Hokkaido: Ilha Japonesa que Ninguém Esquece Depois de Conhecer

Tem destinos que cumprem exatamente o que prometem. Hokkaido é diferente: ela entrega muito mais do que qualquer fotografia consegue mostrar. A ilha mais ao norte do Japão guarda uma versão do país que pouca gente conhece de verdade — mais quieta, mais selvagem, mais fria, e com uma beleza que não pede permissão para te impressionar.

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A ilha é enorme. Com quase 84 mil km², ela seria maior do que boa parte dos estados brasileiros, e tem essa escala que você sente na pele quando começa a se locomover entre os pontos. Os japoneses do resto do país tratam Hokkaido com uma espécie de respeito reverente, como quem fala de um lugar diferente do Japão sem deixar de ser completamente japonês. E é exatamente isso.

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O ponto de entrada: Sapporo não é só a capital

Toda viagem a Hokkaido começa em Sapporo, que é onde fica o aeroporto de New Chitose — o principal acesso à ilha. O traslado do aeroporto até o centro da cidade é feito pelo trem Rapid Airport, que leva uns 40 minutos e funciona com uma pontualidade que ainda surpreende quem vem do Brasil.

Sapporo tem aquele ar que mistura cidade grande com calma provinciana. É a quinta maior cidade do Japão, mas o ritmo é outro. A urbanização foi planejada em blocos regulares, com influência ocidental, e isso dá à cidade um aspecto mais aberto, menos labiríntico do que Tóquio ou Osaka. Você consegue se orientar com mais facilidade.

Mas é à noite que a cidade revela o melhor de si. O bairro de Susukino é um espetáculo visual mesmo para quem já esteve em outras metrópoles japonesas. As luzes dos letreiros coloridos, o frio que corta o rosto, a neve acumulada na calçada e os carros passando devagar criam uma cena quase cinematográfica. O famoso painel da Nikka Whisky, com seu rosto iluminado no centro do cruzamento, é um dos ícones do bairro — e uma das imagens mais fotografadas de Hokkaido no inverno.

O Susukino é também onde se concentram boa parte dos restaurantes e bares. O miso ramen de Hokkaido é diferente do que se encontra no resto do Japão — mais encorpado, com manteiga e milho por cima, servido bem quente numa tigela que aquece as mãos antes mesmo de chegar à boca. O soup curry, criação local que virou mania nacional, também merece uma parada obrigatória.

Para a gastronomia, o Mercado Nijo oferece frutos do mar fresquíssimos de manhã cedo — caranguejos, ouriços, salmão. Comer ali é uma das formas mais diretas de entender porque Hokkaido é considerada a capital gastronômica do Japão.

Uma observação importante sobre o alojamento: os hotéis em Sapporo costumam ser consideravelmente mais baratos do que em Tóquio para um nível equivalente de qualidade. É um destino que, no geral, não pune tanto o orçamento.


Otaru, a cidade que parou no tempo à beira do canal

A menos de uma hora de trem de Sapporo fica Otaru, e essa é uma das excursões de dia mais fáceis e recompensadoras que se pode fazer em Hokkaido. O trem sai regularmente da estação central de Sapporo e o percurso tem uns 30 a 40 minutos.

Otaru foi um porto próspero durante a expansão econômica de Hokkaido no começo do século XX. Havia armazéns, movimentação comercial intensa, bancos. Depois a economia da cidade desacelerou e o porto perdeu protagonismo. O que sobrou foi justamente o que torna o lugar tão especial: os armazéns de pedra continuaram de pé à beira do canal, com suas paredes escuras e telhados coloridos, e se transformaram no cartão postal mais reconhecível da cidade.

O Canal de Otaru tem algo que é difícil de nomear. A água reflete os armazéns, há barcos atracados ao longo das margens, e a cidade toda parece composta com um cuidado quase excessivo. No inverno, lanternas iluminam a beira do canal durante os festivais de neve e o visual beira o irreal. No verão e no outono, a paleta de cores muda completamente, mas a atmosfera continua a mesma — tranquila, um pouco nostálgica, com aquele charme específico das cidades que já tiveram glória e aprenderam a viver bem sem ela.

Além do canal, Otaru é famosa por suas lojas de vidro soprado artesanal e pelas confeitarias de música mecânica — as famosas caixas de música. Há uma rua inteira dedicada a isso. Pode soar kitsch na descrição, mas na prática funciona muito bem.

Vale também explorar a rua Sakaimachi, onde ficam lojas de doces, sorvetes e produtos locais. O sorvete de Hokkaido tem fama merecida — o leite da ilha é considerado o melhor do Japão.


Biei: colinas, flores e um lago que parece inventado

Biei fica na região central de Hokkaido, a cerca de duas horas de trem de Sapporo na direção de Asahikawa. É um daqueles lugares que muita gente não coloca no roteiro porque parece distante demais, e depois se arrepende.

A região de Biei tem duas atrações que funcionam em épocas completamente diferentes, mas que são igualmente impressionantes.

A primeira é o Shikisai no Oka, que em português significa algo como “colinas das quatro estações”. De julho ao início de setembro, as colinas são plantadas com flores dispostas em faixas paralelas de cores diferentes — laranja, vermelho, amarelo, lilás, branco — que sobem suavemente o terreno ondulado em direção às montanhas ao fundo. A imagem não parece real quando você está lá em cima olhando. Parece um quadro pintado com régua, mas de uma escala que o olhar humano leva um tempo para processar. O horizonte com as montanhas de Daisetsuzan completando o fundo é aquele tipo de paisagem que você tenta fotografar sabendo que a foto não vai dar conta.

