Gyeongju na Coréia do Sul: A Alternativa Coreana a Kyoto no Japão
Gyeongju é aquele tipo de cidade que te pega desprevenido — você chega esperando uma versão menor e menos famosa de Kyoto, e sai de lá pensando por que diabos ninguém te falou sobre esse lugar antes. Enquanto a antiga capital imperial japonesa lida com multidões que transformam templos em cenários de selfie e ruas históricas em corredores de shopping, Gyeongju guarda uma densidade histórica comparável com uma fração do tumulto. É o museu sem paredes mais subestimado da Ásia, e essa é precisamente a razão pela qual vale a pena ir agora, antes que o resto do mundo descubra.

Digo isso sem romantismo excessivo. Gyeongju não é perfeita, não é intocada, e em certas partes parece uma cidadezinha coreana moderna como tantas outras — com suas lojas de conveniência CU em cada esquina, carros de luxo desfilando em ruas estreitas e um cotidiano que não faz cerimônia nenhuma para turistas. Mas é exatamente essa mistura de passado monumental e presente despretensioso que torna o lugar tão fascinante. A história não está emoldurada e protegida atrás de cordas — ela se mistura com a vida comum, como se dois milênios fossem apenas um detalhe na paisagem.
Uma Capital Milenar que o Mundo Esqueceu
Pra entender Gyeongju, é preciso voltar longe. Em 57 a.C., quando Roma ainda estava se consolidando como império, um líder chamado Park Hyeokgeose fundou o Reino de Silla na península coreana. Gyeongju se tornou a capital desse reino, e ali permaneceu pelos próximos mil anos. Não são cem, não são duzentos — são mil anos consecutivos como centro político, cultural e espiritual de uma civilização que unificou grande parte da Coréia.
No seu auge, por volta do século VIII, Gyeongju era uma das quatro maiores cidades do mundo, ao lado de Chang’an (a atual Xi’an, na China), Bagdá e Constantinopla. O budismo era a religião oficial, e a riqueza do reino se traduzia em templos magníficos, observatórios astronômicos, palácios e um sistema de tumbas reais que até hoje pontua a paisagem da cidade como colinas verdes e arredondadas — os moradores locais carinhosamente as apelidam de “peitos”, o que diz bastante sobre o pragmatismo coreano em lidar com sua própria história.
Depois que o Reino de Silla caiu em 935 d.C., Gyeongju perdeu a centralidade política. A dinastia Goryeo (que deu nome à Coréia) e depois a dinastia Joseon deslocaram o poder para o norte. A cidade foi invadida, saqueada, parcialmente destruída por japoneses e mongóis, e acabou mergulhando num longo sono histórico. Foi só no século XX, com escavações arqueológicas sistemáticas, que o mundo redescobriu a magnitude do que estava enterrado ali. E a cada nova escavação, mais relíquias surgiram — estátuas budistas, coroas de ouro, cerâmicas, pinturas, artefatos que agora ocupam museus inteiros.
A UNESCO reconheceu a importância do lugar ao incluir as Áreas Históricas de Gyeongju na lista de Patrimônio Mundial, junto com o Templo de Bulguksa e a Gruta de Seokguram. No total, são quatro inscrições na lista da UNESCO — um número impressionante para uma cidade de pouco mais de 250 mil habitantes.
A Comparação com Kyoto: Justa ou Forçada?
Chamar Gyeongju de “Kyoto da Coréia” é um atalho que ajuda a explicar o conceito para quem nunca ouviu falar da cidade, mas a comparação, como toda analogia, é imperfeita. Existem semelhanças reais — ambas foram capitais milenares, ambas preservam patrimônio cultural inestimável, ambas são destinos obrigatórios para quem se interessa pela história de seus respectivos países. Mas as diferenças são tão reveladoras quanto as semelhanças, e é nelas que mora o charme de Gyeongju.
