em panela de pedra — aparece em quase todo restaurante local. O abalone, ou ormer, é uma iguaria da ilha e aparece até em pizza, com resultados melhores do que o nome sugere. A tangerina de Jeju é famosa em toda a Coréia — a ilha tem microclima favorável para a fruta, e nos meses de outubro e novembro os campos de tangerineiras deixam a paisagem cor de laranja.


Quando ir

Jeju tem quatro estações bem definidas. A primavera — março a maio — traz as flores de cerejeira e camélia, temperatura amena e condições boas para subir o Hallasan. O verão é quente, úmido e chuvoso, com tufões ocasionais entre julho e setembro que podem fechar trilhas e causar cancelamentos de voo. O outono — setembro a novembro — é provavelmente o melhor momento: o calor diminui, a névoa que encobre o cume do Hallasan aparece menos, e a folhagem muda de cor. O inverno é frio, especialmente nas altitudes mais altas, mas o Seongsan sob neve é uma imagem que não tem semelhante.

Há quem defenda que Jeju em qualquer época vale. Não é exagero.


Jeju não é o tipo de destino que se encaixa bem em qualquer comparação fácil. Não é Bali, não é Okinawa, não é Hawaii — apesar de que alguém vai tentar essas comparações em algum momento. É uma ilha com uma personalidade geológica tão distinta que a própria UNESCO reconheceu três vezes de formas diferentes. Quando a terra em que você pisa ganhou esse tipo de reconhecimento, vale a pena ir devagar, olhar com atenção, e entender o que está debaixo dos pés antes de qualquer selfie no topo do vulcão.

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