A segunda é o Aoiike, o Lago Azul. E o nome é literal — a água tem uma coloração azul-turquesa intensa que oscila dependendo da luz, da estação, do ângulo. No outono, quando as árvores ao redor ficam com folhas vermelhas e laranja, o contraste com a água azul cria algo que parece manipulado digitalmente. Mas não é. Essa coloração vem de minerais dissolvidos na água que vêm de fontes subterrâneas ao redor do lago. No inverno, o lago congela e é iluminado à noite — outra experiência completamente diferente, igualmente memorável.

Uma nota prática: Biei não tem praticamente nada em termos de transporte público dentro da região. Existe um trem que chega à cidade, mas para explorar as colinas e o Lago Azul, o ideal é alugar um carro em Asahikawa ou contratar um tour de dia. Não é uma região para se improvisar sem veículo.


Noboribetsu: o lado vulcânico de Hokkaido

A cerca de 90 minutos de Sapporo fica Noboribetsu, que é provavelmente o mais famoso destino de onsen — as fontes termais japonesas — de toda Hokkaido.

A cidade em si é pequena. O que importa aqui é o Jigokudani, o Vale do Inferno. É uma caldeira vulcânica ativa de onde emanam fumaças de enxofre o tempo todo, com o solo tomando cores que vão do cinza ao amarelo-ferrugem passando pelo verde. Uma passarela de madeira percorre o vale e pode ser feita a pé — com lanternas ao longo do caminho, de noite, a caminhada tem uma atmosfera completamente singular. A fumaça sobe das fissuras no chão, o cheiro de enxofre está no ar, e a paisagem parece outra dimensão.

O onsen de Noboribetsu tem reputação de oferecer diferentes tipos de água termal — sulfurosa, ferruginosa, salina — num mesmo lugar. Os ryokans, as pousadas tradicionais japonesas da região, geralmente incluem acesso às termas e jantar kaiseki no valor da hospedagem. É um tipo de experiência que vai além do turístico — é uma forma de entender como os japoneses entendem o conceito de descanso.

Ficar uma noite em Noboribetsu é muito mais recompensador do que fazer só um passeio de dia. O período da manhã nas termas, antes de todo mundo acordar, com a névoa ainda pairando sobre a água quente, é uma das experiências mais memoráveis que Hokkaido pode oferecer.


Como organizar tudo isso na prática

Hokkaido é enorme e os deslocamentos levam tempo. Quem tenta ver tudo em três dias vai sair com a impressão de ter corrido sem ter chegado. O roteiro mínimo realista para cobrir Sapporo, Otaru, Biei e Noboribetsu com alguma calma é de seis dias — sete ou oito se quiser incluir noite em ryokan em Noboribetsu e um dia completo em Biei.

O JR Pass nacional cobre os trens de alta velocidade e expressos que ligam as cidades principais. Vale muito a pena para quem vai incluir Hokkaido dentro de um roteiro mais longo pelo Japão. Se a viagem for exclusiva à ilha, existe também o Hokkaido Rail Pass, mais barato e específico para a região.

Para Biei e áreas mais rurais, carro alugado é quase obrigatório. As autoestradas de Hokkaido são de excelente qualidade, a sinalização tem indicações em inglês na maioria dos trechos turísticos, e o trânsito não tem nada a ver com Tóquio. Dirigir em Hokkaido é, na verdade, um prazer.

A melhor época depende do que se quer ver. Inverno — de dezembro a fevereiro — é para quem quer neve pesada, o Snow Festival de Sapporo e o onsen com aquele calor contrastante do frio extremo. Verão — julho e agosto — é para as flores de Biei e as paisagens verdes. Outono — setembro a novembro — para o Lago Azul com folhagem vermelha e as cores que parecem incendiar a paisagem. A primavera tem a vantagem de ser menos fria e ainda pouco movimentada.

O inverno em Hokkaido é rigoroso de verdade. As temperaturas em Sapporo ficam consistentemente abaixo de zero, podendo chegar a menos 15°C nas noites mais intensas. Camadas de roupa são essenciais — e isso significa de verdade: base térmica, isolante intermediário, casaco impermeável e botas com solado antiderrapante. A neve nas calçadas pode ser traiçoeira.


O que Hokkaido tem que o resto do Japão não tem

Essa talvez seja a pergunta mais útil para quem está decidindo se vale a pena incluir a ilha num roteiro de Japão.

Vale. Mas não pelo mesmo motivo que vale visitar Tóquio ou Kyoto.

Hokkaido tem uma escala diferente — de natureza, de silêncio, de espaço. Tem a comida mais simples e ao mesmo tempo mais impecável do país, baseada em ingredientes que não precisam de elaboração. Tem um ritmo que ainda não foi completamente absorvido pelo turismo de massa, apesar do número crescente de visitantes internacionais nos últimos anos.

É um Japão que não precisa de templos milenares ou tumulto urbano para se provar. A paisagem faz o trabalho sozinha — e ela faz muito bem.

Se existe uma coisa que qualquer pessoa que passou tempo em Hokkaido vai confirmar, é que a ilha sempre fica como pendência. Quem vai no inverno quer voltar no verão. Quem vai no verão quer ver a neve. E quem vê o Lago Azul no outono já está mentalmente planejando a próxima visita antes mesmo de voltar para casa.

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