Kyoto recebe mais de 50 milhões de visitantes por ano. A cidade lida com um problema sério de overtourism — gueixas sendo perseguidas por turistas com celulares, templos lotados ao ponto de perderem a atmosfera contemplativa, filas de duas horas para entrar no Fushimi Inari. Kyoto continua sendo maravilhosa, não me entenda mal. Mas há uma diferença entre visitar um lugar e competir com centenas de pessoas pelo mesmo metro quadrado de experiência.
Gyeongju, por outro lado, ainda é um destino relativamente desconhecido fora da Coréia do Sul. O turismo internacional existe, mas é modesto. A maioria dos visitantes são coreanos — famílias em excursões escolares, casais em escapadas de fim de semana, grupos de aposentados que fazem a rota dos templos. Isso significa que você consegue, de fato, ter momentos de silêncio diante de um templo de 1.300 anos. Consegue andar de bicicleta entre túmulos reais sem desviar de grupos de excursão. Consegue sentar num banco no parque Daereungwon e simplesmente olhar para aquelas colinas suaves sem ninguém te atropelando.
Outra diferença fundamental: enquanto Kyoto preservou uma quantidade impressionante de construções originais em madeira (em parte porque foi poupada dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial), boa parte do patrimônio de Gyeongju está no subsolo ou foi reconstruída. O Palácio Donggung, por exemplo, passou por um extenso projeto de restauração a partir dos anos 1970. Isso pode soar como uma desvantagem para puristas, mas na prática o resultado é visualmente estonteante — especialmente o Wolji Pond (antigo Anapji) ao anoitecer, quando os pavilhões reconstruídos se refletem na água iluminada como uma pintura.
A questão do custo também pesa. Kyoto é cara. Hospedagem, transporte, alimentação, ingressos — tudo se soma rapidamente, especialmente para quem vem do Brasil com o real desvalorizado. Gyeongju é significativamente mais acessível. As hospedagens custam uma fração do que se paga em Kyoto, a comida é barata e farta, e vários dos principais sítios arqueológicos são gratuitos ou cobram ingressos simbólicos.
O Que Ver em Gyeongju: Os Imperdíveis
Eu normalmente não gosto de fazer listas — elas criam a ilusão de que viajar é um checklist. Mas Gyeongju tem tantas camadas que vale organizar um pouco o raciocínio, até para não perder tempo com atrações menores quando há coisas genuinamente espetaculares esperando.
Bulguksa e Seokguram: O Coração Espiritual de Silla
Se Gyeongju tem um único lugar que justifica a viagem inteira, é o Templo de Bulguksa. Construído originalmente em 528 d.C. e expandido de forma monumental em 751, o templo é considerado a obra-prima da arquitetura budista coreana. Fica nas encostas do monte Toham, a uns 15 quilômetros do centro da cidade, cercado por uma floresta que muda completamente de personalidade conforme a estação — cerejeiras na primavera, verde intenso no verão, uma explosão de vermelho e dourado no outono, neve nos meses de inverno.
O que torna Bulguksa especial não é apenas a beleza — é a engenharia. As pontes de pedra que levam ao complexo principal, Cheongungyo e Baegungyo, são originais do século VIII. As duas pagodas no pátio central — Dabotap e Seokgatap — são consideradas tesouros nacionais, e cada uma representa um estilo completamente diferente de arte budista. Dabotap é ornamentada e intrincada; Seokgatap é sóbria e geométrica. Juntas, elas simbolizam o equilíbrio que os construtores de Silla buscavam entre complexidade e simplicidade.
Uma dica prática: chegue cedo. Às 9h da manhã, quando o templo abre, o lugar tem uma paz que desaparece depois das 11h, quando os ônibus de excursão começam a chegar. Se puder, visite numa manhã de outono, quando a neblina se mistura com as cores das folhas e o resultado é quase irreal.
