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Erros que Turistas Cometem ao Planejar Viagem e Abu Dhabi

Abu Dhabi parece um destino à prova de erros — tudo funciona, tudo é limpo, tudo é organizado — mas essa aparência impecável esconde armadilhas que pegam desprevenido até viajante experiente. Já vi gente perder dia de passeio, gastar o dobro do necessário e, em casos mais sérios, ter problemas com autoridades locais por puro desconhecimento. E o pior: a maioria desses erros poderia ter sido evitada com meia hora de pesquisa antes de fazer as malas.

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Vou listar aqui os erros mais comuns — e não estou falando de coisas óbvias como “não esqueça o passaporte”. Estou falando daqueles tropeços que parecem pequenos na hora do planejamento, mas que na prática arruínam dias inteiros, geram estresse desnecessário ou criam situações realmente complicadas. Alguns eu cometi pessoalmente. Outros vi acontecer bem na minha frente.

Achar que Abu Dhabi e Dubai são a mesma coisa

Esse é provavelmente o erro mais disseminado entre brasileiros. A lógica é compreensível: os dois ficam nos Emirados Árabes, são cidades ricas, têm prédios enormes e ficam a uma hora e meia de carro uma da outra. Então muita gente planeja a viagem como se fosse um destino único, reservando hotel em Dubai e “dando um pulo” em Abu Dhabi, ou o contrário.

O problema é que Abu Dhabi tem personalidade própria — e exige tempo próprio. A Grande Mesquita Sheikh Zayed sozinha já merece meio dia. O Louvre Abu Dhabi, pelo menos três horas. Yas Island com seus parques temáticos pode consumir dois dias inteiros. O passeio no deserto de Liwa, outro dia. A Corniche, os souks, o Qasr Al Watan, o Mangrove National Park… tem muito mais do que dá para encaixar numa “escapadinha”.

Quem trata Abu Dhabi como apêndice de Dubai acaba correndo de um lado para o outro, vendo tudo superficialmente e voltando para casa com aquela sensação de que não aproveitou direito. Dedique pelo menos três dias completos só para Abu Dhabi. Quatro ou cinco, se puder. A cidade merece esse respeito — e você merece essa experiência sem pressa.

Viajar no verão sem entender o que significa calor no deserto

Quando a gente lê “40°C” no papel, pensa: “Ah, já fiz Caldas Novas no carnaval, sobrevivi”. Não. Não é a mesma coisa. O calor de Abu Dhabi entre junho e setembro é uma experiência física que precisa ser levada a sério. Estamos falando de sensação térmica beirando os 50°C, umidade que faz o ar pesar como cobertor molhado, e um sol tão forte que a pele começa a arder em menos de dez minutos sem proteção.

Já estive lá em julho. E posso dizer que, por volta das 11 da manhã, qualquer atividade ao ar livre se tornava genuinamente desconfortável. A Corniche, que é linda para caminhar, ficava deserta. O deserto, que é o passeio mais icônico, se tornava praticamente inacessível até o final da tarde. E mesmo dentro de áreas com ar-condicionado, o simples trajeto entre o carro e a entrada do shopping já bastava para chegar suando.

O erro aqui não é necessariamente viajar no verão — às vezes é a única janela de férias que a pessoa tem, e os preços de hotel caem bastante nesse período. O erro é planejar o roteiro como se o clima não existisse. Quem vai no verão precisa reorganizar completamente o dia: atividades externas só de manhã bem cedo ou no final da tarde, o meio do dia reservado para atrações em ambientes fechados (shoppings, museus, parques temáticos cobertos como o Ferrari World e o Warner Bros. World), e uma hidratação que no Brasil seria considerada exagerada, mas lá é mera sobrevivência.

Quem ignora isso acaba passando mal. Já vi turista com insolação no lobby do hotel, gente com queimadura de segundo grau nos ombros, criança chorando de desidratação. Não é para assustar, é para preparar.

