Festival das Lanternas na China é uma Experiência Rica
Tem festa que você sente antes mesmo de ver. O Festival das Lanternas é assim. O cheiro de tangyuan no vapor, o estrondo surdo dos fogos ao longe, o brilho alaranjado que toma conta da rua inteira antes de você dobrar a esquina. Quem já pisou na China durante o Yuanxiao Jié sabe: isso não é turismo comum. É outra coisa.

O festival acontece no 15º dia do primeiro mês do calendário lunar — exatamente a primeira lua cheia do ano novo. Em 2026, a data caiu em 3 de março. Para os chineses, esse dia encerra o ciclo de celebrações do Ano Novo, como se fosse o ponto final de uma frase que começou semanas antes com o Chūnjié. E quando os chineses colocam ponto final em algo, fazem com tudo.
Klook.comMais de dois mil anos de história que ainda fazem sentido hoje
O festival tem raízes que remontam à Dinastia Han, entre 206 a.C. e 220 d.C. Dizem que o imperador Han Wudi transformou a data em celebração oficial, com cerimônias que duravam a noite inteira. Desde a Dinastia Tang, séculos depois, os festejos já eram grandiosos — ruas iluminadas, lanternas penduradas, multidões comemorando até o amanhecer.
O que impressiona, viajando pela China hoje, é perceber que nada disso ficou no museu. Não é tradição preservada em vitrine. É viva. Barulhenta. Cheia de gente real vivendo aquilo de verdade.
E é justamente essa autenticidade que faz o Festival das Lanternas ser diferente de qualquer outro evento cultural que você vai encontrar no mundo.
Onde ir: Xangai e Zigong são obrigatórios
Se você vai organizar uma viagem para a China com foco no festival, dois destinos se destacam de uma forma que não dá pra ignorar.
Xangai — o Jardim Yuyuan é provavelmente o cartão-postal mais fotografado do festival. Desde 1995, o Yuyuan Folk Art Lantern Zone transforma o jardim histórico e as ruas ao redor em algo que parece saído de outro mundo. São seis zonas temáticas de instalações luminosas que se espalham por ruas, pátios e praças, integrando arte tradicional com arquitetura centenária de um jeito que nenhuma cenografia artificial consegue replicar.
Em 2026, o evento rodou de 26 de janeiro até 3 de março. O horário de entrada varia conforme o dia da semana — nos finais de semana abre a partir das 14h, nos dias úteis a partir das 16h, sempre encerrando às 22h. Há controle de capacidade, fila garantida nos horários de pico, e a recomendação é reservar ingresso com antecedência, especialmente nos fins de semana próximos à data do festival.
O entorno do Bund também entra na festa. Em 2026, o BFC Spring Carnival misturou instalações de patrimônio imaterial com bonecos do POP MART — uma colagem surpreendente de cultura milenar e estética pop contemporânea que diz muito sobre como Xangai pensa o próprio passado.
Zigong, em Sichuan, é outra história. Menos visitada por estrangeiros, mais autêntica em certo sentido. O Festival de Lanternas de Zigong tem fama nacional — a cidade é conhecida há séculos pela produção artesanal de lanternas, e o evento que rola por lá é uma das maiores exposições de lanternas do mundo. As peças são maiores, mais elaboradas, algumas delas representando dragões de dezenas de metros de comprimento construídos inteiramente com lanternas acesas. É diferente de Xangai. Mais provinciano, mais intenso, mais difícil de alcançar — o que para muitos viajantes é exatamente o atrativo.
O ritual das lanternas e das adivinhas
Tem um costume que atravessou os séculos praticamente intacto e que ainda hoje provoca filas: as adivinhas nas lanternas, os chamados dengmi. A brincadeira é simples na forma e sofisticada na essência — charadas e enigmas são escritos em tiras de papel e pendurados nas lanternas. Quem acerta ganha um brinde. Quem erra, sai mais curioso do que entrou.
O costume vem da Dinastia Song e era popular entre os letrados da época. Hoje é popular entre todo mundo. Crianças, adultos, turistas que não falam uma palavra de chinês e mesmo assim ficam tentando decifrar os caracteres no papel. Tem algo de jogo coletivo nisso que transcende o idioma. Você não precisa entender o enigma para entender o espírito da coisa.
A apreciação das lanternas em si já seria suficiente para justificar a viagem. Mas o festival nunca foi só sobre o visual.
Tangyuan no sul, yuanxiao no norte — e a diferença importa
A comida é parte central do festival, e aqui tem uma distinção regional que a maioria dos guias turísticos passa por cima: no norte da China come-se yuanxiao, no sul come-se tangyuan. Ambos são bolinhos de arroz glutinoso recheados com pasta doce, mas o modo de preparo é completamente diferente.
O yuanxiao é “rolado” — o recheio sólido é jogado dentro de uma cesta com farinha de arroz e vai sendo girado até formar a bolinha. O processo é artesanal, meio caótico de assistir, muito satisfatório de ver sendo feito ao vivo nos mercados do norte. O tangyuan é “embrulhado” — a massa é aberta na mão e o recheio é colocado manualmente, como um pastel. O resultado final é parecido, mas o sabor e a textura têm diferenças sutis que qualquer cozinheiro chinês defende com fervor.