A uns quatro quilômetros montanha acima está a Gruta de Seokguram, um santuário budista esculpido na rocha no século VIII. Dentro da gruta há uma estátua de Buda sentado, voltada para o leste, que foi projetada para receber os primeiros raios de sol sobre o Mar do Leste (o mar que os japoneses chamam de Mar do Japão, num debate que esquenta as relações diplomáticas entre os dois países até hoje). A engenharia da gruta — a ventilação natural, a acústica, o sistema de controle de umidade — era tão avançada para a época que pesquisadores modernos ainda estudam seus princípios.
O acesso a Seokguram é por uma trilha de montanha a partir de Bulguksa, caminhada de uns 40 minutos, ou por estrada de carro/ônibus. A trilha é linda, mas íngreme. Se suas pernas reclamarem, não se culpe — o ônibus é perfeitamente aceitável.
O Complexo de Tumbas de Daereungwon
De volta ao centro de Gyeongju, o Daereungwon (também chamado de Tumuli Park) é um parque urbano onde estão localizados 23 túmulos reais da dinastia Silla. De fora, parecem colinas gramadas e arredondadas — quase bucólicas, como se alguém tivesse espalhado morrinhos verdes pela cidade. Mas por dentro, essas tumbas guardavam tesouros extraordinários: coroas de ouro, cintos cravejados de jade, cerâmicas, armas cerimoniais.
A tumba mais famosa é a Cheonmachong (Tumba do Cavalo Celestial), a única aberta ao público. Você entra e vê uma réplica de como o interior estava organizado — o sarcófago central cercado por camadas de pedra e terra. O nome vem de uma pintura de um cavalo alado encontrada num protetor de sela, a única pintura conhecida da era Silla. O original está no Museu Nacional de Gyeongju, mas a réplica dentro da tumba dá uma boa ideia do refinamento artístico daquele período.
Passear pelo Daereungwon é uma experiência estranhamente tranquila. Não há a solenidade pesada de um cemitério — as crianças coreanas correm entre as tumbas, casais fazem piquenique na grama, ciclistas passam pelos caminhos de terra batida. É morte e vida coexistindo sem drama, e há algo profundamente coreano nisso.
Cheomseongdae: O Observatório Mais Antigo da Ásia
Pertinho do Daereungwon, quase ao alcance de uma caminhada, está o Cheomseongdae — um observatório astronômico construído durante o reinado da rainha Seondeok, no século VII. É uma estrutura cilíndrica de pedra, com cerca de nove metros de altura, que parece simples demais para ser o que é: o observatório astronômico mais antigo ainda de pé na Ásia Oriental.
A construção do Cheomseongdae está carregada de simbolismo numérico. São 362 pedras — referência ao número aproximado de dias no calendário lunar. A base quadrada e o corpo cilíndrico representam terra e céu. A janela voltada para o sul marcava os equinócios e solstícios. Para uma civilização sem telescópios, sem computadores, sem nada além de observação e matemática, é um feito admirável.
Na prática, o Cheomseongdae em si é pequeno e a visita dura poucos minutos. Mas o campo aberto ao redor dele, especialmente ao entardecer, com a luz dourada banhando as tumbas ao fundo, é um dos melhores cenários para fotografias em toda Gyeongju.
Donggung Palace e Wolji Pond: A Noite que Vale a Viagem
Se eu tivesse que escolher um único momento em Gyeongju para recomendar a alguém, seria este: Donggung Palace e Wolji Pond ao anoitecer. O palácio era a residência do príncipe herdeiro durante o período Silla, e o lago artificial ao lado era usado para banquetes reais e cerimônias. O conjunto foi destruído, soterrado e redescoberto no século XX, e a reconstrução é fiel ao que se sabe do original.
Quando o sol se põe e a iluminação artificial acende, o reflexo dos pavilhões na água perfeitamente parada cria uma cena que parece CGI, mas é real. É o tipo de beleza que faz você parar de tirar fotos depois de um tempo e simplesmente ficar ali, olhando. Eu fui duas vezes — uma na primavera e outra no outono — e nas duas vezes tive a mesma reação de incredulidade.