Subestimar o código de vestimenta

Eu sei que já falei sobre isso no guia anterior, mas preciso reforçar aqui porque é um dos erros que mais geram situações constrangedoras. Abu Dhabi não é rígida como a Arábia Saudita — ninguém vai ser detido por usar bermuda — mas tem uma expectativa clara de modéstia em espaços públicos que muitos turistas brasileiros simplesmente ignoram.

A cena clássica é a seguinte: casal brasileiro chega no shopping com bermuda curta, regata e chinelo de dedo, direto da piscina do hotel. Tecnicamente, pode até entrar. Mas os olhares existem, o desconforto é palpável, e em alguns restaurantes e atrações culturais, a entrada simplesmente não acontece.

A Grande Mesquita Sheikh Zayed tem regras rígidas e bem divulgadas. Homens precisam de calça comprida e manga longa. Mulheres precisam cobrir pernas, braços e cabelos. Eles fornecem abaya na entrada, mas nos dias de alta visitação a fila para pegar uma pode levar trinta, quarenta minutos. Já presenciei famílias desistindo de visitar a mesquita — a atração mais emblemática de Abu Dhabi — porque não queriam esperar. Tudo por não ter levado uma roupa adequada na bolsa.

E não é só a mesquita. O Qasr Al Watan (o Palácio Presidencial aberto a visitação) também exige roupa que cubra ombros e joelhos. Vários restaurantes mais sofisticados têm dress code. Até o Louvre Abu Dhabi, apesar de não barrar ninguém, recomenda vestimenta modesta.

A solução é simples: tenha sempre no dia de passeio uma calça leve dobrada na bolsa e uma camisa de manga comprida. Ocupa quase nenhum espaço, e quando precisar, está ali. Esse hábito me salvou em pelo menos três ocasiões.

Levar medicamentos sem verificar a lista de substâncias proibidas

Esse é, sem dúvida, o erro mais perigoso dessa lista. E é assustadoramente fácil de cometer.

Os Emirados Árabes Unidos têm uma legislação extremamente rigorosa sobre medicamentos e substâncias controladas. Remédios que no Brasil você compra sem receita — ou com receita simples — podem ser completamente proibidos nos Emirados, ou exigir documentação específica para entrar no país.

O caso mais comum envolve medicamentos que contêm codeína. No Brasil, codeína está presente em analgésicos relativamente comuns, como o Tylex. Nos Emirados, codeína é substância controlada. Se você for flagrado com esses medicamentos na alfândega sem a documentação adequada, pode enfrentar problemas sérios. E quando digo sérios, é sérios mesmo: detenção, interrogatório, multa e, em casos extremos, deportação.

Mas não para na codeína. Medicamentos com tramadol, alguns ansiolíticos, certos antidepressivos e até soníferos podem ter restrições. A regra de ouro é: antes de viajar, acesse o site do Ministério da Saúde dos Emirados Árabes e verifique a lista de substâncias controladas. Se o seu medicamento estiver na lista, providencie uma receita médica traduzida para o inglês, de preferência com carimbo do médico e do conselho profissional. E leve o medicamento na embalagem original, com seu nome no rótulo.

Parece burocracia excessiva? Talvez. Mas é melhor gastar meia hora resolvendo papel do que arriscar seu passaporte ser retido na chegada.

Não contratar seguro viagem

Esse erro é universal — não é exclusivo de Abu Dhabi — mas aqui ele tem um peso financeiro especialmente brutal. O sistema de saúde dos Emirados Árabes é excelente. Os hospitais são modernos, os médicos são qualificados, os equipamentos são de ponta. E tudo isso tem um custo que faria qualquer brasileiro perder o fôlego.

Uma consulta de emergência simples pode custar o equivalente a R$1.500. Uma internação com exames, facilmente R$15.000 a R$30.000 por dia. Uma cirurgia de emergência pode chegar a valores que comprometem as economias de uma vida inteira. Sem seguro viagem, você paga do bolso. E diferente de alguns países onde a negociação existe, nos Emirados a cobrança é firme, imediata e sem margem de conversa.