Nos últimos anos surgiram versões que chamam atenção pela criatividade: tangyuan de chá verde com leite, yuanxiao em formato de caqui, recheios de chocolate, queijo, frutas tropicais. A indústria alimentícia chinesa descobriu que tradição e inovação não se excluem. E o resultado, na maior parte das vezes, é surpreendentemente bom.
Comer tangyuan durante o Festival das Lanternas é um ato simbólico. A forma redonda do bolinho evoca a lua cheia, evoca a família reunida, evoca completude. Não é supersticioso — é poético. E os chineses levam essa poética a sério.
Dança do dragão, dança do leão: o barulho que você precisa ouvir de perto
Qualquer descrição escrita das danças do dragão e do leão vai ficar aquém da realidade. É um daqueles espetáculos que pede presença física. O som dos tambores ressoa no peito. O dragão de tecido e bambu se move como se fosse vivo, manipulado por dezenas de dançarinos em perfeita sincronia. O leão pula, inclina a cabeça, pisca os olhos com uma expressividade quase animal.
O dragão simboliza auspiciosidade e traz boa sorte para o ano que começa. O leão afasta o mal e protege o espaço onde dança. São crenças antigas que continuam vivas não porque as pessoas as tomam ao pé da letra, mas porque carregam um senso de pertencimento cultural que nenhuma racionalização moderna conseguiu substituir.
Existe ainda uma distinção regional interessante nas danças do leão: o “leão marcial” do norte é feroz, agressivo, executado com movimentos bruscos e atléticos. O “leão literário” do sul — especialmente em Guangdong — é mais ágil, quase elegante, com movimentos que evocam um felino de verdade. Ver os dois lado a lado numa viagem que percorra as duas regiões é entender, de forma bem concreta, como a China é plural dentro de si mesma.
Caminhar para afastar doenças, soltar lanternas para fazer pedidos
Dois costumes menos conhecidos completam o festival de um jeito curioso.
O primeiro é chamado de zoubaiqiao — “caminhar sobre as pontes”. A tradição é especialmente feminina e vem de séculos atrás: grupos de mulheres saíam juntas para caminhar sobre pontes ou pelos arredores das cidades na noite do festival. O ato simbolizava afastar doenças e atrair saúde para o ano inteiro. Hoje ainda é praticado em muitas regiões, com um caráter mais social do que ritualístico — é passeio, é encontro, é desculpa para estar na rua naquela noite específica.
O segundo é o costume de soltar lanternas no céu ou sobre a água fazendo pedidos. Não é exclusivo do Festival das Lanternas — acontece em várias datas do calendário lunar —, mas nessa noite ganha uma dimensão especial. As lanternas sobem lentamente, carregando desejos escritos em papel, e somem no escuro do céu como uma espécie de correio endereçado ao universo.
Existe algo profundamente humano nesse gesto. E ele ressoa com visitantes de qualquer cultura, de qualquer religião, de qualquer canto do mundo. Você não precisa acreditar em nada específico para sentir alguma coisa quando uma lanterna acesa sobe no céu de uma cidade chinesa às onze da noite.
Dicas práticas para quem está planejando a viagem
O festival não tem data fixa no calendário gregoriano — segue o calendário lunar, o que significa que cai em diferentes dias a cada ano, sempre em fevereiro ou começo de março. Vale verificar a data exata com antecedência e construir o roteiro em torno dela.
Em Xangai, o Yuyuan é pequeno e fica lotado. O controle de entrada por horário ajuda, mas não elimina as filas nos fins de semana. Chegue cedo, compre o ingresso online antes, e reserve tempo para caminhar pelo entorno do jardim mesmo sem entrar nas zonas pagas — a atmosfera transborda os muros.
Em Zigong, o acesso exige uma conexão aérea ou de trem a partir de Chengdu ou Chongqing. A cidade em si não tem a infraestrutura turística de Xangai, o que é tanto uma limitação quanto um charme. Hotéis lotam na época do festival — reserve com semanas de antecedência.
Para quem quer experiência autêntica sem multidão, cidades menores celebram o festival com igual intensidade. Pequim, Chengdu, Xi’an, Hangzhou — praticamente toda cidade chinesa de porte médio para cima transforma suas ruas nessa noite. Às vezes o melhor festival é o que você encontra por acaso numa cidade que não estava no plano.
O que o Festival das Lanternas revela sobre a China
Viajar para a China durante o Festival das Lanternas não é apenas assistir a um espetáculo visual. É uma oportunidade rara de ver como uma cultura de mais de quatro mil anos processa o tempo, processa a memória, processa o sentido de comunidade.
O festival não é nostalgia. Não é museu vivo. É um sistema de valores que se reinventa a cada geração sem perder o fio. As crianças comem tangyuan de matcha e chocolate, mas ainda comem tangyuan. Os jovens tiram fotos das lanternas para o Instagram, mas ainda passam a noite inteira na rua com a família. Os enigmas nas lanternas agora têm QR codes para verificar a resposta, mas ainda são enigmas.
Existe algo muito sólido nessa continuidade. E perceber isso ao vivo — não num documentário, não num livro, mas numa rua iluminada às 22h de uma segunda-feira de março com uma multidão que não tem a menor intenção de ir pra casa — muda um pouco o modo como você pensa sobre tradição. Sobre o que dura. Sobre o que vale a pena guardar.
A China é muita coisa ao mesmo tempo. O Festival das Lanternas é um ângulo específico de ver isso tudo — e é um ângulo que poucos viajantes exploram com a atenção que merece.