A entrada custa cerca de 3.000 won (menos de R$ 15 na cotação atual), o que é quase um insulto pela qualidade da experiência. Chegar por volta das 17h30 no verão (ou 16h30 no inverno) permite pegar a transição do dia para a noite, que é de longe o melhor horário.
Hwangnidan-gil: Onde a História Encontra o Café
A rua Hwangnidan-gil é a resposta de Gyeongju à pergunta “e o que tem pra fazer além de templos?”. É uma rua que era basicamente residencial até poucos anos atrás e que se transformou num corredor de cafés, restaurantes, lojas de souvenirs e estúdios de aluguel de hanbok (o traje tradicional coreano).
O charme da Hwangnidan-gil está na escala. Não é um calçadão gigantesco como Myeongdong em Seul — é uma rua estreita, com casas baixas, onde cada estabelecimento tem personalidade própria. Tem café servido em cerâmica feita à mão, lojinhas vendendo pulseiras inspiradas em joias de Silla, bistrôs que misturam culinária coreana com técnicas contemporâneas. É comercial, sim, mas com um gosto de genuíno que esses lugares vão perdendo conforme ficam famosos demais.
Uma parada obrigatória, esteja você na Hwangnidan-gil ou em qualquer parte de Gyeongju: o Gyeongju ppang, um pãozinho recheado de pasta de feijão vermelho que é produzido ali desde 1939 nos mesmos fornos a lenha. Tem padarias por toda a cidade vendendo versões do ppang, mas a mais tradicional fica perto do centro. É doce sem ser enjoativo, com uma casquinha que quebra ao morder e um recheio que é puro conforto. Compre uma caixa — eles rendem bem como lanche de viagem.
Gyochon Hanok Village: A Vila Tradicional que Respira
Bem pertinho do Daereungwon fica a vila de Gyochon, um conjunto de casas no estilo hanok — as residências tradicionais coreanas, com estrutura de madeira, telhados curvos de telha escura e pisos aquecidos pelo sistema ondol. Diferente de algumas “vilas históricas” que são essencialmente cenários para fotos, Gyochon ainda tem moradores de verdade. Gente lavando roupa, crianças indo pra escola, idosos sentados na varanda.
Na vila há oficinas de cerâmica, espaços para cerimônias do chá e restaurantes que servem comida tradicional de Gyeongju. É um lugar pra ir sem pressa, experimentar, conversar (mesmo que seja por gestos — o inglês em Gyeongju é mais limitado do que em Seul) e observar.
O Museu Nacional de Gyeongju: Para Quem Quer Profundidade
Se tudo o que descrevi até agora despertou sua curiosidade sobre a civilização Silla, o Museu Nacional de Gyeongju é onde você vai encontrar o contexto que falta. O acervo inclui coroas de ouro que são obras-primas de ourivesaria, sinos de bronze com acústica perfeita, e uma quantidade impressionante de artefatos do cotidiano — cerâmicas, utensílios, ferramentas — que revelam como viviam as pessoas comuns daquela época, não apenas os reis e nobres.
O museu é gratuito. Repito: gratuito. Uma instituição com acervo de nível mundial, bem curada, com explicações em inglês e coreano, e que não cobra nada pela entrada. Isso, por si só, já deveria envergonhar alguns museus europeus que cobram 25 euros por uma coleção menor.
Namsan: A Montanha Sagrada
Para quem gosta de trilhas e quer fugir do circuito urbano, o monte Namsan é uma montanha sagrada repleta de ruínas budistas espalhadas por suas encostas. São budas esculpidos na rocha, pagodas solitárias no meio da mata, restos de templos que há séculos foram engolidos pela vegetação. As trilhas variam de fáceis a moderadas, e o que se encontra pelo caminho justifica cada gota de suor.