Já ouvi relato de um brasileiro que fraturou o tornozelo numa duna durante um safari no deserto. Sem seguro. A conta do hospital ficou em torno de US$12.000. Ele teve que ligar para a família pedindo transferência bancária enquanto estava com a perna engessada num hospital em Abu Dhabi. Não é uma história inventada para assustar — é o tipo de situação que acontece mais do que a gente imagina.

Seguro viagem para os Emirados custa, em média, entre R$15 e R$40 por dia, dependendo da cobertura. Para uma viagem de sete dias, estamos falando de algo entre R$100 e R$280. É um valor irrisório comparado ao risco financeiro de ir sem proteção.

Planejar tudo pela internet sem considerar o Ramadã

O Ramadã é o mês sagrado do Islã, quando muçulmanos praticam jejum do nascer ao pôr do sol. E ele afeta profundamente a dinâmica de Abu Dhabi de maneiras que muitos turistas não antecipam.

Durante o Ramadã, comer, beber ou fumar em público durante o dia é proibido — inclusive para não muçulmanos. Os restaurantes que abrem durante o dia geralmente cobrem as janelas ou operam em áreas restritas, e nem todos funcionam normalmente. Hotéis costumam manter restaurantes abertos para hóspedes, mas com cortinas fechadas e horários alterados.

O que isso significa na prática? Se você está caminhando pela Corniche ao meio-dia durante o Ramadã e quer beber água, precisa encontrar um lugar discreto e coberto. Se quer almoçar, suas opções são significativamente reduzidas. Se está acostumado a tomar café andando pela rua, simplesmente não pode. E olha, a regra é levada a sério. Não é questão de “vão entender que sou turista” — é questão de respeito e de lei.

O Ramadã segue o calendário lunar islâmico, então as datas mudam a cada ano. Em 2026, o Ramadã está previsto para começar por volta de meados de fevereiro e se estender até meados de março. Consulte as datas exatas antes de fechar sua viagem. Se calhar de coincidir, não necessariamente precisa cancelar — mas precisa ajustar completamente seu roteiro e suas expectativas.

Por outro lado, há quem diga que o Ramadã é uma das épocas mais bonitas para visitar Abu Dhabi. Os iftares (as refeições de quebra do jejum ao pôr do sol) são experiências culturais riquíssimas, com mesas fartas, ambiente acolhedor e uma generosidade que emociona. A cidade ganha uma atmosfera diferente, mais introspectiva durante o dia e festiva à noite. Mas só funciona se você souber disso antes de ir.

Trocar dinheiro no aeroporto ou não levar dinheiro nenhum

Dois extremos igualmente problemáticos. Quem troca todo o dinheiro no aeroporto de Abu Dhabi (ou pior, no aeroporto do Brasil) paga taxas de câmbio absurdas — facilmente 10% a 15% a mais do que conseguiria em casas de câmbio na cidade ou sacando em caixas eletrônicos com cartão internacional.

E quem não leva dinheiro nenhum, confiando só no cartão, eventualmente encontra situações onde dinheiro vivo é a única opção. Táxis antigos (embora cada vez mais raros), pequenas lojas nos souks tradicionais, gorjetas — tudo isso funciona melhor com dinheiro.

A estratégia inteligente é levar uma quantidade pequena de dirhams trocados no Brasil (o suficiente para o táxi do aeroporto ao hotel e emergências iniciais), e depois trocar o restante em casas de câmbio na cidade, como as da rede Al Ansari Exchange ou UAE Exchange, que oferecem taxas bem mais competitivas. Outra opção excelente são cartões de débito internacionais como Wise ou Nomad, que permitem sacar dirhams em caixas eletrônicos com taxa de câmbio comercial e tarifa mínima.

Reservar hotel sem entender a geografia da cidade

Abu Dhabi é uma cidade espalhada. Muito espalhada. As atrações ficam distribuídas por ilhas e regiões que, no mapa, parecem perto, mas no trânsito podem significar 30 a 45 minutos de deslocamento. E o calor torna qualquer espera ao ar livre insuportável.