Namsan não é uma atração convencional — não tem bilheteria, não tem guia oficial, não tem lojinha de souvenir no topo. É você, a montanha e os vestígios de uma civilização que escolheu aquele lugar como sagrado. Pode soar piegas, mas a sensação de tropeçar num Buda de pedra do século VIII no meio de uma trilha silenciosa é genuinamente emocionante.
A APEC de 2025 e o Futuro Turístico de Gyeongju
Em outubro e novembro de 2025, Gyeongju ganhou os holofotes internacionais ao sediar a cúpula da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), recebendo líderes como Donald Trump e Xi Jinping. O evento trouxe investimentos em infraestrutura, melhorias nas estradas, novos hotéis e uma visibilidade midiática que a cidade nunca havia experimentado.
Isso é uma faca de dois gumes. Por um lado, a infraestrutura melhorou visivelmente — há mais opções de hospedagem, os acessos estão melhores, e a sinalização em inglês foi ampliada. Por outro, existe o risco real de que Gyeongju entre na rota do turismo de massa e perca parte do que a torna especial: a possibilidade de experimentar história sem intermediários, sem filas e sem o circo que acompanha os destinos hiperpopulares.
Minha aposta — e é uma aposta pessoal, não uma certeza — é que ainda temos uma janela de alguns anos antes que Gyeongju se transforme num destino lotado. O turismo pós-APEC está crescendo, mas não no ritmo exponencial de outros lugares. Para quem lê isso agora e pensa em ir, o momento é bom. Talvez o melhor que teremos.
Como Chegar e Se Locomover
Gyeongju fica no sudeste da Coréia do Sul, a cerca de uma hora de carro de Busan, a segunda maior cidade do país. Para quem está em Seul, a opção mais prática é o KTX, o trem-bala coreano, que faz o trajeto Seul–Singyeongju em aproximadamente duas horas. Da estação de Singyeongju (que fica fora do centro — atenção a esse detalhe), um ônibus ou táxi leva mais uns 20 minutos até a área histórica.
De Busan, o acesso é ainda mais fácil: ônibus intermunicipais saem a cada 15-20 minutos e levam cerca de uma hora. Dá pra fazer um bate-volta de Busan, embora eu ache que Gyeongju merece pelo menos uma pernoite — duas, se possível. A cidade muda de personalidade à noite, e perder o Wolji Pond iluminado é desperdiçar uma das melhores experiências do país.
Dentro de Gyeongju, a melhor forma de se locomover depende do seu estilo. A área central é plana e compacta, perfeita para bicicleta — há locadoras por toda parte, com diárias em torno de 10.000 won (uns R$ 40). Para chegar a Bulguksa e Seokguram, que ficam mais distantes, use o ônibus turístico municipal (passe diário de 5.000 won) ou pegue um táxi, que é barato e confiável. O tarifa base do táxi em Gyeongju é 3.800 won — menos de R$ 20.
Onde Ficar
Gyeongju oferece hospedagem para todos os bolsos, mas duas opções se destacam dependendo do que você busca.
Para quem quer conforto e boa localização, o Commodore Hotel Gyeongju, dentro do complexo turístico de Bomun, é uma base sólida — não é luxuoso, mas é limpo, bem administrado e tem piscina. Os hotéis do complexo de Bomun em geral oferecem boa relação custo-benefício, com diárias que variam de US$ 60 a US$ 120.
Para quem quer uma experiência mais autêntica, ficar numa hanok guesthouse perto do centro é imbatível. Dormir num piso aquecido por ondol, tomar café da manhã com arroz, sopa de missô e banchan (os acompanhamentos coreanos), e sair pela porta direto para as tumbas reais — essa é uma experiência que nenhum hotel cinco estrelas consegue replicar. As guesthouses em estilo hanok custam entre US$ 30 e US$ 70 a noite, e a maioria é gerida por famílias locais que tratam os hóspedes com aquele cuidado coreano que mencionei no artigo sobre redes hoteleiras.