O erro clássico: reservar um hotel baratinho numa região periférica achando que “dá para ir de táxi”. Dá, claro. Mas cada corrida de táxi custa dinheiro, cada deslocamento consome tempo, e depois de dois ou três dias fazendo trajetos longos sob sol inclemente, a economia do hotel barato se transforma em custo de transporte, cansaço e tempo perdido.

A melhor localização para a maioria dos turistas é na região da Corniche ou na ilha de Saadiyat. Dali, você tem acesso rápido à Grande Mesquita, ao Louvre, ao Qasr Al Watan, aos principais shoppings e à orla. Yas Island é ótima se o foco principal for os parques temáticos, mas fica mais afastada das atrações culturais.

Outra armadilha: reservar hotel em Dubai achando que vai “visitar Abu Dhabi num bate-volta”. Funciona? Tecnicamente, sim. A distância entre Dubai e Abu Dhabi é de cerca de 140km, pouco mais de uma hora sem trânsito. Mas com trânsito — e acredite, o trânsito acontece — pode virar duas horas. Ida e volta, são quatro horas só de deslocamento. Nesse cenário, você chega em Abu Dhabi por volta das 10h, precisa sair às 16h para voltar com folga, e o dia virou uma corrida sem fôlego. É frustrante.

Se Abu Dhabi está nos seus planos, durma em Abu Dhabi. Parece conselho óbvio, mas a quantidade de gente que insiste no bate-volta a partir de Dubai é impressionante.

Ignorar as regras sobre fotografia

Esse é um erro que pode gerar consequência real e imediata. Os Emirados Árabes têm leis rígidas sobre fotografia de pessoas sem consentimento, especialmente mulheres locais. Tirar foto de uma mulher emiradense sem autorização — mesmo que acidentalmente, mesmo que ela esteja “só no fundo da foto” — pode resultar em queixa policial.

Não estou exagerando. A lei emiradense protege fortemente a imagem e a privacidade dos seus cidadãos. Aquele reflexo automático de turista — levantar o celular e fotografar tudo o que parece interessante — precisa ser controlado quando se trata de pessoas. Em mercados, souks, áreas tradicionais, e especialmente na mesquita, pergunte antes de fotografar alguém.

Além disso, fotografar instalações militares, governamentais, portos e aeroportos pode gerar problemas sérios. Aquela foto “inocente” do avião pela janela do aeroporto? Melhor não. Aquele selfie com a base militar ao fundo? Definitivamente não.

Em atrações turísticas, shoppings e restaurantes, a fotografia é geralmente livre. O Louvre Abu Dhabi incentiva fotos. A Grande Mesquita é um dos lugares mais fotogênicos do mundo e você pode fotografar à vontade — exceto em áreas de oração e pessoas em momento de reza. Use o bom senso e, na dúvida, pergunte.

Demonstrações públicas de afeto

Casal em lua de mel, atenção: Abu Dhabi não é o lugar para beijos apaixonados na rua. Dar as mãos é aceito para casais casados, mas abraços prolongados, beijos e qualquer demonstração mais efusiva de afeto em público pode gerar desde olhares reprovadores até intervenção policial.

Parece excessivo? Para a nossa cultura brasileira, com certeza. Mas estamos falando de um país muçulmano onde a modéstia no comportamento público é um valor social profundo. Não é questão de concordar ou discordar — é questão de respeitar o lugar onde você escolheu estar.

Nos hotéis, nos resorts, em ambientes privados, absolutamente nenhum problema. É no espaço público que a atenção precisa existir. E aqui vai uma nuance importante: casais não casados que dividem quarto de hotel geralmente não enfrentam problemas — os hotéis de Abu Dhabi são internacionais e não pedem certidão de casamento. Mas, tecnicamente, a lei emiradense proíbe coabitação entre não casados. Na prática, para turistas, isso raramente é um problema. Mas é bom saber que a regra existe.

Não baixar apps essenciais antes de chegar

Abu Dhabi é uma cidade altamente digital. E alguns aplicativos fazem diferença brutal na experiência da viagem.

O Careem (equivalente ao Uber na região, embora o Uber também funcione) é essencial para se deslocar. O transporte público existe, mas é limitado em comparação com o que estamos acostumados em grandes capitais europeias. Táxi de rua funciona, mas com app você tem preço estimado antes, trajeto registrado e pagamento digital.

O Google Maps funciona perfeitamente em Abu Dhabi — mas baixe o mapa offline antes de sair do hotel, porque em certas áreas (especialmente no deserto) o sinal pode falhar.

O Visit Abu Dhabi é o app oficial de turismo e traz informações atualizadas sobre atrações, eventos e promoções. Surpreendentemente útil.

E se você usa VPN, saiba que o uso de VPN para acessar serviços de voz sobre IP (como ligações por WhatsApp ou FaceTime) é tecnicamente ilegal nos Emirados. Na prática, muitos turistas usam e nada acontece, mas ligações de vídeo e áudio por esses aplicativos podem estar bloqueadas. A alternativa local é o Botim, um app de chamadas autorizado nos Emirados que funciona mediante assinatura.

Não reservar atrações com antecedência

Abu Dhabi não é Paris ou Roma, onde o fluxo turístico é tão intenso o ano inteiro que tudo está lotado sempre. Mas certas atrações exigem reserva prévia — e quem não faz, perde.

A Grande Mesquita Sheikh Zayed, por exemplo, tem horários de visitação turística definidos, e nos períodos de alta temporada (inverno emiradense, feriados nacionais, eventos como o GP de Fórmula 1 em Yas Marina) os horários esgotam. A entrada é gratuita, mas precisa ser agendada.

O Louvre Abu Dhabi aceita visitantes sem reserva, mas a fila na bilheteria pode ser desanimadora. Comprando online, você pula a fila e ainda pode escolher o horário.

Os parques temáticos de Yas Island (Ferrari World, Yas Waterworld, Warner Bros. World, SeaWorld Abu Dhabi) frequentemente oferecem combos e promoções exclusivamente online, com descontos que chegam a 20-30% em relação ao preço na bilheteria. Não reservar antecipadamente significa pagar mais e esperar mais.

O safari no deserto precisa ser contratado com antecedência, especialmente se você quiser uma experiência premium com jantar sob as estrelas. As melhores operadoras lotam com dias de antecedência na alta temporada.

Subestimar os custos

Abu Dhabi não é um destino barato. Dá para fazer econômico? Dá. Mas a média de gastos é significativamente mais alta do que a maioria dos destinos populares entre brasileiros.

Uma refeição casual num restaurante razoável custa entre 50 e 80 dirhams por pessoa (algo entre R$70 e R$120). Um jantar em restaurante de hotel ou em local mais sofisticado parte de 150 dirhams e chega facilmente a 300 ou mais. Uma garrafa d’água no minibar do hotel pode custar 15 dirhams — compre no supermercado por 1 dirham.

Hotéis com boa localização e padrão razoável partem de 400 a 600 dirhams por noite (R$550 a R$850). Opções de luxo ultrapassam 2.000 dirhams com facilidade.

O erro não é gastar — é gastar sem planejamento. Quem chega sem orçamento definido, sem noção dos preços locais e sem estratégia, acaba estourando o limite do cartão na metade da viagem e passando a segunda metade ansioso, contando cada dirham.

A dica é pesquisar preços médios antes de ir, definir um orçamento diário realista (incluindo alimentação, transporte, atrações e compras) e carregar um cartão com taxa de câmbio vantajosa, como o Wise. Os supermercados locais, como o Carrefour (presente nos shoppings), são ótimos para comprar água, lanches e itens básicos por uma fração do preço do hotel.

Esquecer que sexta-feira é o dia sagrado

No Brasil, domingo é o dia de descanso. Nos Emirados Árabes, é sexta-feira. O fim de semana oficial emiradense é sexta e sábado. Isso significa que na sexta-feira, muitas repartições públicas estão fechadas, o trânsito tem dinâmica diferente, e algumas atrações podem ter horários alterados — especialmente no período da manhã, quando acontecem as orações congregacionais.