O Que Comer
A culinária de Gyeongju tem identidade própria. Além do já mencionado Gyeongju ppang, há dois itens que merecem atenção especial.
O Beopju é um licor de arroz tradicional cuja receita remonta ao período Silla. É produzido por uma única família na vila de Gyochon há gerações, usando um método que foi designado como patrimônio cultural intangível. O sabor é levemente adocicado, com notas herbais, e a textura é mais encorpada do que o soju industrial que se encontra em qualquer bar de Seul. Vale experimentar, mesmo que você não seja fã de bebidas alcoólicas — é mais uma experiência cultural do que uma bebedeira.
O coin bread de queijo (치즈 동전빵) é uma invenção mais recente que virou febre entre os turistas coreanos. São pãezinhos minúsculos em formato de moeda, recheados com queijo derretido, vendidos em barraquinhas de rua por preços ridiculamente baixos. Não é alta gastronomia, mas é viciante.
Para refeições completas, procure os restaurantes que servem ssambap — arroz envolto em folhas de diversos tipos, com acompanhamentos que variam conforme o estabelecimento. É comida coreana no seu formato mais honesto: ingredientes frescos, técnicas simples, sabor que não precisa de truques.
Para Quem Já Foi a Kyoto — e Para Quem Não Foi
Se você já esteve em Kyoto e amou, Gyeongju vai te dar uma perspectiva diferente sobre o mesmo tipo de experiência: a imersão numa cultura antiga que sobreviveu ao tempo. Você vai perceber semelhanças — a relação com o budismo, a reverência pela natureza, a estética dos jardins e dos espaços sagrados — mas também vai perceber como a cultura coreana e a japonesa, apesar de geograficamente próximas, desenvolveram linguagens visuais e filosóficas distintas.
Se você nunca foi a Kyoto e está planejando uma viagem pela Ásia Oriental, considere seriamente incluir Gyeongju no roteiro em vez de — ou além de — Kyoto. A economia é substancial: passagens para a Coréia do Sul costumam ser mais baratas, a hospedagem e a alimentação custam menos, e o câmbio é mais favorável. Não estou dizendo que Gyeongju substitui Kyoto — são experiências diferentes. Mas se o orçamento é limitado e o tempo é curto, Gyeongju entrega uma riqueza histórica e cultural que rivaliza com a de Kyoto por um custo que faz muito mais sentido para o bolso brasileiro.
A Coréia do Sul como um todo vive um momento de ascensão turística impulsionada pelo soft power cultural — k-pop, doramas, gastronomia, cosméticos. Mas a maioria dos viajantes que chegam ao país vai direto para Seul e, no máximo, faz um bate-volta a Busan. Gyeongju fica ali do lado, a uma hora de Busan, guardando mil anos de história debaixo de colinas verdes e dentro de templos silenciosos. Precisa de mais convite que esse?
A melhor época para visitar é a primavera (abril, quando as cerejeiras florescem ao redor de Bulguksa, criando uma cena que não parece real) ou o outono (outubro e novembro, quando as folhas mudam de cor e a temperatura é perfeita para caminhar). O inverno é frio, mas bonito de um jeito diferente — as tumbas cobertas de neve têm uma melancolia elegante. O verão é quente e úmido, menos confortável para caminhar, mas funciona se não houver alternativa.
Gyeongju me surpreendeu da primeira vez e me confirmou da segunda. É uma cidade que recompensa quem vai com calma, que presta atenção nos detalhes, que aceita caminhar sem mapa por ruas sem nome e descobrir um Buda de pedra esquecido no quintal de alguém. Numa época em que os destinos mais famosos da Ásia estão cada vez mais congestionados, barulhentos e caros, ter um lugar como Gyeongju — acessível, autêntico, generoso com quem chega de longe — é quase um privilégio. E privilégios assim costumam não durar para sempre.