Para o turista, o impacto mais prático é que sexta-feira de manhã não é o melhor momento para visitar a Grande Mesquita (que pode estar fechada para turistas durante o horário de oração), e alguns serviços funcionam em horário reduzido. Em compensação, sexta à noite e sábado a cidade ferve — restaurantes lotados, shoppings cheios, orla movimentada.

Planejar o roteiro considerando o calendário semanal local evita frustrações. Parece detalhe, mas já vi gente agendar o único dia disponível para a mesquita justo na sexta-feira de manhã e voltar de mãos abanando.

Beber álcool sem conhecer as regras

Abu Dhabi permite o consumo de álcool — mas com regras claras que, se violadas, podem gerar problemas reais.

Bebida alcoólica está disponível em bares, restaurantes e clubes licenciados, quase sempre dentro de hotéis. Fora desses espaços, o consumo é proibido. Beber na praia pública, no parque, na rua? Proibido. Aparecer visivelmente embriagado em público? Pode resultar em detenção. Não é uma regra decorativa — a polícia emiradense aplica.

É possível comprar bebidas alcoólicas em lojas licenciadas (como a African & Eastern e a MMI) para consumo em ambiente privado. Mas andar na rua com sacola de bebida à vista não é recomendado.

Para quem vem do Brasil, onde a cervejinha na calçada é parte da cultura, essa adaptação pode ser difícil. Mas é inegociável. Aproveite os bares dos hotéis — muitos deles são espetaculares, com vista para o mar ou para o skyline — e mantenha o consumo nesses ambientes.

Não se preparar para a areia

Parece bobagem, mas a areia é um fator constante em Abu Dhabi que muita gente subestima. A cidade é no deserto. Por mais urbanizada e impecável que seja, tempestades de areia acontecem — especialmente entre fevereiro e abril — e mesmo em dias normais, uma poeira fina está presente no ar.

O impacto prático: lentes de contato ficam desconfortáveis (leve óculos de grau como backup), aparelhos eletrônicos sensíveis podem sofrer com partículas finas (uma capa protetora para câmera e celular é útil), roupas de cor clara disfarçam melhor a poeira do que roupas escuras, e um lenço multiuso resolve meia dúzia de situações no deserto e na cidade.

Quem faz o safari no deserto sem proteção para olhos e rosto volta com a sensação de ter lavado o rosto com lixa. O vento levanta a areia de forma intensa durante o passeio de 4×4, e aquele pó fino entra em todo lugar — olhos, nariz, ouvidos, bolsos. Um óculos de sol bem vedado e um lenço cobrindo boca e nariz fazem diferença total.


O erro que resume todos os outros

Se eu tivesse que apontar um único erro que engloba praticamente todos os outros dessa lista, seria este: tratar Abu Dhabi como se fosse um destino genérico de praia e shopping.

Abu Dhabi é um lugar com personalidade forte, regras próprias, cultura milenar e uma modernidade que coexiste com tradição de forma única. Quem chega disposto a entender isso, a se adaptar, a pesquisar minimamente antes de embarcar, tem uma experiência extraordinária. Quem chega no piloto automático — com a mesma mentalidade de quem vai para Cancún ou Orlando — vai esbarrar em situações que poderiam ter sido completamente evitadas.

O planejamento não precisa ser obsessivo. Não precisa virar um projeto acadêmico. Mas ele precisa existir. Verificar o clima do período da viagem, entender o código de vestimenta, conferir se seus medicamentos são permitidos, contratar um seguro, baixar os apps, reservar as atrações principais, ter noção dos custos — tudo isso leva, no máximo, uma tarde dedicada. E essa tarde pode ser a diferença entre voltar dizendo “Abu Dhabi é incrível” e voltar dizendo “nunca mais”.

Eu já voltei dizendo os dois. Na primeira viagem, desavisado, tropecei em metade dos erros dessa lista. Na segunda, preparado, foi uma das melhores experiências de viagem que já tive. A cidade é a mesma. O que mudou foi o quanto eu sabia antes de chegar.

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